O Pântano
1 Capítulo 1
Luisiana, 1917.
A noite daquela quinta-feira estava quente e úmida, era sempre assim no verão.Ainda eram sete horas, mas naquela noite, na pequena vila de Salesdale não havia uma só pessoa na rua.
Com excessão de Julia.
As poucas lâmpadas que existiam na vila só aumentavam o contraste de seu vestido impecavelmente branco com a rua imunda. Ela se apressava para chegar em casa, pois já não eram necessárias mais razões para que o povo da vila a olhasse com maus olhos, eles já pareciam fazê-lo sem motivo á muito tempo.
“parece que uma tempestade está por vir” pensou ela enquanto ligava sua lanterna.
Os desaparecimentos tinham começado a mais de quatro meses, mais ou menos na época que começaram a recrutar os jovens da vila para a guerra.Primeiro a menina dos Wilhans, depois os gêmeos Renoir, e oito crianças entre 6 e 11 anos tinham desaparecido desde então.Até esta manhã.
Não era normal que os pescadores fossem ao pântano, que era infestado de crocodilos, mas parecia que toda a comida da Luisiana era desviada para a Europa. Quando eles encontraram o primeiro crânio, tiveram certeza de que não passava de uma simples coincidência.
E o Padre celebrou uma missa para a alma daquelas pobres criancinhas que ainda nem tinham terminado a primeira comunhão;Toda a vila compareceu.Menos Julia, mas isso não era surpresa pra ninguém, e mesmo que ela passasse perto da igreja, ela seria expulsa, pois na sagrada igreja de cristo, não seria permitida a presença daquela bruxa negra.
Só o fato de nunca ter pisado na paróquia já era razão o suficiente para disconfiarem dela, mas quando o fêmur de Louis Renoir foi achado na parte do pântano perto de seu casebre, foi que as coisas ficaram realmente perigosas.
Salesdale,havia muito tempo, tinha sido um refúgio para escravos haitianos que fugiram de Baton Rouge. Depois da abolição, as únicas pessoas que se mudaram para a vila foram os missionários.E a família de Julia era a única que permanecia seguindo os costumes ancestrais.
Nunca ninguém a chamava pelo nome, só se referiam a ela como “a bruxa negra” e agora, ela tinha mais medo do que poderia ocorrer do que nunca.
A caminhada até seu casebre ao lado do pântano parecia mais assustadora que nunca, de repente, ela se deu conta que nunca havia voltado tão tarde para casa. A estrada de terra batida nunca pareceu tão escura como naquela noite, os sons de insetos pareciam duas vezes mais altos, a escuridão ia ganhando proporções imensas, e Julia notou o quanto se sentia sozinha pela primeira vez na vida. E aproximou mais ainda a lanterna que segurava em sua mão esquerda de seu corpo.Ela olhou para trás por um momento e assustou.
Um vulto negro, de aproximadamente dois metros de altura vinha rapidamente em sua direção, o rítmo repetitivo das batidas no chão denunciava que ele vinha á cavalo. Sem qualquer razão, Julia pôs-se a acorrer desesperadamente, mas o chão irregular da estrada retardava sua velocidade, as primeiras gotas de uma chuva que parecia que iria durar até a manhã do dia seguinte começaram a cair.
O chão empossava cada vez mais água e o vestido de Julia ficava cada vez mais coberto de lama enquanto ela corria.
Num momento de distração, ao olhar pra trás, ela tropeçou numa raiz de árvore e caiu, sentindo seu tornozelo estalar. A chuva engrossava agora, e a batida ritmada das patas do cavalo se aproximava.
O cavaleiro estava com o rosto coberto quando desceu do cavalo, e dentre as pessoas que passaram pela cabela de Julia, aquela que removeu o capuz.
-P-padre Lloyd?
-Ah, minha cara Senhorita Terrains, é uma incrível coincidência encontrá-la aqui, quando eu tinha mesmo a inteção de me dirigir a sua casa!
-O que deseja falar comigo, padre? –Disse ela enquanto tentava se por de pé e analizar suas possibilidades.”Droga, se esse velho doido tentar me estuprar eu não tenho pra onde correr!”
- Na verdade, eu acho que nós dois sabemos – disse o velho monsenhor dando um sorriso divertido.
- Eu não faço ideia do que se trata, na verdade, senhor padre, a chuva está aumentando e estamos em época de tornados, e eu não tenho quaisquer assuntos pendentes com o senhor, se me dá licença eu...
Julia se preparava para mancar pra longe, quando o padre agarrou seu braço.
- Todas aquelas pobres crianças, como você pode?Mesmo você?O que é que você pedia ao demônio enquando entregava as almas daquelas pobres crianças para ele hein?!Sua BRUXA!
- Me solta seu velho louco eu não tenho nada...
De repente, tudo o que ela sentiu foi uma pancada forte, e tudo ficando distante.
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O som repetitivo de água pingando foi a primeira coisa que Julia ouviu, depois a dor latente em sua cabeça e a aspereza do chão finalmente a despertaram.
Ela parecia estar numa masmorra, e não fazia nenhuma ideia de como havia chegado lá.
Até que tudo voltou a sua memória e ela concluiu que só poderia estar em algum lugar no subsolo da igreja.Suas mãos estavam amarradas na frente do corpo, e estavam terrivelmente dormentes.
A pouca luz que entrava no lugar era por uma calha irregular que dava para a rua, o lugar era úmido e frio, as paredes, tortas, o chão parecia cheio de madeira podre e outro material que Julia não conseguia indentificar, a única saída daquele aposento grotesco era por uma porta no topo de uma escada.
Julia tentou, em vão socar a porta, que já estava decomposta para abrí-la ela gritava, gritava e gritava e espancava a porta com toda a sua força, o sangue escorria ao longo de suas mãos magras.
De repente, ela viu o bruxulear de uma tocha do lado de fora da sala, ela correu para o canto com toda a força que ainda restava, mas foi ao chão ao tropeçar em algo.
E nada do que havia acontecido naquele dia poderia tê-la preparado para aquele momento.
Julia havia tropeçado num fêmur.
Na verdade, toda aquela masmorra obscura era apenas madeira e ossos.
Ela ouvia passos, cujo dono ela já tinha certeza absoluta de quem era;Quando o Padre Christoff Lloyd abriu a porta, não foi surpresa para ela.
- Minha querida, vejo que você está acordada!
- Eu queria estar desperta para poder ver a sua cara imunda, velho bastardo!
- Mas que horror!Será que não lhe deram educação naquele barraco em que você foi criada?Ahhh sim, esqueci-me de que você foi criada por bárbaros, é a razão disso tudo afinal.
- Razão?Seu velho doido, porque diabos está fazendo isso?
- Ora você não sabe?Temos sido muito indigentes com bruxas como você desde o pânico de Salem, e agora, com essas criancinhas desaparecidas, nunca se sabe o que pode acontecer.
Foi então que algo passou a fazer sentido na cabeça de Julia, algo que ela nunca pensou que o velho padre fosse capaz de fazer, mas é claro, ela estava certa.
- Foi você.
- Como disse?
- Você as matou.O que houve?Descobriram que você falsificava amuletos para os soldados, velhote?Ou que você gastava o dízimo deles com prostitutas?
Ela esperava que ele fosse negar, do lado de fora, o dia já começava a amanhecer, ela tinha ficado muitas horas desacordada; E foi o primeiro raio de luz daquela manhã cinzenta e tempestuosa que iluminou os olhos do velho padre quando ele disse.
- Sim, você está certa, e não se preocupe, irá se juntar a elas em breve.
- Porque?Seu monstro!Eram apenas criancinhas!
- Porque?Sabe como são as crianças, elas falam demais.
Antes que ela pudesse pensar no que aquilo queria dizer, o clérigo pegou seus braços amarrados e os prendeu em uma corrente na parede.
- Nem tente gritar, todos eles também tentaram.
Com um movimento rápido, ele tirou o vestido que um dia fora branco e impecável de Julia.
Deixando-a nua, ele prendeu a tocha na parede e puxou um grande marcador de ferro preso em sua batina, esquentou na tocha, e sem qualquer hesitação, marcou a barriga de Julia na brasa quente, o grito desesperado dela ecoou pelas paredes.
- Interfectus in lege essem Christi. Morta pela lei de Cristo.
- V-você a-abusava deles.
- O que?
- E-eles iam contar, t-t-todos iriam saber, você estuprava criancinhas,seu monstro!
O padre aproximou-se dela e deu um sorriso sarcástico, pegou o ferro em sua mão e acertou-o com força no rosto de Julia.
- Isso é por você falar demais, sua vadia, tens sorte de eu não estar disposto a fazer o mesmo com você, mas o que diria nosso senhor se eu me poluísse na vagina de uma herege, aproveite suas poucas horas de vida, você morre daqui a pouco.
A boca de Julia sangrava, mas ela sorriu, tornando o seu rosto uma máscara horrenda de sangue.
- Se eu morrer, eu te levo comigo.
- Como você ousa...-
-“Quando a noite virar dia
Quando a última tocha apagar
E a chuva cortante fizer-se chegar
Ouça a voz do inimigo
Eu vou levar toda a cidade comigo”
Os olhos de Julia estavam revirados, escorria uma espuma negra de sua boca, seu rosto tremia convulsivamente.
- “Quando os gritos começarem
O pântano vai despertar
Os águas vão se reanimar
De já eu lhe predigo
Eu vou levar toda a cidade comigo.”
O padre gritou e derrubou a tocha, que se apagou na humidade da masmorra, correu e trancou a porta.
-Antonius!
O jovem coroinha havia acabado de chegar, ao ver a aparência do padre, se sobressaltou.
- Reúna toda a cidade no marco da forca, chame os irmãos Poissonie para me ajudar a levar uma assassina para a forca!
- Mas padre, o que houve? Suas roupas...
- Julia Terrains confessou os assassinatos.
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Toda a cidade estava presente, quando trouxeram Julia, ligeiramente desacordada e a prenderam na forca, todos vairam-na, os boatos já haviam sido devidamente espalhados, o padre tinha se limpado e agora exibia uma sorriso de orgulho.
“Assassina”
“Bruxa”
“Serva do demônio”
O clérigo tomou a frente do tablado de madeira e pediu silêncio a todos.
- Hoje pela manhã, eu recebi a visita da senhorita Terrains, não imaginam o quão surpreso eu fiquei pela presença de alguém que tão ferrenhamente tem negado a verdadeira e única fé do nosso Senhor Jesus Cristo.
As pessoas da vila gritaram em concordância, as nuvens estavam cada vez mais cinzentas, e já começava a chover.
- Ela se ajoelhou perante mim, e confessou que havia prendido e assassinado várias crianças, por pedido, de não mais de que o demônio, e resistindo bravamente ao controle dele ela vinha me pedir, que a convertece e a matasse para que ele pudesse abandonar de vez, o coração de nossa pequena vila.
Agora reinava o silêncio entre os presentes a chuva engrossava e apagava as tochas das pessoas.
- Vocês não sabem como me dói fazê-lo, mas eu devo, como enviado de Deus, cumprir a lei de Cristo, e realizar, de forma tão dolorosa para mim, o ato final.
Julia agora tinha recuperado a consciência, o vento e a chuva abafavam as palavras do padre, mas quando ela falou, não houve uma só alma na pequena vila que não ouviu.
- Vocês, vermes miseráveis, que se ajoelham perante a esse homem execrável, vocês que abandonaram a fé de seus ancestrais, vocês acham que eles se orgulham de vocês?Seus filhos que foram para a guerra contra os alemães se orgulham de vocês?O seu cristo se orgulha de vocês?Todos sabem que eu não matei uma criança se quer, mas vocês, vocês carregarão a morte de uma inocente pelo resto de suas malditas vidas;Onde está seu deus de piedade agora?Matem-me e estão o levando comigo!!!
-Não a escutem!Essas são palavras do demônio tomando posse de seu corpo e protestando, matemos-na antes que o demônio se liberte!!
Os habitantes estavam confusos, eles discutiam e protestavam, divergiam e se manifestavam.
“Matem-na”
“Vadia do demônio”
“Não!!Julia Terrains é inocente!”
A chuva aumentava cada vez mais, o volume do pântano só subia.
O Rosto de Julia assumiu uma expressão anuviada.
-“Quando a noite virar dia
Quando a última tocha apagar
E a chuva cortante fizer-se chegar
Ouça a voz do inimigo
Eu vou levar toda a cidade comigo”
As pessoas entraram em pânico, ao longe se via um ciclone as águas do pântano invadiam a cidade, e o as nuvens eram negras.
- “Quando os gritos começarem
O pântano vai despertar
Os águas vão se reanimar
De já eu lhe predigo
Eu vou levar toda a cidade comigo”
As casas estavam se desfazendo, as pessoas corriam, água e vento invadiam tudo.
- Gu e Aguê, Fa e Legba, Sakpatá e Heviossô, ouçam minha voz e fechem o túmulo da crueldade dessa cidade maldita.
Então o ciclone se aproximou, as águas tomaram tudo, não havia mais gritos, não mais choro e ranger de dentes, imperava apenas o silêncio absoluto.
E a pequena vila de Salesdale foi arrastada para fundo do pântano.
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Vaticano, 1919
O professor de Teologia da Universidade da Luisiana, Frank Leòn trancou a porta do quarto quinze do Sanatório de Santa Maria e se dirigiu ao jovem frei ao seu lado.
- Céus, o que fizeram com esse homem?Ele está completamente irreconhecível.
-Ele foi o único sobrevivente da tempestade de Salesdale, ele nunca recuperou o juízo, e sua santidade achou, por bem que ele deveria passar os últimos dias aqui.
- Já dizem que o pântano de Salesdale é assombrado, mas o que diabos todos eles estavam fazendo perto de lá durante uma tempestade?
- Ninguém sabe professor, nós tentamos perguntá-lo, mas ele não diz coisa com coisa.
- Eu gostaria de lhe perguntar, irmão, o padre não pára de repetir um nome...
- Julia?Sim nós sabemos, ninguém tem ideia de quem seja, antes achavamos que poderia ser um sinal de recuperação, mas depois dos mais recentes acontecimentos...
- O que o senhor quer dizer?
- Tem sido difícil, professor, não podemos deixá-lo sozinho, da última vez ele se jogou da janela de seu quarto, foram 5 tentativas de suicídio só esse ano, ele está cada dia mais louco, eu chego a desejar que ele tivesse morrido durante a tempestade, teria sido melhor para ele.
- O padre enfrenta algo pior que a morte, eu sei. Mas eu estava em Roma, e deixaram um bilhete em cima da minha mesa para entregar ao monsenhor, algum fiel antigo acredito, de qualquer modo se puder deixar sobre a mesa dele.
- Claro professor, mas eu acho difícil que ele possa lê-lo, de qualquer forma, ele está fortemente medicado, não terá perigo.
- Muito obrigado irmão.
O Frei Milano era um bom homem, mas depois desse dia, nunca mais dormiu normalmente.
Assim que entregou o bilhete ao Padre Lloyd, foi uma questão de segundos entre o padre terminar de lê-lo e se jogar da janela de seu quarto no sétimo andar do Sanatório Santa Maria, no Vaticano.
Quando a imprensa italiana o perguntou sobre o bilhete, que tinha sumido das mãos do finado Padre Lloyd ele não soube responder o que havia acontecido com ele. Mas sua mente nunca mais esqueceu aquelas palavras encontradas ao lado do corpo inerte do velho padre.
“Há há há eu te avisei que ia te levar comigo.Faça as malas, eu vim te buscar.”
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