O Príncipe Dos Fantasmas
4 03. Vou para um lugar inesperado.
Viajar através das sombras não é tão ruim. Quando abri os olhos, eu estava em um estúdio de gravações. Olhei em volta, havia energia ali, então talvez eu não estivesse em Roma. Só tive certeza que não estava mais em minha cidade quando reconheci o local que não por coincidência havia estado em meus últimos sonhos.
Eu estava em Loas Angeles. Lembrei-me do cão e vi que o mesmo estava deitado no chão, parecia muito cansado. Apenas liguei os fatos e conclui que a viagem o havia feito gastar muita energia.
Vi umas letras douradas em um mármore negro: Estúdios de Gravação M.A.A. Embaixo, impresso nas portas de vidro estava escrito: Proibida a entrada de Advogados, Vagabundos e Viventes. Olhei no relógio que estava em meu pulso e vi que já era quase meia-noite, mas o salão estava iluminado e cheio de gente. Atrás do balcão da segurança havia um guarda sentado. Tinha uma aparência agressiva, com óculos escuros e um fone de ouvido.
Eu estava com medo, admito. Eu ainda não havia ido ali. Mesmo com tanta hesitação, adentrei o saguão do M.A.C. Havia alto-falantes embutidos que tocavam músicas ambiente suaves. O carpete e as paredes eram cinza-chumbo. Cactos cresciam nos cantos como mãos de esqueletos. Os móveis eram de couro preto, e todos os assentos estavam ocupados.
Havia gente sentada em sofás, gente em pé, gente olhando pela janela ou aguardando o elevador. Ninguém se mexia, nem falava, não faziam nada. Com o canto do olho, eu podia vê-los muito bem, mas, se fixasse a visão em qualquer um em particular, eles começavam a parecer transparentes. Dava para ver através dos seus corpos.
O balcão da segurança ficava em cima de um degrau, portanto eu tinha que olhar para o alto para falar com o guarda. Ele era alto e elegante, com pele na cor de chocolate e cabelo tingido de loiro, cortado em estilo militar. Usava armação de tartaruga e um terno de seda italiano que combinava com o cabelo. Uma rosa negra estava presa à lapela, embaixo de um crachá de prata. Li o nome no crachá e olhei para o guarda perplexo. Eu conhecia aquele nome das histórias que eu já havia lido, e não me senti a vontade de está de frente para aquele homem.
▬ Caronte? ▬ Minha voz saiu fria e grossa, chamando assim a atenção do guarda para mim.
O guarda se inclinou por cima da mesa. Eu não conseguia ver nada em seus óculos exceto seu próprio reflexo, mas o sorriso do guarda era doce e frio, como o de uma jibóia exatamente antes de devorar alguém ou algo. Continuei fitando os óculos, à procura dos olhos. O guarda me analisou por alguns instantes, olhou-me nos olhos e em seguida aproximou-se me “farejando”.
Eu conhecia o nome do ser que estava ali, conhecia sua história e não demorei muito para ligar os fatos. Se Caronte estava ali, então aquele local era uma entrada do submundo. Como? Isso eu realmente não sabia. Eu estava achando tudo muito modernizado. Talvez os deuses se adaptassem às culturas humanas de acordo com o passar do tempo.
▬ Hum... Diga-me o que você veio fazer aqui, rapaz. ▬ A voz de Caronte era fria, com um toque de tédio por trás da mesma.
A verdade é que eu não tinha idéia do que estava fazendo naquele lugar. Olhei em volta, respirei fundo e depois arrisquei.
▬ Estou aqui para ir ao Mundo-Inferior. ▬ Eu disse com confiança. Já que estava ali, pensei que era o que de fato precisava fazer. O motivo ainda me era desconhecido.
Caronte olhou para mim mais uma vez, analisando-me e confirmou de quem se tratava. Ele não o estava esperando ali, de maneira alguma, mas já que havia aparecido, sabia exatamente o que fazer. Caronte não queria conversar comigo, parecia está escondendo algo e, é claro, eu notei. O guarda levantou e fez um sinal para que eu o seguisse.
O guarda me escoltou até o elevador, que já estava apinhado de almas dos mortos, todos segurando um cartão de embarque verde. Caronte agarrou dois espíritos que tentavam entrar conosco e os empurrou de volta para o saguão. O guarda fechou as portas. Enfiou um cartão-chave em uma fenda no painel do elevador e começamos a descer.
Tive de repente uma sensação de vertigem. Não estávamos mais indo para baixo, mas para frente. O ar ficou enevoado. Os espíritos em nossa volta começaram a mudar de forma. Suas roupas modernas tremiam e se transformavam em mantos cinzentos com capuz. O piso do elevador começou a oscilar.
Pisquei com força. Quando abri os olhos, o terno creme italiano de Caronte fora substituído por um longo manto negro. Seus óculos de tartaruga haviam desaparecido. Onde deviam estar os olhos havia órbitas vazias, totalmente escuros, repletos de noite, trevas e desespero.
Quando pisquei de novo, o elevador não era mais um elevador. Estávamos dentro de uma barcaça de madeira. Caronte usava uma vara para nos mover ao longo de um rio escuro, cheio de óleo, com ossos, peixes mortos e outras coisas estranhas girando na superfície... bonecas de plástico, cravos esmagados, diplomas encharcados com bordas douradas. Eles estavam passando pelo rio Styx.
▬ Você ficará logo ali, no rio Aqueronte. ▬ Eu conhecia a história dos cinco rios do Submundo, e não gostava de nenhuma delas, mas fiquei surpreso por ter que ficar naquele rio. Tudo para mim era desconhecido. Eu ainda me perguntava como conseguia falar o inglês estando tão preocupado.
Não demorou muito e Caronte parou o barco, me deixando em uma areia preta. O homem disse um “se cuide” para mim e então partiu. Fiquei ali sozinho.
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