O Príncipe Cinza

4 Nascimento dos Gêmeos


Livro dos Contos: Reino Core

Era dia de festa em Core. O reino inteiro festejava o nascimento do pequeno bebê.

O Rei Auster parecia prestes a arrombar a porta se ninguém trouxesse em escassos segundos seu filho para que ele pudesse o conhecer. Se ninguém aparecesse para dar notícias se sua rainha estava bem, já seria o bastante para que o governante se enfurecesse.

No cômodo real, a rainha acabara de saber que não só seria mãe de um bebê, mas sim de dois. Que afortunado seria o rei, quão feliz ele ficaria a respeito da grande notícia. Mas nem mesmo a Poderosa poderia mudar o que o futuro aguardava para seus filhos gêmeos.

O mais velho tinha cabelos levemente ondulados cor de mel e suas pequeninas mãos eram firmes e confiantes. O mais novo tinha cabelinhos revoltos negros e seu nariz era levemente arrebitado. Tudo tão miúdo.

– Majestade, segure-os, já estão limpinhos agora. -disse a ama que ajudara no parto.

A mãe, então os segurou com carinho e cuidado.

– Aurélia avise o Rei e chame-o. Sei que Vossa Majestade deve estar ansioso para conhecer os herdeiros. -ordenou a rainha ainda um pouco fraca.

Apesar de não estar nos seus melhores dias Vossa Majestade, a rainha, ainda sim mostrava seus Traços Supremos.

Traços Supremos eram características e manifestações físicas de que sua posição era junto a Família Real. A Yz era responsável pela eleição de reis e rainhas. A hereditariedade não mais existia e assim para que reis soubessem de sua posição a Yz manifestava-se. O Rei Auster, por exemplo tinha cabelos dourados. Vossa Majestade vivera como um menino normal, criado por sua mãe e agora atual conselheira Rainha Mãe Cordélia. Cordélia tinha cabelos da cor de cenouras frescas e foi parte do Conselho de Tinta na posição Laranja. Também conhecido como O Conselho dos Sete, os principais responsáveis pela educação e formação de um rei depois que seus Traços Supremos apareciam ao redor dos quinze anos.

O Traço Supremo da Rainha aparecia somente quando suas emoções estavam muito fortes. Como naquele momento. Os reis representavam o Sol e as rainhas a Lua. E assim como a Lua, Vossa Majestade brilhava com sua luz prateada. Um leve cintilar rico em pura Yz.

E então quando a poderosa Rainha Sophia segurou seus filhos, parte dessa força passou a eles. Porque, aliás o amor só se forma depois que cremos nele. E sua fé, seu amor não se continha eu seu coração. Ele se derramava sobre os dois meninos.

Foi então que em estado precoce, os gêmeos abriram os diminutos olhinhos. Como pedrinhas brilharam. Dois pares de adoráveis pedrinhas.

O rei entrou no cômodo e se admirou com a visão. Com amor segurou seus filhos no colo e seus sentimentos transbordavam em suas feições. Seus cabelos brilhavam mais a cada segundo impondo ainda mais sua posição poderosa. Seus bebê, porém, beberam da mesma força e seus olhos mudaram de cor.

O mais velho de cabelos cor de mel, se chamou Ícarus, o sonhador. E de um momento para o outro, sua íris antes chocolate adquiriu leves tons de dourado. Seu rostinho cativante e amável, em alguns anos seria o rosto do futuro rei de Core.

Seu irmão mais novo, de cabelos pretos, foi chamado Zane, que significava presente gracioso. E seus olhos antes azuis como os de sua mãe, se tornaram cinza. Aquele narizinho arrebitado seria o responsável por sua obstinação e futuramente faria muitos irem a loucura por não conseguirem vencê-lo em um argumento.

Mas estas não eram características normais. E entretanto os dois meninos estavam fadados a futuro nada normal.

– Estes garotos estão fora dos parâmetros. Não sabemos o que o futuro os aguarda! Um possui olhos cinza, quase como O Espectro, e o outro é filho de um rei com menos de algumas horas de vida e já possui Traços Supremos! Não podemos confiar em circunstâncias tão adversas das que estamos acostumados. Há uma ordem em nosso reino, e estes garotos desobedecem a essa ordem natural! -exclamou Mélio o mais racional dos Conselheiros de Tinta.

– Não sejamos tão precipitados, ora! O que está feito, está feito. Estas crianças não nasceram assim pela vontade dos homens, mas sim porque de forma inegável foi Yz que os escolheu. Que os moldou dessa forma. Não podemos negar este fato tão conciso. – interveio também Azula. A mais pacífica do Conselho.

– Como podem pensar dessa maneira? Nunca tivemos um único ser cinzento, que não fosse pela máscara do Espectro, em nossas terras! Isso só pode significar um futuro nebuloso! – disse o senhor Vert.

– E o que pretendem fazer? Matar meus filhos? Qual seria, então, a medida a ser tomada? Bani-los do reino? Quão ingênuos são de pensarem que se livrarem de um fardo ou jogá-lo ao mar o fará desaparecer? Outro fardo tomará seu lugar, e da mesma forma ocorre com meus filhos. Pois eu, o Rei, digo que da mesma forma que não podemos mudar o fato de que a cada dia a morte se aproxima, digo também que não devemos temer nosso futuro. Não nos seria dado um fardo maior do que o que possamos carregar. Tenham coragem. Se encham de Yz. Se encham de fé! – alterou-se então, o Rei Auster, tempestuando para fora da sala, antes que dissessem mais asneiras sobre seus filhos.

Como podiam se autodenominar conselheiros se não eram úteis? Todos estavam loucos se achavam que ele, O Dourado iria simplesmente executar seus herdeiros e filhos amados.