O Príncipe Cinza
19 Nao ouse dizer uma única palavra
– Eu juro que se estiver me levando para alguma emboscada ardilosa eu irei pessoalmente queimar você vivo. Ai iremos ver a ironia da tal fumaça.
– Esse método de tortura é bem criativo, genial, na verdade, fumus intercludat. Fumaça sufoca.
Estávamos caminhando pelos tuneis sinistros de Core. Com Yz criei minha própria fonte de luz temporária, porem eu nao estava em meu melhor estado físico ou mental para alimentar tanto poder por tanto tempo. Minha mão brilhava sutilmente.
Olhei de soslaio ainda suspeita. Porque raios uma Sombra da Lua, mesmo uma Sombra culpada, pelo jeito, iria me ajudar a fugir quando ele também era o inimigo? Porque ele estava me ajudando se a cada cinco minutos ele reclamava sobre mim? Eu mesma nao me suportaria, mesmo se fosse por uma boa causa.
Sendo bem sincera, nao importava o tamanho de culpa que ele parecia carregar, eu ainda nao conseguia entender como uma Sombra podia ter... remorso. Sentimentos, no geral. Ele era o inimigo, eu nao devia me simpatizar com ele.
Os inimigos deviam ser frios, sanguinários e maus, certo? Porque então eu nao sentia isso?
Suspirei.
– A cada esquina que viramos você espera por um ataque surpresa, olha por cima do ombro a cada cinco minutos, me ameaça a cada três.
– Talvez devêssemos parar de caminhar e procurar uma saída deste lugar. Por acaso você sabe uma saída para a superfície? Eu nao me sinto muito segura estando em um ambiente tão desconhecido.
– Ok, vamos sair daqui antes que você decida me usar como barganha de troca com as outras Sombras. Um caminho livre por um ex-príncipe , seria uma ótima frase de impacto.
– Que bom que percebeu quão dispensável é para mim. sorri docemente.
– Splendae, me dê uma trégua aqui, te ajudei a fugir daquelas Sombras, nao foi? Quando vai começar a confiar em mim?
– Talvez nunca aconteça, é assim que me mantive viva até agora. Funcionou muito bem minha vida toda, muito obrigada.
Ele suspirou mandando um olhar de você é impossível.
– Tudo bem, na próxima esquina vamos encontrar uma saída pro Mar Gelado, e então estaremos mais perto de Acelentia. disse Zane sobriamente.
Viramos a tal esquina mal iluminada e olhei por cima do ombro antes de encontrar um buraco logo acima de minha cabeça que levava a Floresta Esquecida. Zane já estava subindo, pude ver os músculos do braço e das costas trabalhando quando ele ergueu a si mesmo do solo como num exercício de barra fixa, depois estendeu uma mão para que eu subisse também.
Minha subida foi incrivelmente nada sutil, porque apesar da Academia Arco ter me ensinado diversas coisas, leveza ou delicadeza nao eram uma delas.
Pude ver que o príncipe nao rira, mas seus olhos delataram sua diversão.
– Nao ouse dizer uma única palavra.
– Nunca.
– Vamos, temos muito o que percorrer ainda.
Logo a nossa frente se estendia uma vastidão branca. Era como ver um lago congelado no inverno só que em proporções muito monumentais. Gelo se estendia até onde a vista alcançava. Um borrão de terra no horizonte era provavelmente Acelentia. Espere, aquilo era uma montanha flutuando no ar? Balancei a cabeça, eu estava começando a perder a cabeça.
E por incrível que pareça a vista era incrivelmente maravilhosa. De tirar o folego.
Na margem entre a terra solida e o gelo, algumas plantas ousaram se enraizar. Um pouco mais a frente alguma espécie de arbusto ralo cobria um delimitado espaço de gelo. Como eles sobreviviam?
– Como planeja passar as noites em pleno gelo sem passar frio? perguntou Zane.
– Meu casaco é feito de fibras têxteis de ramos de Gandara. Ele se mantem de acordo com a minha temperatura corporal. E além disso sei alguns truques de Yz.
– Uau, a Academia está ficando moderna.
Percebi tarde demais que isso poderia ser o tipo de informação que Zane poderia estar indo atrás, e eu inocente a entregara de bandeja.
Algo devia estar escrito em meu rosto porque ele rapidamente completou.
– Nao que a Irmandade já nao saiba, eu só nunca perguntei a respeito. Tenho passado muito tempo no Continente ultimamente.
Isso nao era exatamente um incentivo, mas era um começo.
Ele deve ter percebido meu alivio, porque deu o primeiro passo sobre o gelo, confiante.
Senti uma presença nos limites da minha mente e sorri.
Zane olhou para trás curiosamente estudando minhas feições.
De repente um pelo macio e negro passou pelos meus dedos. Gandara. Eu estava começando a gostar mesmo da felina, olhei para seu rosto felpudo gigante e acariciei suas orelhas. Um som quase de ronrono saiu dela, como de um gatinho, sua calda escura levemente listrada balançou de um lado pro outro e eu ri.
– Ah, você voltou, gatinho. disse o príncipe num suspiro frustrado.
– Temos uma longa caminhada pela frente, vamos?
–----
A noite chegara e o frio também, apesar de nao haverem tempestades na região tropical que estávamos e supostamente gelo também nao, o frio estava vindo do chão e esfriando minhas mãos e meu rosto. Basicamente, as extremidades.
A lua estava escondida entre as nuvens e milhares de estrelas brilhavam no céu. Eu estava exausta, caminhamos o dia todo tentando estender a jornada o mais longe possível, porem mesmo assim eu nao conseguia dormir com o frio. Mesmo com o meu casaco quente, meu corpo nao estava suficientemente quente para que eu pudesse dormir.
Por incrível que pareça Zane nao tivera esse problema. Ele desmaiara logo que paramos. Porem seu corpo tremia incontrolavelmente, eu ouvia o som dos seus dentes e duvida consumia meu interior.
Ajuda-lo ou nao? E o que eu poderia fazer?
– Z? Está acordado?
Nada veio a nao ser o som do ranger e o ruído do vento sem qualquer tipo de vegetação considerável para para-lo.
Me virei e cutuquei ele de longe, com medo de espanta-lo.
– F-f-frio, m-muito frio.
Meu coração se torceu de culpa.
Me concentrei na Yz e na minha fé para criar uma espécie de bolha protetora. Me aproximei devagar de seu corpo e tentei comprimir o tamanho da bolha para poupar energia.
– Se você tentar alguma coisa, como me matar, eu juro que vou perfurar a camada de gelo do Mar Gelado e te afogar nas profundidades congelantes, entendeu? apesar de tudo eu mais estava orando internamente que aquilo nao fosse um erro de confiança da minha parte.
Alias, a camada de gelo do Mar de Gelo era impossível de derreter. Muitos tentaram, acredite. Perfura-la então? Uma piada. Ninguém nunca conseguira.
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