O Príncipe Cinza
2 Batman Pula nos Braços de Gothan City
O sol brilhava alto no céu como nossos estados de espírito. Seus raios iluminavam nossas almas e superaqueciam nossos corações, aponto de suarmos tanto debaixo do calor de uma plena quinta-feira de novembro as três da tarde que ninguém parecia apresentável com tanta maquiagem escorrendo e manchas de suor. Ou com tantos papeizinhos balançando desesperadamente de um lado para o outro como se fossemos morrer sem o som ritmado das folhas que cortavam o ar, num movimento monótono e repetitivo.
Bem, o meu desespero se dava ao esforço para chegar ao meu objetivo sem ser notada, meu coração ainda batia forte dentro do meu peito devido à velocidade com que eu correra a poucos minutos atrás, como se minha vida dependesse disso. O que tenho certeza que dependia. Se meu atraso fosse notado eu nem sequer teria um futuro com mais de vinte e quatro horas nele. Se bem que eu me voluntaria nesse exato momento para tal sacrifício, se isso significasse me livrar do dever ao qual eu cumpria naquele momento.
Observei fileiras de adolescentes sentados nas cadeiras dispostas para os alunos a medida que eu me aproximava e vi um assento vazio no meio de tantos ocupados. A cadeira onde eu supostamente deveria estar naquele momento. Mas não estava.
Não que fosse uma grande surpresa eu, Laura Hunter, estar atrasada para algum evento especial.
O problema era que esse tal evento em especial acontecia de ser minha formatura do terceiro ano.
Me encaminhei rapidamente para a quarta fileira de cadeiras onde os formandos estavam sentados ouvindo atenciosamente ao discurso, e vasculhei com o olhar minha família que já estava presente na área dos parentes. Tia Claudine vestia um vestido formal cor champanhe de alta costura e um chapéu enorme que cobria seus olhos, em suas mãos levava um guarda-sol aberto, já que a cerimônia estava sendo abrigada no pátio principal à céu aberto, onde normalmente usaríamos no intervalo, mas que hoje fora decorado e arrumado para a formatura, debaixo do sol quente. Minha irmã Serafina, conversava sobre algo com minha prima Catarina.
Serafina era muito diferente de mim em muitos sentidos. Seu cabelo era entre o loiro e o mel, enquanto o meu era preto. Seus olhos eram enormes círculos marrons cheios de vida, enquanto os meus eram pretos como os de minha mãe, e apesar de termos um ano de diferença nos dávamos muito bem.
Catarina tinha a mesma idade de Fin, e diferentemente de seu meio irmão Vicente ela era uma das melhores pessoas que eu já conhecera. Atenciosa e responsável com longos cabelos dourados dignos de Rapunzel, sempre se portava como uma perfeita princesa. Às vezes me perguntava se ela não vinha de uma linhagem real.
Vi então os olhos de Tia Claudine localizarem a minha pessoa, como se eu fosse o alvo da próxima flecha. O que poderia ser bem verdade. Seu olhar de reprovação perfurava minha nuca ao passo que eu tentava sem chamar a atenção dos outros alcançarem minha cadeira como se aquela fosse minha única salvação. Sem qualquer sucesso na discrição. Mas cheguei finalmente ao meu lugar depois que pisei no pé de todos da fileira e me sentei quieta. Percebi que o orador tinha parado seu discurso e todos os rostos se dirigiam a mim. Com exceção talvez do diretor que fechava seus olhos com força e segurava a ponte de seu nariz. Como se falando para si mesmo que não estava acontecendo ia de fato mudar a realidade. Eu digo por experiência própria que eu também tentei naquele momento. O orador então pigarreou e prosseguiu de cara feia, vi Fin e Catarina tentando segurar o riso sem sucesso.
Eu odiava atenção desnecessária para mim, apesar de parecer acontecer constantemente eu gostando ou não.
O orador retomou seu discurso e todos se voltaram para frente, inclusive eu. Não que eu estivesse prestando alguma atenção ao que era dito, mas fingi que sim.
Olhei para meu pescoço. Ali descansava a única joia que eu tinha. Uma pedra em forma de uma lágrima de centro negro, que a medida que alcançava as bordas parecia suavizar para um tom escuro de marrom. Essa era a razão pela qual me atrasei. Eu morava a alguns quarteirões de distância do local ao qual agora me encontrava, e decidira alcançar minha família depois que eu tivesse um momento só para mim. Todos entenderam, já que hoje era um dia tão marcante para a vida de qualquer jovem adolescente.
E meu coração apertava cada vez que pensava a quem costumava pertencer àquela relíquia. Minha mãe. De alguma forma eu me sentia melhor e pior ao mesmo tempo com o peso da pedra fria sobre minha pele. Era bom sentir que algo ainda restava para minha memória, mas ao mesmo tempo doía lembrar.
Fechei minha mente e foquei em qualquer outra coisa que tirasse minha cabeça do assunto.
–--
Depois da cerimônia de formatura e de muitos adolescentes sorridentes, meu dia não tivera a sorte de acabar por ali.
Na mansão de tia Claudine uma humilde festinha particular estava sendo preparada em minha homenagem. E era bem óbvio que recusar estava fora de questão. Durante a festa a maioria das pessoas se aproximavam para parabenizar o meu grande feito, já que a maioria estava crente que eu não conseguiria. A falta de fé e a falsidade das pessoas podiam ir bem longe. Mas a verdade era que nem mesmo eu tivera assim tanta certeza em minhas capacidades, já que como meus psicólogos costumavam me dizer, eu ia mal na escola devido à problemas traumáticos na minha vida familiar, interativa e social que afetava não só meu senso de felicidade como meu caminho para esta, sem mencionar o motivo do meu humor sarcástico e agridoce (essa última parte fora uma adaptação de Catarina) no qual mostrava o meu negativismo para com os problemas, inclusive me afetando na área escolar. Para eu estudar tinha deixado de ser o meu foco, meu objetivo. Eu não via o porque de tanto esforço para realizar um feito nos imposto pela sociedade focada em coisas tão subjetivas como os estudos. Quer dizer, porquê tudo isso se vamos todos morrer?
Olhei para mim mesma. Eu usava um vestido sem adornos preto e de alças com um sapato de salto menos desconfortável do que parecia nada do que eu usaria se Catarina e tia Claudine não tivessem forçado em mim, como se eu não passasse de uma bonequinha de pano. Tentei me livrar dos tantos desconhecidos na minha discreta festa e fui para o terraço, um local arejado e com um menor número de pessoas. O ar estava um pouco frio, mas ainda fresco o suficiente para me dar um ar de liberdade. Me peguei pensado sobre meu passado novamente. Em como era simplesmente incrível brincar de tiro ao alvo com flechinhas de plástico quando eu era menor, nunca conseguira ganhar de minha mãe apesar de ser milhões de vezes melhor que Fin. Pensei também em como era bom me sentar no meio do jardim e ajudá-la a colher as verduras e podar as flores enquanto ela me ensinava o que cada uma delas podia fazer. Fin era extremamente boa em cuidar de plantas, acho que ela herdara este dom de nossa mãe. Costumávamos brincar de adivinho enquanto Serafina regava as flores nos vasos da janela e eu sentava assistindo de uma árvore que ficava muito próxima da casa, em frente a ela.
– Jasmim.- desafiei Fin.
–Bom para cólicas menstruais, alivia até as dores do parto. Um poderoso relaxante, pode ser usado para induzir sono, excelente hidratante pra peles secas e trata a oleosa também, é um ótimo remédio para arranhões, cicatrizes e estrias. Alivia dores musculares, rigidez, inchaços e entorses. Cura também dores de garganta, laringite e tosse. E representa a prosperidade para um casamento feliz.
Me peguei sorrindo com o pensamento. Apesar de ter aprendido muito com Romania Hunter, nunca fui capaz de superar Fin nesses jogos. Acho que ela gostava muito mais de plantas do que eu. Eu era boa para reconhecer e até citar seus feitos, porém cuidar de plantas nunca fora muito meu forte.
Nem minha mãe nem meu pai estavam presentes no dia em que me formei.
Minha vida começava agora e eu não sabia à quem pedir conselhos.
Eu poderia dizer o que fosse para criticar e odiar a cerimônia de formatura, mas a verdade era que eu estava criando desculpas para mostrar que eu não me importava, que eu não sentia falta das figuras mais importantes que uma pessoa pode ter. Que estava ótima.
Uma rajada bem forte de ar frio lavrou meu rosto e meus ombros desnudos a ponto de congelar os ossos. Um arrepio passou pela minha espinha, e, entretanto eu sentia que não era de frio e sim porque alguém me observava de modo estranho. Meus instintos gritavam que havia algo fora do normal. Me virei da balaustrada do terraço, e vi através das portas de correr de vidro, a festa que se passava lá dentro. Capturei então o olhar mais escuro e medonho que já vira. Um olhar que desde a primeira vez me fizera tremer de medo. Um olhar obscuro e mal. Olhos negros da cor da escuridão, e tão profundos quanto.
Os olhos de um garoto não mais velho do que eu. Os olhos de alguém que eu conhecia.
Vicente, este era seu nome. Sua postura estava relaxada e seu olhar assustador. Não o estilo Edward-Eu-Sou-Um-Vampiro-E-Se-Apaixone-Por-Mim, justamente o contrário.
Sua pose parecia sempre acompanhar as sombras. Ele sempre se escondia nelas.
– Você deveria estar lá dentro recepcionando os convidados.- pulei meio metro com as palavras. Olhei para o lado e vi Sue com um sorriso doce no rosto como sempre.
Sue era a governanta da casa. Ela entrara logo depois que passamos a morar com minha tia, ela nem conhecera os meus pais. Sempre com palavras de consolo, ela a maioria das vezes nos tratava como netas. Certamente ela tinha idade para ser avó.
Me virei e tentei ver se Vicente ainda me observava de dentro da festa, mas ele havia se esvanecido como fumaça. Sem deixar qualquer pista de que ele já estivera ali.
– Claro, uma missão tão adorável quanto me servir de alimento as piranhas por vontade própria. -eu respondi sarcasticamente, saindo de devaneios.
Sue me olhou como se e não tivesse jeito, mas mesmo assim riu da minha comparação não tão longe da verdade.
– Tudo bem, eu entro e volto a festa se fosse prometer me trazer a sobremesa antes do jantar.
– Isso é impossível você sabe como nossa chef odeia quando fazem isso.
– Eu sei que com jeitinho você consegue, por favorzinho!
– Ah, tudo bem. Trato feito.
–--
Meu corpo estava tão exausto quanto minha mente. O trabalho de recepcionar e ouvir convidados que não paravam para respirar ou nem sequer me davam um pouco de espaço, não era mesmo para mim. Fechei meus olhos e segurei minha têmpora com os dedos. Minha cabeça estava prestes a explodir e meus ombros já se curvavam pelo cansaço.
Escovei meus dentes, tomei uma chuveirada e cai na cama sem esperanças de acordar no dia seguinte.
–--
Acordei com um rangido na janela. Meus olhos ainda tinham problemas para se abrirem, mas meu corpo a cada segundo despertava alerta pelo som estranho. Meu quarto ficava no segundo andar da casa e eu tinha certeza que não tinha deixado a janela aberta. Se é que aquilo não era um sonho. Fiz um maior esforço para levantar e encarei a janela escancarada. Será que eu estava ficando louca? Eu fechava a janela todas as noites sem qualquer exceção. Mas eu estivera muito cansada, eu podia ter esquecido, não?
De repente senti um frio da nuca, um pressentimento que estava sendo observada. E algo que eu aprendi ao longo dos anos foi reconhecer olhares. O sentimento específico de cada um. Quando Sue me olhava, eu captava um sinal de preocupação e ás vezes de alerta. O olhar de Fin era de curiosidade e a maioria das vezes diversão. O de Tia Claudine era de despontamento, raiva, confusão, preocupação e ás vezes de carinho. Vicente era o mais diferente, mas mesmo assim eu sabia que não era ele quem me observava naquele momento. Nenhum deles.
O olhar era de desafio e coragem. De obstinação e solidão.
Vasculhei o quarto em busca de algum intruso, mas o cômodo estava mal iluminado então pouco se via. Meus olhos já de adaptavam a pouca luz, mas ainda nada. Me concentrei então em sentir.
Desde pequena eu tivera a capacidade de saber onde as coisas estavam em meio ao breu. Como naquele momento. Se minha irmã e eu fossemos brincar de esconde-esconde eu achava ela em dois segundos, porque eu sentia onde ela estava. Eu sentia sua essência, sua presença. E era isto que eu estava fazendo. Sentindo.
Fechei minhas pálpebras. Meus pensamentos foram limpos e minha mente ficou serena. Meus músculos relaxaram.
Ouvi, então, os batimentos cardíacos e sua respiração. Senti sua essência com uma intensidade que eu nunca tinha sentido antes. Uma espécie de poder estranho emanava dele. Uma força que eu já tinha sentido antes. Mas por alguma razão eu não recordava onde, e em quem eu já havia sentido.
– O que você está fazendo aqui? O que quer? — indaguei firmando a voz pra não sair fraca apesar do medo.
Nada.
– Eu sei que você esta aí, eu não sou boba. Saia logo e me responda! -acho que apesar de meus esforços pareci meio desesperada.
Nada.
– Olha eu realmente sei que você está no canto perto do guarda roupa, então pare de brincar de esconde-esconde. -me decidi por contar parte daquilo que eu nunca podia mencionar porque eu queria faze-lo falar -Eu posso te ouvir.
Nada.
Silencio.
E então:
– Como você consegue me ouvir? — disse a voz baixa do intruso, soando um homem.
– Sua respiração está acelerada apesar de tudo. — disse eu tentando agir naturalmente. Claro, todos os dias eu conversava com um estranho que de alguma forma impossível tinha conseguido entrar no meu quarto no segundo andar de uma casa, tão habilidosamente como Romeu.
– Você ouve minha respiração? Você está do outro lado do quarto. -sua forma se aproximou da luz e eu me segurei para não dar um passo involuntário para trás.
Sua figura estava coberta por uma capa escura, leve e solta que cobria seu corpo. Justamente porque o tecido sobrava em todos os lugares, eu não podia ter ideia do seu porte, se era gordo ou magro, então me manti quieta e atenta de qualquer maneira. Sua figura era alta apesar de tudo.
– O que você quer? Porque está aqui? -inspirei profundamente.- Como conseguiu entrar?
– Perguntas de mais. Onde está o Artefato? — nao passou batido o fato dele ter usado uma evasiva.
– Do que você está falando? Se você queria um artefato porque não roubar um museu?
– Não diga que não sabe do que estou falando, posso sentir que você já o usou.
Sua figura de aproximou mais perto e a luz da lua iluminou sua forma misteriosa.
– Já disse que não sei! -percebi, então, que ele estava bloqueando meu caminho até a porta.
Eu não poderia sair sem enfrentá-lo antes.
Seus olhos apareceram pela fresta de tecido sobressalente e eu perdi o ar em surpresa.
Azuis.
Seus olhos eram azuis. De um tom tão profundo que não havia fim, nem começo. Nunca imaginei que ao invés de uma aparência vil e maldosa um ladrão pudesse ter olhos bonitos. Os olhos são as janelas da alma e o espelho do mundo. Se isso de fato fosse a verdade então sua alma era algo alem do inexplicável.
E então as safiras de valor e brilho inestimável de repente se arregalaram, como se o tal ladrão/invasor/assassino/estuprador (afinal o que ele viera fazer aqui?) tivesse escutado algo a mais, e seu corpo que num minuto estivera ali desapareceu janela a fora. Batman pulara nas noites sombrias de Gothan City. Ou no caso, da minha humilde janela. Ele pulara sem medo algum, como se houvesse segurança no pouso. O que devo dizer não tinha.
Corri em direção a janela, mas ele já havia desaparecido como fumaça. E mesmo assim não foi fumaça que senti quando inspirei, não, no ar pairava o cheiro de tormentas. O perfume mais viciante que pode existir... cheiro de liberdade.
Voltei para a cama e me cobri ainda meio confusa com o encontro inesperado. Ouvi o barulho da maçaneta da porta sendo girada. Sue entrou desesperada.
– Aconteceu alguma coisa?
– Como soube? — era quase como se Sue escondesse algo de mim, e isso não era de agora, eu sempre tivera essa impressão. Em seu rosto não vi medo ou surpresa. Eu sempre soube que Sue sabia de mais do que estava me contando e essa sensação constantemente vinha sobre mim, mas em outras ocasiões eu só apagava da minha mente e dizia a mim mesma que não era nada. Mas eu não faria isto agora.
– Um horrível pressentimento.
Pensei melhor e era como se Batman soubesse que Sue estava vindo me procurar. Mas como? Ele ouviu seus passos no corredor?
– Na verdade não foi nada, um pássaro entrou pela janela aberta e me assustou. — não sei porque o encobertei. Mas mesmo assim o fiz. E me senti horrível sobre isso. Mas o que eu diria? Ele nem se quer levara nada.
Isso soh assustaria Sue alem do necessário.
Ela se virou e caminhou até a janela desconfiada e olhou para o lado de fora. Depois de um tempo de análise e suspeita ela se virou para mim e disse:
– Durma bem então, querida. -disse ela por fim.
Uma rajada gelada de vento veio até mim passando por Sue. E então reconheci o sentimento. Senti no ar a mesma força que eu sentira em meus pais, em Sue. A mesma força que senti emanando de meu visitante.
A mesma força emanava de todos eles.
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