Capitulo seis

Vigésima quarta noite do mês de Maio de 2014, uma corrente de ar soprava pelas cortinas e por baixo da porta, proporcionando um frio digno dos mais potentes aparelhos de ar condicionado, contudo o silêncio no quarto era absoluto, interrompido somente pelo remexer de João na cama, que com suor escorrendo no rosto estava completamente envolto em seu sonho.

O ambiente era de uma beleza estonteante, um paraíso que ao que parece era o Jardim do Éden, com muitas árvores em sua maioria salgueiros chorões com galhos formando cascatas verdes, ornamentadas por Tulipas que cresciam nos trocos desabrochando flores de todas as cores, podia se ver macieiras, laranjeiras, bananeiras, mamoeiros com suas Papaias coladas ao caule, todas as árvores repletas de frutos e ao redor de um imenso lago com águas muito límpidas muitos coqueiros, aves de diversas espécies voando para todos os lados, micos pulando por entre os galhos. A medida que ia avançando por entre a vegetação João foi percebendo que ela crescia formando diversas trilhas todas ladeadas de pedras brancas como neve, escolheu uma que lhe parecia convidativa, pelo fato de ser bem ampla com uma visão boa do que tinha pela frente.

Chegando ao fim da trilha deparou com uma gruta entre as rochas de uma enorme montanha, foi adentrando por ela devagar, alguns raios de luz solar clareavam o interior da caverna proporcionando um campo de visão muito curto, foi tateando as paredes, passou por alguns candelabros presos as paredes de onde emanava um a luz fraca, contou sete até chegar a um pedestal coberto por um manto de cor branca onde descansava um enorme livro que estava fechado e reforçado por fivelas presas por cadeados onde não podia se ver nenhum tipo de inscrição, sentiu o coração acelerar e aumentou o passo em direção ao artefato e ao chegar perto estendeu as mãos na intenção de toca-lo e antes que isso acontecesse uma enorme mão negra, com pele escamada e unhas imensas o puxou e o arremessou em um buraco totalmente escuro onde começou a cair, não conseguia discernir a fundura, apenas gritava, e gritava desesperadamente:

- Não! Não! Oh meu Deus não!

E como num estalar de dedos a sensação de queda cessou e deu por si parado, caído no fundo do buraco imerso numa profunda escuridão sem enxergar um palmo a sua frente, levantou e tateou as paredes do local pondo-se a andar em passos laterais com muito cuidado para não tropeçar e vir a cair novamente, acompanhou as paredes em um circulo de 360º de diâmetro até que encontrou uma fissura por onde podia passar, e abaixado engatinhando começou a atravessar, passando pode chegar a uma sala bem ampla ainda escura porém pode visualizar bem ao longe um pequeno foco de luz quase sumindo e pôs-se a caminhar em direção a ela, a cada passo que dava pode perceber que a luz ficava mais forte até que chegou ao ponto de poder enxergar nitidamente o local onde estava, tratava-se de uma espécie de antessala mas sem nenhum local para sentar ou qualquer tipo de coisa que pudesse proporcionar o mínimo de conforto, um tipo de vidro separava aquele local de outro ambiente totalmente diferente que lhe parecia ser a porta do Jardim por onde havia entrado inicialmente.

Ao olhar por este vidro avistou um homem vestido com uma túnica branca que chegava até os seus pés, e seus cabelos eram compridos e de uma cor dourada, sua barba era bem curta com aparência de ser muito bem cuidada, com as extremidades aparadas como se feitas por fio de navalha, sua pele clara era livre de quaisquer marcas a não ser uns pontos em sua testa que pareciam ser feridas já cicatrizadas, tinha uma postura de rei e emanava uma áurea sublime. Ao seu redor encontravam-se uma multidão de pessoas de todas as etnias, com longas vestes também brancas sentados aos pés do homem cercando o pedestal que João havia visto outrora, e o livro agora estava aberto e tinha inscrições por dentro e por fora, o homem em pé lhes falava com autoridade como se lhes passassem instruções e não haviam ainda percebido a presença de João, que a essa altura já havia percebido de quem se tratava, de quem era aquele homem e pôs-se a correr de um lado para o outro tentando achar uma passagem, uma só abertura que o pudesse levar até aquele homem, leva-lo até Jesus e a medida que não encontrava começou a se desesperar, e em seu desespero começou a gritar:

- Jesus! Jesus! Mestre, aqui. Por favor, me ajude.

E ficou ali por bastante tempo gritando e gritando, estando quase sem forças e o som já não se formando em sua garganta parou de gritar e percebeu que todos no salão estavam olhando para ele, inclusive Jesus que continuava de pé e levantando o dedo indicador como que pedindo a atenção de todos, que automaticamente voltaram a olha-lo começou a dizer:

- Eu conheço tuas obras, tuas tribulações e tuas pobrezas, e as blasfêmias dos que se dizem Judeus e não o são, mas são sinagoga de Satanás.

- Quem tem ouvidos, que ouçam. Responderam todos que estavam no recinto pondo a se levantar em seguida.

Fechando o livro e pondo-o em baixo do braço, Jesus virou-se e pôs-se a sair do recinto pelo lado oposto acompanhado de todos que aos poucos iam sumindo da sua visão, quando de repente um menino parou, virou-se e levantou as mãos em um sinal de adeus proferido a João e este pode perceber que era Daniel seu filho, que após o gesto foi tomado pela mão de sua mãe que também o olhava fixamente e novamente voltou a caminhar na direção que Jesus havia tomado, ficando João ali desesperado com um sentimento de ter sido abandonado, foi quando a luz começou a se dissipar e então começou a ouvir um barulho de correntes que vinha em sua direção acompanhado de um rosnado de Leão. Foi ficando diferente, sentindo as pernas ficarem bambas, o coração bater mais forte e avistou, eis que vinha em sua direção, era grande, rugia mas não era um Leão. Era uma espécie de lagarto, um bem grande, um, um, um Dragão. Um Dragão que tinha sete cabeças e dez chifres em cada cabeça e a essa altura o sentimento de ter sido abandonado dava de novo lugar ao desespero, virou-se e começou a correr, e correu como nunca havia corrido na vida, e olhava para trás e via o Dragão se aproximando ele era muito rápido. Não, ele não era rápido, percebeu que apesar de estar correndo o máximo que podia não saia do lugar era como se patinasse e de súbito começou a gritar:

— Senhor me ajude.

— Alguém me ajude pelo amor de Deus.

-Socorro! Socorro!

E a besta chegava mais perto, cada vez mais perto e quando uma das cabeças, das quais tinha um formato de Leão abriu a boca para deferir um ataque, João fechou os olhos como que se entregando a morte e quando voltou a abrir viu que estava bem, não viu o Dragão, viu que estava seguro no seu quarto deitado na cama coberto e encharcado de suor. Acabara de acordar. Acordar de outro sonho, mais um, pensou no sonho, refletiu e mais uma vez chegou a conclusão, não era sonho e sim um pesadelo.