Capitulo quatro

O relógio mostrava 06h59min e o acender e apagar marcavam os segundos em um despertador digital que ao mudar para as 07h da manhã irrompeu em um tilintar sonoro e agudo que cessou no momento em que a mão direita de João bateu em botão de cor verde centro do aparelho. Levantou de imediato após conferir a hora e notou que sua esposa não se encontrava na cama, percorreu o caminho até a porta externa, abriu e deparou com um jardim muito bem cuidado com diversos tipos de plantas floridas em vasos de cerâmica com figuras imitando desenhos egípcios e dos vasos maiores saiam os caules grossos de Buganvília que subiam pelas laterais da sacada amparadas por uma estrutura de madeira e cobriam todo o espaço formando um imenso tapete suspenso e com flores de todas as cores. Foi até o parapeito e respirou fundo o ar da manhã olhando o mar a frente do prédio, as ondas se desfaziam nas rochas do Arpoador fazendo com que calmas aves levantassem voo cada vez que isso acontecia. Contemplou a beleza do local, concluindo em seguida:

— Como é lindo o amanhecer no Rio de Janeiro.

Virou-se e entrou novamente no quarto se dirigindo ao banheiro da suíte e após fazer suas necessidades abriu um armário branco em cima do lavabo e pegou uma toalha aveludada e alguns vidros que continham xampu e sabonete liquido e os arrumou na lateral da banheira, abriu os registros e começou a inundar a mesma com fortes jatos d’água que saiam de orifícios laterais, despiu-se de seu pijama de seda, conferiu a temperatura da água, entrou na banheira e pôs-se a lavar-se com enorme capricho.

Exatamente cinquenta minutos depois já entrava na cozinha trajando um terno preto muito bem alinhado, sua esposa acabava de colocar o café na mesa onde Daniel já sentado com uma calça de linho e uma blusa de botões branca com emblema da escola comia flocos de milho em uma tigela.

— Bom dia Mônica meu amor. Disse a esposa abrindo um sorriso e a beijando em seguida.

— Bom dia amor, ela respondeu.

Cumprimentou também a empregada que de costas lavava a louça utilizada para preparar o café da manhã:

— A paz Jacira.

— A paz pastor. Respondeu a domestica.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa ao filho o mesmo já interrompia perguntando:

— Pai preciso mesmo ir à escola hoje?

— Sim, é do mais papai vai para a igreja com sua mãe e você não pode ficar sozinho em casa, a Jacira tem muita coisa para fazer e não pode ficar tomando conta de você, o motorista vai te levar e te buscar.

— Por mim não ia mais para aquela escola. Por que o senhor não me tira de lá?

— No meio do ano, ia te atrapalhar e além do mais é o melhor colégio que existe no Leblon.

— Daniel para de incomodar seu pai com isso. Ele está chateado com os amiguinhos que estão mexendo um pouco com ele.

-Eles ficam implicando comigo me chamando de “o filho do Diabo”.

— Para com isso Daniel, retrucou a mãe.

— Já conversou com a diretora a respeito disso¿ Perguntou João a esposa.

-Sim, ela me garantiu que ia conversar com os outros alunos.

— Mas não adianta pai eles dizem a ela que pararam e quando ela sai começam de novo, bom mesmo seria se me tirasse de lá.

— Vamos esquecer um pouco isso filho, papai vai conversar com ela também e quando papai chegar vai levar você ao shopping para comprar alguma coisa na Hi Happy.

Oba. Gritou Daniel mudando radicalmente de humor.

— Pare com isso João tem que resolver o problema, não maquiar prometendo algo toda vez que ele encontra algo difícil pela frente.

— Ele é uma criança Mônica, deixe fazer as coisas que lhe agrada, não podemos o expor aos problemas dos adultos e agora vamos tomar o café da manhã.

E puseram-se a comer depois de João agradecer a Deus pelos alimentos ali dispostos.

Depois que Daniel saiu para a escola, Mônica o perguntou:

— Como vamos fazer diante disso tudo? Não é só ele que está sofrendo João, aonde eu vou tenho que escutar piadas a respeito de como você comprou fazendas, de como você desviou dinheiro da igreja, de como engana os fieis, não precisávamos de nada disso, desse, desse luxo todo.

— Até você vai me dizer que roubei o dinheiro da igreja Mônica, eu só administro e as nossas coisas eu compro e faço com o meu salário, com o que tenho direito.

— E os processos na justiça pedindo a devolução dos valores das ofertas?

— Algumas pessoas estão sendo usadas pelo maligno para escandalizar a igreja e o povo de Deus, e do mais você não vai acreditar em tudo que aquele jornalzinho medíocre disse, vai?

Não foi só o Jornal João, foram os Jornais, a televisão e o rádio que a seis meses não nos deixam em paz com essas matérias.

— Querida eu prometo que as coisas vão se acertar.

— João, vamos pedir a Deus, ele è quem acerta as coisas, não nós, e vamos que já estamos atrasados.