Capitulo um

O vento soprava as copas das arvores balançando com forças seus galhos, fazendo com que as folhas caíssem como uma chuva sem direção em uma forte tempestade, formando de tempo em tempo redemoinhos de restos de vegetações seca e poeira avermelhada que podiam ser vistos ao longo da estrada de chão batido. Era julho e a transição do Outono para o Inverno parecia nunca ter castigado tanto a natureza como naquele ano de 2010, nos sítios que eram a maioria das residências locais do Bairro Jardim Cristo Redentor, podia se ver pessoas trabalhando em canaviais e outras montadas em cavalos a frente de rebanhos de gado guiando através dos matos altos da grande área que ainda não havia sido habitada, da janela do ônibus olhos meigos e infantis de uma criança de nove anos observavam a tudo viajando em seus pensamentos, volta e meia quando o coletivo sacolejava muito devido aos buracos da via acordava de seus sonhos, colocava suas mãos pequenas nas pernas de sua mãe e lhes fazia um turbilhão de perguntas, esta com muita paciência respondia.

- Mamãe ainda vai demorar a chegar?

- Nós acabamos de sair de casa querida. Não. Mesmo assim não vai demorar muito, a estrada tem muitos buracos e o ônibus circula muito de vagar querida.

- E por que tem tantos buracos mamãe?

- Porque não pode ser asfaltada.

- Por que?

- É uma estrada muito antiga. Tinha um homem chamado de Dom Pedro que foi muito importante, que fez muito pelas pessoas no Brasil e ele passava por essa estrada e por isso ela foi preservada desde aquele tempo entendeu ?

- Aham.

De súbito voltou a olhar a janela até que seus olhos foram se fechando aos poucos e adormeceu. Quando sua mãe lhe acordou pra dizer que haviam chegado, levantou com uma alegria contagiante ficando rapidamente de pé, estava com um vestido verde de linho com detalhes em branco e um babado que lembrava as conhecidas festas juninas, um par de sapatilhas pretas com o desenho da Minnie e um laço branco prendendo-lhe os cabelos num comprido rabo de cavalo que dava a certeza de nunca os haver cortado. Sempre ficava animada quando saia com a mãe e esta lhe disse que a levaria a um lugar muito especial hoje a deixando completamente curiosa. Desceu do ônibus e de mãos dadas com a mãe margeou uma área que não tinha muros de alvenaria, no seu lugar podia observar as grades fixas que partiam do chão cercando a frente e davam uma visão ampla da área interna, entraram pelo portão também de grades que se encontrava aberto escancarado até os cantos e se viu de frente com um galpão com outro portão só que agora de madeira, de cada lado do portão havia um vaso enorme com grandes pingos de ouro já um pouco devastadas pela força da estação, viu que tinha um homem de terno preto em pé saudando as pessoas que entravam, quando se aproximou um letreiro chamou sua atenção, nele estava escrito com letras em alto relevo “IGREJA DEUS É FORÇA” e um pouco, mas abaixo um quadro que informava o horário dos cultos, ao passarem pelo portão o homem cumprimentou sua mãe:

- A paz do Senhor irmã.

- A paz do Senhor. Ela respondeu e adentrou na igreja. Estava no auge dos seus 27 anos, uma pele morena, um rosto livre de imperfeições, olhos cor de mel, enorme madeixas negras, um corpo atraente perceptível até por baixo da longa saia do conjunto tipo terninho feminino de cor preta que estava usando e despertou os olhares tanto do homem que a saudou quanto de alguns outros que estavam no recinto, foi até um dos bancos e sentou junto com sua filha.

Havia se passado três horas de culto quando se levantaram para ir embora, despediu-se de algumas pessoas, saiu da igreja e pôs-se a caminhar de mãos dadas com a filha, olhando-a de sol saio perguntou:

- Gostou do culto filha? Se disser que não, sei que vai estar mentindo, pois estava cantando e dançando sem parar.

- Gostei mamãe. Aquele moço é muito engraçado, ela respondeu dando uma gargalhada.

- O Pastor Laurence sabe animar o culto só que você tem que prestar atenção ao que ele diz e não no que ele faz, por que a pessoa de quem ele estava falando é mais importante.

- Jesus? Ela perguntou.

- É querida. Nosso senhor Jesus o Cristo que está no Céu sentado ao lado de Deus e que toma conta de todos nós.

- Mamãe estou com fome disse mudando literalmente de assunto.

- Quando chegarmos vou preparar o almoço, seu pai já deve estar nos esperando.

- E porque não vamos de ônibus?

- Por que... Quando ia responder escutou um som alto que parecia ser de algo se chocando, só deu tempo de olhar para trás e com puro extinto protetor que só uma mãe pode ter, arremessou a filha para longe, ficando a si mesma na linha do veículo parcialmente destruído que deslizava em sua direção atingindo-a em cheio e fazendo com que desse uma cambalhota por cima de seu próprio corpo, caindo ao solo de cúbito frontal com o sangue influindo de sua boca, totalmente inerte.

- MAMÃE. MAMÃE. Gritava entre lágrimas e soluços, pulando em cima do corpo de sua mãe balançando-a na tentativa desesperada de que ela acordasse ou a respondesse, sentiu uma mão que a puxava e esperneando, e se debatendo tentava se soltar, sua visão foi ficando embaçada e turva até que perdeu a consciência e desmaiou.