Notas iniciais
Segunda parte da história, a terra depois do arrebatamento, a missão de João e o futuro de Jessica começam a ser traçados agora.

Capitulo doze

Ao se dar conta de que foi preterido por Deus não o culpou e sim a si mesmo pelos erros que havia cometido em sua vida pregressa, o que não entendia e que até nos tempos em que se travestia de pastor sempre pregou um inferno em local esmo como o centro do planeta onde só se veria fogo e sofrimento e todos sendo acoitados e acorrentados como escravos. Lembrou de uma duvida que ha muito assola os cristãos de diversas igrejas a respeito do Diabo que para alguns diz “ no mundo jaz o maligno” ou para outros “o mundo já é do maligno” e ficou mas declinado para a ultima pois o inferno era a própria Terra, no entanto não havia se deparado com o Diabo ou com algum de seus servos, ainda não, pensou nisso e sem saber se ia funcionar com algum ser das trevas correu para o quarto e pegou o criado mudo arrastou até o guarda roupas e de imediato subiu e retirou da parte de cima uma maleta preta daquele modelo tipo 007 com segredos em suas laterais, notou que estava tremendo um pouco e quase não conseguia lançar os códigos, por fim tirou de dentro uma pistola saia e blusa calibre 40 e um revolver preto calibre 357, pegou também três carregadores que estavam lá dentro municiou a pistola, guardou os outro dois carregadores e colocou as armas na cintura, armas essas que eram resquícios de seu tempo de militar onde desenvolvera um apreço por armas de fogo, embora não tivesse porte havia comprado elas no mercado clandestino que funcionava a todo o vapor no Rio de Janeiro. Perguntou-se se seria preso e como um tiro a resposta lhe causou risos em meio aos caos, policiais não vão faltar nesse inferno pensou e caminhou até a porta do apartamento e verificou que o corredor estava vazio, foi até o elevador em conduta de patrulha como havia aprendido nos tempos de quartel e notou que não estava funcionando, tomou o trajeto até as escadas e começou a descer em passos curtos. Foi tomado por uma espécie de surpresa ao não encontrar ninguém, achou, será que só eu fui abandonado.

João desceu mais de vinte lances de escada, nunca havia visto as escadas do prédio, como elas eram bonitas, todos os degraus recobertos por pedras de mármore, o corrimão era de aço inoxidável escovado que proporcionavam-lhe um brilho fosco, cheio de detalhes em forma de arcos que lembravam alianças em alto relevo, por fim deu de cara com o portal que levava ao saguão do hotel, já estava exaurido de forças e com toda a calmaria que havia visto pela frente estava até mais descontraído em seu caminhar, porém não largava a arma que segurava tão firme com a mão direita que já escorria suor por entre os dedos, a medida que ia chegando mais próximo ao térreo começou a escutar vozes, o que parecia ser uma conversa em alto e bom som começou a se tornar lamurio e João tentava em vão entender o que estavam falando, um frio enorme começou a imergir de seu interior, sentia ele começar nos nervos do couro capilar e percorrer todo seu organismo até suas mãos que numa reação natural não paravam de tremer, o suor que escorria entre os dedos começou a fluir em todo o seu corpo, mesmo assim seguiu em frente, ao virar e acessar o local viu o que lhe parecia uma reunião de condomínio, dezenas de pessoas em uma espécie de formação militar, algumas lamentando-se, dizendo que não queriam e outras gritando para essas calarem suas matracas, ao fundo João ouvia uma voz muito grave, agourenta que era a mais forte de todas e esta bradava dando ordem as pessoas.

– Vocês foram esquecidos por esse monstro infame que chamavam de Deus.

– Ah! O todo poderoso Javé. Passava-se por bondoso, mas se divertia de sua cadeira vendo a agonia de vocês, vendo-os sofrerem de doenças, passarem fome, serem mortos em guerras, dobrarem os joelhos pedindo ajuda, ao mesmo tempo em que faziam apostas com os seus malditos anjos de quanto tempo aguentariam o sofrimento e aumentando a dose cada vez que via vocês resistirem. Agora vão obedecer ao verdadeiro senhor, ao único Rei, ao primeiro a pisar nesta terra.

– Vão obedecer a Lúcifer.

João ouvindo aquilo foi se afastando de costas tentando rapidamente sair dali, quando esbarrou no balcão da recepção fazendo um barulho e de repente todos viraram e fixaram os olhos nele. A cena foi aterrorizante, dezenas de pessoas com olhos fixos em sua direção e o que chamou a atenção de João foram as marcas, todos estavam marcados com o numero, aquele numero de que tanto foi falado pelos cristãos e que muitos zombavam, estavam em todos os locais, testas, braços, mãos, marcados como gado a ferro quente, todos com aquele 666 enorme que podia ser visto a metros de distancia, diferente do que João havia percebido, aquele fogo que se via em volta de tudo e que pra ele não estava quente afetava a todos, eles nitidamente sofriam com aquele calor todo, por isso as lamentações e os murmúrios ouvidos por João ao se aproximar do saguão . Em meio aquele aglomerado de pessoas João observou o autor da voz que proferia as palavras de exaltação a Lúcifer, ele e mais um grupo de 11 seres que divergiam da multidão, eram como esboços de seres humanos, rascunhos, um misto de homem e demônio, tinham uma aparência sombria, eram como se uma má formação os tivesse assolado, sua pele era enrugada, cheia de poros e completamente enegrecida, em suas costas era possível ver um par de asas atrofiadas tão pequenas que pareciam não ter tido tempo hábil de crescer, o mesmo acontecia com suas testas com o que João achou ser chifres. De repente o som agourento daquela voz acometeu João de um temor maior quando ouviu proferir as palavras:

– Peguem-no e o marquem, aqui todos são servos do senhor negro.

Todos os marcados começaram a andar em sua direção ao som de risadas macabras dos seres que haviam dado a ordem, João pulou o balcão com se procurasse manter uma certa distancia deles, gritando para que eles parassem em nome de Deus, percebeu que seu gritos eram em vão, então levantou a arma que segurava em suas mãos tremulas e fez o primeiro disparo acertando um dos marcados no peito que caiu no chão praticamente sem vida e assim foi com todos que chegavam perto até que acabou as munições da pistola, enquanto tentava pegar mais um carregador em seu bolso para municiar novamente a arma a cena que presenciava retirara suas esperanças de sair dali intacto, a medida que iam caindo mortos os marcados começavam a sofrer uma metamorfose e a decomposição do seu corpo os transformavam aos poucos em criaturas como as que estavam dando ordens a eles.

João ficou ali efetuando disparos e acertando todos quantos vinham em sua direção até que acabaram as munições e sem saber o que fazer começou a correr de volta as escadas e como em um estouro de gado os muitos marcados que restavam saíram em sua captura e em meio ao seu desespero com o coração batendo desenfreado e as coordenações motoras quase extintas tropeçou e caiu ao passar o primeiro degrau da escada, e se arrastando em direção a parede vendo os marcados chegarem cada vez mais perto começou a clamar a Deus em oração como fazia a vida toda cada vez que se via em momentos difíceis.

– Suas orações são inúteis. Javé não tem mais poder sobre esse mundo. Esse mundo nos pertence agora. Falou a criatura que dava ordens.

– Agora peguem ele e o segurem para que eu possa marca-lo. Concluiu.

E no momento em que colocaram as mãos sobre ele fagulhas douradas impediam que os marcados conseguissem segura-lo, era como se algo os repelisse, os instantes seguintes foram como se fogos de artificio estivem estourando em algum show pirotécnico a medida que um monte de mãos tentavam em vão domina-lo.

– Parem. Parem agora.

O som da voz da criatura fez com que todos congelassem e abrissem um enorme corredor para dar passagem a ela e as demais criaturas que já haviam aumentado em quantidade.

– Quem é você?

– Quem é você que emana aura divina?

João acuado e amedrontado não sabia o que responder, sua voz saiu como um sussurro:

– Sou pastor.

– Um militante de Deus deixado para trás. Imagino quão horrível foram às coisas que você fez pra ter sido esquecido. Ironizou.

– Mas por que não consegui senti a sua presença no prédio? Por que está emanando essa aura?

– Não sei. Eu não sei de nada. Por favor, me deixa em paz.

– Vamos ver se também vai te ajudar contra nós.

E como se fosse um só bloco todas as criaturas deslizaram juntas pelo ar sem usar os pés que lembravam patas de animais e passando por entre todos os marcados que os observavam chegaram em João e o seguraram sem nada de mais acontecer.

– Parece que sua proteção não funciona com nós. Disse em meio a risos a criatura que falava por todas.

Esta levantou o dedo e a unha que parecia de galo de tão fina e negra se acendeu em brasa como um vergalhão que tivesse sido levado ao fogo durante horas e foi chegando próximo a testa de João que a essa altura não se debatia seguro pelas outras criaturas. Já se preparava para fazer sua arte quando um raio de luz veio do alto quebrando o teto e ao tocar o chão uma enorme explosão de poder englobou todas as criaturas e marcados arremessando-os em seguida para longe de João. Caída em um canto a criatura que falava em nome de todas levantou e olhando para aquela forma brilhante que conhecia muito bem perguntou:

– O que você faz aqui no nosso mundo? Esse mundo agora e nosso.

E de súbito ela e todos as outras incluindo os marcados secaram e foram deteriorando até se acabarem em um monte de poeira.