O Protegido
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Capitulo nove
Jessica caminhou um pouco na escuridão da estrada muito desconfiada de que viessem atrás dela pelo que tinha feito, por um tempo pensou em voltar e ajudar o pai , limpa-lo fazer-lhe um curativo e barbeá-lo como tinha feito por algumas vezes que o encontrava totalmente desacordado sob o forte efeito do álcool que ingeria quase que o dia todo, todos os dias da semana, mas percebeu que dessa vez passara dos limites tinha o esfaqueado, pensou porque o pai tinha feito isso com ela, tinha a violentado, o mesmo pai que muito a aconselhara sobre os meninos que ela dizia querer namora-la, sempre dizia “filha eu sou homem, e homem só quer se aproveitar, que nos dia de hoje ninguém queria nada sério, que os meninos só queriam bagunça e iam tirar-lhe a virgindade e depois iriam embora, dizia também que era pra eu estudar, me formar e só ter relações sexuais pela primeira vez quando não dependesse de homem nenhum, que fosse independente, pois ai não cairia na lábia dos que me prometessem mundos e fundos só pra me levar para cama” seria o mesmo que me trataria como um animal contrariando tudo que havia me dito. A noite estava fria e Jessica não tinha a menor noção do que faria, de para onde iria, ou de ao menos onde passaria aquela noite, só tinha certeza de uma coisa, não voltaria para casa, nunca mais.
Caminhou até a saída da estrada que trilhava para ir ao colégio, porém pensou que também poderiam procura-la na escola, ficou com medo e vergonha de isso acontecer dentro do ambiente que embora não fosse muito fã de passar suas manhãs ao menos se sentia segura, então tomou o caminho oposto e caminhou por mais alguns minutos até que se deu por conta de que estava em frente a um galpão abandonado, parou e por algum tempo ficou aérea contemplando o local, se alguém tivesse observando-a com certeza diria que estava sonhando, ou que seu espirito estava fora do corpo, e estava realmente, conhecia o lugar, as grades na frente do terreno agora assoladas pela ação do tempo dando mostras do péssimo estado de conservação por conta da ferrugem na estrutura de ferro, os pingos de ouro que eram somente pequenos arbustos bem podados agora eram imensas arvores com suas folhas dançando ao som do vento dando um destaque sombrio as grandes portas de madeira carcomidas por cupins, porém em sua mente era tudo perfeito como há quatro anos, podia ver tudo como num filme, todos os fatos e acontecimentos daquele dia fatídico que misturava alegrias e tristezas de uma forma homogênea que já não sabia distinguir cada um dos sentimentos dispostos ali, sentimentos estes que eram ingredientes de uma espécie de massa de bolo cujo resultado final era a morte de sua mãe e o caos em que sua vida se tornara. Mesmo com isso tudo aflorando em seu interior despertou de seu sonho temporão e olhou pelo lado bom, não havia movimentação de qualquer tipo de pessoa, o local estava completamente abandonado o que o tornava um ambiente propicio para se abrigar do frio e se esconder se alguém a tivesse procurando.
Com um movimento sutil para que não fizesse nenhum barulho forçou as grades de ferro fazendo com que a corrente que envolvia as partes do portão chegassem ao seu limite conseguindo assim um espaço para projetar seu corpo para dentro do terreno e passou de forma esguia percebendo que o mesmo voltara a seu estado inicial após sua passagem, caminhou até a porta e forçou-a afim de ver se estava aberta, o que logo constatou que não e percebeu que nem na força conseguiria abri-la pois apesar da aparência de frágil devido a ação do tempo a mesma estava firme como rocha, margeou a laterais do galpão fazendo o mesmo procedimento em todas as janelas e ficou um pouco frustrada ao ver que todas estavam bem fechadas, já fazia o movimento para se viram em direção a saída quando avistou o basculante do banheiro semiaberto e colocando um dos vasos de cimento que antes abrigara alguma planta emborcado subiu em cima dele para conseguir altura suficiente para terminar de abrir e viu que com um pouco de esforço conseguiria passar pelo vão, e foi o que fez, tateou as paredes até que encontrou o interruptor e para sua surpresa a lâmpada se acendeu clareando uma grande área do local que ela aproveitou para olhar em volta e confirmar se estava realmente só, percebeu que não havia mais os muitos bancos de que se lembrava, somente alguns que estavam quebrados e por isso não devem ter sido levados, caminhou até onde era a cozinha e o ambiente era o mesmo, um enorme cômodo vazio se não levasse em conta o pequeno armário no canto com uma cruz vermelha desenhada, olhou para a mão e novamente para o armário e foi na sua direção, para sua felicidade ao abrir encontrou medicamentos que foi olhando um por um e constatou que não sabia para que serviam a maioria, pegou uma atadura em uma caixa de papel e um líquido próprio para curativos, foi até a pia e começou a tirar a roupa e pôs-se a lavar as suas partes intimas que estavam sujas de sangue provenientes do abuso sofrido por seu pai, depois de vestir-se novamente retirou a fita feita de sacola e desenrolou o pano de prato da mão que revelou um enorme corte que ainda sangrava muito, lavou as mãos com o maior cuidado, colocando o remédio e em seguida enrolando a atadura para finalizar.
Um curativo digno dos melhores enfermeiros pensou e riu meio sem graça. Voltou a ficar apreensiva quando percebeu que não teve a mesma sorte em relação a alimentos, não havia nada que pudesse ser comido e já passava das dez da noite e seu estomago estava lembrando ela que seres vivos sentem fome, foi até o salão juntou dois bancos que estavam quebrados forrou com papelão que encontrou na cozinha e percebeu que dava um ótimo lugar para dormir, decidiu apagar todas as luzes que havia acendido para não chamar a atenção de quem passasse pela rua, sentia-se muito cansada, o dia tinha sido o pior da sua vida, deitou e esperou que o sono viesse e a fizesse esquecer-se da fome e da dor emocional que estava sentindo naquele momento, o que não demorou muito a acontecer.
Jessica acordou de súbito com o bradar de um som altíssimo e como se algo a estivesse chamando, uma impaciência dominava seu ser e a acometia de uma forma que nunca havia acontecido e em seu interior só se passava a informação de que tinha de ir para a fora daquela igreja abandonada, correu para a porta da cozinha que tinha constatado estar fechada apenas por um trinco interno e abriu indo imediatamente para o quintal onde teve seus olhos cegados momentaneamente , quando foi se acostumando ao ponto de luz que emanava do céu em meio a uma grande escuridão que fez o dia virar noite pode perceber o que estava acontecendo, vislumbrou a magnitude de tudo aquilo e esperou por sua vez, ficou ali vendo as diversas silhuetas vindo e indo em direção à luz e imaginou como era esplendoroso e que o pouco que lhe foi passado de informação em sua infância a respeito do que aconteceria era verdade, caiu de joelhos e começou a orar resgatando um pouco da fé que perdera com os acontecimentos que tomaram conta da sua vida, até umas horas atrás não se imaginaria naquela posição, mesmo que por pouco tempo, dirigia seus aflitos clamores aquém de direito mas foi percebendo que não obtinha resposta e fez uma rápida retrospectiva mental até que parou no seu pai, e na facada, e no sangue e em morte, nesse momento já perdera as esperanças, de repente sentiu um súbito mal estar e foi ficando zonza até que desmaiou.
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