O Professor

15 Capítulo 15 - Engano


Notas iniciais
Desculpem mesmo a demora. ai tão dois caps

Como tudo o mais que é bom, a estadia em Madeira também encontrou seu fim.

Hermione não podia dizer que não havia aproveitado bastante a viagem, mas ela certamente escolheria ficar um pouco mais no local se pudesse.

No último dia de hospedagem, Rony e ela fizeram amor por tantas vezes e de tantas formas diferentes que durante o vôo foi até possível manter o ruivo em seu lugar, embora ele fosse muito persistente e muito bem sucedido na arte de manipular as sensações e os sentimentos das pessoas.

Fora o que fizera com ela, concluiu Hermione, depois de se despedir dele, antes de subir para seu apartamento. Ele a manipulava, a controlava de certa forma que ela perdia toda a razão, a vontade própria e a moral.

Assustou-se ao perceber que não se importava de perder nada disso se fosse o preço para ter Rony ao seu lado.

Não só por dois meses, não só durante essa ridícula proposta de vingança. Mas,para sempre.

Desde que haviam voltado para casa, desembarcado do avião, para se dizer com mais precisão, ainda não haviam se desgrudado, Rony estava todo cheio de cuidados, de carinhos e gracejos e ela se sentia no céu com isso, como se fossem realmente namorados, perdidamente apaixonados um pelo outro.

Ela só tinha duas certezas, a primeira era que ela sentia isso tudo por ele e a segunda era que ele não a correspondia da mesma forma.

Como poderia? Como ele poderia amar de forma tão intensa alguém como ela?

Ao pé do edifício onde morava, Rony lhe dera uma triste notícia.

“É uma viagem rápida, apenas três dias. Vou a negócios” – Ele lhe balbuciava, como se não quisesse tocar no assunto. – “Volto correndo para os seus braços, olhos de mel”

Mas, a verdade era que Rony precisava se ausentar três dias para preparar uma surpresa para ela, onde, enfim, pediria sua mão em casamento.

“É uma mentira do bem” – Ele dizia para si mesmo, rindo por dentro – “Vai valer a pena, morena! Espere só!”

E os três dias se passaram e Hermione sentia-se cada vez mais sufocada, mais angustiada e absurdamente desejosa. Queria Rony com ela, precisava de Rony com ela e não suportava mais a idéia de viver sem ele, nem sequer conseguia cogitar essa possibilidade.

No dia marcado para o retorno dele, Hermione acordara cedo, fora trabalhar antes do horário e ficara o dia inteiro desatenta, aérea, olhando o relógio de instante em instante.
Ao final do expediente praticamente saiu correndo do edifício do trabalho, gaguejando um cumprimento rápido à secretária e à MacLaggen que passava em frente à sala dela bem na hora.

Lembrava-se do que Rony dissera: “Pode me esperar em casa no terceiro dia, meu porteiro te deixará entrar”

De fato, o porteiro já a conhecia e sorriu para ela como se já a estivesse esperando.

Entrou apressada ao apartamento dele, inspirando o ar com força, o lugar estava carregado com a fragrância dele e Hermione percebeu com um sorriso de satisfação, que também havia um pouco de si mesma naquele pequeno lar.

“Vou preparar sua comida favorita” – Disse empolgada para as paredes e seguiu para a cozinha.

Ascendeu o fogo e colocou uma panela com água e óleo para esquentar e começar a fazer o macarrão quando o telefone começou a tocar uma, duas, três vezes.

Insegura e alarmada, Hermione demorou-se no dilema entre ficar de olho nas panelas do jantar surpresa de Rony ou atender ao telefone que, afinal, podia ser importante, podia até mesmo ser ele! Sabendo que ela já estaria ali.

Com esse pensamento, não se conteve e correu para a sala, quando chegou ao cômodo à mensagem da secretária eletrônica de Rony já estava no final.

…Logo após o bip.

Hermione hesitou e estendeu a mão ao telefone, até que ouviu o começo da mensagem e estarreceu.

Oi Ronie, aqui é a July, July Brown, você não se esqueceu de mim, não é? Bom, eu acho que não, afinal você repetiu tanto esse nome ontem, não foi Ruivinho? Foi tão inexplicável pra você quanto foi pra mim? De qualquer forma, estou ligando para agradecer pelas maravilhosas horas de prazer que compartilhamos ontem, amor. E que seu apelido carinhoso ainda está me fazendo rir que nem boba. Nunca ninguém havia me chamado de olhos de mel, acredita nisso? Me liga quando chegar em casa, ‘tá? Estou morrendo de saudade, beijinhos da sua deusa.

A linha caiu e Hermione foi junto com ela.

Desabou, simplesmente deixou-se afundar no sofá, com o rosto entre as mãos, os olhos cheios de lágrimas, ultrajada, usada, suja e… Ordinária, Hermione sentia-se terrivelmente comum, obsoleta.

Nesse exato momento, Rony entra pela porta do apartamento, descontraído, seus olhos a encontram, sentada no sofá, mas ele parece não perceber o estado de espírito dela.

“Olhos de mel!” – Rony exclamou, sorrindo.

Foi a gota que fez a água do balde de Hermione transbordar.

Hermione levantou do sofá, trêmula de raiva, de frustração, de humilhação. Só então Rony percebeu que havia algo errado.

“O que aconteceu, minha querida?”

A resposta veio cheia de força e intensidade, bem no meio da bochecha esquerda.

“Eu não sou sua querida!”

O torpor tirara a fala de Rony, que simplesmente olhara para ela, boquiaberto, cobrindo a parte atingida que ardia consideravelmente com a mão. Hermione lhe apontou o dedo no meio do rosto, seu rosto estava inflado, corado e franzido. Ela estava uma fera.

Mas… Por quê?

“O que foi q…”

“O que foi que você fez?!” – Ela gritou estrangulada, gesticulando forte. – “Pergunte à sua amada July Brown!”

“Quem?!”

Essa história fazia menos sentido cada vez mais.

Não!” – Ela berrou na cara dele, Rony recuou – “Não se faça de desentendido, Ronald!”

“Mas, do que é que você está falando, Hermione?!” – Ele berrou de volta, irritado por nem estar entendendo a situação e já estar sendo crucificado.

“Da sua viagem de negócios” – Ela lhe cuspiu com sarcasmo carregado – “É disso que estou falando!”

Hermione caminhou até a secretária eletrônica e apertou o botão de mensagens, imediatamente após o bip a voz demasiadamente açucarada e enjoativa voltou a preencher o ar da sala.

Oi Ronie, aqui é a July, July Brown, você não se esqueceu de mim, não é? Bom, eu acho que não, afinal você repetiu tanto esse nome ontem, não foi Ruivinho…?

“O que é isso?” Rony indagou confuso.

“Muito interessante o seu trabalho, Ronald. Realmente fascinante”.

“Hermione, eu não conheço essa mulher” – Ele respondeu prontamente, encarando-a sério, tentando disfarçar a pequena felicidade que surgiu em seu peito ao notar que ela estava com ciúme dele.

Claro, por isso ela te ligou pra agradecer as maravilhosas horas de prazer que vocês compartilharam ontem” – Hermione rebateu surpresa por usar a ironia tão bem mesmo imersa em tanto ódio. – “Faz todo o sentido do mundo, porque eu não pensei nisso antes?!”

“Hermione, olha pra mim” – Rony tentou se aproximar, mesmo sentindo que dessa vez, seus beijos e seu charme não conseguiriam resolver a situação, não no estado em que ela estava – “Eu não conheço essa July, eu nunca nem ouvi o nome dela. Eu entendo o que deve parecer, mas você não precisa sentir ciúme.”

Não é ciúme!” – A frase rasgou a garganta de Hermione no exato momento em que a mensagem chegava ao fim, ela gritara, tentando sobrepor sua voz ao som metálico e pegajoso que saia da secretária “Eu me sinto enganada, você quebrou o contrato!”

“Quê? Você não está dizendo nada com nada!”

“Ah, você não se lembra?” – Ela andava de um lado para o outro na frente dele, alucinada, secando os olhos o tempo inteiro com uma mão, tentando domar os cabelos com a outra, esquivando-se dele e ele a observava, tão surpreso que não conseguia reagir – “Você disse, quando lhe fiz essa proposta idiota, você disse que aceitaria, se pudesse me fazer exigências… Ainda não se lembra? Eu me lembro de cada pequeno detalhe! Você me disse, abre aspas, nestes dois meses será só minha, assim como eu serei só seu. Compartilharemos disso juntos, fecha aspas. Lembra disso, Ronald? Como você pôde romper com o nosso contrato?!”

Então era isso, Rony pensou consigo mesmo, sentindo os ombros pesarem, essa era a confirmação de que Hermione enxergava todo o tempo que passaram juntos apenas como parte do plano, nada mais do que um negócio, como tantos outros com que lidava. E agora estava furiosa, não por ciúme, claro que não, apenas porque fora passada para trás, ou pensava que fora.

“Mas, eu já devia saber, não era? Você tentou me avisar, nesse mesmo dia, um pouco depois de ter dito isso, você me avisou…”

“Eu lhe avisei que eu não fazia jus à fama que me atribuíam. Eu lhe avisei que gostaria de assumir um compromisso com você!” – Frisou a última parte, na esperança de que ela entendesse que ele era absolutamente louco por ela e que no bolso dianteiro do seu casaco já havia uma caixinha aveludada, guardando uma jóia especialmente para ela, que combinaria tão bem com sua pele, com seu corpo delicado…

“Obrigada, mas acho que já aprendi o suficiente, professor” – Hermione respondeu com frieza, se aprumou, jogando os cabelos para trás, apanhou sua bolsa e caminhou em direção a saída do apartamento.

“Hermione!” – Ele a chamou, alterado, segurando-a pelo braço – “Não fale assim comigo.”

“Solte-me” – Ela vociferou mais séria do que ele jamais a vira. Havia tanta decisão em seus olhos, tanta ira, que ela poderia, se assim o quisesse, matá-lo com o olhar.

“Hermione, sente-se, vamos conversar, por favor” – Ele pediu mais baixo, mesmo que as palavras dela o ferissem cada vez mais, o irritassem cada vez mais, ele tentava, a todo custo, não ser grosseiro, não passar dos limites com ela.

“Não sou uma das suas amiguinhas, Ronald” – Ela lhe rebateu, as palavras se arrastavam através dos dentes cerrados – “Não pode e não fará o que quiser comigo. Sou diferente delas.”

“Eu sei que é!” – Em agonia, ele estava em agonia. Ele sabia de tudo isso, entendera tudo isso, por isso queria casar-se com ela, ter filhos com ela. Ela era diferente, ela era única. Era sua de uma maneira que ninguém mais fora. Assim como ele fora dela.

“Então não me trate como uma delas. Solte o meu braço agora mesmo.”

“Onde é que você vai, caso eu a solte?”

“Procurarei Cormack, é claro” – Ela lhe respondeu com frieza, não sabia por que dissera isso, talvez realmente o procurasse, talvez não. Queria apenas mostrar pra ele que ela também não estava assim, tão escassa de opções. Ela também tinha seus admiradores.

“Vai procurar o MacLanche?” – Sem se conter de raiva, Rony apertou a pressão dos dedos no braço dela, trêmulo.

“É, sabe. Estou mesmo com fome…” – Ela sorriu cinicamente, ignorando o aperto no braço.

“Você não pode. Você é minha, Hermione e sabe disso” – Ele balbuciou ilogicamente. Falando alto o que seu cérebro repetia atordoado.

“Nosso contrato não é mais válido, Ronald. Você acabou com ele.”

“Quer dizer que você vai atrás dele, pronta pra mostrar seus novos truques?” – Ele cuspiu as palavras, irritado.

“É esse era o plano, não era?” – Ela rebateu como se não ficasse abalada com as palavras dele.

“É, foi sempre o seu plano, nunca mudou?”

“Nunca” – Ela mentiu descaradamente, Afinal, era advogada.

“Nem por um segundo?”

“Jamais me ocorreu que terminasse de outra forma” – Ela endossou, uma lágrima escorreu por seu rosto, desmentindo-a.

“Eu nunca ouvi falar de July nenhuma” – Ele lhe respondeu, sem mais nada para dizer.

“Então onde é que você estava nesses três dias, se não estava dando aulas particulares de reforço?”

Ele a encarou, indignado. Estava sendo acusado de algo que não fizera e ela acabara de lhe jogar na cara que nunca se envolvera com ele e que nunca se envolveria. Não de forma emocional.

“Não importa mais”

Ele soltou o braço dela com violência e se afastou, cerrando os punhos, impedindo a si mesmo de agarrá-la e tomar seus lábios a força, vontade essa que ameaçava corroer seu corpo.

“Nada disso importa mais.”

Hermione o encara nos olhos, ele corresponde, talvez tenham dito muito mais naquele olhar do que na discussão, mas nenhum dos dois comentou nada, tudo o que ela disse, depois de subir a alça da bolsa mais para cima no ombro, foi:

“Concordo com você. Não importa. Não mais.

E o último som que ele ouviu foi da porta batendo atrás dela, antes de se deixar afundar no sofá, o bolso dianteiro do casaco parecia muito mais pesado agora, como se a aliança fosse feita de chumbo, puxando-o para baixo.