O Prisma
4 Super Nova
Notas iniciais

Brenda demorou mais do que o esperado para falar o que ele devia fazer.
O levou para um cômodo depois do corredor, de paredes claras, mas ainda com a mobília escura e tempestuosa. Haviam poucas coisas lá. Uma cadeira ao fundo, uma estante na parede e um tapete enfeitando o chão. Armas dispunham em stands específicos e suportes de metal prateado. Um rifle quase do tamanho dos braços de Enzo jazia ali, bem na sua frente. Pensou quantas vítimas aquilo já havia vitimado.
— Acho que é aqui que começamos — ela anunciou. Olhou pensativa para as armas na parede, parecendo escolher. Olhou para o suporte onde a Roza deveria estar, soube quando viu uma flor entalhada na parede, com muito apreço e detalhes.
Enzo anuiu para ela.
— Você quer que eu rastreie ele, não é? — perguntou, andando em volta do cômodo. Passou o dedo por uma trilha de poeira que havia em uma escopeta, temendo disparar por acidente. Se desfez da sujeira na ponta do dedo quando os estalou, criando fagulhas no ar. — Foi para isso que me chamou, certo?
— Sim — concordou Brenda. Seu olhar castanho caiu sobre ele, e ele podia ver a tristeza que aqueles olhos ostentavam. Apesar de parecer de ferro e inquebrável, ela estava fadigada. — Eu não entendo muito dessas coisas, mas o que você precisa ao certo?
— Algum pertence dele, ou fio de cabelo. Ou sangue — explicou. — Depende muito.
— Não tenho sangue dele, nem um fio de cabelo. — Ela encurtou a boca para o canto do rosto. Arrumou um dos cachos que escapavam das presilhas, o colocou atrás da orelha. — Mas — Foi até uma das pistolas na parede, e analisou a fundo as armas. Pegou uma arma curta e escura, de detalhes em dourado, tão bonita quando a Roza. — Eu acho que isso deve servir.
Ela entregou a ele, que pegou, sem jeito. Não tinha experiências com armas, e não pretendia ter. Tudo o que precisou em sua vida foi de sua mágica, se defendia com ela, se protegia com ela. Lembrou-se de uma vez. que foi abordado por garotos armados em um dos becos da cidade, logo quando chegou. Eles o renderem e o jogaram contra uma parede de tijolos vermelhos, que fedia a bebida alcoólica, como eles e todo o lugar. Injuriado, se levantou e fez a arma na mão de um dos rapazes esquentar. O metal se aqueceu sem dar indícios, só avisando quando ficou avermelhado, quase laranja. Ele berrou de dor, deixando a arma cair no chão. Enzo a derreteu por completo no final, e naquele dia viu o quão os ordinários eram frágeis. Precisavam de armas para os defender, pois não tinham chances algumas com os outros infernais. Mas talvez esse fosse o dom deles, criação de defesas.
Enzo, ainda com os dedos incertos, evitava chegar perto do gatilho, principalmente quando puxou a arma um pouco para perto.
— Não precisa ser tão cuidadoso, está travada — ela avisou, com sua voz aveludada que o aliviou.
Fez que sim com a cabeça, ainda olhando para ela como uma criança.
— Acho que esse é o pertence mais querido dele — começou, apontando para a pistola. — É a única arma que ele nunca descartou. Foi dada pela minha mãe, antes dela morrer.
— Ah, claro. — Assentiu com a cabeça. — Acho que já posso começar a fazer.
Enzo não fazia a mínima ideia por onde começar.
Claro que sabia como realizar o feitiço, mas não lembrava de todos que já havia feito ou pesquisado de cabeça, sua memória podia ser boa, mas não era tão vasta. Com seus dedos calmos, apalpou mais uma vez a arma de ferro gelado, tentando ter um lampejo de ideia de como o fazer. Haviam vários métodos de rastreio, um mais trabalhoso que o outro. No entanto, com os poucos recursos que ele dispunha naquela hora, tinha que fazer o mais simples.
Pediu para ela se aproximar, ela fez o que ele mandou, relutante. Instintivamente colocou seus dedos firmes em cima da arma, mesmo sem ele instruir. Enzo começou a entoar alguma coisa em uma língua que ela não sabia nem como ouvir direito, o murmúrio soava como queixas, mas as palavras eram suaves e claras, e dicção dele podia se dizer que era melhor naquele idioma estranho.
A única lâmpada dali falhou algumas vezes, enquanto ele continuava a balbuciar os dizeres. A magia seguiu como todas as outras. Faíscas transbordando dos anéis e dos dedos, luzes ao redor piscando e a estranha sensação de algo fluindo pelo corpo. Era um sentimento que poucos sabiam definir com palavras, era como ser um rio, e sentir a água invisível correndo dentro de si, como se algo em seu peito estivesse fluindo, uma energia que o deixava tenso e relaxado ao mesmo tempo.
Ele fechou os olhos, mas Brenda, curiosa, continuou com os seus abertos.
O cômodo foi para um breu no próximo instante, e ela deu um salto curto no mesmo local onde estava. A lâmpada se apagou sem ninguém mexer no interruptor, e, agora, a única luz que iluminava ali eram as fagulhas que vazavam das mãos de Enzo. Ela apertou mais forte a arma, deixando as juntas mais claras e quase se cortando com o ferro antigo. Havia tomado a decisão de enfim fechar os olhos, quando viu algo no chão a sua volta.
Eram riscos vermelhos, como se gravados com um ferro em alta temperatura. O desenho concreto começou a se formar, e ela viu que estava dentro de um círculo, com outros círculos dentro, circunferências menores e vários pontos escuros. Dava uma lembrança vaga do universo, suas estrelas e seus astros.
Não precisou fechar os olhos. Foi tomada por uma visão antes.
Seu pai.
O viu, acorrentado em uma parede, com mais pessoas a sua volta. Procurou virar o rosto para ver meias, localizar aquele local, mas era muito escuro, e o feitiço era tão limitado. Era como estar presa olhando para um tesouro, mas não poder avançar. AS pernas tremiam, os braços almejavam para avançar e envolver o pai num abraço caloroso. Mas não conseguia sair do local, braços e pernas congelados em uma sensação que causavam calafrios.
Voltou para a realidade com um solavanco que nunca existiu.
Enzo a olhava, o olhar denunciando ter tido a mesma visão que ela, o pesar debaixo dos cílios escuros e pesados. Uma fumaça escura saia do chão envolta deles, e o círculo gravado exalava cheiro de queimado. Era exatamente o mesmo que ela havia visto durante a mágica, os planetas, estrelas e o universo.
Enzo segurou fortemente a mão dela, apertando bem os dedos. A arma caiu no chão com um baque repentino. Ele acompanhou o movimento, as pernas exaustas falharam.
— O que houve? — ela perguntou, de joelhos com ele nos braços.
Enzo tentou me levantar, mas as pernas não o obedeciam e permaneciam onde estavam. Aquela sensação de cansaço invisível que sempre sentia quando ficava fadigado decido o uso de magia. Era como correr duas vezes a maior quadra do mundo, parado, sem sair do lugar. O ar faltavam nos pulmões, pareciam sair pelos poros, o sangue fervia nas veias e os músculos se contraíam.
— Não é nada. — tentou acalmá-la, mas ela continuou olhando ríspida exigindo uma resposta decente. — Eu só estou cansado, fazer isso exige um pouco de mim, principalmente depois da apresentação.
Brenda colocou sua mão junto a dele, acima do chão de madeira. Olhou com olhos fraternos, um olhar que Enzo havia recebido tão poucas vezes que mal sabia reconhecer. As pessoas geralmente o olhavam com receio, principalmente as que realmente o conheciam. Um ponto era alegre o fato de nenhuma que o conhecia ainda estar viva, por outro lado era tão triste. Ela abriu a boca lentamente, o hálito quente contra seu rosto.
— Pegue minha energia, sei que pode fazer isso.
Por um segundo hesitou. Como ela podia confiar nele? Haviam se conhecido a poucas horas. Caso errasse na dose, poderia acabar com toda a vitalidade dela, a deixando em coma, ou matando mesmo. Não era uma solicitação simples o que ela havia dito, era algo de muita confiança.
— Não é preciso. — falou, arfando baixamente. — Logo estarei bem, não se preocupe. Só preciso descansar.
Ela o encostou contra uma parede, e lá o deixou. Saiu pela porta logo em seguida, prometendo trazer algo para repor as energias dele.
Enzo pensou sobre como Brenda tratava a vida, em um olhar tão mísero. A cena no carro mais cedo, ele morreria caso não abaixasse, caso não a escutasse. Ela sabia como fazer as coisas, sabia como viver e sobreviver.
***
Enzo fechou os olhos e sentiu ser encoberto por um calor.
Ariel entrou pela porta nesse momento, quebrando um pouco da tensão que havia nos ombros cansados de Enzo. Ela sorria com o canto da boca, com esperanças. O cabelo loiro preso em um coque acima da cabeça, brilhando junto com a lâmpada que já havia voltado a pegar, e fazia das madeixas presas uma segunda fonte de luz.
Ariel trazia em suas mãos uma bandeja prateada, com potes, sanduíches e xícaras.
— Brenda me disse que estava cansado. — falou, sem compromisso. — E que ia precisar de bastante comida para se revigorar.
Ela se sentou ao lado dele, sorrindo alegremente ao vê-lo naquele estado. Os olhos claros e esverdeados brilhando de curiosidade em saber sobre ele. Enzo não duvidaria de uma pergunta enfadonha, podia apostar tudo depois de fazer um feitiço de rastreio para uma caçadora de recompensas, que havia matado demônios mais cedo, junto com um menino vestido de mágico. Se deu conta que ainda vestia a fantasia de apresentação, e se sentiu tão ridículo com aquilo, apesar de o deixá-lo ligeiramente mais elegante.
— Então. — ela começou, um pouco sem jeito. — Brenda me disse que o achou no show de mágica, não é?
Ela preparou uma xícara de café o deu na mão dele, abriu um pote que havia bolachas e quitutes.
— Falando assim até parece que sou um cachorro em beira de estrada. — brincou, tentando descontrair um pouco. Tossiu quando não teve ar suficiente para fingir uma risada, e o café quente ameaçou cair no seu colo. — Mas é basicamente isso. Era a minha noite de glória, e ela estava assistido, eu acho. Para falar a verdade não lembro de ter a visto.
Ariel anuiu, e comeu um pequeno sanduíche. Mastigava lentamente, fitando os traços mais ocultos no rosto dele. Enzo reparou que se perdeu olhando para ela também, os olhos tão claros e num tom esmeralda ascendente.
Se transformaram, de um minuto para outro, em olhos de serpente. Amarelados e em fenda, ameaçadores e ferozes. Sentiu a mente descascando aqueles encantos de disfarça, que a primeiro momento não conseguiu captar.
— Você é uma ghoul! — anunciou o que ela já sabia. Se inclinou um pouco para trás, reagindo com a surpresa.
Ela fez que sim com a cabeça, não dando tanta atenção para a descoberta inédita dele. Bebeu um pouco de chá e olhou para cima.
Enzo tentou mudar de assunto para disfarçar sua atitude infantil.
— O que houve com o pai dela?
Ela o olhou de soslaio, os olhos de cobra refletindo a luz superior.
— Ele foi raptado. Mas por quem? Ninguém sabe. Sumiu, de um dia para o outro. — Ela respirou fundo para continuar, não ligando para os suspiros de surpresa de Enzo. — Existem outros desaparecimentos na cidade, mas ninguém sabe a causa. A incidência demoníaca vem aumentando nos últimos meses, e dizem que há uma teia de informações desses demônios. Mas isso é muito ridículo, mas notícias correm como o vento, se houvesse, saberíamos. Então, o que conseguiu ver com o feitiço?
— Nada de mais. — falou, descontente. — O objeto não tinha um elo tão forte, sem falar que alguém ocultou o rastro dele com magia. Sentia que algo enfraquecia o meu poder.
— Você está dizendo que não tem como rastreá-lo?
— Sim, infelizmente. — deixou escapar.
Brenda apareceu na porta, dizendo com desanimo na voz.
— Algo já me dizia isso. Vou ter que ir pelo método convencional mesmo.
Ariel suspirou, e foi em direção a namorada.
— Eu já sabia disso desde o começo, quem o pegou, com certeza, não é tão burro. — Ariel a abraçou, mas ela estava tão fria que não ligou. — Jordão está na sala, e quer falar com você.
Enzo pensou ter visto uma lágrima escorrendo nos olhos de Brenda. O tom de voz dela era bem tristonho, e condizia bastante com a situação. A visão que ele tinha dela estava quebrada agora, a mulher inquebrável estava em estilhaços, a sua frente, por sua causa. Ariel se foi, mas antes perguntou se ela estava bem. Era claro que ela não estava, mas se Ariel permanecesse ali, o convidado ficaria esperando.
Ele tentou sorrir para ela, mas não conseguia fingir daquela vez, apenas a deixaria em mais estilhaços. Ela fez sinal com a cabeça para ele se levantar, que o conduziria para a saída.
Foram pelo mesmo corredor que ele entrou, e seguiram pela mesma escadaria para subir. A passagem era a mesma, a casa era a mesmas, as mesmas paredes com cores escuras e sem vida. Tudo igual, menos Brenda. Não tinha mais aquele sorriso, e a causa daquilo fora o insensível Enzo. Os ombros baixos, o olhar tão caído.
Enquanto passavam pela sala de estar, Enzo viu Ariel apoiada em um balcão, encarando seriamente um jovem a sua frente. Ele não passava dos dezoito anos, alto, moreno da cabeça aos pés, com os cabelos encaracolados e volumosos. Vestia-se com roupas de segunda mão, uma jaqueta de flanela e uma calça jeans surrada. Assim como Enzo achou as roupas dele estranhas, teve a certeza que ele também achou as de Enzo. Algo em Enzo dizia que ele era familiar, de alguma forma, mas, apesar de ter comido as bolachas e aproveitado o delicioso café de Ariel, ainda estava cansado.
— Mais um dos nossos foi raptado. — dizia ele, com sua voz firme, a boca pouco mexendo. — É o segundo licantropo que sumiu misteriosamente esse mês.
Ariel assentiu.
— Como você sabe, meu irmão também sumiu, há cerca de uma semana. Não podemos fazer nada, Jordão.
— Eu sei. — ele retrucou. — Mas peço que, como filha do líder dos ghouls, você converse com seu povo, veja se eles sabem de alguma coisa.
— Acho que esse pedido deveria vir do líder da alcateia, não do segundo em posto.
Jordão não fez uma cara muito contente quando ela o alfinetou.
— Sabe que Fábio está com… problemas. — ele abaixou a cabeça, solene. — Apenas um favor, por todos esses anos que conheço você e Brenda. Estou procurando o pai dela, como me pediram. Todos do bando farejam ele por aí.
— Não misture as coisas, contratamos vocês, sabem disso e estão sendo muito bem pagos. — ela desceu do balcão, e caiu relutante no chão. — Mas irei fazer isso por você, Jordão. Apenas espero que não misture as coisas. Procure os vampiros também, estão longe de serem inocentes..
Brenda o empurrou sem querer com o ombro, não prestando muita atenção na conversa da namorada com o licantropo. Enzo percebeu que estava sendo inconveniente, e foi para a saída. Foi recebido pela cidade apagada, com poucas luzes distantes.
O ar frio o envolveu, e ele esticou as mangas da camisa.
— Me desculpe. — falou para ela, não tendo coragem de encará-la.
Ela chiou com a boca.
— Não tem que se desculpar, Enzo. A culpa é minha. Cornélia já havia tentado, mas eu não aceitei, fiquei com raiva, muita raiva. Te procurei a toa. Certas coisas são difíceis de aceitar, garoto.
— Eu sei. — murmurou.
— Vai querer uma carona? — ela se ofereceu, forçando um sorriso que ele sabia que não era sincero ou espontâneo —Você mora longe, e já é tarde.
— Sei disso também, e vou ter que recusar. Você está cansada, vá dormir, Brenda.
Ela sorriu novamente, mas esse tinha um pouco daquela essência cativante dela, uma chama se reacendia dentro dela.
— Antes que vá. — ela o chamou. — Aqui! — Esticou o braço para ele, e em seus dedos havia um cartão.
Ele pegou o fitou o endereço escrito.
— Livraria Lair — começou a ler em voz alta. Os efeitos de feitiços de disfarce eram tão estranhos, como um alucinógeno que fazia descascar a mente, e depois remontá-la, com algo faltando. As letras e rearranjaram no pequeno cartão preto, e algumas runas desbotaram. — Artigos de bruxaria.
— Exatamente. — ela assentiu. — É a loja de Cornélia. Estavam precisando de alguém para trabalhar lá, mas não confiam muito nas fadas. Por isso pensei em você.
Agradeceu e ela, e Brenda entrou logo em seguida.
Enzo engoliu em seco quando desceu os degraus da varanda. Envolveu as mangas em seus pulsos e apertou bem forte. Ainda estava um pouco fadigado. Viu-se encarando a lua ao longe, minguante, escondendo seu lado sombrio.
Como ele.
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