O Prisma
1 Prólogo
Notas iniciais

— Moço, a parada chegou, não vai descer? — a voz doce vinha acompanhada de uma mão suave, que llhe pousou no ombro rijo.
Lentamente, foi abrindo os olhos. A claridade da janela na qual estava com a cabeça apoiada invadiu os olhos, obrigando-o a fechar as pálpebras novamente por instantes. A viagem inteira fora sentado na janela, felizmente, pensou; adorava ver as paisagens, estradas, casas, prédios, matagal, e cidades novamente. Perdera a conta de quantos quilômetros havia viajado, mas sabia com todas suas forças que estava longe, muito longe, o tanto que precisava.
Virou-se para poder ver quem o tocara. Era uma menina, rosto fino, cabelos escuros escorriam pela lateral como se estivessem molhados. A face era angulosa, as maçãs saltando e formando pequenas sombras. Os olhos de cor clara brilhavam como as únicas lâmpadas no corredor do ônibus escuro. Todas as janelas estavam fechadas, com uma pequena cortina de pano à frente, menos a dele.
— Muito obrigado — a voz saiu mais áspera do que esperava, usou tosse para tirar o pigarro da garganta. Pegou a única bolsa que tinha no colo e levantou-se lentamente, pôde sentir as articulações do joelho estralando.
A menina correu pelo corredor do ônibus com passos silenciosos, desapareceu depois de sair pela porta aberta. O local cheirava a mofo, mas não totalmente, havia algo a mais, no entanto, ele não conseguia sentir completamente, seu olfato sempre fora um sentido precário. A passos lentos e cansados, conseguiu vencer o corredor estreito, passou por uma senhora idosa que dormia, provavelmente ainda continuaria para um destino mais longe do que o dele, ela o acompanhara desde a primeira parada.
Bastou descer de um degrau e pular em direção ao chão, que o cenário a sua volta mudou-se completamente. O corredor do ônibus de viagem, que fora aconchegante e quentinho até certo ponto, com suas janelas cobertas e bancos almofadados, transformou-se em uma rodoviária agitada e fria. Era um dia chuvoso, já havia percebido isso quando entrara na cidade, avistara as nuvens escuras cobrindo todo o município, de maneira que dava a lembrança vaga de um enorme pano preto. As gotas caiam finas, mas, por sorte, aquela parte da rodoviária era coberta. O barulho do choque das gostas de chuva contra o teto de metal fazia um ruído ensurdecedor.
Avistou a pequena menina que o acordou, era menor do que percebera anteriormente. Percebeu o quão adorável era ela, com seu casaco de lã cor-de-rosa e seu jeans claro com flores desenhadas. A mãe, uma mulher semelhante à filha, porém com traços mais elegantes e rijos, estava atrás dela, trançando o cabelo escuro. Ela sorriu quando o viu, e ele retribuiu.
— Obrigado — disse quando passou por elas. Agora, sua voz saíra normal.
A mulher olhou para cima assustada. Os olhos — tão claros como os da filha — brilharam contra a luz esbranquiçada projetada pelas lâmpadas do local. Não era noite, era um final de tarde cinzento e agradável, perfeito para uma xícara de café, pensou. Não sabia porquê, mas era costume de todos os locais acenderem as lâmpadas por volta das seis da tarde.
— Sua filha me acordou, se não fosse por ela, eu perderia a parada. — falou quando não teve resposta. — É uma garotinha de ouro. — Passou o dedo entre a repartição do cabelo da pequena, ela pareceu gostar. Lentamente, abriu um sorriso.
— Não há de quê — a mulher respondeu.
— Nos dias de hoje, isso é raro. Parabéns pela educação dela — elogiou novamente.
— Obrigada — O sorriso da mulher só a fez parecer mais elegante. Ela vestia um casaco branco, com uma calça escura. Os dentes alvos como marfim. —Está sozinho? Sabe, não vi seus pais com você durante a viagem, nem o vi ligando para alguém.
Eu queria muito ter alguém para ligar, não disse, apesar de querer.
— Meus pais faleceram em um acidente — não soou tão espontâneo como queria, ainda tinha que melhorar como blefar. A expressão da mulher caiu, as curvas de felicidade se voltaram para uma tristeza súbita. Prosseguiu. — Vim morar com um tio.
— Meus pêsames — ela lamentou.
Fez-se silêncio entre eles. A pequena menina já havia ido embora, estava perto das malas brincando com uma boneca de pano. Balançava o pequeno corpinho da boneca de um lado para outro, ele, que observava, tentou achar sentido.
— Você também veio morar aqui? — Ele perguntou a ela.
Ela o olhou curiosa por um instante, mas logo o olhar se ajeitou.
— Sim, viemos morar com o pai dela. — Apontou para a filha, que não estava muito longe. — Me chamo Samantha, e você?
— Enzo — disse. — Enzo Pinheiro.
Engasgou-se quando disse a última palavra, lembrou que no mundo onde estava não era preciso dizer o sobrenome para todos. A mulher lhe lançou um olhar incompreensível, talvez ninguém que ela conhecia se apresentava como no século passado. Enzo cerrou a vista, apontou vagamente para multidão.
— O meu tio — disse quando já estava na metade do caminho, andando com passos improvisados, atropelando-se. — Foi um prazer te conhecer, dona Samantha!
Perdeu a mulher e a filha dela de vista quando se virou.
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