O Prisma
6 Cair da Noite
Notas iniciais

E o lar dos lobisomens era uma verdadeira espelunca.
Essa foi a primeira conclusão de Brenda, ao estacionar o carro no quarteirão da frente. Logo depois, pensou o quão despreocupado os lobisomens de vigia eram. Dois sujeitos corpulentos, que ficavam a frente do local, que, em sua função original, deveriam ficar observando as ameaças em potencial e alertar as visitas dos infernais. Invés disso, haviam dois homens desatentos, que lançavam olhares tarados para as ordinárias que passavam.
Ela estalou a língua duas vezes para ela mesma, desprezando eles.
Antes de sair do carro, verificou as balas de prata na Roza, e a faca de combate no cinto. Não pretendia se envolver em confusões ali, mas os licantropos e seu temperamento explosivo eram imprevisíveis. Realmente era pessoas de lua.
Já era a quinta pessoa naquela semana que interrogava, e, caso Fábio não a desse nem ao menos uma dica, desistiria. Os bruxos não sabiam de nada, enquanto os vampiros mal tinham ciência do rapto de seu pai. Alguns ghuols suspeitos foram levados por Ariel, e interrogados por ela. Ariel disse que eles não haviam feito nada, além de devorar corpos de indigentes.
As fadas também não tinham feito nada, mas, como de praxe, ofereceram um acordo mágico, que, segundo elas, revelaria a localização de seu pai em segundos. Brenda recusou, sabendo muito bem das consequências posteriores a um acordo do povo da natureza.
Em uma pequena folha no painel marcou um X na palavra LICANTROPOS, já que todas as outras já estavam riscadas.
Uma brisa gelada, porém tolerante, a envolveu levemente. Era final de tarde, o céu num degradê azul com magenta, uma tonalidade linda para os olhos dela. Pensou onde o pai estaria, se, no lugar onde estivesse, pudesse desfrutar daquela vista bonita, mesmo estando numa situação complicada. Ele era do tipo naturalista, que se acalmava com as paisagens de campo extensos, que Brenda, pessoalmente, odiava.
O bar clandestino que abrigava os lobisomens era, agora de perto, pior ainda. As paredes tinham tons escuros, além de mofadas e manchadas com água infiltrada. A fachada meio apagada deixava apenas as palavras LUA DE AÇO, claramente visíveis, o resto — o slogan, que, por lógica, Brenda julgou ser bem ruim — já havia se desfeito com o poder da erosão.
Com isso, ignorada pelos lobisomens de vigia, ela entrou.
Era um ambiente retangular, fechado e sem muita luz. As mesas estavam dispostas em um sentido sem ordem, aqui e ali, como organizadas por crianças. Alguns licantropos bebiam e jogavam cartas nas mesas e no balcão ao fundo, onde um barman servia coquetéis e drinques coloridos, apesar de ainda ser dia.
Entre vários lobisomens broncos na multidão, Brenda viu Jordão, sentado, quieto, mexendo no celular e apoiado na parede. A cabeça levantou quando a viu, e seus olhos castanhos, a cumprimentaram. Pensou que, com aquela pouca idade, ele já era forte e altruísta o suficiente para ocupar o cargo de beta de uma alcateia, coisa que ela mesma não faria, caso fosse uma licantropo.
Percebeu enfim que uma música tocava ao fundo, tão calma que era apenas um sussurro.
Estátuas e cofres
E paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender
Ao som de pais e filhos, ela dizia as palavras calmas.
— Eu quero um Explosão lunar — falou para o atendente do bar. — E com aqueles guarda chuvinhas. — Apoiou-se no balcão de madeira antiga e firme.
O rapaz se virou para preparar a bebida.
— Sabe onde eu posso encontrar Fábio? — perguntou. Se inclinou mais para frente, podendo ver o perfil do jovem rapaz.
Depois de muito pensar, e mexer as mãos para aprontar a bebida, falou:
— Ele está nos fundos, mas não quer ser importunado.
— E não será. — Ela deixou o dinheiro da bebida em cima do balcão, junto com um adicional para o menino. Ele deixou o drinque dela lá, e ela desapareceu por uma porta ao fundo.
O corredor empoeirado levava a uma única porta, escura e com uma placa de não perturbe.
Ela ignorou os avisos e entrou. Fábio — um homem de meia idade, de cabelos grisalhos e barba grande — não pareceu contente. A olhou por cima dos óculos, seus olhos acinzentados fazendo luas minguantes na má iluminação daquela saleta. Ele bebeu um gole generoso da bebida que tinha em mãos. Uma pinga 51 barata, que fedia a metros.
— Acho que você não sabe ler, caçadora — ele falou, carrancudo e com a voz rouca.
— Sei sim, e muito bem. — Suspirou, inquieta. Uma mecha dourada voou para o lado. Ela andou até a mesa dele, e apoiou-se lá com ambas as mãos. — Apenas quero saber, onde está meu pai?
— Você entra aqui, é mal educada, e ainda quer que eu saiba de seu pai? — Fábio estava a ponto de rir, talvez por estar apenas bêbado. Ele bebida demais para conseguir se embriagar, o fator de cura das licantropos era tão forte que, comparado aos ordinários, tinham de beber o triplo para começar a ver torto.
— Sim, quero. — exigiu. E você não é a primeira pessoa nessa semana, pensou, mas guardou para si. — Sei que já teve complicações com ele.
— Se for seguir por isso, garota, saiba que terá que passar em muitos lugares. — brincou. E Brenda teve de admitir, o pai tinha problemas com todos os infernais da cidade, apesar de também ter grandes amizades. — Vá até os vampiros, Aline não era uma grande fã dele.
— E nem sua. — E com essas palavras de Brenda, Fábio pareceu se divertir. Era óbvio que a líder dos vampiros não seria amiga dos licantropos, era natural que se odiassem. — Eu já fui em todos os locais, de todos os infernais. Não foram eles.
Fábio bebeu mais um pouco, a garganta subindo e descendo incessantemente.
— E o que a faz ter tanta certeza?
— Fadas não podem mentir — explicou. — Os vampiros, por outro lado, me afirmaram totalmente que não foram eles, e, se fossem realmente, não teriam pudor de negar. Tenho uma amiga bruxa, ela não mentiria para mim.
— E os carniçais? — ele perguntou, com um sorriso malicioso no rosto.
— Não te interessa — retrucou, ríspida. — O que vem ao caso é que não foram eles.
— Você diz isso por que a sua namorada sapata a afirmou?
Tudo foi muito rápido, até mesmo para os olhos animalescos de Fábio. A mesa que estava entre os dois voou para cima, e caiu de lado próximo a eles. Os papéis que dispunham foram arremessados para cima, criando uma estranha e confusa chuva branca ao redor deles.
Fábio foi agarrado pelo colarinho da camisa, e suspendido por Brenda.
— O que você falou? — A ponta da faca ameaçava entrar pela barriga dele, o sangue caindo num risco fino contra a pele bronzeada.
Ele a olhou com desprezo.
— A menos que queria sair daqui morta, eu sugiro que me solte. — Os olhos dele já estavam mudando de cor, passando para um âmbar vívido.
Ela o largou, ciente de sua clara desvantagem. Ele começou a espalmar a camisa, com certo nojo dela.
— Os carniçais têm agido estranho ultimamente — dizia, ainda afagando a roupa. — Podem ser muito bem ter sido eles, ainda mais com a nova líder.
— Nova líder? — perguntou Brenda, por impulso.
— Sim, sua queria namorada assumiu o lugar do pai, que foi encontrado morto
Pensou porque Ariel não havia contado sobre isso a ela. Eram tão intimas, namoradas, na verdade. Nunca esconderam segredos uma da outra, e não era agora que começariam. Mas, ignorando aquilo, o sangue fervente nas veias de Brenda ansiava destruir Fábio.
— Agora veja, não é estranho um carniçal importante morrer e eles não se mobilizarem? — indagou, com seu sorriso despojado que tirava a concentração dela. —Com isso, vejo que não sabe de muitas coisas. Seu tio, aquele feiticeiro, também é um grande suspeito.
— Eu cuido dos meus problemas!
— Então não envolva os outros nos seus problemas — o tom seco dele não remetia ao homem embriagado que era. — Ou vai acabar pior.
Brenda engoliu em seco, mas não gastou seu tempo para pensar e refletir sobre sua imprudência. Ela se virou e já ia saindo pela porta, insatisfeita, quando a voz áspera de Fábio a chamou:
— Seu tio está voltando — falou, para provocar. — Fale com ele, talvez ele saiba do desaparecimento do compadre dele.
— Pode deixar, sei o que estou fazendo. — por um instante, Brenda não queria estar blefando.
Antes de deixar o bar, bebeu o drinque que havia pedido. A bebida desceu quente e cortante pela garganta, e o efeito do álcool bem leve na cabeça. Teria que beber bem mais que aquilo para se embebedar e esquecer de seus problemas. Mas, além de bebidas e Ariel, apenas mais uma coisa poderia a fazer esfriar a cabeça.
E poderia juntar aquela distração com sua investigação.
***
Carne, galinha, frango, camarão e feijão.
Essas eram as opções de jantar de Enzo. Estava no supermercado, que, por ventura, era perto da livraria Lair. Tudo era perto na livraria, na verdade. Ela ficava numa boa posição comercial, no centro da cidade, todos os leitores daquela pequena cidade acabavam passando por lá. O dia de Enzo fora produtivo. Ele vendera uma cópia de O Guarani para uma senhora doce, e uma coletânea dos contos de Edgar Allan Poe, para um jovem viciado em mistério. Cornélia havia lhe dito que fora muito bem, e que se continuasse assim, Samanta se apegaria a ele.
Ficou contente.
Talvez agora pudesse seguir sua vida normalmente, sem demônios e pessoas o perseguindo. Sem lembrar-se de Magdalena e Beth, queria transformá-las em memórias distantes agora, e estava quase conseguindo.
O mercado com poucas pessoas àquela hora da noite estava quase fechando, e as pessoas andavam apressadas. Crianças corriam pelos corredores com os carrinhos de compras, e as mães vinham atrás, procurando e gritando para os filhos que iriam se machucar. Em meio aquele caos naquela noite fria, Enzo tentava apenas escolher o saber de macarrão instantâneo que iria levar para casa. Pensou em qual seria a diferença entra galinha e galinha caipira, e se realmente havia uma diferença.
Acabou levando um de carne suave, porque o de carne era, para ele, muito salgado. No final das contas, sabia que aqueles sabores eram totalmente artificiais, e que não bastavam de corantes e conservantes, com aromas mal feitos e enjoativos. Poderia começar a cozinhar para si próprio, e parar de depender dessas comidas industrializadas.
A caixa pegou seus produtos com suas mãos rápidas. Os bipes típicos das máquinas ela lhe disse o valor. Enzo pagou, depois de tirar o dinheiro do bolso.
E sentiu a falta de algo no mesmo instante. O celular não estava ali. Apalpou todos os bolsos, desesperado.
Não achou.
Saiu do mercado cabisbaixo. Pensou em voltar para casa, mas, se realmente esquecera o aparelho na livraria, a caminhada não seria tão cansativa. Eram apenas duas quadras.
As ruas já estavam vazias àquela hora. Não passava das dez, mas, numa cidade do interior, isso era comum. As pessoas estavam confortáveis em suas casas, as luzes acesas indicavam isso. O vento era fraco, e a lua pairava sobre a cidade, minguante e prateada com o pouco brilho. Os únicos barulhos audíveis eram seus passos, e o atrito do plástico da sacola com a embalagem do jantar de Enzo.
Naquele emaranhado de prédios comerciais, poucas casas e grandes edifícios, Enzo desenrolou-se como uma folha ao vento para chegar a livraria. Evitava as ruas escuras, apesar de saber que poderia se sair bem com meliantes. Ordinários quando conheciam os infernais, em sua grande maioria, enlouqueciam, a outra pequena parte, alegava que era consequência do uso das drogas.
A livraria estava fechada, claramente, justo porque ele mesmo havia o feito, junto com Cornélia mais cedo. Atrás dos vidros da vitrine viu uma fraca luz acesa. Não deixou a esperança morrer. Talvez fosse apenas um engano, e devesse voltar no outro dia.
Mas não custava nada tentar.
Foi até a porta de vidro, e, com seus dedos leves e esguios, tentou abri-la. A maçaneta girou, com um estalo suave e metálico. A livraria estava igual como havia a deixando, há duas horas. As prateleiras enfileiradas e os livros organizados em ordem alfabética.
Apenas uma coisa estava diferente.
No centro, perto do balcão, haviam cadeiras dispostas, com pessoas as ocupando. Faziam um círculo improvisado, envolta de uma pequena mesa baixa, que tinha copos e uma garrafa de bebida.
Todos o olharam.
Nos poucos segundo embaraçosos, teve o tempo necessário para analisar todos ali. Eram cinco, contando com a própria Cornélia, que estava sentada numa cadeira, com um copo em mãos. O olhar focado nele, e os cabelos escuros quase não aparecendo na escuridão total, as pontas azuis se destacando.
Ao lado dela, estava a garota ruiva que ele vira mais cedo. Mais ao leste, estava um garoto pálido e de cabelos tão confusos quanto uma tempestade. Os olhos escuros e opacos dele concentrados em Enzo. Uma garota loira, que estava de mãos dadas com um rapaz, perguntou:
— Quem é esse?
Sua voz era fina e delicada, assim como seu rosto de características aquilinas. Os cabelos caiam grandes, soltos e correndo pelas costas. O rapaz que estava de mãos agarradas, Enzo reconheceu, era Jordão, o licantropo que encontrara na casa de Brenda. Ele o olhou, surpreso por também ter o reconhecido.
— Você não avisou que ele vinha — disse para Cornélia.
Ela olhou pra Enzo, exigindo uma resposta. Ele continuou calado.
— Bem-vindo ao nosso clube do livro — anunciou o menino pálido.
Enzo olhou ao redor, eles realmente pareciam ser um clube do livro.
— Davi, não o assuste — advertiu a garota de cabelos ruivos. Felícia, Enzo se lembrou. — Além do mais, não somos um clube do livro! Clubes de livro são coisas de velhos, ou garotas mimadas.
— Ele não está assustado — a garota loira falava para eles com naturalidade. — Está mais... estonteado.
— O nome dele é Enzo, pessoal — Cornélia disse, calma. Tirou o copo de perto da boca e o pousou na mesa. — Ele é o novo funcionário da minha mãe. Enzo, esses são meus amigos.
Ele acenou, sem ter muito o que fazer. Planejou falar algo criativo e com uma ótima convicção, mas sua voz saiu falha:
— Eu estou procurando meu celular, acho que o esqueci aqui.
— Está aqui. — Ela levantou o aparelho retangular e prateado, mostrando a ele. — Você o deixou numa prateleira, debaixo de uns livros.
Enzo pegou das mãos dela. Enquanto se aproximava, relutou, com algum receio das pessoas que estavam ali. A garota de cabelos loiros, pôde perceber, era a mesma do espetáculo. A garota fada, com os olhos completamente verdes e sorriso encantador.
Foi rápido em pegar o celular com Cornélia, e mais veloz ainda quando agradeceu com palavras tão baixas que a bruxa não ouviu. Ia saindo, quando ela o chamou.
— Enzo — disse, sua voz suave transpassando pelos ouvidos dele, e tirando o desconforto que havia se instalando em seu peito como uma pedra de gelo fragmentada. — Não quer ficar?
— É, cara — Felícia falou, com seus lábios curvados num sorriso leve. — Você chegou na cidade há pouco tempo, sabe, deve ter poucos amigos.
Em cima dos pés, ele se virou para fita-las. Os olhos grandes e escuros de Cornélia o encaravam, atônitos pela resposta dele.
— Eu estaria incomodando? Sendo inconveniente ou coisa do tipo?
— Mas é claro que não. — ela o respondeu.
— A não ser que só fale de crochê — Davi comentou, risonho —, aí sim você seria chato.
Enzo deu uma risadinha com o canto da boca para descontrair, e se sentou ao lado de Cornélia, no centro da roda de amigos. Todos foram amigáveis com ele, até mesmo Jordão, que preferiu não comentar que já haviam se visto. Eles falaram mais obre si mesmos. Camila, a garota de olhos verdes e voz tão suave quanto uma pluma, comentou ser uma fada, uma pixie. Jordão tratou-se de explicar que era um lobisomem, coisa que Enzo já sabia. Felícia tomou frente para dizer que era uma bruxa um tanto diferente.
— Difundida? — Enzo repetiu, tentando lembrar onde já havia visto o termo.
— Sim, é estranho de explicar. Tenho sangue de bruxa na família, mas por cargas d'água desconhecidas, esse sangue não se manifesta com clareza em mim.
— Então você é um quarto demônio? — perguntou, curioso.
— Tecnicamente, sim. Sou vinte e cinco por cento demônio, falando em porcentagens — respondeu, não muito contente.
— Isso a torna mais fraca que outros bruxos? — Enzo não conseguiu conter a pergunta, e só se arrependeu depois de receber o olhar ríspido de Felícia. Ela o fitou com calma.
— Não subestime o poder de Morfeu…
— Blá blá blá… — Davi interrompeu. Ele era pálido demais, até mesmo para o garoto que não costumava praticar esportes que parecia ser. Suas veias esverdeadas subiam pelo pescoço, cruzando a pele branca como papel. —E você, Enzo, o que pode fazer?
— Magia — replicou, rápido e preciso. Era estranho ser olhado por todos, olhares tão iguais e diferentes ao mesmo tempo. Todos com uma grande curiosidade nele, mas de pessoas completamente não iguais. Uma bruxa, uma fada, um lobisomem e uma difundida.
Davi virou o pescoço e olhou para Cornélia.
— Assim como ela? Ou como Felícia?
— É, como elas.
Cornélia olhou para sua mão, duvidando que Enzo pudesse ser igual a ela. De certa forma, as assinaturas dos bruxos os faziam ser únicos, poucas assinaturas eram hereditárias e nenhuma assinatura era exatamente igual outra já vista. Os olhos dela voltaram fortes para ele, grandes e intensos, curiosos com suas habilidades. Enzo ficou nervoso, e pediu para não corar. Com uma das mãos, começou o anel de estrela no dedo, para descontrair o nervosismo.
— Vamos, faça algo! — disse Davi. — Eu nunca vi um mago antes. Já vi o que Felícia e Cornélia podem fazer, mas, apesar de usarem magia, você e seus truques parecem ser diferentes.
Enzo o encarou. Apesar de ter trocado poucas palavras com ele, Davi parecia ser o tipo de pessoa rápida na troca de personalidades. Quando entrou lá, ele estava quieto, e o analisava com a precisão de um morcego faminto. Os olhos cor de ônix estáticos em Enzo, lhe causando arrepios. Mas agora, ele parecia querer quebrar o gelo que havia causado. Todavia, por debaixo daquele sorriso animado, Enzo ainda via um vampiro sério e tenso, com presas afiadas e pronto para agir por seus instintos.
Estalou os dedos das mãos, antes de começar. Tantas magias e encantos passaram por sua cabeça naquele instantes, palavras em línguas estranhas e diversos idiomas perdidos. Resquícios de culturas, palavras de outros magos que havia estudado com Beth. E, pensando em Beth conseguiu achar uma saída para a situação. Não olhou ao redor, evitou ficar nervoso com os olhares dos outros. Ouvia a respiração de todos no silêncio, e os murmúrios de Felícia. Arrancou o colar do pescoço por cima da cabeça rapidamente, o deixando na palma de uma das mãos espalmadas. Com a mente em branco e ombros relaxados, falou:
— Gravira.
Uma névoa de cor arroxeada passou entre os dedos de Enzo, num instante de segundo. Mas eles não perceberam, porque logo depois disso o colar começou a flutuar na palma estendida dele, não sofrendo efeito da gravidade. O cristal rodava lentamente, refletindo a luz do local, encantando a todos.
No lugar silencioso, as palmas de Davi ecoaram alto.
— Esplêndido. — disse, com uma irreverência certeira na voz.
— Sem gravidade? — Cornélia perguntou, ansiosa para Enzo responder. Mas ele só guardou o colar no pescoço novamente, não respondendo de imediato. — Nunca ouvi falar de um feitiço assim.
— Poucas pessoas sabem — foi o que se delimitou a explicar. Ninguém ali queria saber que fora Beth a criadora da magia, e que apenas ela e Enzo sabiam.
— Quem sabe você poderia me ensinar? — Cornélia propôs, com um sorrisinho no rosto. Enzo ficou sem graça e resposta.
— Um dia, quem sabe. Talvez amanhã… quem sabe.
— Que bonitinho os dois pombinhos — Davi zombou. — Só espero que o pseudo-encontro de vocês não os atrapalhe de ir no show da banda. Vai ser amanhã.
— Ah, é mesmo. — Camila quase saltou da cadeira. — Quer ir conosco, Enzo?
Sem muitas palavras ainda, Enzo fez que sim com a cabeça.
***
O resto da noite foi calma e tranquila. A conversa lá não durou muito, e, depois de Davi e Camila sugeriram assistir um filme. Enzo não pôde ficar, já estava tarde demais, e voltar para casa depois ficaria um pouco complicado. Se despediu de todos com apertos de mãos. Era tudo tão estranho. Tinha arrepios em pensar sobre aqueles jovens. Tinham aparências tão humanas, rostos tão bonitos, e atitudes tão ordinárias. Mas, se com um olho via isso, com o outro Enzo enxergava eles como realmente eram. Uma menina meio demônio, um vampiro sanguinário, um licantropo sedento por rasgar e trucidar pessoas na lua cheia, uma fada traiçoeira e uma difundida com poderes suspeitos. E ele. Que apesar de não atribuir negatividades, via um fugitivo assassino e sem ética, toda vez que se olhava no espelho.
O universo te dá o que você merece.
E eram esses amigos que Enzo merecia.
Seus passos eram estalos pesados no corredor do prédio. Andava com os ombros caídos e cansados, a vista ficando embaçada aos poucos e mal distinguindo aquela semi-escuridão. Os lances de escadas pareciam ser infinitos, e seu corpo ficava mais pesado a cada degrau. Não comeria nada quando chegasse em casa, já havia chegado a essa conclusão. Estava cansado de mais para preparar alguma coisa, mesmo que sua comida demorasse apenas três minutos para ficar pronta.
Viu que a porta de casa estava escancarada. Quebrada, com farpas soltando e a maçaneta no chão. As dobradiças caídas ao lado, brilhando fracamente com a luz falha do corredor do prédio. Deixou as sacolas ali mesmo, e, com os punhos fechados, entrou.
Da última vez que eles foram atrás de Enzo, haviam mandado uma bruxa com pernas de aranha. Foi sua batalha mais difícil, e podia se lembrar o quão ela era veloz com aquelas oito pernas, e como se misturava as sombras daquela construção velha. Nenhuma das magias de Enzo funcionava, e naquele dia percebeu que não era uma pessoa com habilidades ofensivas. Tinha receio de ferir alguém, principalmente depois de tudo aquilo que havia passado há poucos meses.
Um barulho na cozinha o tirou de suas reflexões sobre si mesmo. Jogou uma das mãos na direção do ruído, e um clarão de luz iluminou o local inteiro, como uma lanterna.
Conteve o grito de surpresa.
Um pequeno demônio estava farejando, ou fazendo algo bem parecido. Ele não tinha nariz, nem uma forma ao certo. Parecia-se com um cachorro, mas apenas seu corpo longo e formato quadrupede podia remeter a isso. O corpo era avermelhado, num rubro escuro que suava sangue podre, que caia no chão branco e o sujava gradativamente. Não tinha olhos no rosto, apenas um focinho grande com uma boca que vazava os dentes pontudos para fora.
Enzo mordeu os lábios para eles não saírem da boca.
Aparentemente, ele havia notado o clarão. Mexeu a cabeça na direção de Enzo. Era desconfortante ser encarado por um demônio cego, porquê, no fundo e apesar de tudo, Enzo sabia que ele já tinha o notado.
O demônio rosnou para ele, ofensivo.
Antes que pudesse fazer algo, mais daqueles demônios saíram e atenderam o pedido de ajuda de seu semelhante. Eram quatro, um havia saído dos corredores e dois da lavanderia. Enzo viu suas peças de roupas rasgadas ao fundo, uma camisa nova aos fios. Suspirou fundo, antes de receber o coro de balbucios.
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