A espera no carro foi mais
exaustiva do que toda a noite que passei, era de manhã cedo e nem sinal de
nenhum deles, eu estava com o estomago a reclamar de fome e isso deixava-me
mal-humorada mas não podia sair do lugar. A noite mal dormida também não ajudou
a melhorar o meu mau-humor, tinha adormecido umas duas horas antes de acordar
com aquele “sonho” e agora tinha de me manter alerta.



Sem ser o Raphael eu não gostava
muito de companhia, mas andar sozinha ou mais precisamente fazer esperas
sozinha tinha as suas desvantagens, como não poder sair do lugar para ir buscar
comida, ir à casa de banho ou simplesmente para dormir uns minutos que fosse.



Quando já passava das 10 horas eu
já estava terrivelmente mal-humorada, estava à espera de algum sinal deles há
mais de 6 horas e nada até agora, sem jantar, nem pequeno-almoço eu sentia uma
fome que era deveras incomum em mim, por norma eu não comia quase nada mas
nunca passei tanto tempo sem comer nada.



Estava a começar a ficar
frustrada e a pensar se já era tarde demais, não era comum mas por vezes quando
eu tinha os meus “sonhos” era na hora exata em que eles aconteciam e eu estava
a começar a temer que era exatamente isso que tinha acontecido. Eu estava
tremendamente preocupada sobre isso.



Eu estava tão debruçada sobre os
meus pensamentos e os meus medos que nem reparei numa porta que se tinha aberto
de um dos quartos anexos do hotel mais afastado dos outros.



Quando reparei fiquei tão
aliviada por um momento que nem me mexi, porém quando fui para fazer qualquer
coisa eles entraram no carro e partiram, sem saber realmente o que fazer
coloquei o carro a trabalhar e segui-os o mais perto possível sem que eles
percebessem que estavam a ser seguidos.



Conduzi cerca de uma hora atrás
deles e percebi que iriam para um casebre a cair afastado de todos e de tudo no
meio de uma floresta, parei o carro com medo que me descobrissem, não era
daquela forma que deviam saber quem sou eu devia escolher a forma e a hora mais
conveniente para deixá-los saber que estou aqui e ainda mais importante que
estou para ajudá-los. Então desci do carro e fui a pé, devagar e com extremo
cuidado contornei a casa e verifiquei a parte traseira dela para me assegurar
que era seguro, tanto para eles como para eu estar ali.



- Alguma coisa não está bem
aqui.- pensei – Existe alguém aqui e consegue ver-me. Mas quem é? É uma
presença forte, conheço-a de algum lugar mas de onde?



De repente começo a ouvir uma
voz, de alguma forma uma voz conhecida só não me lembro de onde. No mesmo
momento que comecei a ouvir a voz todas as janelas explodiram em cima de mim,
aquilo era estranho ao extremo.



Eu consegui perceber a voz e
definitivamente não gostei do que ouvi, ainda não era hora para isso, há
verdades que devem prevalecer escondidas até ao momento certo para serem
reveladas e aquele ainda não era o momento certo para isso.



Para tentar adiar um segredo
perigoso resolvi agir. Não era o momento certo, mas não havia outra solução.



Voltei pelo caminho que tinha
percorrido para voltar à parte da frente da casa ainda com a voz a falar a
mesma coisa, subi as escadas e tentei entrar, mas a porta estava trancada.
Outro problema que quando resolvido poderia ameaçar revelar mais verdades de
forma prematura. Expulsei esses pensamentos da cabeça e com um chuto bem
centralizado arrebentei a porta e entrei.



Sinceramente não sei o que era
pior, a forma como me encaravam completamente em choque, de olhos arregalados e
armas em punho ou os seus ouvidos de onde escorria sangue devido à voz
estridente que para eles deveria parecer o mais agudo dos sons.



Calmamente dei um passo a frente,
consciente das três armas apontadas na minha direção, levantei lentamente as
minhas mãos para que percebessem que não empunhava nada que lhes pudesse fazer
algum mal.



- Eu posso explicar e me
apresentar para vocês noutra altura. Não acham que é melhor sairmos daqui? –
perguntei devagar mas quase que a gritar para que eles pudessem me ouvir devido
ao tão alto que aquela conhecida voz falava



- Damien, eu não acho uma má
ideia. Eu não aguento mais este barulho. – Exclamou Sean pondo um pouco a arma
de lado para por as mãos a tapar os ouvidos tentando abafar um pouco o som



- Eu não sei quem és, mas Sean
tem razão a minha cabeça parece que vai explodir, vem Ben. – exclamou para o
senhor mais velho que estava com eles dois



-Eu nunca tinha visto aquele
senhor então eles devem se ter encontrado ali- pensei sem muita confiança com
aquele senhor



Saímos para fora e eles
seguiram-me até o meu carro, ao lá chegar destranquei-o e tirei um saco lá de
dentro.



- Tomem aqui podem lavar um pouco
do sangue dos vossos ouvidos e beber um pouco se quiserem. – disse
entregando-lhes garrafas de água e uns lenços de papel, que era tudo o que
tinha para uma situação dessas



- Obrigado. Eu sou o Sean. –
disse e estendeu-me a mão



- Prazer. Sou a Hannah.- e
aceitei o cumprimento



- Ele é o Damien e ele é o Bem-
apresentou os outros dois com quem o encontrei



- Prazer.



- Obrigado pela ajuda, de
verdade. Nós não estávamos a conseguir sair dali.- disse o Damien



- Merda. – pensei- Agora ainda
vão desconfiar mais por ter conseguido entrar quando não eram capazes de sair



- De nada.



- Mas como é que nos encontraste
e como diabos é que conseguiste entrar?- continuou Damien



- Na verdade como consegui entrar
é fácil de explicar. Eu dei um forte chuto na porta e arrombei na parte da
fechadura. – expliquei vendo a cara de estupefactos deles três, tentei explicar
tudo. – Eu encontrei-vos da forma mais difícil possível, podem acreditar. Mas
para explicar Damien e Sean será que posso falar em particular com vocês. Sem
querer ofender Ben.



- Não me ofendes-te.



- Claro. Podemos falar. Com
licença Ben.- respondeu o Sean



Estou mesmo a começar a gostar da
personalidade do Sean, mesmo com os seus problemas, ele confia mais nas
pessoas, é menos desconfiado o que certamente é parte da razão de ter os
problemas que tem.



- Eu vou explicar tudo, mas por
favor não se assustem.- comecei a tentar explicar com medo que me achassem
doida – Eu tive um sonho, se é que podemos chamar isso de sonho convosco.



Damien e Sean entreolharam-se com
uma expressão entre estupefacta e assustada.



- Sonhas-te connosco? Que sonho
era esse? – questionou-me Damien aflito



- Eu sonhei que estavam numa sala
fechada sem janelas feridos e desacordados sentados no chão, encostados na
parede de frente para a porta, estava tudo escuro e de repente há um clarão e
fica tudo iluminado e eu vi a porta abrir e uma criatura horrível com o rosto,
se é que aquilo se pode chamar de rosto cheio de sangue seco e da boca
escorria-lhe sangue fresco que descia pelo pescoço e acumulava-se numa grande
mancha na camisa que estava esburacada e só vestia isso, era apenas um horrendo
esqueleto ambulante, não sei se tinha carne, mas se tinha era tudo preto e
tinha olhos muito brilhantes cor de sangue, dirigiu-se para vocês o Sean
despertou e começou a chamar-te e depois gritou porque não tinhas acordado e
quando acordas-te e viste o que estava a acontecer a criatura saltou para vocês
e eu acordei de repente. – acabei de narrar rapidamente o meu “sonho” ao Damien
– Depois de acordar percorri todo o caminho de onde estava para a cidade e tive
no carro à espera que aparecessem, depois segui-vos até aqui para tentar
ajudar-vos. Percebam, eu não vos quero fazer mal eu apenas vos segui para
tentar evitar que aquilo acontecesse. – acabei de contar com medo de que não
acreditassem em mim



- Se o que dizes é verdade então
que criatura é essa?- perguntou o Sean



- Eu não sei. Eu vi um ser assim
mas nunca soube o que era nem como se mata. – disse meia verdade, já tinha
visto e eu sabia de uma arma que matava qualquer coisa mas eu não podia contar



- Damien sabes que criatura é
essa? – Sean perguntou aflito



- Sean eu não tenho certeza, mas
talvez saiba. Eu vou ter de pesquisar um pouco e ver o que descubro. De
qualquer forma Hannah acho que vais perceber se eu não quiser que tu fiques
sozinha. Não sabemos nada sobre ti.



- Tudo bem. Mas precisamos sair
daqui. Eu tenho um refúgio em Yarm que não é assim tão longe. Se quiserem podemos
ir para lá. Tenho comida, computadores com internet e uma cama para cada um.



- Parece bem. Certo Damien? –
perguntou Sean



- Sim, parece bem. Podemos ir
sim.- concordou mas ainda sem confiar muito em mim



- Então vamos andando. O Ben vem
connosco?- perguntei mas esperava que a resposta fosse não



- Não, o Ben não vem connosco,
ele tem um problema que tem que resolver por agora. – Respondeu calmamente Sean



- Tudo bem. Vêm comigo no carro?



- Sim, o nosso ainda não está
arranjado e viemos com o Ben. – respondeu o Damein



Encaminhei-me para o meu carro
seguida por Damien e Sean, entrei e pus o carro em movimento e levei-nos para o
meu refúgio. Damien e Sean seriam dentro em breve os primeiros a entrar no meu
refúgio sem ser Raphael e não sabia como seria principalmente porque Damien não
confia em mim.



Percorri o caminho mais
calmamente desta vez e sem me perder. Passadas algumas horas chegamos à área
industrial e encaminhei-me para a garagem, destranquei o portão, entrei no
interior quando estava no local certo, desbloqueie o alarme e o elevador levou
o carro para o interior do meu refúgio subterrâneo.



Quando sai do carro e olhei para
quem estava comigo notei no olhar de cada um choque pelo local e não sei se fiz
o certo ao trazê-los comigo. Eles estavam petrificados no lugar, certamente
nunca tinham imaginado que o meu local de descanso seria uma coisa como aquela.



O meu local de descanso, fora
construído no subsolo e era a coisa mais próxima de um lar que eu tinha, fora
decorado pelo meu pai, então só tinha o essencial, porém tinha tudo do mais
moderno e avançado. Tinha um cozinha ampla e bem iluminada por grandes candeeiros,
tudo na cozinha era preto tirando as bancadas brancas e os armários brancos
também. Existiam também vários quartos, todos de camas duplas com apenas as
camas e mesa-de-cabeceira, um centro de pesquisa caseiro, uma pequena e estéril
sala e uma garagem. E este era o meu paraíso.



Respirando fundo e com uma
aparente calma caminhei para dentro do meu querido refugio.



- Vão vir comigo ou vão ficar
ai?- brinquei um pouco para tentar descontrair um pouco a tensão que havia em
mim e a surpresa que estava estampada nos rostos dos dois.



Despertando e percebendo que
ainda estavam no mesmo local saíram do carro imediatamente e vieram em silêncio
atrás de mim para dentro.



Quando entrámos na minha
aconchegante sala eles despertaram do torpor e resolveram falar.



- Hannah que sítio é este?-
perguntou o Sean espantado



- Este era o sítio de descanso
que o meu pai tinha. É um sítio protegido e que ninguém pode entrar sem
autorização. Quando o meu pai morreu eu fiquei com o local.- expliquei
calmamente embora ainda doesse falar do meu pai



- O teu pai era um caçador?-
perguntou Damien baixo



- Sim o meu pai era um caçador.



- Então nem é preciso perguntar
do que morreu.- disse Damien muito calmamente e com uma expressão de dor e de
compreensão



- Ele morreu quase da mesma causa
que o vosso pai morreu. – disse baixo, não gostava de falar sobre esse assunto



- Como sabes que o nosso pai
morreu? E como sabes que somos irmãos?- perguntou o Sean



- Quem é deste meio, dificilmente
não conhecia o Jared e consequentemente os seus filhos ou nunca tinha ouvido
falar dos três.



- Entraste nesta vida por causa
do teu pai?- perguntou o Damien de uma forma que parecia que sabia a resposta



- Sim foi por causa dele, mas eu
só comecei realmente a caçar de uma forma séria depois de a minha mãe morrer.-
contei e tentei mudar de assunto – Então querem comer alguma coisa? Eu não comi
nada o dia todo, por andar a trás dos dois então eu estou com fome.



- Pode ser também temos fome.–
respondeu o Damien



- Tu tens sempre fome. Não é
novidade.- alfinetou Sean



- Eu não almocei, é claro que
tenho fome.- respondeu Damien



- Tudo bem. Então o que querem
comer?



- Qualquer coisa.- disse o Sean



- O que podes fazer?- disse muito
depressa o Damien



- Eu posso fazer um prato do meu
pais e uma salada para acompanhar que tal?



- O que é esse prato? E de onde
tu és afinal?- perguntou interessado Damien e sem a desconfiança inicial



- O que é, eu não vou dizer. E eu
sou de Portugal, o meu pai pertencia da América, ele nunca me disse de onde
exatamente e imigrou para Portugal depois de ter conhecido a minha mãe.



- Desculpa, nós não sabíamos.-
desculpou-se Sean a pensar que me tinha magoado



-Não tem problema nenhum. Não
precisas pedir desculpa. Então e quanto ao prato?



- Claro, pode ser. Vamos ver se é
assim tão bom quanto dizes!- desafiou Damien com um olhar de quem queria
desculpar-se



E então eu fui em direção à porta
da cozinha e quando olhei para trás reparei que eles encaminharam-se para o
grande sofá de couro branco que estava na sala em frente do grande LCD preso na
parede, virei-me e fui ocupar-me da comida de nós os três.



Passado o tempo necessário para
os alimentos cozinharem, pus a mesa e levei a travessa com feijoada, a salada, coloquei-os
na mesa e chamei-os.



Depois de se sentarem e se
servirem provarem uma comida tipicamente Portuguesa, esperei pela avaliação de
duas pessoas que nunca tinham comido nada parecido com aquilo.



Damien olhou para mim de repente
e disse: — Eu nunca provei nada assim.- sem saber se isso era bom ou ruim eu
mantive-me calada e esperei- Isto é realmente bom!



- Sim, eu não gosto de comida
pesada, mas isto certamente é muito bom. – disse Sean com a bochecha gorda com
comida



- Ainda bem que gostam.



Continuamos depois a comer num
silêncio confortável.



Quando acabamos de comer,
levantei-me tirei tudo da mesa e fui lavar os pratos.



Depois de lavados virei-me para
eles que continuaram sentados e disse-lhes: — Se quiserem ir pesquisar sobre
aquela coisa os computadores estão naquela sala.- apontei para uma porta do
lado direito da sala onde se encontra a biblioteca- Eu preciso de um pouco de
descanso, não dormi de noite, nem parei nada e preciso de parar.



- Mas antes venham comigo.
Vou-lhes mostrar onde são o vosso quarto.- caminhei em direção contrária da
biblioteca, segui para a esquerda e entrei num corredor cheio de quartos,
entrei no meu quarto para eles saberem onde era e depois de sair dele entrei na
porta que estava ao seu lado direito- Podem ficar aqui, como viram o meu quarto
é mesmo aqui ao lado, se quiserem alguma coisa é só entrarem.



Sai do quarto dos rapazes para
lhes dar um pouco de privacidade e entrei no meu, deitei-me em cima da cama e
adormeci.