Notas iniciais
Eba, primeiro capítulo! *-* É a primeira vez que escrevo uma história original e escolhi o gênero de fantasia por ele me fascinar. Este comecinho de história é bem leve, apenas para sentirem o sabor de viver nesse universo que eu criei. Estou torcendo para que gostem!

O som de aço se chocando era estridente. Richye sentia o coração palpitar mais forte sempre que ouvia a lâmina cantar a milímetros de seu rosto. Porém, mesmo que o golpe fosse perto, ele não cedia. Analisava a situação rapidamente e dava um jeito de revidar. Seu braço nunca seria mais forte que o de Tomas, sendo este quatro anos mais velho e forjador de metal, mas ele conseguia compensar com agilidade. Infelizmente, ao fazer um movimento em falso e desferir um ataque em pleno ar, deu oportunidade para que Tomas desse uma poderosa pancada no gume de sua espada. Ele sequer conseguiu segurá-la. Quando deu por si, a arma já jazia no chão e seu rosto enrubescia de constrangimento.

– De novo! Vamos mais uma vez! – Richye praticamente ordenava, sentindo a humilhação tomar conta de si.

Tomas se limitou a rir, os cabelos loiros grudados no rosto pelo suor.

– Senhor Siwic, acho que já lutamos bastante por hoje. Talvez deva voltar para as espadas de madeira, elas são mais leves e fáceis de usar.

– Meu tio disse que eu já poderia treinar com espadas de verdade. Mas só comecei no primeiro mês da primavera, pode levar mais algumas semanas para que eu pegue o jeito – Richye explicou, levemente contrariado.

Tomas recolheu a espada do chão e se aproximou do mais novo.

– Fique tranquilo, não estou fazendo pouco do senhor. Para falar a verdade, você melhorou muito! Lembra quando chegou a Glemith? Não sabia nem como segurar um graveto, quem diria lutar contra alguém.

Richye estava para retrucar, mas detectou o tom de brincadeira na voz de Tomas e permitiu-se sorrir. De toda forma, Tomas estava certo.

Havia já seis anos que virara pajem de Symas Castew, Senhor de Glemith. Quando deixou Nova Vancaster, era um garotinho assustado e mirrado, tinha medo até de falar em público. Fora posto para lutar com Symond, o filho mais velho do senhor, logo no primeiro treino e, em menos de um minuto, estava todo dolorido e encolhido no chão. Escutou quando os mais velhos riram de sua vergonha. Naquela noite, chorou até dormir, desejando mais do que tudo estar em casa. Pela manhã, foi ao grande salão fazer o desjejum e viu Senhor Castew, sozinho, à ponta da longa mesa, olhando-o com seus olhos verdes avaliativos. Amedrontado, precisou arranjar forças para se aproximar da mesa. Tomava um lugar mais ao centro, quando o homem disse:

– Sente-se ao meu lado, rapaz.

Richye sentiu-se gelar. Cauteloso, ocupou o assento à direita do senhor da província. Uma das empregadas veio lhe servir um prato de mingau. O menino agarrou uma colher e começou a comer, fazendo esforço para não derramar o caldo apesar da mão trêmula.

– Como está o gosto?

Sem coragem para erguer os olhos, ele acenou com a cabeça energeticamente.

– Muito bom, Vossa Senhoria.

– Ouça, Richye – o tom de Senhor Castew era tão solene que seria uma ofensa não olhá-lo de volta.

Senhor Symas Castew, já naquela época, possuía algumas rugas na testa e nos cantos dos olhos. Os cabelos eram castanhos claros, mas grisalhos nas laterais bem acima das orelhas, o que indicava os seus quase quarenta anos de idade. Tinha uma barba espessa que fazia Richye lembrar a de seu próprio pai e os olhos verdes duros como pedra. Era intimidante e não precisava fazer mais que encarar para passar tal impressão.

Richye apertou a colher na mão, engolindo em seco.

– Vo... Vossa Senhoria?

– Eu ouvi sobre o seu treino de ontem. Disseram que caiu rapidamente após umas poucas pauladas.

Era isso. Seria para sempre lembrado pelo vexame daquele dia. Agora, arrependia-se de ter desejado voltar para casa. O senhor o enviaria de volta e, não só isso, ele teria de carregar o peso da humilhação pelo resto de seus dias. Como pôde ser derrotado em tão pouco tempo de luta? Por que não se ergueu e exigiu revanche? Devia ter lutado até não conseguir mais parar em pé, como fora covarde...

– É verdade – confessou ao homem.

– Mas também falaram que você não chorou.

Richye negou, sacudindo a cabeça. Era impossível mentir.

– Chorei, sim. Assim que fui deitar.

– As lágrimas lavam a alma, e uma alma limpa é o que faz um bom cavaleiro.

– Está dizendo que chorar é algo bom? Não é coisa de quem é fraco?

Senhor Castew recostou-se na cadeira, apoiando os cotovelos nas braçadeiras.

– Por enquanto, você é um menino. Se não puder chorar agora, nunca mais poderá.

O jovem ficou inquieto, segurando a colher com ainda mais força.

– Mas eu não quero ser um menino chorão. Quero ser um cavaleiro, um homem valente!

– E será. Não o deixaram sob meus cuidados para que se torne um paspalho – a voz do senhor ficara dura como seus olhos.

Richye encolheu-se um pouco.

– Sinto muito pelos meus modos, Vossa Senhoria.

O garoto foi pego de surpresa pela risada áspera do homem. Não sabia se tomava aquilo como um sinal bom ou um sinal ruim.

– Viu só como me enfrentou agora há pouco? Nem mesmo Symond responde a mim. É mais corajoso do que pensa, rapaz. Dê dois anos e estará colocando todos para correr atrás das saias das mães.

O humor de Richye se elevou consideravelmente.

– Acha mesmo, Vossa Senhoria? – perguntou, não contendo um sorriso esperançoso.

– Acho. E eu me certificarei de que isso aconteça. Só me faça um favor, está bem? Pelo Abismo de Fogo, chame-me de tio. Minha irmã pensará que estou lhe maltratando se o vir me tomando por seu senhor.

A mãe de Richye, Rosia, era a irmã mais nova de Symas Castew. Casara-se aos vinte com Gery Siwic, Senhor de Nova Vancaster. Da união, nasceram Richye e seu irmão mais velho por cinco anos, Ames.

Atualmente, Ames era o senhor de Nova Vancaster, uma vez que o pai havia falecido no terceiro mês do último inverno. Richye ficara muito abalado com a notícia. Tinha esperanças de que seu pai o visse como um homem feito, após receber a honra da cavalaria. Isso não seria mais possível. Contudo, precisava admitir que não se recordava muito do homem, tendo-o visto pela última vez em uma festa da colheita dois anos antes. Aquele encontro final havia sido um tanto frio, achou Richye.

O menino pegou a espada das mãos de Tomas e pôs-se em posição de combate.

– Outra vez, então?

– Eu devia voltar para a ferraria – comentou Tomas, estalando o pescoço tenso. – Meu pai não gosta quando fico aqui brincando.

– Não é nenhuma brincadeira, ser cavaleiro é uma profissão muito honrada – rebateu o menor.

Antes que Tomas pudesse responder, Carisa Castew apareceu com uma expressão pouco satisfeita.

– Está atrasado, Richye. O jantar do meio-dia já vai ser servido.

Ela parecia realmente impaciente, Richye sabia como detestava ser uma garota de recados. Suspirou, resignado.

– Tudo bem, o Tomas já estava indo embora mesmo – o garoto foi até a prima.

Ela fez uma careta de repugnância ao analisá-lo com mais atenção.

– Você está imundo, cheio de terra nas roupas! Sem contar esse cheiro... Há quanto tempo está rolando nessa imundice? Espero que minha mãe lhe dê uma bronca daquelas.

Tomas nem se deu ao trabalho de retorquir. Era costume de Carisa desde pequena a implicar com todos que pudesse. Ela era a única filha de Symas Castew e também a queridinha da província. Tinha catorze anos, um ano a mais que Richye, e já possuía contornos de mulher. Seus cabelos eram do mesmo castanho claro do pai, porém tinha os olhos cor de âmbar da Senhora Castew. Seus traços do rosto eram harmoniosos e delicados, era considerada um deleite aos olhos.

Certa vez, alguns altos nobres do continente de Caligia fizeram uma visita a Vallasea. Ao passarem por Glemith, os Castew sediaram um banquete em sua honra. Durante a festa, um ricocovethpediu ao tio de Richye que concedesse a mão de Carisa, para que fosse uma de suas várias esposas. Normalmente, o pedido abrupto e inapropriado teria sido um insulto, mas o Senhor Symas Castew preferiu evitar um conflito e culpou o vinho. Riu e disse: “Minha filha só se casará no dia em que o Abismo de Fogo me engolir!”

O tio não falava sério, Richye acabava por supor. Carisa já tinha uma fila de pretendentes, até mesmo de outros reinos de Veridia. Só era preciso sentar um dia daqueles e decidir qual união seria a mais vantajosa.

Por enquanto, Carisa era uma donzela descomprometida. Seus admiradores poderiam adorá-la sem fazer segredo por mais algum tempo.

– Muito bom dia, Senhora Carisa – Tomas falou prontamente, fazendo uma reverência exagerada.

– Não sou uma princesa, Tomas. Trate de se endireitar – ela ralhou.

Richye revirou os olhos. Será que ela não percebia que os rapazes sempre agiam assim perto dela? Por que ainda se zangava?

– Bom, não há tempo para bobagens. Vamos de uma vez, Rich – ela se virou e foi andando à frente.

– Acha que um filho de ferreiro pode se casar com a filha de um senhor? – perguntou Tomas quando Carisa já estava longe o bastante.

Richye comprimiu as feições como se tivesse experimentado algo azedo.

– Eu o considero um bom amigo, Tomas. Por favor, não me faça questionar essa amizade.

Tomas deu uma gargalhada e depois retornou à ferraria.

–--x---

Mas que dia, pensou Carisa. Havia poucas horas que estava de pé e tudo já parecia dar errado. Resolvera vestir naquela manhã o vestido com seda de Caligia dado por Harlex Eller, Senhor de Elmoor. Era um de seus preferidos, porém fora completamente arruinado quando uma serviçal lhe derramou leite de cabra durante o desjejum. A moça se desfez em pedidos de desculpa e Carisa muito pacientemente disse que estava tudo bem. Mais tarde, quando deveria ter aulas de canto, seu professor não apareceu, deixando-a esperando durante uma hora e meia na sala de artes. Quando cansou de aguardar e decidiu prosseguir com seus outros afazeres, a mãe quis que fosse buscar Richye, que devia estar brincando em algum lugar de Glemith.

– Por que não pede a Ernis? Não sou uma aia para viver atrás de um menino. Na verdade, Richye nem é tão pequeno assim. Já tem idade para saber seus horários e deveres.

Mas com Diara Castew não havia discussão. Seus pedidos eram ordens. Carisa teve de procurar o primo e trazê-lo para dentro do castelo, ainda que a contragosto. Porém, sabia por que havia sido incumbida daquela tarefa: era a única que Richye obedecia além de Senhor e Senhora Castew. Como estes dois eram muito ocupados, sobrava para Carisa manter o garoto sob controle.

Agora, praticamente todos os Castew estavam reunidos à mesa. Symas Castew sentava-se a uma das extremidades, sendo o senhor do castelo. À sua direita, a esposa Diara servia-se da carne de porco. À esquerda, Symond mastigava com certa voracidade, que Carisa julgava pouco educado. Richye estava logo ao lado, deixando os feijões rejeitados no canto do prato, ainda que tivesse que comê-los no fim das contas. Já ela estava junto à mãe, sentindo pouca fome, mas obrigando-se a comer um tanto de guisado. Para a família ficar completa, Dim devia estar presente, porém estava a centenas de quilômetros dali. Estudava medicina em D. Malrion e ficaria ausente por pelo menos mais alguns anos até completar os estudos. Ela sentia imensa falta do irmão, pois era com ele que tinha mais afinidade. Após a partida dele há um ano, começou a se dedicar mais a suas atividades e menos a amizades.

Como gostaria de fazer algo diferente de sua monótona rotina... Porém, estava presa a Glemith, nunca sequer deixara o castelo. Imaginava que aquilo só aconteceria quando seu pai lhe arranjasse um esposo e tivesse então que se mudar para seu novo lar ao lado do escolhido. Mas a ideia não a animava. Casar-se com alguém que nem conhecia, que talvez não compartilhasse de seus gostos... Uma perspectiva pouco excitante. Quem sabe, não fosse tão ruim. Fora assim com seus pais e eles se respeitavam profundamente, talvez até mesmo certo afeto tivesse se desenvolvido com os anos. Mas preferiria ter um casamento como os pais de Tomas, o filho do ferreiro. O ferreiro e sua esposa haviam se casado por amor, e Carisa os admirava por isso. Podiam não ter muito em suas vidas, mas pelo menos havia alguma felicidade.

Era improvável que ela um dia tivesse um destino parecido.

– Filha – Symas Castew chamou.

Ela virou o rosto em sua direção.

– Sim, meu pai?

– Recebi uma carta esta manhã. Era de Sua Alteza, a própria Princesa Lyra.

Carisa não pôde conter a expressão de surpresa. Às vezes, o pai recebia cartas vindas da capital do reino, até mesmo do Rei Mathye. Porém, uma carta da princesa não parecia fazer sentido. O que ela poderia querer com seu pai? E por que ele estava lhe contando sobre tais assuntos?

– Por favor, prossiga, pai – ela disse, ansiosa.

– A princesa deseja que você seja sua dama-de-companhia. Dentre as várias jovens da nobreza, ela a escolheu para essa honra.

Richye fez um som de assombro com aquela novidade, enquanto Symond mal arqueou as sobrancelhas. A mãe lhe deu um sorriso, afagando seu ombro.

– É realmente um motivo de orgulho ser escolhida, querida.

Carisa piscou, tentando absorver a notícia.

– Ela deseja que eu vá para Eelry?

– É o que parece – falou o pai. – Porém, se não quiser ir, posso escrever uma recusa. Dizer “não” a um membro da família real é pouco sensato, mas você ainda tem essa opção. Não serei eu a obrigá-la.

Aquilo basicamente significava que não, ela não tinha escolha. Mas a oportunidade até que viera em boa hora. Frequentar a corte e morar sob o mesmo teto que o rei e a rainha poderia ser aquela fuga da rotina que tanto desejara.

Carisa sorriu levemente, pegando sua taça de água.

– Eu ficarei honrada em servir nossa princesa.

Notas finais
Os primeiros capítulos são mais uma introdução, mas eles possuem pequenos detalhes essenciais para acontecimentos importantes no futuro. Há ainda outros personagens que serão de grande importância e que estou ansiosa para apresentar!

Espero que vocês não tenham problema com capítulos longos, pois a tendência é que eles fiquem um pouco maiores. É muita coisa pra contar, juro que tento não usar linha à toa, mas é difícil economizar hahah

Por favor, se leram, deixem um comentário para eu saber o que acharam. É só um minutinho e pode ser de grande ajuda! Opiniões, críticas, sugestões... Vale tudo!

Obrigada por ler :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.