Notas iniciais
Oi. Esse é meu primeiro conto. Na verdade, é o primeiro conto que divulgo para outras pessoas. Talvez só assim para eu conseguir chegar ao final de alguma história. O desanimo sempre bateu na minha porta enquanto estive na metade do caminho, mas dessa vez, sei que vou conseguir chegar lá. Ah, acho que é meio óbvio que minha maior inspiração é o grandioso George. R. R. Martin, portanto, o estilo que vou usar é semelhante. Capítulos por pontos de vista de um personagem em específico, mas ao contrário de Martin, não direi quem é o personagem em questão, ficando a cargo do próprio leitor. Obs: As letras em itálico são o que o próprio personagem PDV pensa, assim como Martin, mas acho que isso fica óbvio na leitura. Tchau.

Veronna é um vilarejo pacato e simples. Abriga cerca de duas dúzias de famílias, não muito ricas e nem muito pobres. No geral, são fazendeiros e agricultores, isso explica o fato do local ser cercado por grandes campos de centeio e aveia, bosques de macieiras e pessegueiros. Mais além, é possível avistar grandes colinas erguendo-se, em todas as direções, exceto a oeste, onde se encontra a única entrada (ou saída) de Veronna, uma ponte de trinta passos de comprimento sobre uma das centenas de ramificações do Grande Larko, o rio mais extenso conhecido no mundo. O lugar não apresentava muralhas, apenas um muro, não mais alto que uma criança, feito de pedras empilhadas pelos próprios habitantes dali; nunca houve a necessidade de se defenderem de alguma ameaça, era uma área calma e totalmente pacífica.

Como de costume, Edron, um menino de doze anos, despertou muito antes dos primeiros raios solares tocarem os telhados das simples casas de madeira de Veronna. Era um garoto baixo para sua idade, seus cabelos eram ondulados e curtos, castanhos escuros, assim como seus olhos. Já era rotina encaminhar-se até um dos bosques de macieiras do sul de Veronna a fim de conversar com seu irmão. Percorreu o caminho de barro seco ao longo de campos e celeiros, um dos moinhos do Larko, cercas que limitavam o território de ovelhas, cavalos e avestruzes, e carroças estacionadas. Foi com roupas simples de pano, uma camisa branca velha e rasgada e uma calça cinza que passava de seus joelhos, utilizava chinelos.

Entrou em meio aquelas árvores. Os galhos caíam até o chão, lotados de maçãs, portanto, volta e meia era preciso usar seus braços a fim de limpar o caminho a sua frente. Mas aonde iria não encontraria maçãs, não encontraria fruta nenhuma, e sim, um grande carvalho, bem ao centro do bosque. Era tão alto, precisaria três pessoas adultas de mãos dadas para abraçar seu tronco. A copa abrangia uma área imensa e proporcionava muita sombra. Não havia outra árvore por toda a área protegida pelo carvalho, apenas alguns arbustos e partes das raízes da própria imperadora das macieiras, deixando o solo e se expondo ao ar.

Edron sentou-se no chão com a face virada para o carvalho, sobre uma camada de folhas secas barulhentas, um barulho “crocante”.

– Já faz dois anos. – Disse. A resposta que obteve foi o ruído de galhos chocando-se uns contra os outros por conta do vento que vinha com alvorada. – É provável que hoje chova.

Suas palavras eram direcionadas para o carvalho. O que acontece, é que seu falecido irmão mais velho fora enterrado ali, bem ao meio das raízes milenares daquela grande árvore. Feito isso, Edron passou a ver a silhueta do irmão estampada, em troncos maiores e troncos menores, em folhas, em raízes, em tudo. Era seu irmão quem estava ali presente, vivo, ouvindo e respondendo.

– Você tinha que ter visto! Leera conseguiu pegar dois peixes nadando! Ela é uma ótima nadadora, e também rápida, se saiu melhor do que eu com uma vara de pescar. – Sorriu. – Talvez se eu fosse capaz de nadar, venceria minha própria cachorra. Você prometeu que iria me ensinar. – Um sorriso transformou-se em uma expressão triste. – Queria que estivesse aqui...

Foi nesse momento que Leera apareceu no local. Era uma cachorra de porte mediano, semelhante a uma raposa, porém, com pelos brancos, um focinho longo e olhos azuis, seu grande rabo balançava para direita e para esquerda, direita e esquerda, quando encontrou Edron.

– Veja! Depois de dois anos, ela não cresceu nenhum centímetro! – Abraçou Leera e a levou perto do carvalho. – Você disse que ela cresceria, ficaria do tamanho de um lobo. Estava errado. Pelo menos nisso eu venci!

Os primeiros raios solares chegaram. Dia após dia, sempre estivera lá dizendo o que fizera no dia anterior, contanto o que fez, o que faria e o que achava de tal coisa, desde a morte do familiar. Talvez fizesse com que não se sentisse tão só. Seu irmão era acima de tudo, seu melhor amigo, e talvez o único. Edron era introvertido, tímido e antissocial, não se familiarizava com nada facilmente, os poucos amigos que tivera foram se afastando gradativamente, visto que após a morte de seu ente querido, viu-se em uma depressão sem fim. Agora, já não era tão impactante, mas não se esforçava para recuperar seus antigos companheiros. Se fossem meus amigos de verdade, não se afastariam de mim quando estive ruim. Eles que venham até mim. Talvez tivesse razão.

Às vezes, ficava tanto tempo tagarelando em frente ao carvalho que sua mãe era obrigada a ir lhe chamar para tomar café ou até mesmo almoçar. Ela entendia seu filho, mas se preocupava com o que ele viria a se tornar. Seu irmão fora importante para ambos, mas Edron não era capaz de permitir que a alma deste descansasse, não conseguia aceitar.

Em meio a sua conversa, ouviu um barulho suspeito, e dessa vez não foi o barulho de folhas que escutou. Inclinou-se um pouco para tentar enxergar o que havia do outro lado de um arbusto próximo. Viu-se obrigado a levantar. Silenciosamente aproximou-se. E se for um animal selvagem? Leera me protegeria ou fugiria?

Por mais silenciosos que fossem seus passos, as folhas secas quebravam-se e gritavam, justamente quando mais precisava ser cauteloso. Quando estava a três passos da origem dos ruídos, teve certeza que se tratava de roncos. Sem esperar, chegou o mais perto possível para identificar o dorminhoco. Era um jovem, de dezesseis anos talvez, mas estava completamente despido. Quem é ele?

Toda a cautela de Edron foi em vão quando Leera se aproximou e latiu três ou quatro vezes, quando o menino a mandou ficar quieta, em um tom bem alto. Rapidamente, correu para trás do grande carvalho, e claro, Leera o seguiu.

– Você estragou tudo! E se for um assassino? – Cochichou para Leera, mas escutou as folhas se quebrando por causa dos passos do indivíduo misterioso.

– Quem é você? – Rapidamente, a face do jovem estava a menos de um metro de Edron. O cabelo era verde escuro, liso, mas não longo, e seus olhos, também um verde bem forte. Edron ficou sem reação ao encará-lo. Quem é “você”? Eu quem pergunto! Não conseguiu proferir palavras, limitou-se a encarar aquele indivíduo no rosto.

– Você deveria estar vestido... – Disse Edron assustado. O jovem era alto e tinha uma expressão confusa.

– Vestido? E por que eu deveria? – Perguntou.

– Bom... Para não se expor muito. – Afastou com três passos, sem deixar de encará-lo. Leera passou a latir descontroladamente.

– Onde estamos?

Edron logo concluiu que se tratava de perda de memória, mas que tipo estranho, a ponto de esquecer que se vestir era algo importante, não um ato dispensável. Ele não poderia sair por aí totalmente despido.

– Bem... Estamos em Veronna... – Respondeu Edron, em meio aos latidos de sua cachorra ao seu lado.

– Eu não sei do que está falando. – Disse, mas Edron não compreendeu.

– Como assim? Eu lhe disse onde estamos, pois você acabou de me perguntar! – Não. Ele sofre de perda de memória recente. É isso?

– Ah! Sinto muito, estava respondendo a este seu pequeno animal branco. – Respondeu com um sorriso bobo estampado em seu rosto.

Lunático.

– É? Chama-se Leera, e o que foi que ela lhe disse?

– Hmm... Ela acha que a devorarei. – Sorriu. – Não seja tolinha. Mas talvez seja saborosa...

– Sim... Ela te disse isso. – Disse Edron, em tom irônico. – E você, definitivamente, não vai tocar nela.

– E então?

– E então o quê?

– Aonde iremos?

– Aonde iremos? Você vai ficar aqui e eu vou para minha casa! – A essas alturas, Leera já havia parado de latir.

– Muito bem. Ficarei aqui. Até mais! – Então se sentou, escorando as costas no carvalho.

– Até mais. – Edron se despediu e foi para casa correndo.

Sua casa era pequena e de madeira. Três cômodos, sendo dois quartos e uma cozinha. Havia em frente um pequeno jardim colorido, das mais variadas flores, cultivadas pela própria mãe de Edron, Melysa, uma mulher de cabelos castanhos e escuros bem longos, batendo no final de suas costas. No momento, colocava água para ferver. Edron deveria passar pela cozinha se quisesse chegar até seu quarto, e era lá que ela encontrava-se.

– Edron? – Perguntou, antes que ele se dirigisse para seu quarto.

– Mãe. – Inicialmente, nada disse, apenas cessou os passos e ficou de costas. Se por acaso ela descobrisse que havia malucos rondando os bosques de Veronna, poderia até mesmo proibi-lo de visitar o carvalho sozinho.

– Está escondendo algo. Você é muito previsível.

– Eu não sou previsível. – Se virasse o rosto, sabia que ela descobriria que de fato, escondia algo. Sua mãe poderia conhecê-lo muito bem, mas nada impediu que Edron também a conhecesse.

– Posso ver seu rosto?

– Não! – Respondeu, sem graça. Era tarde, ela iria descobrir, porém, limitou-se a rir.

– Você não sabe mentir. Não é capaz de mentir nem mesmo para uma criancinha. – Gargalhou ela. Leera já tinha entrado em casa.

– Mãe... – Resmungou e virando-se frente a frente com Melysa. – Preciso de sua ajuda...

Edron na verdade, estava preocupado com o indivíduo cujo abandonara na floresta. Sem memória, aparentemente inocente, como se defenderia de alguma ameaça? Fazendeiros poderiam muito bem caçá-lo e prendê-lo por estar daquele jeito no bosque, alegando ser um ladrão, ou pior, um pervertido, ou talvez fosse... Quem sou eu para julgá-lo? E ainda sem roupas. Explicou tudo para sua mãe, sentia-se mal por ter virado as costas.

– Vamos levar roupas para ele e convidá-lo para vir aqui. – Sugeriu Melysa.

– Assim, tão fácil? E se ele for uma ameaça?

– Estaremos juntos, e se ele não possui nem mesmo roupas de corpo, que perigo nos apresenta? Por segurança, levarei uma faca, e nos protegemos mutuamente, certo?. – A faca a qual Melysa se referia, era na verdade uma adaga, mas talvez dispensasse o uso dela, nunca houve casos de assassinatos ou assaltos em Veronna, era um local muito longe de grandes impérios e cidades, reinos e palácios, onde havia usurpadores, pessoas gananciosas e golpistas. Aquele lugar era uma simples fazenda, não chamava a atenção de ninguém, não havia riquezas e algo que significasse uma preciosidade a ponto de ser cobiçada.

Tenho a mãe mais corajosa do mundo.

– Muito bem, vamos lá.

Caminharam de mãos dadas até o grande carvalho, e para surpresa de Edron, o jovem estava sentado no mesmo lugar que estivera quando se despediram, porém, dormindo. Melysa não se aproximou muito, a quatro passos de distância, jogou as roupas em cima dele. Era uma camisa verde de lã e uma calça de tecido grosso, marrom. Largou ao chão também, sandálias. Ele não despertou.

Edron foi mais agressivo, jogou uma pedra que atingiu sua testa.

– Você voltou! – Levantou-se rapidamente, ignorando a provável dor, mãe e filho, ambos, afastaram-se um passo dele.

– Vista aquelas roupas e diga-nos quem é. – Ordenou Melysa, em tom carrancudo.

– Devo colocar essas coisas como vocês? – Perguntou ele, observando a mulher e o menino.

– É! Eu lhe disse mãe. Ele esqueceu que é um humano!

– Podemos ajudar você. Venha conosco, fique em nossa casa até que sua memória volte.

– Sim, irei. – Respondeu ele.

– Não se recorda nem mesmo de seu nome, como podemos chama-lo por enquanto? – Perguntou Melysa. Edron olhou para o grande carvalho ao seu lado.

– Danker. – Sugeriu.

– O nome de seu irmão...

– Sim. Vamos chama-lo de Danker... Até que recupere a memória, claro! – Se recuperar.

– Danker, se vista agora, por favor, não sou obrigada a ficar vendo... Isto. – Insistiu ela.

Dito e feito. Danker, nome o qual seria chamado agora, se vestiu com aqueles trajes simples, mas com um pouco de dificuldade. Primeiro, colocou tudo pelo avesso, sendo obrigado a retirar e colocar de novo, isso antes de confundir as pernas da calça, achando que se encaixariam em seus braços. Não disse muitas coisas, parecia desconfiado... E com medo. Ele nos teme mais do que o tememos.

Enfim, Edron se sentia melhor em saber que o ajudara. Provavelmente aconteceu algum acidente com Danker, talvez tenha batido a cabeça ou bebeu demais e acabou perdendo a memória, a ponto de tirar a roupa e ir para o fim do mundo, no caso, Veronna.

– Obrigado... – Disse Danker enquanto caminhavam de volta para casa. Ele manteve certa distância dos dois, apenas alguns passos atrás, e era possível ver isso em seu rosto. De fato, estava com medo, muito medo.

– Não nos agradeça. – Respondeu Melysa. – Aqui em Veronna, somos bem hospitaleiros. Se ficasse na floresta todas as noites, poderia se deparar com algum animal selvagem, e não quer isso quer?

– Se eu pudesse devorá-lo... Talvez sim. – O medo pareceu sumir rápido, e agora, encontrava-se empolgado e com uma expressão sorridente, porém, um pouco tímida.

Aquilo provocou risadas em Melysa e Edron.

– Mãe... Ele me lembra de Danker.

– De fato... Talvez os deuses tenham algum plano para nós... – Respondeu ela.