Como era bom dormir em uma cama depois de semanas deitando no chão duro desconfortável, sobre pedras, grama e barro. Quando acordou, o sol já entrava pela janela do quarto. Encaminhou-se até ela e vislumbrou um lindo dia ensolarado. Poderia ser mais belo, se o mundo não estivesse em guerra imperialista.

Lembrou-se que durante a madrugada, ouviu barulhos no salão da entrada da casa. Quando foi até lá para ver do que se tratava, Jean estava lá segurando alguns livros.

– O que está fazendo, Jean? — Perguntou. Droga! Essa casa é dele. Ele é quem tem que perguntar o que estou fazendo.

Jean limitou-se a dizer:

– Estou sem sono. Lerei um pouco.

Mas a porta estava aberta. Ele leria lá fora? Mas isso não é da minha conta. Ignorou o que viu e voltou para a cama.

Dowell não estava no quarto. Já deve estar duelando com Halder essas horas. Elys estava dentro do banheiro.

– Bom dia, Danker. – Disse ela, após sair, bem perfumada e utilizando um vestido curto branco, com estampas douradas. – O que pretende fazer?

O que pretendo fazer? Eu sou refém de vocês. Vocês é que tem que dizer o que devo fazer! Agora vão me dar liberdade?

– Não sei. Observar Dowell tentando montar em um rinoceronte?

– Confesso que seria engraçado vê-lo cair o dia inteiro, mas não perderei tempo com isso. – Elys pegou seu cinto que estava em um baú de roupas sujas, retirou sua pequena bolsa dele e procurou por moedas. – Danker. Veja se tem moedas nas roupas imundas de Dowell. – Pediu.

Danker o fez. Encontrara apenas uma moeda de prata.

– Tome. – Disse entregando-a para Elys.

– Não. Fique com você. A cidade é grande, não vai querer ficar aqui dentro dessa casa o dia inteiro, não é? – Elys apunhalou sete moedas de prata e colocou-as em um bolso interno do vestido.

Esse dinheiro não é meu.

– Bem... Obrigado. Dowell não vai se im...

– Ele não se importa com nada, aquele rinoceronte sem cérebro. Ele sabe muito bem que corremos risco aqui, dentro de Tarph! Imagina essa cidade ser atacada assim como Kotarph e Letarph? Estamos com sérios problemas. Vá e gaste todo esse dinheiro.

Danker assentiu, se bem que com uma moeda de prata não daria para fazer muitas coisas. Então foi ao banheiro, banhou-se e desceu as escadas para tomar café. Jean estava sozinho na mesa, lendo alguma coisa enquanto banhava rosquinhas em um pote de geleia. Danker aproximou-se dele sem que percebesse.

– O está lendo? – Perguntou Danker, assustando Jean, que fechou o livro rapidamente.

– Não é de seu interesse! – Mais grosso impossível. Só após alguns segundos notara que não foi nem um pouco educado. – Me Perdoe Irmão Danker. Você me assustou. – Educação floresceu como flores em um jardim. – Sente-se. Tome café. Pretende conhecer a capital hoje?

A rápida mudança de personalidade assustou Danker. Mas o garoto sentou-se a três cadeiras de distância.

– Não sei... Não sei se devia sair de vista de Dowell e Elys. – Respondeu enquanto abocanhava um pedaço de pão amanteigado.

– Não é uma criança, certo? És livre para ir e vir. Se precisar de ajuda, diga-me.

– Não. Não é necessário. Obrigado.

Jean então voltou para sua leitura. O jovem estava sempre arrumado, com uma roupa diferente da que utilizava no jantar do dia anterior. Enquanto isso, Danker vestia a mesma coisa, mas não tinha opção, era apenas um hóspede utilizando roupas emprestadas, não estava no direito de pedir outros trajes.

– Vou ver como Dowell está se saindo. Onde estão?

– Vá até a cozinha que as empregadas lhe mostraram a porta do pátio.

E o fez. Danker se levantou e foi em direção à cozinha. Chegando lá, encontrou aquela empregada nova que apresentava olhos tristes na ceia do dia anterior. Ela estava lavando panelas.

– Com licença...

Por algum motivo, a garota se assustou.

– Se... Senhor, eu... O que... O que deseja? – Por que está tão nervosa? Por que todo mundo se assusta nessa casa? Será que me temem? Será que sabem de alguma coisa?

– O pátio. Onde está Dowell? – Perguntou, mas não foi necessário, ouviu os gritos do rapaz vindo lá de fora. – Já sei. Obrigado. – Guiou-se até uma porta e vislumbrou o grande pátio daquela casa.

Era uma arena quadrada de chão arenoso. Uma área bem grande. Cem ou duzentos passos de cada lado. Um muro de rochas cercava toda a área. E lá estava Dowell, montado em um rinoceronte, duas vezes mais alto que o pequeno mago.

– Olá, Danker! – Acenou ele, com uma espada de madeira na mão. O jovem encontrava-se todo sujo e com o cabelo bagunçado. Estava um pouco machucado nos braços e feridas leves por quase todo o seu corpo. Utilizava um gorjal de madeira sobre cota de malha escura e grevas de aço nas pernas.

Danker o respondeu com um aceno, mas antes que Dowell o visse, um homem montado em outro rinoceronte o atacou com uma espada de madeira na barriga, o suficiente para derrubá-lo do animal.

– Eu estava distraído! – Protestou Dowell enquanto se esforçava para levantar. Bateu-se para remover a areia.

Não é que ele conseguiu montar?

O velho Halder estava se matando de tanto rir, sentado em um banco de pedra do outro lado do pátio.

– O montador de avestruzes foi capaz de montar um rinoceronte, mas por quanto tempo o consegue sem cair? – Riu tanto que engasgou. Quando se recuperou, voltou a rir.

– Droga... – Foi caminhando em direção a Danker. – Olá Danker. Ficarei um tempo aqui até que esse velho me inscreva no campeonato. Você pode... Bem... Faça o que quiser por aí. Dê uma volta em Tarph, faça amigos. – Sorriu. – Mas lembre-se, se não aparecer antes da lua, voltarei até Veronna e incendiarei tudo que você um dia amou. – Disse.

Ele não vai fazer isso. Sei que não vai. Não teria coragem. Confiam em mim a ponto de permitirem que eu perambule livre por aí.

– Irei. – Despediu-se de Dowell, que voltou rapidamente a montar a grande fera.

Entrou na casa, passou pela cozinha, pela sala de estar e pelo salão da entrada. Lá estava Myllen, sentada em um dos degraus da escada que levava para o andar superior.

– Myllen. – Danker chamou-a. – Vamos andar? – A garota assentiu.

Saíram da grande casa, passando pro aquele grande jardim frontal. Desceram algumas escadas até chegarem a uma rua bem movimentada, de pessoas e rinocerontes. Havia tendas para todos os lados. É diferente de Veronna. Vendem de tudo por aqui. Viu alquimistas vendendo poções, pergaminhos e instrumentos, viu também comerciantes extravagantes que prometiam absurdos para seus vendedores. “Esta esfera pode ver o futuro”, dizia um deles. Danker optou por ignorar aquilo. O garoto árvore sentiu-se um pouco intimidado na presença dos soldados de elmo rinoceronte. Essas pessoas não devem confiar neles. Em um segundo, protegiam Kotarph. No outro, a invadem!

Outra coisa que chamou a atenção de Danker foi um morador de rua, um velho magro e careca, com trajes sujos, e de expressão morta, mas este utilizava suas forças para levantar uma placa de madeira, e nela estava escrita algo muito curioso.

– “O fim é próximo quando os lordes irresolutos tomam o poder”. – Citou Myllen.

– Lordes irresolutos? – Danker não compreendeu.

– Reis indecisos. – Myllen se surpreendeu com a ingenuidade de Danker.

Passaram por uma galeria de estátuas heroicas, esculturas cinco vezes maiores que um adulto comum. Homens montados ou não em rinocerontes, segurando poderosas armas de combate. Em sua maioria, espadas, machados e até mesmo picaretas.

– O Grande Irmão Tarph. – Explicou Myllen enquanto percorriam a grande galeria. – O fundador da cidade e o primeiro domador de rinocerontes. Segura um machado, veja. – Apontou. – Ele cortava os chifres dos rinocerontes agressivos.

Por que este homem é considerado um herói? Lembrara-se da história que Danker lhe contara. Ele engravidava as próprias filhas.

– Veja o próximo. O Grande Irmão Leonel, o primogênito de Tarph. Reinou após a morte do pai, e foi ele quem construiu a cidade a partir das rochas que retirava das minas. Por isso segura uma picareta. As pessoas costumam chama-lo de Leonel, o mineiro. O próximo é o segundo filho de Tarph, visto que Leonel morreu sem filhos e em circunstâncias misteriosas, o Grande Irmão Nero. Este foi capaz de erguer o castelo sobre os picos rochosos e construir habitações dentro das montanhas que cercam a cidade, um grande feito para a época. O chamam de Nero, o arquiteto.

Nero era o primeiro da fileira de estátuas que não montava em um rinoceronte. Ele segurava um pergaminho. Deve ter sido o mais inteligente de todos.

– O próximo é Grizzer, o necromante. Em seguida temos Yanke, Unker, Zothary... Enfim. Não sei a história de todos.

– Você é sábia, Myllen. – Danker a elogiou.

– Minha mãe que me contava. Ela quem foi sábia. – Abaixou a cabeça com essas palavras, mas não chorou.

– Adoraria tê-la conhecido. – Respondeu Danker. Acredito que dessa vez acertei as palavras!

– Danker. – Parou os passos e olhou para ele. – Não tive a oportunidade de lhe agradecer. Durante toda a viagem, o temi. Nunca vi coisa parecida com aquela. Eu o julguei pelo que achei que você fosse, mas percebo que não é o que imaginava. Muito obrigada. Você também salvou minha vida. – E deu um sorriso tímido.

Danker acabou ficando sem graça.

– Eu... Eu entendo você. Depois daquilo eu... Bem. Meio que também fiquei com medo de mim mesmo.

Conseguiu roubar outro sorriso simples do rosto de Myllen.

– O Filho da Natureza.

Danker nada respondeu, prosseguiram caminhando, até o jovem visualizar um pequeno bosque. Era a única área verde que encontrara desde que chegara a Tarph.

– Árvores...

– O Filho da Natureza deve gostar de árvores, certo? Os livros contam que quando eles habitavam o mundo, dormiam dentro delas. Vá até lá. Eu lhe esperarei na área mercantil.

Como assim “quando eles habitavam o mundo”? Danker ignorou a dúvida momentaneamente e desceu degraus correndo para chegar naquela área florestal.

Era uma área circular. Não sabia dizer até onde iria, mas era o suficiente para evitar escutar o barulho da multidão de Tarph. Sinto-me tão vivo nesses lugares. E correu. Correu, correu e correu, desviando de troncos e de galhos, retirou seus sapatos para sentir a grama em seus pés. Correu o quanto pode. Aquele lugar era maior do que ele imaginara. No entanto, chegou a uma área circula com apenas grama, sem nenhuma árvore, o centro daquele bosque. Viu um velho sentado ao chão, virado de costas. Trajava um manto azul escuro, e o cabelo era cinzento e comprido, chegando até o final das costas do indivíduo. Tão comprido. Deve ter dezenas de anos. Resolveu então cumprimentar o indivíduo. Diria um “oi”, mas antes que pudesse abrir a boca, o senhor falou antes.

– Vai me dizer “oi”, estou certo? – A voz era rouca e fraca.

Danker já estava preparado para dizer “sim”, quando foi interrompido novamente.

– Agora, você vai confirmar que queria me dizer um “oi”, estou certo?

O que ele tem?

– Vai perguntar meu nome. Agora vai se aproximar e aumentar o tom de voz. Ficará em silêncio por alguns segundos e vai tentar me cumprimentar novamente. – De uma forma incrível, o velho foi capaz de acertar cada ação de Danker, mesmo estando de costas, mesmo sem encarar seu rosto uma única vez.

Ele está jogando comigo.

– Eu monto em avestruzes.

O velho misterioso permaneceu em silêncio por quase um minuto. Então se levantou com o apoio de um galho torto e resistente. Uma barba grisalha estendia-se até seus joelhos. Era realmente velho e possuía a coluna torta. Talvez tenha mais de cem anos!

– Desde o banimento da magia, os homens têm se tornaram previsíveis demais. – Os dentes também não estavam em ótima situação. A pele apresentava-se muito enrugada e branca. Aproximou-se de Danker com passos lentos. O galho antecedia os lugares cujos pés do velho se colocariam. – Jovem. Diga-lhe seu nome agora.

– Meu nome é Danker, senhor. – Danker notara os olhos claros do velho, quase fechados, mas era possível enxergar um azul tão claro como as águas de riachos límpidos.

– Sim, esse é o seu nome. – Colocou sua mãe na face direita do rosto de Danker. O garoto permaneceu imóvel.

– E o seu? Qual é?

– Meu nome? Veja. Meu nome é tudo isso que eu sou e tudo isso que eu fiz. Poderia ficar horas e horas, até mesmo dia dizendo para você atos que realizei durante toda minha vida, ações que me orgulho de dizer que fiz. Ações que me arrependo de contar, mas que fazem parte de meu nome. Sim. Meu nome. Esse é meu nome. Naveguei de ponta a ponta, o Grande Larko. Sobrevivi ao genocídio da magia, recentemente. Participei de guerras que você não poderia contar nos dedos... Mas apesar de tudo, eu esperei, esperei e esperei. Sim! Eu esperei. – O velho já havia dado uma pequena volta circular naquele gramado enquanto falava. – Eu esperei o dia da sua chegada, o dia em que eu poderia dizer-lhe meu nome. E agora você está aqui. Esse é o meu nome.

Danker não fazia ideia de como responder aquilo.

– Senhor, eu... – Fora interrompido.

– Vai dizer que deve ir. Você me achou maluco ou coisa parecida. Sim! É isso!

– Na verdade eu...

– Alguém lhe espera. Essa velha desculpa nada adianta meu jovem. Não seja previsível.

Ele continua jogando.

– Eu...

– Monta em avestruzes?

Era exatamente isso que Danker diria.

– As frutas. Elas nunca caem no mesmo lugar duas vezes, por mais próximo que seja. O dia que um limão cair no mesmo lugar que outro, quicar no mesmo local, e quicar mais uma vez, e parar exatamente no mesmo lugar que o limão anterior, então você poderá me contrariar. O mesmo truque não funcionará duas vezes meu jovem. Talvez depois de muito tempo, só o tempo dirá, mas enquanto estivemos aqui, construindo nossos nomes, jamais aconteceu.

Aonde ele quer chegar?

– Não me...

– Eu já lhe disse meu nome. Faça como as árvores, meu jovem! Vamos! Faça! – O velho abriu seus braços aguardando outra resposta de Danker.

Faça como as árvores. Mas... O que devo fazer?

O velho aguardava ansiosamente pela resposta.

– As árvores não nascem enfileiradas. Elas se espalham irregularmente. Não é possível dizer onde a próxima vai nascer, é impossível, por mais que você saiba o local em que a semente fora plantada. Elas não são nada previsíveis.

Não devo ser previsível. Faça como as árvores!

– Eu monto em avestruzes.

O velho olhou para ele e deu um sorriso mostrando os dentes.

– É o início, jovem árvore. É apenas o início.

Eu fui imprevisível, sendo previsível. Eu fiz como uma árvore. Danker não sabia dizer por que se sentia melhor depois daquela conversa, por mais estranha que parecesse.

– O meu nome pode ser Danker, mas o meu novo nome vai ser construído a partir dos galhos de meu tronco. – Afirmou sabiamente Danker.

– Fala como uma árvore. É por isso que está aqui. – Respondeu o velho. – A Mãe Natureza nos trouxe novamente a magia, trouxe novamente seu filho. E você está agora entre nós, o Filho da Natureza, o Filho da Mãe Natureza!

E como assim, trouxe novamente a magia? A magia já não existe?

– Mas...

– Sim. A magia existe, a magia finita. Mas você é fonte de magia infinita. Deve agir como uma árvore e trazer a salvação para este mundo.

A salvação? Mais um fato que assustara Danker. Ele não se sentia tão grande, da forma que as pessoas lhe descreviam. Eu ainda nem sei direito o que eu sou. Ou talvez eu seja... Uma árvore?

– Tudo é magia. O mundo foi feito através da magia. Os homens que vivem nele se acham no direito de bani-la. Estão banindo o próprio mundo. Estão banindo a natureza. A natureza é a magia, e a magia é a natureza. Estão acabando com a magia, mas você está aqui.

– Sim. Eu estou! – Respondeu Danker, empolgado. É isso que eu sou? Magia?

– Veja ao seu redor. Árvores que nasceram em lugares aleatoriamente. É a natureza. É a magia. É isso que você deve salvar. Esse vai ser seu nome. Agora, olhe para o céu e tente enxergar o sol.

Danker obedeceu, mas não dava para ver o sol daquele lugar. A copa das árvores atrapalhava. Pensou em dizer isso para o velho, mas estaria sendo “previsível”. E de qualquer forma, ele sumira. Deixou para trás o galho que se guiava seus passos, um galho irregular e torto, com um total de três dobras em toda sua extensão, e várias pequenas ramificações.

Ele foi imprevisível. Então sentou naquele gramado, segurando o galho deixado pelo velho. O movimentou pelo ar, e fez com que uma árvore surgisse da terra em questão de segundos, uma árvore três vezes mais alto que ele. Fez novamente, movimentando a extremidade oposta a qual se encontrava sua mãe, de baixo para cima. Outra árvore nasceu. Eu posso controlar. Fez mais cinco vezes. Já não havia espaço para árvores ali. Como contarei isso para Dowell e Elys? Devo contar? Edron ficaria doido só de ver esse galho!

Saiu do bosque com objetivo de reencontrar Myllen. Ela estava no meio de uma multidão observando alguma coisa, mas Danker não conseguiu enxergar o que era. Aproximou-se e colocou a mão no ombro da menina para anunciar que estava lá.

– Olá Danker. Sente-se melhor? E esse galho? – Perguntou ela.

– Sim. É... Bem. Uma lembrança. – Deu um sorriso sem graça.

– Um galho... Sim. Sua lembrança me impressiona.

Danker resolveu não falar nada a ninguém sobre o que lhe acontecera no bosque, em especial, Myllen e sua família. Não queria envolve-los nesses assuntos, poderia coloca-los em risco, e nem sabia dizer como eles reagiriam. Pode ser que o expulsem daquela casa, junto com Dowell e Elys, caso sejam contra a magia, apesar de Myllen saber da verdade e não se importar muito. Mas ela é diferente.

Esforçou-se para enxergar o que atraia a atenção da multidão. Era um homem velho e de poucos cabelos. Parecia muito aquele que tocava flauta no alojamento de Tanya, que o atacara. Na verdade, era idêntico, e também segurava uma flauta. Estava do lado de uma arca de madeira. Abriu-a e começou a tocar seu instrumento.

É ele. É idêntico!

– Myllen! Temos que sair daqui! – Puxou o braço da menina e se afastou.

– Mas eu quero ver o que vai sair da arca... – Queixou-se Myllen, tentando se livrar da mão de Danker.

– É perigoso! Eu vou te explicar.

Entraram em um bar após percorrerem alguns quarteirões lotados de pessoas. O local estava um pouco cheio. Cheio de bêbados. Mas o que chamou a atenção de Danker foi a presença do flautista, sentado em uma cadeira próxima a uma lareira, tocando para os cachaceiros.

– Essa não. – Afirmou Danker, para si mesmo.

– Danker... É ele. Não me diga que... – Antes que pudesse terminar, seu braço foi puxado novamente. Voltaram para a multidão, procurando algum lugar para se esconder. Danker olhou para todos os lados. Havia pessoas, pessoas, rinocerontes e pessoas em todos os lados, e lá no meio, o flautista encontrava-se parado, encarando-o com olhos de morte, olhos sinistros e assustadores. O que ele é?

Danker se abaixou na altura de Myllen e lhe disse.

– Vá para casa. Corra e fique lá dentro.

– Mas e você?

– Não se preocupe comigo. Eu iria também, mas ele me seguiria. Vá.

Myllen estava bastante assustada, mas assentiu e correu. Danker estava só, no meio daquela rua, com pessoas vindas de todas as direções, pessoas ricas, pobres, crianças, velhos, rinocerontes, tudo ao mesmo tempo, até que ficou tonto. Preciso sair daqui. O flautista já não estava no mesmo lugar, estava onde Danker julgaria impossível chegar tão rápido no meio da movimentação, do outro lado da rua.

Tenho que ser imprevisível.

O flautista se aproximou a passos lentos. Parecia não ter forças para correr e seu rosto não mostrava nenhum sentimento. Olhos mortos. Ele está morto? Danker correu em sua direção com toda sua velocidade, desviando de braços e evitando se chocar com alguma pessoa. Quase fora atropelado por um rinoceronte gigante. Quando alguém passou na frente da visão do garoto árvore, seu inimigo havia desaparecido novamente. Já não sabia o que fazer. Estava ficando cada vez mais tonto em meio a movimentação.

Olhou para todos os lados. Onde ele está? Onde ele está? A multidão se transformou em um labirinto. A respiração de Danker estava forte, então conseguiu visualizar, do outro lado da rua, uma viela vazia. Seguiu em sua direção. Tombou contra um homem gordo, fazendo-o derrubar sacolas. Ignorou-o e prosseguiu, ainda com aquele galho em suas mãos.

Os muros da viela eram altos e úmidos, feitos de pedra branca. O chão apresentava poças de água suja. Havia um final ao longo daquela estreita rua, e não possuía pessoas. Correu até lá, já cansado. Era apenas um depósito. Possuía caixas e barris nos cantos e algumas pedras perdidas no meio. Um latão de lixo também marcava presença. Um corvo estava sobre alguns entulhos em um dos cantos.

Ele vai me encontrar aqui.

E não demorou muito. O flautista não chegou pela viela de onde viera Danker. Ele surgiu de trás de uma grande caixa de madeira, segurando sua flauta, mas sem tocá-la. Agora que estavam bem próximos, Danker foi capaz de visualizar seus trajes. O manto de tecido grosso que vestia era o mesmo do dia em que se encontraram pela primeira vez. Estava sujo de barro e sangue, rasgado em algumas partes. A ferida que recebera daquele homem ainda estava presente, porém seca e nada cicatrizada. A ferida no coração deveria tê-lo matado.

E a música se iniciou. Calma, agradável e confortável para ouvidos humanos. Mas logo se tornara agonizante. Danker notou que uma das pontas da flauta apresentava um crânio humano, mas não teve tempo de ficar vendo detalhes. Devo apontar o galho para ele? Mas de que serviriam árvores? Mesmo assim, o fez, e não foram árvores que nasceram, e sim, poderosas raízes, da grossura de cobras e movendo-se como uma. Agarraram-se a cada braço e cada perna do velho, deixando-o imóvel. Outra se agarrou a seu pescoço com objetivo de enforca-lo.

Com o inimigo imobilizado, Danker se aproximou lentamente e o encarou de perto. Ele respirava forte, mas os olhos não pareciam estar nada vivos. A pupila e a íris eram de um escuro como a noite sem lua e estrelas. A pálpebra se fechava parcialmente, e não piscava. E a respiração continuava. Foi quando o corpo do velho se reduziu a areia, caindo em meio a aquelas raízes e espalhando-se ao chão. Já havia desaparecido completamente.

Ele é um mago ou um morto?

Ressurgiu da areia, do outro lado do depósito, tocando sua flauta e invocando uma criatura assustadora. Era toda de areia, três vezes maior que um humano comum, sem olhos e com bocas em extensão de seu rosto, pescoço e ombros. Apresentava dois braços em cada lado.

Semelhante a aquelas que invocou no alojamento de Tanya. Mas elas eram feitas de barro... Ele os invoca de acordo com o solo em que pisa. E ali o que mais tinha era areia. A criatura berrou com todas as suas bocas, um barulho aterrorizante e agonizante.

Droga! Droga! Droga! Danker fora obrigado a cair ao chão, tampando os ouvidos, mas não o ajudara muito. Eu tenho que ser imprevisível... Como uma árvore. Eu não posso depender das pessoas para me defender. Edron não gostaria disso. Recordou-se de ambas as vezes em que fora salvo por Dowell e Elys. No alojamento de Tanya e no restaurante da mãe de Myllen.

Aquele grito demoníaco de duzentas vozes continuava, sem precisar de descanso. Danker levantou-se, sem tampar os ouvidos e encarou a fera. O velho ainda tocava sua flauta. Eu preciso pegar aquela flauta. O fez. Tampou os ouvidos com o cotovelo e conseguiu apontar o galho para seu inimigo. As raízes se enrolaram novamente em todo o corpo do alvo. Quanto a criatura, surgiram troncos de extremidades afiadas e perfuraram todo o seu corpo, reduzindo-o a areia se espalhando pelo chão.

Danker aproximou-se rapidamente do velho. Devo mata-lo aqui? Fez com que uma raiz libertasse a flauta das mãos do velho e entregasse em sua própria palma, isso com a força da mente. Talvez eu não precise do galho. Lembrou-se de como estacas de madeira surgiram do chão, no dia do primeiro ataque. Não utilizara galho algum, apenas ajoelhou-se, tampou os ouvidos e desejou que a tormenta encerrasse.

Tomou o galho em sua mão e o guardou no bolso de sua calça. O velho continuava vivo, mas Danker não sabia o que fazer com ele.

– Remova sua cabeça, assim não poderá tocar flauta novamente. – Disse uma voz feminina. – Filho da Natureza. – Surgiu atrás de Danker. Aparentava ser uma mulher alta, mas não conseguia ver nenhuma parte de seu corpo. Um manto azul escuro a escondia do peitoral as costas e caia até seus pés. Na parte de trás desse manto, apresentava um símbolo infinito de cor amarela, o "8" deitado, e bem ao centro, onde o nó era formado, um risco o cortava, estava mais para um pequeno raio. O capuz projetava sombra sobre seu rosto, mas era possível enxergar um cabelo negro como a noite cair sobre a parte exterior de seus trajes. Outro quinteto de indivíduos surgiu ali, com vestimentas da mesma cor que a mulher.

– Quem são... Vocês? – Agora era Danker quem estava cercado. Um deles portava uma lança. Aproximou-se do corpo imobilizado do velho e o perfurou uma dúzia de vezes. Muito sangue se espalhou.

– Quem somos não importa. – Disse esse homem, retirando a lança do corpo do flautista e limpando-a em um lenço cinzento. Sua voz era grossa e rústica. – O que faremos é mais importante.

– E o que vocês... – Antes que pudesse terminar de falar alguma coisa, uma escuridão tampou seus olhos e nada mais enxergou e escutou, mas o último som que ouvira foi o crocito de um corvo. Logo, encontrava-se dormindo. Pelo menos era isso que seus sonhos lhe diziam. Preciso voltar antes da lua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.