O Primeiro Arcano

2 Capítulo 02


Tivemos que invadir a escola de guerra em que Henrique estudou. Os arquivos eram confidenciais e não permitiram seu acesso a estrangeiros como eu e Hans. Tivemos de recorrer, consequentemente a métodos menos legais, burlando a segurança da escola durante à noite e abrindo os documentos até encontrarmos aquele pertencente ao meu amigo. Concluo, assim, que Henrique cresceu já acostumado com a vida militar. Febo não tinha as melhores condições e, às vezes, tinha dificuldades para cuidar de si mesmo. O emprego de soldado nas infantarias do exército era bem remunerado, mas com o fim das campanhas, era necessário fazer bicos como guarda ou mercenário. Sem condições de pagar os estudos do menino, ele mesmo o alfabetizou e, embora se atrapalhasse, não deixou a desejar nesse papel. Desenvolveu bem as habilidades do garoto e reparou naturalmente a facilidade de manejar uma espada que o garoto possuía. Foi aos 8 anos que o menino Henrique fez o teste para entrar na escola de guerra de Valéria e passou.

A escola de guerra era exigente, com uma rotina dura. Acordar antes do sol, dez minutos para se aprontar, desjejum dos mais breves possíveis, corridas matinais no frio da manhã, estudos até o almoço, treinos de campo durante a tarde, hora de recolher a noite e testes todo fim de semana, às vezes das matérias teóricas, às vazes das habilidades de combate. Os garotos tinham poucas horas finais do dia e um dia inteiro ao fim da semana para aproveitarem a si mesmos. Por outro lado, também era os únicos momentos que tinham para poderem treinar alguma coisa que não tinham assimilado bem ao longo dos estudos e, por isso, quase nunca se divertiam. Henrique desde pequeno teve que compreender a situação de Febo e, por isso, sabia que aquela era sua melhor chance. O garoto se esforçava para não perder a vaga na escola e estudava e treinava bastante. Destacou-se principalmente nas lutas e, aos dez anos, já conseguia lutar muito bem, vencendo todos os torneios de que participava. Superava os garotos mais velhos de até quinze anos numa partida justa e todo esse destaque não trouxe muitas amizades.

No dia livre dos finais de semana, como muitas vezes Febo estava em outras cidades procurando emprego, Henrique permanecia na escola, treinando sozinho. Um desses dias, poucos dos estudantes ficaram na escola e ele já voltava para o dormitório pela noite quando encontrou dois garotos mais velhos importunando um terceiro da sua idade. Henrique nunca falara com nenhum deles, mas reconhecia-os de vista. O garoto se chamava Douglas e era um dos meninos estudiosos. Entendia muito mais que Henrique das matérias teóricas, porém, não era tão bom nas práticas. Tinha decorado todas as 50 combinações de golpes básicos com a espada, podia calcular perfeitamente o alvo de uma flecha de acordo com o arco, sua curvatura e a velocidade do vento local, conhecia todas regras de combate da academia de cima a baixo e podia recitar qualquer passagem do Shabbat, a Vulgata ad Divinalis, o livro dos Deuses Antigos, além de diversos sermões dos monges. Por outro lado, quando a questão era a prática de combate, Douglas não tinha habilidade com espada, reflexos rápidos ou nada que o ajudasse quando estava em risco. Henrique vivia se perguntando como garotos como aquele iam parar na escola de guerra.

“Entregue-me o trabalho pronto amanhã.”

Douglas ajeitou os óculos redondos que usava e respondeu.

“Sabem que não dá para fazer tudo nesse prazo. Porque esperaram a véspera de entrega para me pedir?”

“Não interessa se você vai ficar sem dormir. Vai fazer o trabalho para gente ou... Bom... Você lembra o que aconteceu da última vez, não é?” Os garotos mais velhos deram um soco na barriga dele e ficaram rindo enquanto o menino caía no chão.

“Ei! O que estão fazendo?! Deixem ele em paz ou vou contar tudo para o professor de vocês!” Henrique falou finalmente se revelando no local.

“Pega ele!” Surpreendidos, os garotos gritaram e começaram a correr atrás do menino.

Só então Henrique percebeu a besteira que tinha feito. Virou-se e saiu correndo. Atravessou um corredor virando ao fim e, enquanto estava fora de vista dos garotos entrou na primeira porta que viu. Não demorariam para encontrá-lo, então precisaria dar um jeito de sair de lá. O único problema era que a sala em que tinha entrado era só um depósito de vassouras sem saídas. Não tinha opções. Ele observou a luz por baixo da porta e esperou as sombras dos valentões aparecerem. Quando eles estavam próximos o suficiente, Henrique abriu a porta para bater no rosto de um deles. Pegou uma vassoura e atingiu com a ponta do cabo no segundo. O menino que levara uma portada na cara caiu no chão sangrando e o outro se afastou dolorido pelo golpe.

Não demorou para eles se recuperarem e o menino não pode fugir outra vez. Era enfrentar os outros dois ou levar uma grande surra deles, não que um impedisse o outro. Henrique se pôs em guarda com a vassoura, atacou o garoto que já tinha atingido, e conseguiu nocauteá-lo de vez, porém, nesse mesmo momento, sentiu alguém segurar o equipamento que usava. Olhou para trás e viu o valentão que fora derrubado pela porta de pé novamente, com a mão na vassoura. Ele empurrou o menino, jogando-o no chão e tomando sua arma, seu olhar era de fúria. Logo um pontapé dado em sua canela o fez cair, e uma livrada em sua cabeça o apagou e, de frente ao valentão desmaiado, estava um Douglas assustado. Os meninos então se levantaram e saíram correndo do local, saindo da cena e fugindo para o gramado fora do prédio.

Esse acontecimento e muito ouros do tipo estavam registrados nos arquivos de diversos alunos. A escola e seus professores não apenas sabiam dos ataques entre os alunos, mas consideravam esse mais um dos duros treinamentos que exerciam. Sua política hostil e de virtudes duvidosas treinavam as crianças para sobreviver já na guerra. Os que se saiam bem-sucedidos, independente de terem mérito próprio ou não eram os recompensados. Dessa forma, naquele dia, nasceu uma grande amizade entre Henrique e Douglas. Uma amizade que foi a solução para os dois meninos sobreviverem sua temporada na escola de guerra sem perderem suas virtudes. Após a correria, finalmente cedendo ao cansaço, os meninos se sentaram apoiados ao tronco de uma árvore.

“Irmão, estamos arruinados! Eles virão atrás da gente depois.” Douglas comentou ofegante.

“Se vierem, a gente os enfrenta de novo.”

“Não sei se teremos tanta sorte na próxima.”

“Olha, fizemos um belo trabalho juntos. Sei que você não é de lutas mas podemos nos ajudar. Eu posso treinar com você nas vagas e, em troca, você me ajuda com as matérias teóricas. Quando eles vierem atrás e um de nós outra vez, um protege as costas do outro. O que acha?”

“Como irmãos de verdade?”

“De verdade!”

Nascia ali uma grande amizade, em meio a sociedade hostil, talvez não tão terrível quanto os desafios que ambos encontrariam em sua vida mais tarde, mas ainda assim uma realidade dura para as duas crianças. Aquela não foi a primeira, nem a última vez que eles foram importunados pelos problemas de estrutura da escola. Na verdade, muitas foram as vezes em que eles se envolveram em brigas e castigos, sempre sofrendo severas consequências, mas, apoiando um ao outro, eles conseguiram aguentar a escola de guerra e se destacarem dos demais, se tornando, de certa forma, aquilo que a escola procurava.