O Primeiro Arcano
6 Capítulo 06
Em muito devo agradecer a presença de meu mais novo colega e coautor, Fares D. Fae. A tempos me sentia sozinho, embora sempre estivesse a presença indesejada de meus perseguidores. Sinto falta de conversar com alguém, conhecer pessoas, ter uma rotina e chegar em casa depois de um belo dia de trabalho e descansar, mas sei que não posso manter estabilidade ou raízes em lugar algum. Minha profissão, escolhida e aceita por vontade própria, não me permite ter esse luxo bucólico. Busco informação e o preço do conhecimento me cobrado são minhas relações. Não me lembro da última vez que cortejei alguma mulher, ou a vez que conversei com um amigo sem me preocupar em revelar minha real identidade, e assim permaneci por muitos anos até os dias mais atuais. Em minha vida desventurada, a sorte sorriu para mim recentemente e encontrei em Fares um parceiro que a muito precisava, partilhando do mesmo interesse que o meu em relatar as histórias. Mesmo na rotina inconstante que levo ele se revelou um bom companheiro. Suas habilidades de declamação são muito agradáveis e refinadas, fazendo dele uma boa presença para se ter ao lado quando tomamos as estradas. Fico impressionado pela quantidade de histórias que aquele trovador conhece, sendo capaz de capturar o ouvinte em todas elas e segura-lo em emoções uma mais intensa que a outra. Por outro lado, quando estamos trabalhando, muito ele tenta embelezar os eventos, tornando-os mais grandiosos, gloriosos e, algumas vezes, até surreais. Nessas horas, peço encarecidamente que ele se acalme e relembre os fatos que descobrimos, sendo eu então o responsável por manter a fidelidade e genuinidade dessa história.
Ele pouco comenta de sua própria vida e sei que também esconde seus segredos, talvez por isso eu me sinta mais confortável em sua presença. Não raro pergunta sobre mim e meu passado, procurando arrancar de mim informações sobre meus perseguidores e alquilo que me levou a essa situação, mas quando percebe que seus esforços são inúteis, entende e não insiste mais. Ele compreende a carga de tristeza e responsabilidade que carrego em meus ombros, tornando por vezes mais fácil minha tarefa e tentando me alegrar com suas animadas canções. Assim, nós continuamos nossa pesquisa, mas, apesar de toda a sua alegria, meu colega não pode evitar que encaremos a realidade terrível que nos é revelada à medida que vamos nos aprofundando cada vez mais sobre o passado de Henrique.
Após a morte do rei de Valeria e de toda sua família, o reino entrou em desordem. Sem um herdeiro legitimo, os mais altos nobres não puderam concordar entre quem sucederia o trono. Uma série de mortes enigmáticas entre os vários candidatos ocorreu e, sem uma forca coesa entre a elite ou consenso entre eles, a população respondeu a revoltas. Casas de nobres foram invadidas e queimas, sinistros e invasões ocorriam aos bens e propriedades dos mais abastados. A elite reagiu aos ataques e ameaças com violência, mandando seus soldados as ruas, derramando o sangue nas casas da população. Mas, sem unidade entre as tropas e seus comandantes, pouca era a força que conseguiam manter e menor ainda eram os resultados positivos. Nenhuma agressão contra a plebe parecia ter soluções definitivas. Meses de anarquia tomaram as terras dentro dos muros de valeria, até o grande incêndio da Feira de Prima, como ficou conhecida a ocasião, se deu, onde os corpos de mais de cem pessoas, totalizando homens, mulheres e crianças, foram queimados vivos em um único dia. A desgraça era completa e o reino parecia chegar ao seu fim, mas jovem, sem nem seus 30 anos, mudou o rumo daquela situação.
Apesar de muito novo, 26 anos na época pelo que posso calcular com as datas, Conde Adam era um homem rico, nascido nobre e enriquecido ainda mais pelo comércio. Era bastante conhecido entre a população por seus investimentos públicos como a construção de orfanatos e distribuição de remédios a plebe. Já entre a nobreza, muito bem visto também era, uma vez que mantinha os sofisticados padrões da elite, aumentou consideravelmente sua fortuna sozinho, sem investimentos de terceiros, e sempre se socializara bem com aqueles de sua classe. Pelo seu apelo, feito com um discurso em praça publica, ele conseguiu a atenção de toda Valeria. Por meio de sua eloquência e da emoção em suas palavras, muitos acreditaram ouvir as macias palavras de Harmonia, a deusa eloquente. Ali estava um nobre que fazia jus a todo seu status, se comprometendo a devolver a Valéria toda sua riqueza de outrora. A coroa ele não queria, mas comandaria os homens e direcionaria o reino para a graça e fortuna novamente. O discurso chegou ao ouvido dos nobres e do povo, então interessados nas belas promessas que fizera, o homem ganhou apoio de muitos, fazendo-os se esquecer da verdadeira crise que assolava aquelas terras e das batalhas pelo poder. Com sua própria fortuna, pois não podia ser diferente, ele financiou campanhas para o reino a fora. Não era ele um concorrente ao trono, mas salvador do Reino certamente foi considerado. Ao enviar tropas para invadir terras vizinhas, todos os espólios de guerra conquistados seriam divididos entre os soldados, o que não apenas trazia riquezas para o reino como era uma grande oportunidade para qualquer um que quisesse criar fortuna. Organizou o exército contratando a todos que quisessem entrar, mesmo homens não treinados na escola de guerra tinham a oportunidade. Dessa forma, Adam conquistou o povo e a elite nobre.
Enquanto isso, Febo, tutor e responsável de Henrique, não conseguira voltar para o Reino a tempo da formatura do garoto, mas já estava de volta na fatídica noite em que seu protegido voltou de fora dos muros terminando sua prova, mesma noite que ocorreram as misteriosas mortes. Nos tempos que se seguiram, a crise que assolou toda aquela terra foi, pelo contrário, bastante favorável ao guerreiro com problemas de serviço. As rebeliões e as mortes beneficiaram o homem que, chamado para vários contratos, finalmente não teve mais problemas de dívidas. Com Henrique já formado como militar, resolveu treinar o garoto como aprendiz e dele fazer um guerreiro intitulado.
O rapaz passou a ajudar Febo em seus serviços, trabalhando ao lado de seu guardião, ele recebia uma pequena parcela dos salário dos contratos. Quando o nobre Adam formou seu exército, mais uma oportunidade para ambos se fez e Febo adentrou as tropas como Tenente oficial e Henrique como seu aspirante.
Assim começaram as primeiras expedições das campanhas que mais tarde seriam conhecidas como as Grandes Cruzadas.
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