O Primeiro Arcano

3 Capítulo 03


Ao início dessa narrativa, disse que essa história se trava de Henrique e, embora isso seja bem verdade, é impossível conhecer quem foi realmente aquele homem sem conhecer as pessoas que o influenciaram e alteraram, de diversas formas, o curso de sua vida. Henrique, com todo seu sucesso e conquistas, conheceu, de fato, muitas pessoas importantes, mas nenhuma delas foi mais influenciadora em seus ideais que Karen Baudelaire. Sabendo disso, eu e Hans resolvemos buscar mais informações sobre a garota e, por isso, viemos parar a uma taverna, onde ouvimos a história de um convento a meio dia de distância da cidade.

Uma belíssima menina, Karen tinha uma graça inocente e encantadora, capaz de arrebatar a alma do mais insensível dos homens e emociona-lo diante de sua beleza celestial. Desde o nascimento, Karen possuía esse efeito muito curioso sobre as pessoas. Era linda, com uma beleza tão gentil e suave que inspirava as pessoas que a conheciam. Sentimentos extremos e irresistíveis ela causava, atraindo a inveja de outras meninas e um suspiro de admiração dos homens. Um anjo, uma santa, era o que todos viam quando olhavam para a ruiva. Seu rosto e braços muito alvos eram de contornos doces. Seus lábios rubros, desde muito menina, já escondiam um beijo sedutor, de abrasado desejo para os homens. Sua estranha beleza era daquelas encontradas apenas em mulheres harmoniosas, que, com um gesto macio, um olhar delicado, dominavam o ambiente. Inconscientes de seu poder, elas incendeiam a atmosfera que se encontram, atraindo a atenção de todos, entorpecendo as sensações das almas mais fracas, como um vórtice de mel escuro a queimar.

Tal flor ardente viva então num convento. Sua mãe, senhorita Baudelaire, desgraçada que era, fora vítima de um nobre sedutor. Enamorada com o homem, deixou-se levar, fugindo com ele da casa dos pais. Mas para ele, tudo não passou de uma efêmera aventura que, uma vez terminada, não teve problemas em partir e abandonar a mulher, já grávida. Sem família, casa e respeito para sustentá-la, a senhorita Baudelaire recorreu a piedade divina, conseguindo ser aceita, com muita vergonha, no convento.

Deslocada, a senhorita Baudelaire aderiu aos costumes do convento ao estremo, tentando redimir seus pecados. As demais irmãs nunca a aceitaram muito bem e, quando a menina Karen nasceu, as coisas pioraram. Seus cabelos uivos e ondulados eram uma lembrança constante do homem que tinha abandonado sua mãe. A medida que crescia, a menina foi ensinada a não chamar atenção, andar sempre som os cabelos cobertos para não atrair tentações, a esconder toda sua beleza natural para não incentivar a inveja das outras garotas, mas pouco adiantava. Ela sempre seria lembrada como a “filha da Rameira Convertida”. Alheia a toda aquela situação, a garota nunca entendeu porque recebia um tratamento tão diferenciado. Sua mãe a tratava com asco, suas amigas riam quando ela saía de perto, as freiras eram severas a qualquer falha que cometesse nos estudos. Aos oito anos, Karen sempre chorava quando ficava sozinha e i, em sua rotina diária, os lamentos eram mais frequentes do que os risos.

Foi aos doze anos que Karen descobriu mais uma parte da herança de seu pai em seu corpo. O convento recebeu uma visita, um cavaleiro e um eclesiástico que viajavam em companhia pediram abrigo por alguns dias. Depois de tanto tempo na estrada, precisavam de um local onde pudessem descansar alguns dias, assim, as freiras acolheram os dois homens. Eles ficaram em torno de uma semana. O tempo foi pouco, mas suficiente para ambos repararam na bela menina que fazia de tudo para esconder a si mesma e sua beleza. Os olhares indiscretos e os meio sorrisos para a garota, tanto vindos do nobre quanto do sacerdote, foi percebido também pelas irmãs. Karen estava no quarto quando sua mãe entrou furiosa. Pela expressão que tinha, a menina já sabia o que aconteceria e seus olhos se encheram de lágrimas. Sua mãe começou a briga. Disse que fora convocada pelas madres do convento e que ouvira coisas humilhantes da garota. Aos gritos, acusava a menina de perversões, xingava-a de meretriz, corrompida e degenerada. Com uma chibata, acoitava a garota amaldiçoando o dia que ela nascera e seu pai. Karen suplicava e chorava, até perceber que sua mãe estava alterada demais. Furiosa e tomada pela ira demais para parar. Sua mãe iria matar a garota se não fizesse nada.

Karen sentiu suas emoções arderem dentro de si. O medo, a culpa, a ira pelas injustiças que passara, a dor acumulada, física e sentimental, tudo convergiu em seu coração naquele momento. Suas lágrimas queimaram à medida que caiam e todo o quarto se incendiou. Apavorada com aquele poder profano que se manifestava, sua mãe chamou a menina de demônio, súcubo do inferno, palavras jamais esquecidas pela garota. Então com um grito, Karen queimou sua mãe. O fogo se espalhou por todo o convento, matando todos que estavam ali. A única sobrevivente foi a criança que, sem entender o que estava acontecendo com ela, causara o incêndio.

Derretendo o metal dos portões, Karen saiu da construção e fugiu antes que as chamas se apagassem. As ruinas do local existem ainda hoje, com muitas das machas negras das chamas ainda visíveis para lembrar a toda a cidade o que aconteceu naquela época.