O Preço do Pecado

16 O Sol sobre as Armaduras



​O domingo amanheceu com o céu completamente limpo, um azul infinito que parecia refletir a calmaria que finalmente havia se instalado no quarto principal. O som das ondas quebrando mansas na praia invadia a suíte pelas frestas da janela.

​Na cama, Heitor acordou primeiro. Ele não se moveu. Ficou apenas observando Natasha, que dormia profundamente com a cabeça apoiada em seu peito de forma serena. A mão dele, grande e calejada, subia e descia pelas costas nuas da jovem em um carinho preguiçoso e contínuo.

​Natasha murmurou algo incompreensível, aninhando-se ainda mais no calor do corpo dele. Quando abriu os olhos verdes, a luz do sol nascente a fez piscar duas vezes. Ela olhou para cima e encontrou o olhar castanho de Heitor, mas não havia mais aquela rigidez de mafioso ou o deboche de antes. Havia apenas uma paz rústica e genuína.

​— Bom dia, esposa — ele sussurrou, a voz grossa do sono, depositando um beijo carinhoso na testa dela.

​Natasha sorriu, um sorriso desarmado que iluminou seu rosto. Ela subiu o corpo levemente, colando seus lábios aos dele em um selinho demorado.

​— Bom dia, meu mafioso — ela respondeu, a voz mansa. — Você não sabe o quanto é bom acordar sem que você esteja rosnando ordens no meu ouvido.

​Heitor soltou uma risada rústica, o peito vibrando contra o dela. — Eu ainda posso rosnar se você quiser, boneca. Mas hoje o dia é nosso. O Romeu e a Vanessa já estão lá embaixo infernizando para a gente descer. Vamos aproveitar essa praia.

​Diversão na Areia

​Cerca de uma hora depois, os dois casais já ocupavam a extensão de areia privativa em frente à mansão. Romeu e Vanessa haviam montado uma tenda branca com esteiras, almofadas e um cooler cheio de bebidas geladas.

​Natasha vestia um biquíni branco que contrastava perfeitamente com a sua pele e um par de óculos escuros. Heitor, usando apenas uma bermuda preta, estava sentado em uma cadeira de praia, segurando uma garrafa de cerveja. O olhar dele não saía de Natasha por um único segundo; o orgulho e a possessividade continuavam ali, mas agora eram puramente ditados pelo amor.

​— Olha só para eles — Romeu brincou, aproximando-se de Heitor com duas raquetes de frescobol nas mãos. — Até ontem parecia que iam se matar no jantar, e hoje estão trocando olhares de filme de romance. Eu te avisei, Heitor. O amor morde forte.

​— Cala a boca, Romeu, e joga essa bola de uma vez — Heitor resmungou, mas havia um sorriso de canto em seus lábios. Ele levantou-se e pegou uma das raquetes.

​Na areia, a dinâmica entre os quatro era leve. Vanessa e Natasha formaram uma dupla contra os irmãos Laurentis. O jogo, que deveria ser apenas uma distração, logo virou uma competição barulhenta devido ao ego competitivo dos homens.

​— Vai, Heitor! Corre nessa bola! — Romeu gritava, correndo de um lado para o outro.

​— Corre você, porra! Olha o tamanho do corte que a Natasha deu! — Heitor rebateu, correndo na areia quente e conseguindo rebater a bola no último segundo, arrancando uma risada alta de Natasha.

​— Vocês estão perdendo para duas mulheres, Laurentis! Aceitem a derrota! — Natasha provocava, com as mãos nos quadris, rindo da careta de frustração que Heitor fazia toda vez que errava uma jogada.

​Heitor jogou a raquete na areia, caminhando até ela com passos firmes. Antes que ela pudesse correr, ele a agarrou pela cintura, erguendo-a do chão e girando-a no ar enquanto Natasha soltava gargalhadas limpas que ecoavam pela praia.

​— Rindo da minha cara, é? — ele provocou, colocando-a no chão, mas mantendo-a presa contra o seu corpo suado e quente. Ele tirou os óculos escuros dela, olhando fixamente nos olhos verdes. — Você tem muita audácia para uma restauradora de arte.

​— E você é muito lento para um chefe de máfia — ela rebateu, brincalhona.

​Heitor calou a provocação dela com um beijo ardente ali mesmo, sob o sol forte. Foi um beijo cheio de posse, mas carregado de uma entrega que fez Vanessa soltar um suspiro animado ao fundo.

​— Eu disse, Romeu! Olha lá! — Vanessa comemorou, abraçando o marido de lado. — O amor é lindo.

​O Almoço na Varanda

​Por volta das treze horas, a fome bateu e eles subiram para a varanda coberta da mansão. Romeu, que adorava cozinhar quando estava na praia, preparou uma imensa paella de frutos do mar na chapa, cujo aroma de açafrão e mariscos invadia todo o espaço.

​A refeição foi regada a vinho branco gelado e muitas histórias. Pela primeira vez, Heitor participava ativamente, contando algumas memórias de infância engraçadas de quando ele e Romeu tentavam roubar os carros antigos do pai para dirigir pelo porto antes da idade permitida.

​— O Heitor sempre foi o mais ignorante — Romeu contava, gesticulando com o garfo. — Ele bateu o primeiro sedã do velho direto num poste de luz e tentou convencer todo mundo de que o poste tinha mudado de lugar sozinho.

​— E mudou, porra. Aquela rua era mal iluminada — Heitor se defendeu, dando um gole no vinho, arrancando risadas de todos na mesa.

​Natasha olhava para o marido, sentindo o peito aquecido. Ver Heitor rir livremente, sem o peso das responsabilidades do crime ou os fantasmas do passado que Vanessa havia lhe contado, era o maior prêmio que ela poderia receber. Ela estendeu a mão por baixo da mesa, encontrando a coxa musculosa dele. Heitor imediatamente cobriu a mão dela com a sua, apertando os dedos dela com carinho.

​— Você está muito quieta, Natasha — Vanessa comentou, sorrindo. — O Heitor está te assustando com essas histórias?

​— Pelo contrário, Vanessa — Natasha respondeu, olhando de lado para Heitor, os olhos brilhando. — Estou apenas descobrindo que o grande lobo de Chicago sempre foi um teimoso desde criança.

​— Eu não sou teimoso, boneca. Eu apenas tenho convicção das minhas verdades — Heitor rebateu, inclinando-se para dar um beijo rápido na bochecha dela, o que atraiu um brinde de Romeu.

​Carícias na Água

​No final da tarde, quando o sol começou a baixar e o céu ganhou tons de rosa e dourado, Romeu e Vanessa decidiram recolher as coisas da areia e entrar para descansar. Heitor e Natasha continuaram na praia.

​Eles caminharam de mãos dadas até a beira da água, sentindo as ondas mornas do final do dia quebrarem em seus pés. O reflexo do sol criava um rastro de fogo dourado sobre o mar.

​— Vem — Heitor chamou, puxando-a suavemente para dentro da água.

​Eles entraram até que a água batesse na altura do peito de Natasha. O mar estava calmo, quase como uma piscina. Heitor a puxou pela cintura, colando o corpo molhado dela ao dele. Natasha entrelaçou os braços ao redor do pescoço dele, deixando-se flutuar levemente enquanto ele mantinha os pés firmes no fundo arenoso.

​As carícias começaram mansas, no ritmo da maré. As mãos grandes de Heitor deslizavam pelas costas nuas dela por baixo da água, subindo até a nuca, onde ele trazia o rosto dela para perto.

​— Esse dia foi perfeito, Heitor — ela sussurrou, encostando a testa na dele, sentindo as gotas de água salgada em seus cílios. — Eu nunca imaginei que pudesse me sentir tão em paz ao seu lado.

​— Nem eu, Natasha... nem eu — ele confessou, a voz rouca e sincera, o olhar castanho fixo nos lábios dela. — Eu passei tanto tempo achando que a minha vida seria apenas escuridão e cobrança... Mas você acendeu uma luz nessa porra toda. Eu sou um homem rústico, você sabe disso. Eu erro nas palavras, sou ignorante às vezes, mas eu nunca mais vou deixar nada ou ninguém machucar você. Você é a minha mulher agora. De verdade.

​— Eu sei... e eu amo o seu jeito rústico, desde que ele venha com esse carinho — ela sorriu, os olhos marejados de felicidade.

​Heitor iniciou um beijo profundo, lento e incrivelmente sensual dentro da água morna. As línguas se moviam com uma intimidade que já não precisava de pressa ou fúria. Sob o abrigo da água, as mãos dele continuavam a acariciá-la com total possessividade, apertando seu quadril e subindo pelas suas curvas, fazendo Natasha suspirar contra a boca dele. O roçar dos corpos molhados mantinha aceso o fogo da luxúria, mas temperado por uma ternura que mudara tudo entre eles.

​Eles ficaram ali, abraçados na água, trocando beijos e palavras mansas até que o sol sumisse completamente no horizonte. O dia perfeito na praia terminava, mas a história de Natasha e Heitor estava apenas começando, agora escrita não com notas de dívida, mas com as linhas indeléveis do amor.