O Preço da Volta

15 Capítulo 15 - Fraquejando...


Notas iniciais
Dia de capítulo! =D Obrigada pela compreensão que tiveram com a retirada das postagens de quarta. Desculpem qualquer erro e boa leitura.

A loira fitava a escuridão do local com a expressão opaca. Sentia a leveza pós-banho em seu corpo. O cheiro natural do sabonete e as roupas macias de algodão.

Ouvia o barulho abafadamente da água que caía do chuveiro onde Rachel fazia sua rotina noturna. A morena era extremamente obcecada com questões de higiene e mesmo tendo as condições desfavorecidas em Londres, presava piamente o quesito de limpeza corporal.

Os olhos verdes fecharam-se, e sua mente parecia estar em outra galáxia.

As palavras de Shelby ainda ecoavam em sua cabeça.

''Ela disse que nunca andaria com uma anormal em público.''

Anormal...

A palavra que Quinn ouviu desde que nasceu, crescendo em um lugar onde para quase todos ali era um erro de Deus e que nunca deveria ter vindo ao mundo. Pessoas hipócritas e sem coração, todavia, para uma criança ouvir isso era doloroso e agonizante.

Ainda era...

Ainda doía...

Sempre iria causar uma dor dilacerante dentro de si.

Quinn abriu os olhos sem brilho e apertou mais forte as pernas contra o corpo, rodeando-as com os braços alvos e enterrando a cabeça neles, sentindo as orbes arderem pelas lágrimas acumuladas.

No banheiro, Rachel acabava de vestir a camisa da namorada que cobria-lhe até as coxas e se olhou no espelho.

— Achei que Hiram e Leroy nunca fossem sair daqui depois de avisarmos que minha mãe moraria conosco. — A morena não esperou uma resposta da namorada e continuou. — Eles quase tiveram uma síncope e agradeço à Frannie por tê-los convencido de que conversaríamos outro dia sobre isso. Eu gostaria muito de chamá-los de pais, mas eu ainda não sinto o que senti quando olhei nos olhos de Shelby. Foi tão... — Rachel saiu do local soltando os cabelos do coque e percebeu que a namorada não estava na cama.

A morena franziu o cenho confusa e observou o closet totalmente apagado.

— Quinnie? — Chamou, mas não obteve resposta. — Amor? — A voz saiu mais alta.

Rachel vestiu o robe jogado na poltrona do quarto e pôs a mão na maçaneta quando ouviu um soluço baixo. Seu corpo entrou em alerta.

A baixinha retirou a peça de seu corpo, jogando-a no mesmo lugar e adentrou na escuridão do closet. Passou pelo corredor onde as portas corrediças estavam fechadas e entrou no espaço onde havia a penteadeira com acessórios e maquiagens, e então ela viu...

A figura encolhida na parede, balançando-se vagarosamente para frente e para trás. Os cabelos curtos bagunçados e os soluços sôfregos.

O coração da morena apertou tão fortemente que ela sentiu uma dor em seu peito. Era como há anos. Como da primeira vez que viu algum dos órfãos chamando a loira de anormal e a pequena Quinn correu para se esconder no pequeno armário velho do quarto.

A própria Rachel sentiu os olhos marejarem com a cena e lentamente moveu a mão até o interruptor, acendendo apenas as duas luminárias no teto daquele espaço. Quinn sentiu a presença da namorada e parou os movimentos contínuos, entretanto, continuou chorando, mantendo a cabeça escondida em suas pernas.

Rachel aproximou-se da loira, ficando de joelhos na sua frente e lentamente infiltrando as pequenas mãos entre seus braços e pernas, até segurar-lhe os dois lados da cabeça, levantando-a lentamente, até encarar os olhos chorosos da namorada.

Se possível a dor que sentia aumentou ainda mais, e dessa vez sentiu o coração quebrando-se dentro de si. Lágrimas escorriam de seu rosto enquanto observava os olhos verdes quase sem vida. Então ela lembrou novamente de anos atrás. Quando descobriu onde Quinn se escondia e encarou os olhos opacos dela pela primeira vez.

Lembrou-se também de como prometera que nunca deixaria alguém magoá-la novamente, e agora ali, olhando para a expressão sofrida da loira, ela pôde compreender melhor que seria difícil cumprir essa promessa. Nesse mundo onde pessoas julgam e maltratam alguém por ser diferente. Sem se importarem com o interior bondoso que essas pessoas, mesmo com algo de diferente em si, podem ter.

Mas o problema é que para Rachel, Quinn era normal. A morena nem por um segundo a viu como alguém que não estivesse na normalidade. Talvez a loira fosse sim, diferente. Todavia, a diferença da maior aplicava-se na bondade em seu interior, e mesmo com o mundo preconceituoso e podre em que viviam, Quinn não perdia a esperança e sempre buscava ajudar quem precisasse.

Rachel a amaria até o fim da vida por esse jeito inigualável dela.

Seria difícil cumprir essa promessa, mas para Rachel, nada era impossível.

— Por que está chorando? — A voz extremamente rouca da loira ecoou em seus ouvidos, fazendo a morena despertar de seus pensamentos.

— Porque eu estava pensando em como eu amo você. — Respondeu, sentando-se ao lado da maior e a puxando até que estivesse com a cabeça enterrada em seu colo.

— Você não deveria me amar, Rach. — Sussurrou sofregamente. — Eu não entendo. Eu tento entender desde os doze anos, mas não consigo. — Fechou os olhos.

— Pois então não entenda. — Falou em tom firme. — Não entenda e pronto, porque eu entendo. Eu amo você e eu poderia gritar para quem quer que fosse ouvir isso. Eu amo você desde os doze anos. Quando você era gordinha e mesmo assim corria como um raio. — Quinn soltou uma risada baixa e a morena sorriu no mesmo segundo. O som do riso da namorada era como uma melodia que Rachel jamais cansaria de ouvir. — Quando você comia a carne do meu prato antes das freiras verem para que eu não precisasse comer forçadamente. — Passava as mãos nos fios loiros em uma carícia amorosa. — Deus! Eu te amo, e quando você roubou o cartão de uma camareira para abrir um dos quartos daquele hotel três estrelas, eu amei ainda mais. Não pelo furto, mas por você ter se preocupado em garantir que nossa primeira vez não fosse algo apressado. E eu amei principalmente porque foi com você. — Olhou para baixo, encarando os olhos verdes que observavam-lhe com adoração. — Meu primeiro beijo, meu primeiro contato íntimo e meu primeiro amor. E eu sei que será o último.

Quinn fechou os olhos fortemente, sentindo as lágrimas saírem sem permissão e abraçou a cintura da namorada, enquanto afundava o rosto em seu colo.

— Eu amo tanto você. — A loira murmurou abafadamente. — Eu amo muito, muito, muito... — Repetia incessantemente, enquanto abraçava firmemente a morena.

— Olhe para mim. — Pediu suavemente, observando a loira erguer o rosto e olhá-la com o rosto vermelho. — Eu amo você muito mais. — Beijou-lhe os lábios. — Para sempre, Quinnie. Para sempre. — Pincelou o nariz no da maior.

— Para sempre. — Sussurrou fechando os olhos, sentindo os afagos de Rachel.

A morena continuou a fazer carinho nos fios curtos da namorada, enquanto relembravam momentos da infância, até convencê-la a irem para a cama.

Rachel deitou-se sob as grossas cobertas e a loira acomodou-se em seu corpo. A cabeça em seu peito, e os olhos fechados enquanto a morena fazia-lhe carícias suavemente.

— Não me deixe. — Quinn suplicou, sentindo o sono acometer-lhe. — Eu nunca viveria sem você.

— Nunca deixarei, meu amor. Nem se você ordenar. — Beijou-lhe o topo da cabeça, ouvindo a respiração suave da loira. — Não existe vida sem você. — Sussurrou olhando com adoração o rosto pálido.

Rachel passou quase uma hora velando o sono da namorada e fazendo planos para não permitir que Quinn fraquejasse novamente, até sentir os olhos pesados e adormecer com a loira em seus braços.

...

Os olhos castanhos abriram-se vagarosamente, sentindo de imediado o corpo quente da loira sobre o seu.

Quinn dormia na mesma posição, agarrada firmemente no corpo moreno, e Rachel sorriu com amor. Observou o relógio que marcava dez para as sete da manhã e aproveitou o sono pesado da namorada para ter uma conversa séria e convocar a ajuda que necessitaria.

Levantou-se o mais suavemente possível, ouvindo o típico grunhido que saía da boca de Quinn quando não sentia mais o corpo da namorada junto ao seu, e observou-a agarrar o seu travesseiro no mesmo segundo.

Rachel sorriu e inclinou-se, beijando a cabeça da namorada e indo ao banheiro em seguida.

Após fazer sua higiene, saiu do local e adentrou o closet, fisgando um short da namorada que chegava na altura seus joelhos.

Saiu do quarto minutos depois e parou na porta da frente, batendo na madeira lentamente para não fazer barulho, e ninguém abriu.

Bateu novamente e nada.

Respirou fundo e contou até dez, pedindo para não ver nada que a traumatizasse e pôs a mão na maçaneta, abrindo a porta e adentrando o lugar, observando as cortinas fechadas e as roupas espalhadas pelo chão. Com certeza da latina, pois Brittany era muito organizada.

Caminhou em passos suaves até a cama de casal e observou as amigas dormindo profundamente. Santana tinha o braço envolto na cintura da loirinha, enquanto o rosto latino estava quase adentrando os fios claros de Brittany.

A morena respirou fundo novamente e cutucou a amiga loira. Seria mais fácil de acordá-la. A loirinha remexeu-se na cama e Rachel continuou-a cutucando, até os olhos azuis abrirem-se e ficarem confusos ao notar a baixinha parada perto da cama.

— Hum... — Coçou os olhos, sentando-se e consequentemente acordando a latina, que murmurou alguma coisa e abriu os olhos. — Rach? O que faz aqui?

— Britt, volte a dormir. — Santana pediu, tentando puxar a namorada para deitar-se.

— Sant, Rach está aqui. — A loirinha cutucou as costelas da latina, que despertou-se por completo e observou a amiga.

— O que você quer, Hobbit? — Perguntou mal-humorada.

— É sobre a Q.

— O que houve com ela? — A latina sentou-se na cama em uma rapidez impressionante.

— Ela está bem. — Rachel respondeu rapidamente, acalmando parcialmente Santana. — Agora ela está.

— O que aconteceu? — Brittany indagou preocupada.

— Ela teve aquelas fraquezas sobre ser anormal. — Suspirou, sentando-se na ponta da cama.

— Mas ninguém a chamou assim ultimamente, ou então eu teria matado. — A latina retrucou.

Rachel tomou fôlego e contou tudo para as amigas, que saberiam de qualquer forma. A conversa toda com Shelby até o episódio da noite passada.

A morena sabia que no momento em que a mãe contou sobre a briga com Judy pela frase monstruosa que a mesma proferiu, Quinn sentiu-se quebrada, embora fingisse que não a afetava. Rachel sabia como ninguém que aquilo havia doído de um tamanho imensurável na namorada.

Brittany possuía os olhos marejados e Santana fechou as mãos em punhos, controlando-se o máximo que conseguia, mas também sentia o peito doendo por imaginar a amiga daquela maneira.

— Precisamos fazer alguma coisa. — Rachel concluiu.

— Eu vou chamar Puck e você acorde Frannie e Cassandra. Vamos aproveitar que a Q está dormindo e conversaremos no escritório. — Santana determinou, levantando-se, sendo seguida por Brittany.

— Chame Shelby também. Acho que ela precisa saber sobre a situação e nos ajudar. — A loirinha aconselhou.

Rachel assentiu e saiu apressada do quarto das amigas.

...

As seis pessoas ouviam atentamente a baixinha falar toda a história.

Todos ainda trajavam as roupas com as quais foram dormir, todavia, o sono já havia ido embora há muito tempo.

Frannie absorvia cada palavra e sentia os olhos azuis arderem de lágrimas enquanto ouvia Rachel contar sobre como Quinn sofria quando era apenas uma criança.

Imaginava uma garotinha loira sem pais, sozinha e sofrendo ofensas por conta de um detalhe a mais em seu corpo que em nada mudava seu jeito de ser. A mais velha sofria quando criança por não ter o amor de Judy, entretanto, comparando ao que a irmã caçula sofreu, seu sofrimento não era nada.

Quinn fora rejeitada assim que nasceu. Sofreu anos em um orfanato sem nenhum tipo de cuidado maternal e ainda sofria pelas palavras da própria mãe.

Judy Fabray era um ser desprezível e Frannie sentia o estômago embrulhar enquanto sua mente vagava em pensamentos.

Possuía uma filha. Kate. Amava a garotinha de quatros anos mais que sua própria vida e jamais faria algo parecido com as atitudes da mãe.

— Deus! — Pronunciou-se assim que Rachel finalizou. — Eu não acredito que saí de uma pessoa como Judy. — Pôs as mãos no rosto, enquanto sentia a esposa afagar-lhe as costas carinhosamente.

— Se é que aquilo é considerado uma pessoa. — Santana murmurou.

— Concordo com você. — Puck assentiu. — Essa mulher é algum monstro que se apossou de um corpo humano.

— Ela não era assim. — Shelby suspirou ao lado da filha. — Judy era uma garota sonhadora e adorava fotografar para o jornal da escola. Poderia ser uma líder de torcida, mas passava horas na biblioteca quando tinha algum tempo livre. Era gentil e até carinhosa com os mais próximos.

— Por que ela mudou tanto? — Cassandra perguntou. — Por que se tornou essa pessoa sem coração?

— Talvez por causa dos pais. Joseph e Grace eram rígidos, soberbos e principalmente, preconceituosos. Judy me contava como era insuportável viver com eles e então ela se tornou uma pessoa igual. — Sorriu tristemente.

— Mas ainda pode ter um jeito de transformá-la na mesma pessoa de anos atrás. — Brittany possuía um tom esperançoso enquanto falava. — Talvez ela possa voltar a ser uma boa mulher.

Santana sorriu com o jeito da namorada. A fé que ela possuía no ser humano, por mais ruim que ele fosse, fazia a latina amá-la incondicionalmente.

— Eu acho que não. — Frannie negou com a cabeça. — Eu não acho que o que Judy fez tenha perdão. Ela quase deixou um bebê morrer. Um bebê! — Falou um pouco mais alto. — Eu deveria depositar alguma quantia de dinheiro em sua conta e mandá-la sair daqui com aquele babaca que ela chama de filho.

— Não faça isso. — Shelby respondeu. — Isso só despertaria o ódio dela e pelo menos aqui vocês terão algum controle sobre suas atitudes. — Aconselhou seriamente.

— Mas ela pode falar algo para a Quinn. — Rachel retrucou.

— Não vamos deixar. Somos sete pessoas que estão dispostas a proteger e fazer de tudo para que Lucy não sofra nenhuma ofensa. E também devemos ficar de olho em Hiram e Leroy. — Suspirou.

— Eu achei eles fossem boas pessoas. — Rachel suspirou tristemente. — Não achei que fossem ficar do lado de Judy.

— Eles são volúveis. Nunca se sabe o que eles pensam porque apenas compartilham entre eles, desde jovens, mas talvez você seja o ponto fraco dos dois, então use isso para tentar mudá-los. Enquanto eles não ofenderem quem você ama, ainda há uma solução, mesmo quase impossível. — Aconselhou, beijando o topo da cabeça da baixinha.

— Não vamos esquecer também daquele projeto de porcelana e do cara de feto. — Santana cruzou os braços.

— Finn é mimado por Judy desde que foi adotado. Eu nunca gostei dele e por mim ele moraria em outro lugar. — Frannie respondeu. — E Kurt é muito introspectivo. Sempre calado e com a cabeça longe. Não creio que seja uma pessoa má.

— Mesmo assim ficaremos de olho neles. — Shelby levantou-se. — Devemos manter os amigos por perto e os inimigos mais ainda. — Completou.

— E se isso não der certo, eu darei meu jeito com Puck. — A latina abriu um sorriso perverso.

— Isso! — O garoto bateu um high five com a amiga.

Rachel sorriu. Amava aquelas pessoas e sabia que sempre poderia contar com elas. Era grata por tê-los em sua vida, e sempre seria. Até mesmo Frannie, Cassandra e Shelby. Eram bondosas e estava feliz por contar com o apoio de cada uma.

— Hoje é domingo e não temos afazeres, então eu vou aproveitar e fazer algo para animar a Q. Eu sei como ela ficará quando acordar. — A baixinha levantou-se.

— Se precisar de algo, nos chame. — Brittany falou rapidamente.

— Pode deixar. — Sorriu. — E obrigada pela ajuda. — Olhou para todos no local.

— Somos uma família. — Frannie sorriu docemente. — Sempre estaremos aqui. Para você e Lucy. Ela é minha irmãzinha e eu a amo. Farei qualquer coisa para protegê-la, e você também. — Garantiu docemente.

Rachel sorriu abertamente e retirou-se do escritório. Entendia perfeitamente o significado de família diante da proteção daquelas pessoas para com ela e Quinn.

E a loira não fraquejaria novamente.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Era necessário ver a Quinn fraquejando. Até os mais fortes se quebram diante disso. Comentem, favoritem e exponham suas opiniões. =D Bom final de semana. twitter.com/yasagron