O Preço da Volta - 2ª Fase
33 Capítulo 33 - Segredos...
Notas iniciais
Quinn repousava a cabeça suavemente no ombro de Rachel.
A doutora havia ido embora há alguns minutos e desde então ambas não trocaram muitas palavras. A morena acariciava os fios sedosos lentamente. Sabia que a esposa estava imersa em pensamentos.
— Eu nunca achei que a minha diferença pudesse ser genética. — Se pronunciou.
— Você não gostou de saber que ela será como você? — Rachel inquiriu preocupada.
— Uma parte de mim sim. — A loira cruzou as pernas e fitou a mais baixa. — Uma parte de mim acha maravilhoso o fato de que uma das minhas garotinhas vai ser como eu. — Suspirou. — Mas a outra parte está morrendo de medo das dificuldades que virão.
— Você sabe que ela vai ter todo o nosso amor e a nossa proteção. Somos uma família. — A morena retrucou.
— Eu sei, eu sei. Mas isso não é o suficiente. — Passou as mãos pelo rosto. — Você não entende. Ela nunca vai se sentir plenamente normal. Ser diferente é especial mas também significa que ela fará parte de uma minoria. Uma minoria que é constantemente julgada pela sociedade. — O tom de voz saia aflito. — Ela não vai poder andar de biquíni em uma festinha na piscina ou na praia. Ela não vai querer trocar de roupa na frente das amigas. Tudo vai ser diferente na vida dela, e o pior de tudo é que por mais que tentemos, não há nada que possamos fazer para que o mundo se torne diferente. — Finalizou.
Rachel sentiu os olhos aguarem. Ela não havia pensado por esse lado. É claro que tinha plena consciência da situação. Conhecia a condição de Quinn há dez anos, mas, de fato, só a loira sabia cem por cento o que era ser diferente das outras pessoas.
— Não há nada que possamos fazer a não ser distribuir todo o amor do mundo. — A judia disse. — O amor consegue quebrar barreiras e nós vamos amá-la em uma proporção inimaginável. E ela terá a irmã para protegê-la das outras pessoas, assim como duas mães, três avós, dois primos e nove tios que vão ser como armaduras para blindar qualquer situação ruim. Vamos passar por cada momento juntos. Um passo de cada vez. — Ergueu a mão.
Quinn segurou na palma macia e beijou a pele morena delicadamente enquanto assentia. Tudo ao seu tempo.
— Eu estou tão nervosa. — Confessou e abaixou a cabeça. — Eu quero tanto protegê-las de qualquer coisa.
E ali estava o tom culpado novamente. Rachel sentou na cama e apoiou as costas na cabeceira. As mãos da estilista seguraram o rosto pálido, sendo cuidadosa com o hematoma, e o ergueu lentamente.
— Será que você consegue racionalizar o quão maravilhosa você é? — A morena indagou suavemente. — Eu me apaixono mais a cada dia por você e pelo seu caráter. Pela sua alma boa, iluminada e honesta. Você emana bondade e isso contagia todos ao seu redor e comigo não é diferente. Eu abro os olhos todas as manhãs e por alguns minutos eu não acredito que eu me casei com a melhor pessoa desse mundo. Com uma pessoa que eu sei que seria capaz de fazer literalmente qualquer coisa por mim e pelas filhas. Eu tenho sorte de ter você. De ter o seu amor, e saber que isso vai durar para sempre é uma bênção que eu jamais vou cansar de agradecer.
Quinn fungou sentindo os olhos nublados pelas lágrimas.
— Por que está falando isso tão de repente? — Perguntou. A voz rouca.
— Porque eu quero que saiba e nunca esqueça da pessoa incrível que você é. — Respondeu firme. — Porque eu quero que você não sinta nenhuma culpa do que aconteceu. Você me protegeu. Você agiu em minha defesa e isso não deveria ser aplicado em culpa. — Passou o dedo delicadamente pelas lágrimas da mais alta, enxugando-as. — E no futuro quando as nossas garotinhas souberem o que houve, porque você sabe que Santana, Puck ou Frannie irão contar, elas vão ter orgulho de saber que a mamãe Quinn defendeu a mama Rachel tão bravamente.
A loira mordeu o lábio inferior enquanto algumas lágrimas descerem por suas bochechas. Não evitou o sorriso que escapou.
— Você acha que elas vão ter mesmo orgulho de mim?
Rachel assentiu freneticamente enquanto também sorria, sentindo os próprios olhos marejarem.
— Elas vão ter orgulho de você todos os dias, meu amor. Pelo simples fato de você ser quem é. Essa pessoa esplêndida.
Quinn alargou o sorriso e aproximou o rosto da esposa, colando seus lábios nos dela. O gosto das lágrimas podia ser sentido, mas a doçura do sentimento que as preenchia sempre estaria ali.
Não havia línguas. Não era erótico. Elas só almejavam transferir de uma para a outra tudo o que sentiam. A segurança de Rachel e o agradecimento de Quinn.
A morena sempre saberia dizer e fazer tudo o que fosse necessário para a esposa se sentir bem. E agora não foi diferente.
— Eu te amo tanto. — Quinn murmurou quando o afeto fora quebrado. As testas coladas e as respirações misturando.
— Eu amo você muito mais. — Rachel respondeu, raspando as unhas lentamente pelo couro cabeludo da mais alta. — Para sempre.
— Para sempre, Rach.
...
Quinn já havia recebido parabéns de todos pelas gêmeas, inclusive algumas piadas por parte de Santana sobre futuros namorados. Hiram, Leroy e Shelby praticamente tiveram uma síncope quando Rachel os contou tudo pelo telefone. Eles adoraram a ideia de serem avós de duas meninas.
É claro que a aceitação sobre o fato de uma de suas filhas ser intersexual foi unânime, mas o que deixou a loira feliz foi o carinho que irradiava de cada pessoa ali. Era mais do que claro que sua garotinha teria uma família repleta de amor.
Faltava pouco menos de uma hora para o jantar ser servido quando Olívia adentrou a sala de estar avisando que Brooke estava do lado de fora dos portões desejando falar com Quinn e Rachel. A entrada foi autorizada e bastou poucos minutos para que a governanta abrisse a porta da frente e a ruiva adentrasse o hall da mansão.
Brooke foi conduzida até o cômodo onde os demais estavam. Segurava uma embalagem com estampa infantil em mãos.
— Boa noite, Brooke. — Quinn foi cordial. — Pode sentar.
A ruiva apenas deu um sorriso pequeno e se acomodou em uma das poltronas.
— Eu não sabia se vocês já teriam voltado do hospital mas eu quis vir o mais rápido possível. — Começou. — Eu sinto muito por tudo o que houve. Como você está? — Questionou para a judia.
— Eu estou bem. Foi apenas um sangramento. — Rachel respondeu. — Você sabia que o Jesse guardava aquele álbum? — Foi direta.
— Não. Eu não sabia. — Maneou a cabeça. — É claro que eu tinha conhecimento de que ele já sentiu uma paixão de criança por você mas nada que chegasse ao ponto em que ele chegou. Foi inadmissível.
— Foi doentio. — Santana corrigiu. — Isso é uma obsessão maluca. A Q fez bem em bater nele. Eu deveria ter ajudado.
— Santana! — Brittany bronqueou. — Não complique mais as coisas.
— Está tudo bem. — Brooke interveio. — Ela tem razão. Isso é algo doentio.
— Mas você já tomou alguma atitude em relação a isso, não tomou? — Frannie indagou.
— Eu não vou pedir o divórcio. — Foi sincera.
— Como não?! — A latina ergueu a voz. — Seu marido guarda um álbum com dezenas de fotos de outra mulher de uma forma psicótica e você ainda quer ficar com ele?
— Eu não posso fazer isso. Eu o amo. — Retrucou com a voz embargada. — Eu sei que vocês entendem isso porque todas aqui são casadas e amam suas esposas, então me respondam, vocês não seriam capazes de perdoar por amor?
Rachel não foi capaz de responder prontamente. E nem as demais. Nunca tinham pensado sobre isso, e ao elucubrarem, perceberam que havia mais poréns do que achavam ter. Até que ponto conseguiriam perdoar seus cônjuges? Até que ponto o erro de Jesse era perdoável? Talvez fosse um distúrbio que precisasse ser resolvido. Não sabiam. O que sabiam é que o ato de perdoar e ajudar alguém é muito subjetivo, e Brooke possuía sua própria decisão.
— E o que você vai fazer agora? — A pergunta de Cassandra cortou o silêncio que se instalou no local. — Se não consegue pedir o divórcio por se sentir presa a ele, pode nos comunicar e ajudaremos no que for preciso. — Se mostrou solícita.
— Eu agradeço imensamente, mas não me sinto presa. Jesse é meu melhor amigo há anos. — Suspirou. — Eu vou ajudá-lo a superar essa obsessão que ele sente pela Rachel. E não se preocupem, ele não vai fazer nada spnre a agressão sofrida. Eu até concordo que ele mereceu. Jesse não vai mais aparecer nas suas vidas. E talvez eu também não apareça, por isso trouxe um presente. — Levantou e entregou a embalagem para Rachel.
A morena agradeceu e sorriu pelo gesto da mulher. Ela não era má, mas estava movida pelo amor que sentia por Jesse. Não poderia culpá-la completamente. Apenas prestar auxílio.
As mãos da judia levantaram lentamente a tampa da caixa quadricular branca após desatar com cuidado a fita de seda preta.
O sorriso alargou quando observou o conteúdo. Quinn também não evitou sorrir e segurou em mãos uma das peças da roupa minúscula. As calças eram cada qual de um tom de cinza. Um mais claro e o ouro mais escuro, e as blusas tinham cores sólidas. Uma branca, mas com estampa de pequenos dinossauros em gris e a outra tinha o contraste oposto.
— Brooke, isso é lindo. — Fitou a ruiva.
— Eu não sabia o sexo dos bebês então optei pelo cinza e branco. — Explicou docemente.
— São duas meninas. — Quinn disse. — Descobrimos há algumas horas. Elas vão ficar lindas usando isso.
Os olhos azuis da mulher brilharam pela informação.
— Duas meninas? Isso é incrível! — Exclamou animada. — Elas vão ser muito amadas.
Quinn assentiu enquanto sorria. Não contou sobre a condição da sua filha. Por enquanto apenas a família saberia. Era o melhor a se fazer.
Brooke ainda passou alguns minutos conversando com o casal, e sendo observada pelo olhar desconfiado de Santana. Ela recusou educadamente o convite para o jantar e foi embora logo depois.
— Eu não confio nela. — A latina comentou após a partida da atriz. — Não confio em uma pessoa que permanece com o marido depois de tudo isso.
— Talvez ela o ame demais a ponto de aceitar isso. Acontece. É triste, mas acontece.
— Ela não parecia abatida. Eu no lugar dela estaria destruída por algo que aconteceu ontem. Nem mesmo a aparência cansada ela apresentava. — Retrucou. — Eu definitivamente não confio nela.
— Esqueça isso por um momento, tudo bem? — Quinn segurou os ombros da amiga. — Foi tudo muito corrido desde ontem. Vamos apenas jantar.
Santana assentiu resignada. Não iria encher a cabeça da loira com mais problemas. Quinn estava vibrando pela descoberta das gêmeas.
Entretanto, seu terceiro olho mexicano estava mais do que atento.
...
Brooke jogou a bolsa no sofá e foi rapidamente movida até as garrafas de bebidas na lateral da sala, enchendo o copo de cristal com whisky duplo sem gelo. Se sentia vazia. Completamente vazia. Enquanto permaneceu na mansão era como se uma áurea de aconchego a envolvesse. Mas agora, naquela cobertura luxuosa acomodando duas pessoas, se sentia solitária.
— Voltou mais cedo do que eu esperava. — A voz de Jesse adentrou seus ouvidos, fazendo virar a cabeça para fitá-lo descer a escada lentamente trajando pijama.
O rosto bonito do ator estava marcado por manchas arroxeadas por toda a pele. O nariz possuía uma bandagem pelo osso quebrado do local e o supercílio estava com alguns pontos.
Brooke sorriu debochada e o mais alto franziu o cenho.
— Do que está sorrindo?
— Do seu rosto. A Quinn fez um bom trabalho. — Voltou a beber o líquido marrom.
— Você está brincando comigo?! Eu deveria processá-la. Mancharia sua imagem de boa moça.
— Ela é uma boa moça. — Retrucou raivosa. — Ao contrário de você. Não consegue manter um álbum simples em segurança. É para isso que um cofre serve, sabia? Guardar embaixo da cama é tão brega, Jesse. E não podemos processá-la. Você sabe disso.
— Nós já conversamos sobre isso. — Sentou no sofá. — Como foi na mansão Fabray?
— Bem. — Respondeu indiferente. — São duas meninas.
— Duas meninas. — Repetiu a fala da esposa, e cruzou os braços. — Rachel deve estar tão feliz. — Sorriu.
— Deus! Você é um doente. — Fez uma careta de nojo.
— Eu não sou doente! — Elevou a voz.
— É um doente sim! — Respondeu no mesmo tom. — Um psicótico perturbado que deveria aceitar a ajuda médica, mas já que se recusa, quando eu puder, vou destruir você. — Entornou o resto de whisky de uma vez só, sentindo-o queimar sua garganta e em seguida subiu a escada rapidamente, não sem antes ouvir a voz do marido.
— Se eu cair você vem junto, Brooke. Não esqueça disso.
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