O Preço da Verdade
4 Capítulo 04
♦ 9 horas Antes ♦
O grupo não entendia como eles podiam estar no meio de uma mata fechada já que a serra a qual eles deveriam estar não tinha uma vegetação tão densa assim, ainda mais no percurso no qual eles haviam parado. No entanto, muitas coisas deixaram de ter lógica há muito tempo.
Por sorte, o céu ainda estava claro e apesar de somente uma quantidade reduzida de luz conseguir passar a copa das árvores, iluminava o terreno complicado pelo qual eles seguiam. E eles seguiam ainda correndo.
Marcos, apesar de ser evidentemente o mais preparado fisicamente do grupo, seguia atrás de todos, mas isso nada tinha haver com suas aptidões e sim porque o rapaz tomava sempre a posição protetora. Desde que eles haviam saído da caverna da bruxa, podiam escutar o som da risada da mulher! Tais sons ativavam memórias vividas na mente de todos e isso os preenchia de temor.
Sérgio tinha sido o único a olhar para trás no princípio da fuga e tinha certeza de ter visto ao redor de sua raptora sobrenatural, quatro lobos. Sua vivência o fazia saber que os animais não eram iguais aos lobos que via nos filmes. Aqueles que ele havia visto se pareciam mais com raposas. Posteriormente, quando todo aquele terror iminente chegasse ao fim, ele conseguiria identificar que eram lobos-guará, a única espécie de lobos existentes no Brasil. Contudo, ainda que não fossem iguais aos lobos de outros países em sua aparência, aqueles animais conservavam o mesmo instinto predador que os demais e mesmo que o grupo não conseguisse naquele momento vê-los ou ouvi-los, estavam seguindo de perto os fugitivos. A bruxa, que comandava os animais com extrema facilidade, apenas estava esperando o momento certo para ordenar o ataque.
Já havia se passado trinta minutos quando Letícia pediu para descansar. Ela fora a primeira a falar o que a maior parte dos outros também estavam sentindo. –Eu não aguento mais. Tenho que parar para descansar um pouco… Minhas pernas não respondem a mais nenhum passo. -dada a declaração, a menina escorou-se no tronco de uma das árvores e deixou o corpo deslizar até atingir o chão.
Como se esperassem apenas alguém tomar a iniciativa, um a um foram fazendo o mesmo que a garota, sentando-se próximos, inconscientemente formando um semicírculo. Por alguns minutos ficaram calados, apenas escutando o som da respiração que ia lentamente adquirindo um ritmo estável novamente. Foi Letícia quem quebrou o silêncio, exteriorizando o que se passava em sua cabeça antes que ela explodisse. –Que porra foi aquela que aconteceu? — seus olhos vagavam pelos rostos conhecidos, percebendo nas expressões que ninguém sabia exatamente o que responder.
—Ela era uma bruxa. — a resposta, falada quase em um sussurro, veio do irmão da garota, que estava sentado ao seu lado direito, bem próximo de Sérgio.
George tinha aberto e apoiado nas pernas o livro que roubara da estante. Ele folheava, atento a cada detalhe, os olhos semicerrados, tentando identificar o que ali estava escrito sem ter realmente sucesso. -Isso daqui está escrito em alguma língua que eu não conheço. — e realmente estava. Os feitiços e rituais contidos naquele exemplar estavam grafados em uma língua provinda antes da colonização.
—Bem, isso até mesmo para mim ficou claro. Aquela vaca era realmente uma bruxa! — Leticia falou naturalmente, conseguindo arrancar uma risada breve da sua prima, que naquele momento recebia atenção de Josi e Marcos.
Junto com a risada de Joyce veio uma nova sequência de tosse descontrolada, seguida de mais vômitos. A garota estava pálida e parecia que todo o seu sangue havia se esvaído pelos ferimentos espalhados pelo seu corpo. Em contraste a isso, o líquido negro que ela expelia pela boca e nariz já começava a tingir a roupa recém-recuperada. Novamente, sem que nada precisasse ser dito, o grupo trocou mensagens com os olhares e compreenderam que embora não soubessem o que estava acontecendo com a garota, era algo sério e eles não podiam mais perder tempo. Levantaram-se e voltaram a seguir pela mata procurando achar o caminho que os levaria de volta à cidade!
Em outra parte da mata, não muito longe de onde o grupo estava à bruxa conversava com um homem magro, de aparência pálida, orelhas grandes e nariz avantajado. Seus olhos, redondos demais para o rosto fino, exibia medo da mulher, pois ele sabia o quanto ela era perigosa e cruel. Enquanto ela falava, o encurvado escutava atentamente suas palavras e mesmo que sentisse pena dos jovens que eram descritos para ele, cumpriria a ordem da Cuca.
♦ 8 horas Antes ♦
Embora caminhassem em passos rápidos e a tempo suficiente para chegar ao ponto de partida daquele dia, o grupo ainda não havia conseguido encontrar o caminho certo. Já haviam assumido que estavam perdidos e até cogitaram a ideia de que estavam andando em círculos. O calor, que aumentava cada vez mais fez com que eles acreditassem que estavam no início da tarde, muito embora já tivessem perdido a noção de tempo.
Sérgio chegou a subir em algumas árvores durante o percurso, tentando ver algo além que pudesse ajudá-los a encontrar uma direção, mas nada conseguira ver além de árvores e mais árvores, o que era melhor do que lobos ou uma Cuca.
—Uma Cuca… — seus pensamentos volta e meia soavam altos sem que ele percebesse. Naquele instante, por exemplo, Sérgio pensava no nome que a bruxa havia dito e que o fazia lembrar de histórias que ele havia escutado quando criança.
O fato é que não somente ele, mas todos os seis conheciam aquele nome associado a uma história infantil, onde a Cuca muito embora fosse realmente uma bruxa, era retratada como uma figura caricata, em uma forma engraçada apesar de animalesca. A Cuca que eles estavam acostumados havia sido infantilizada e pouco tinha haver com a bruxa que eles enfrentaram.
“Cuidado com a Cuca, que a Cuca te pega…” a letra da música tema da personagem de história infantil surgiu involuntariamente na cabeça do rapaz e a cada refrão que ele se lembrava, via o quanto aquilo poderia ter servido de alerta para ele e os seus amigos se, claro, em algum momento o grupo tivesse sequer imaginado que a história era mais verdadeira do que acreditavam. “A Cuca é malvada e se fica irritada… A Cuca é danada, ela vai te pegar!” Mesmo que Sérgio não conseguisse lembrar exatamente a letra correta, e isso era um problema bem pessoal do rapaz que não conseguia reter esse tipo de informação, sabia que aqueles adjetivos haviam sido muito bem empregados, muito embora tivessem vendido a imagem errada e amena da bruxa.
Ao seu lado, George que ainda tentava compreender alguma coisa do livro da bruxa, seguia a mesma linha de pensamento de Sérgio, como se compartilhassem o que estava se passando em suas cabeças naquele momento. O menino, ao contrário do namorado, era um pouco mais voltado para o fantástico e talvez o mais familiarizado do grupo com coisas místicas e que a maioria das pessoas não acreditavam. Ainda assim, era difícil para o rapaz aceitar que tudo aquilo realmente havia acontecido e se não fosse pelas dores no corpo e os ferimentos que estavam ali como um lembrete do que eles haviam passado, talvez ele acreditasse que tudo não fosse nada além de um pesadelo que a sua mente poderia facilmente criar.
Pensar nisso o fez ir um pouco à frente do que Sérgio estava processando. A bruxa havia se identificado no final de tudo como uma Cuca. –Não achavam que conseguiriam matar uma Cuca, acharam? — ele repetiu a fala da bruxa, olhando para o namorado ao seu lado. –Podem existir outras. -explicou, vendo o rosto de confusão do parceiro. –Ela se referiu como se o nome fosse um título. — concluiu, sentindo um arrepio percorrer seu corpo.
Ele sabia agora que caso tentasse descrever a bruxa para outra pessoa, certamente ela poderia ser desenhada como a Cuca dos desenhos animados uma vez que ninguém levaria com seriedade as características que marcavam qualquer pessoa que a visse. -Pensamos na Cuca como uma mulher jacaré por causa do casaco que ela usa. Acho que o casaco de alguma forma devolve a juventude dela. E ela nos chamava de crianças… Talvez venha daí o mito de que ela somente caça crianças. E se existir mais de uma bruxa com esse nome é fácil compreender porque há tantas informações divergentes no folclore.
Seguindo não muito distante dos dois garotos, Josi escutou as declarações do melhor amigo. Sua mente lógica ainda lutava para encontrar uma explicação para tudo que havia visto, mas assim como o caminho para a cidade, ela não conseguia achar nada que ajudasse. Somado a isso, sua preocupação com Joyce crescia cada vez mais. A menina estava sendo carregada por Marcos e lutava para manter-se acordada.
Josi pensou que se George estivesse certo e aquela mulher fosse realmente uma bruxa, talvez no momento da mordida a mulher tenha transmitido algum tipo de vírus para Joyce. Os fluidos expelidos pela garota eram da mesma cor do sangue da bruxa. Por um instante uma hipótese lhe ocorreu, mas preferiu não focar naquele pensamento. A amiga não merecia aquele destino…
♦ 4 horas Antes ♦
O grupo estava cada vez com menos esperança de conseguir sair dali. Esperavam receber ajuda de fora. Já tinham perdido as contas de quantas vezes pararam para descansar. A fome e a sede castigavam e todos lutavam para manter a calma. –Talvez o responsável pelo estacionamento do clube ache estranho não voltarmos para buscar o carro quando anoitecer. — Marcos sugeriu, tentando encontrar algo que desse esperança para os demais, em especial para sua namorada.
Josi olhou para o rapaz e reconheceu o seu esforço, mas sabia que essa era a ideia menos provável já que eles haviam iniciado a trilha com todo equipamento necessário para acampar e aproveitar o feriado que se prolongava por causa do final de semana. –Quem sabe nossos pais venham atrás da gente ou acionem a polícia quando não conseguirem notícias nossa. — foi a vez de ela dar uma alternativa.
—Eu e Letícia avisamos a mãe que aqui não teríamos sinal de celular provavelmente. -George não queria deixar os outros mais desesperados, mas tinha que falar e evitar falsas esperanças. Com o adiantar do dia a mata onde estavam ficava cada vez mais escura, achavam que provavelmente já chegavam ao final da tarde e caminhar sem destino se tornaria ainda mais perigoso. Tinham que pensar como passariam a noite. O pior de tudo era que Joyce não apresentava qualquer tipo de melhora e embora ninguém tivesse coragem de falar, todos temiam pelo pior.
—Vocês ouviram isso? — a pergunta em total alarme foi feita por Letícia e logo todos estavam olhando ao redor, procurando algo suspeito. Fora somente ela quem havia escutado, talvez por não estar concentrada na conversa do grupo ou por sua deficiência visual supervalorizar a sua audição. –Foi um uivo, tenho certeza. -Por mais algumas horas nada pôde ser escutado, mas por precaução, o grupo decidiu andar mais um pouco. Mal sabiam que de nada adiantaria!
♦ 2 horas Antes ♦
As coisas pareciam melhorar. Joyce que durante as horas anteriores estivera quase inconsciente e tendo repetidos episódios de vômito agora já estava caminhando novamente e não mais expelia o líquido negro. Ela sabia que o seu estado preocupava os amigos e que havia sido responsável pelo atraso na caminhada, mas sabia também que isso era algo além do seu controle.
Controle… Joyce sentia como se tentasse retomar o controle do seu corpo. Sentia-se estranha, não como os amigos poderiam entender; estava estranha de uma forma além. Era como se desde que mordeu a Cuca e aquele sabor ácido penetrou sua garganta, todo o seu corpo vibrasse por dentro. Primeiro a vibração lhe causou desconforto, pois sentiu como se seus órgãos tivessem se movimentado, reajustando suas posições. Depois a vibração causou-lhe dor e aí pareceu que os órgãos não se adaptaram a nova posição que haviam assumido e passaram a se decompor. Talvez o próprio corpo não aceitasse aquilo e rejeitasse a nova ordem. Agora a vibração que percorria o seu corpo a fazia sentir como se uma corrente elétrica percorresse suas veias junto com o sangue. Mas como logo ela aprenderia muitas vezes a melhora é somente um sinal de que as coisas vão ficar piores. E tudo voltou a acontecer rápido demais.
Primeiro Letícia escutou algo novamente, mas nem precisou alertar os companheiros. Logo o som dos uivos tornaram-se altos o suficiente para que todos pudessem ouvir! O som dos animais parecia vir de todas as direções e George lembrou-se no momento que já havia lido em algum lugar que os lobos cercam suas presas antes de atacar. Os seis que estavam parados, tentando ver na penumbra o melhor caminho para fugir não tiveram tempo de decidir. Os lobos surgiram das quatro direções, forçando os fugitivos da bruxa a se juntarem em um pequeno círculo, espremendo os corpos uns contra os outros. As feras os encaravam, mostrando as presas, amedrontando-os, esperando o menor movimento. Este veio de Sérgio que tentou pegar o pedaço de vidro que usou antes para cortar a garganta da Cuca e que agora estava guardado às suas costas. O ataque foi simultâneo e os animais pularam na direção do grupo que se separou no mesmo instante.
Sérgio muniu-se do pedaço de vidro e conseguiu cortar, não de forma profunda, mas o suficiente para afastar, o rosto de um dos lobos. Marcos tentou chutar a fera que seguiu na sua direção e na de Josi, mas o animal mais rápido cravou as presas no membro direito do rapaz, agarrando firme, perfurando a carne, arrastando-o para longe. George e Letícia correram, sendo seguidos de perto por um dos lobos que pulou nas costas dos dois, derrubando somente Letícia no fim. Antes de conseguir morder a garota o animal foi agarrado pela lateral por George que usou o peso do corpo para tentar domar o predador. Josi quase foi atacada e o que aconteceu em seguida somente ela viu.
No momento que o lobo partiu em sua direção, Joyce colocou-se entre os dois, recebendo no braço esquerdo a mordida do animal. Quase de imediato o quadrúpede desfez a mordida, tendo o mesmo líquido negro que saia do ferimento do braço da garota escorrendo por suas presas. O lobo caiu de lado, contorcendo-se e poucos segundos depois deixou de se mexer!
Como se tivessem sentido a morte do companheiro de matilha os outros três lobos recuaram, uivando e rosnando na direção do grupo que pôde se reunir de novo. Estranhamente agora eram os animais que demonstravam medo dos humanos. O uivo dos lobos ficou cada vez mais alto e assustador. Os seis que olhavam aquele comportamento atípico começaram a recuar lentamente, até que avistaram uma figura ainda mais assustadora. A Cuca estava de volta! Eles não esperaram por muito tempo, logo estavam correndo na completa escuridão, esforçando-se para não se separarem.
Não tiveram como saber por quanto tempo correram. Tudo que eles conseguiam ouvir eram os uivos dos lobos e o som da Cuca, rindo bem atrás deles. Quase sentiam as unhas da mulher tocar novamente suas peles. O desespero fez com que eles pouco se importassem com a direção que estavam indo, eles só queriam sobreviver… Talvez se tivessem feito isso antes conseguissem encontrar aquele refúgio que apareceu como uma salvação. Primeiro sentiram a diferença no ar, que ficou mais frio. Depois, viram a luz da lua mais intensa, sendo refletida no chão. Quando estavam mais perto, conseguiram ver que não era no chão que a luz refletia-se e sim em uma grande porção de água.
O precipício os obrigou a parar. Há pelo menos dois metros e meio abaixo um grande açude se estendia para ambos os lados, até onde os olhos deles conseguiam acompanhar. –É aqui. O Açude no fim da trilha! — a voz de George sobressaiu informando os demais. A risada da bruxa, no entanto, subjugou o som e trouxe o alarme novamente para o grupo.
—Temos que pular! — dessa vez foi Sérgio quem falou, já realizando o ato em seguida. Os outros apenas olharam espantados, vendo o garoto sumir nas águas abaixo, ressurgindo alguns segundos depois alguns metros à frente, nadando em direção à outra margem.
Joyce foi a segunda a pular, Marcos que cada vez mais sentia a dor do ferimento incomodar, seguiu a menina, saltando mais longe do que os outros dois anteriores a ele. Josi, Letícia e George, contudo, dividiam o medo de serem capturados novamente pela bruxa e o medo que tinham de altura. Não tinham muito tempo para decidir! Olhando para trás já viam os olhos de crocodilo brilhando no escuro da mata, cada vez mais perto.
—Letícia, vamos pular juntos! — o garoto tentava convencer a irmã. Lembrou, mesmo com toda aquela confusão, que além de temer a altura a outra tinha medo da água, ou melhor, dizendo, de se afogar. Ela era a única entre os seis que não sabia nadar!
—Não. Eu não consigo. -a garota declarou, recuando dois passos. Ela já tinha tido experiências traumáticas o suficiente no meio da água para saber que não conseguiria sobreviver caso pulasse.
—A gente vai segurar você! — Josi tentou convencê-la, segurando o pulso livre da amiga. Ela e George tentaram puxá-la, viam as costas a bruxa se aproximar. -Vem Letícia.
—Não. — a menina já havia decidido. Apesar da negativa, andou com os dois até a beira da pedra onde estavam convencendo-os de que pularia, para no último momento, quando os corpos já se inclinavam para baixo, soltar-se das mãos que a seguravam, empurrando os dois em direção à água.
Eles tentaram gritar alguma coisa e até mesmo virar e segurar Letícia mais uma vez, mas não conseguiram. Logo a água fria estava envolvendo seus corpos. Quando voltaram a emergir, não viram mais sinal da amiga e nem sinal da Cuca. Letícia se fora e com ela as risadas e os uivos...
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