O Preço da Coroa

6 Farpas e palavras


O ar nos aposentos reais estava carregado com o cheiro de madeira queimada e o silêncio tenso de duas pessoas que preferiam estar em qualquer outro lugar do mundo, menos ali, uma na presença da outra.

​Maria estava ajoelhada diante da enorme lareira de pedra, cutucando as brasas com um atiçador de ferro. As chamas alaranjadas iluminavam seu rosto, destacando o suor fino em sua testa e a expressão de puro desdém. Ela odiava a sensação de estar ali, preparando o conforto do homem que mantinha sua família como refém.

​A porta pesada se abriu com um estrondo seco. Edmund entrou, arrancando a capa pesada e jogando-a sobre uma poltrona de couro. Ele desamarrou o colarinho da túnica, respirando fundo, como se o ar do gabinete parlamentar o estivesse sufocando.

​— Eles são lobos, Maria — ele disse, a voz rouca de cansaço, sem nem olhar para ela. — Lobos gordos que preferem ver o reino sangrar a perder uma moeda de ouro.

​Maria levantou-se lentamente, limpando as mãos sujas de fuligem no avental.

— E o que você esperava, "Majestade"? Que eles batessem palmas enquanto você tira o banquete da mesa deles para dar migalhas ao povo?

​Edmund parou e finalmente olhou para ela. Seus olhos estavam vermelhos de exaustão, mas brilharam com uma faísca de irritação.

— Migalhas? Dois sacos de grãos e carne para cada família é mais do que meu pai deu em cinco anos de paz! Eu estou arriscando uma guerra civil com o Parlamento por pessoas que, se tivessem a chance, cortariam minha garganta agora mesmo. Como você tentou fazer.

​Maria deu um passo à frente, desafiadora. A luz do fogo dançava em seus cachos escuros.

— Você quer um prêmio por fazer o mínimo? Quer que eu me ajoelhe e agradeça porque você decidiu que não quer que seus escravos morram de fome antes da colheita? Você não faz isso por bondade, Edmund. Faz por medo. Medo de que haja mais "Marias" nas ruas com facas escondidas.

​Edmund caminhou até ela, parando tão perto que Maria podia sentir o calor que emanava de seu corpo. Ele era mais alto, mas ela não recuou um milímetro.

— Talvez eu faça por medo — ele admitiu, a voz caindo para um sussurro perigoso. — Ou talvez eu faça porque, desde que você me atacou, eu não consegui ter uma noite de sono decente sem pensar no que aquela fúria nos seus olhos significa.

​Houve um momento de silêncio absoluto. O estalar da madeira na lareira parecia um trovão. Edmund estendeu a mão, como se fosse tocar o rosto dela, mas parou no meio do caminho, fechando o punho.

​— Você acha que é fácil? — ele perguntou, a voz carregada de uma amargura súbita. — Meu pai vive em uma cabana com a mulher que ama, colhendo maçãs e ouvindo os pássaros, enquanto eu herdei um reino quebrado, um conselho de traidores e uma criada que quer me ver morto.

​Maria sentiu uma pontada estranha no peito. Pela primeira vez, ela viu a rachadura na armadura dele. Ele não era apenas o rei; era um jovem sobrecarregado, perdido em um jogo onde as regras eram escritas com sangue.

​— O poder é uma gaiola, não é? — Maria disse, sua voz perdendo um pouco da agressividade, mas mantendo a firmeza. — Mas não espere que eu sinta pena de você. Você tem vinho e fogo. Minha mãe tem frio e esperança. Se você quer ser um rei diferente do seu pai, pare de reclamar do peso da coroa e comece a usá-la para esmagar os lobos, antes que eles te devorem.

​Edmund a encarou, surpreso pela lucidez dela. Ele soltou um riso curto e sem alegria.

— Você tem uma língua afiada demais para uma criada, Maria Benevides.

​— E você tem ouvidos sensíveis demais para um rei — ela retrucou, voltando-se para a mesa para organizar as taças.

​Edmund sentou-se na beira da cama, observando-a trabalhar. Por um momento, a tensão de "rei e traidora" foi substituída por algo novo, algo que nenhum dos dois sabia nomear, mas que queimava mais do que as chamas na lareira.

​— Amanhã você irá comigo ao vilarejo — ele ordenou, mas dessa vez, não parecia uma ameaça. — Quero que você veja a distribuição. Quero que você veja que eu cumpro minha palavra.

​Maria parou, de costas para ele.

— Se você falhar com eles, Edmund... eu não vou precisar de uma faca. Eu mesma te entrego para a multidão.

​— Eu não duvido disso — ele murmurou, deitando-se e fechando os olhos, enquanto Maria permanecia nas sombras, vigiando o sono do homem que ela deveria odiar, mas que começava a entender.