Quinze anos se passaram desde que os sinos da Abadia dobraram para o casamento que desafiou Roma. A Escócia não era mais o reino faminto e dividido de outrora; sob o reinado de Edmund e Maria, tornara-se um farol de justiça e prosperidade no Norte.

​O Grande Salão do Castelo estava decorado com as cores do clã e as insígnias da nova era. No trono, Edmund observava com um sorriso sereno, os cabelos agora salpicados de prata nas têmporas, mas o olhar mantinha o mesmo brilho de quando brincava com baldes de água no vilarejo. Ao seu lado, Maria, a Rainha, exalava uma majestade que vinha da alma, vestida com a elegância que o tempo só fizera refinar.

​Sentados aos pés do estrado real, estavam os herdeiros dessa união improvável: Arthur, de 12 anos, que herdara os olhos atentos do pai e a determinação da mãe, e a pequena Aline, de 10 anos, cujo riso era o som favorito de todo o palácio.

​A Honra dos Benevides

​O silêncio caiu sobre o salão quando as portas se abriram. Um jovem de ombros largos e postura firme caminhou pelo tapete central. Era Christopher, o irmão de Maria, o bebê que ela vira no ventre de sua mãe durante os anos de incerteza. Agora, aos 15 anos, ele era a imagem viva da força do povo escocês.

​Maria levantou-se, segurando um pergaminho com o selo real e a insígnia de Valfenda. Christopher ajoelhou-se diante da irmã, não apenas como um súdito diante de sua Rainha, mas como um irmão que reconhecia o sacrifício que ela fizera por sua família.

​— Christopher Benevides — a voz de Maria ecoou, firme e emocionada. — Há muitos anos, nossa família carregou o peso da terra e do trabalho honesto. Hoje, reconhecemos que a verdadeira nobreza não nasce apenas do sangue, mas do caráter e da lealdade ao solo que nos nutre.

​Ela estendeu a mão, e Edmund entregou-lhe a espada cerimonial. Maria tocou levemente os ombros do irmão.

​— Pelo meu direito como Baronesa de Valfenda e Rainha da Escócia, eu lhe transmito este título. De hoje em diante, você será o Barão Christopher de Valfenda. Que você governe suas terras com a mesma compaixão com que nosso pai nos criou e com a coragem que reconquistou nossa liberdade.

​Christopher levantou-se, os olhos brilhando de orgulho, e recebeu o anel de sinete das mãos da irmã. Arthur e Aline correram para abraçar o tio, quebrando o protocolo em uma explosão de afeto familiar que Edmund e Maria sempre incentivaram.

​O Legado de um Olhar

​Mais tarde, naquela noite, Edmund e Maria caminharam até a varanda dos seus aposentos, observando as luzes do vilarejo brilhando como estrelas terrestres lá embaixo.

​— Quem diria, Maria? — Edmund murmurou, envolvendo-a pela cintura e descansando o queixo em seu ombro. — O menino que não sabia governar e a moça que queria matá-lo... agora criamos um Barão e dois príncipes que conhecem o valor do pão.

​Maria encostou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração que ela aprendera a amar acima de todas as leis.

— Nós não criamos apenas nobres, Edmund. Criamos seres humanos. Esse é o nosso verdadeiro reino.

​Arthur e Aline apareceram na porta, chamando-os para ouvir uma história antes de dormir. Edmund olhou para Maria, e naquele olhar trocado entre o Rei e sua Rainha do Povo, não havia mais dúvidas, nem fantasmas de papas ou parlamentos. Havia apenas a paz de uma promessa cumprida e o calor de um lar que fora construído sobre a rocha da verdade.

​A Escócia estava segura. O amor tinha vencido. E a linhagem dos Benevides e dos Blake agora era uma só: a linhagem daqueles que não tinham medo de lutar pelo que era justo.

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