O Preço da Coroa

4 A Sentença de Ferro




​O Salão do Conselho estava lotado. Nobres de vestes pesadas e guardas de armaduras brilhantes flanqueavam as paredes de pedra fria. No centro, isolada e com os pulsos marcados pelas correntes, Maria Benevides mantinha a cabeça erguida. Ela parecia um lobo cercado por hienas, mas seu olhar não vacilava, nem mesmo diante do trono onde Edmund Blake estava sentado, vestindo o manto negro da justiça.

​Lorde Archibald deu um passo à frente, desenrolando um pergaminho.

— Maria Benevides, você é acusada de alta traição, tentativa de regicídio e incitação à rebelião. Pelas leis da Escócia, o destino para tais crimes é a forca em praça pública.

​Um murmúrio percorreu o salão. Maria soltou uma risada seca, que ecoou desafiadora.

— Podem me enforcar. Meu corpo morrerá, mas a fome do meu povo continuará roendo as colunas deste castelo até que tudo desabe sobre as suas cabeças coroadas!

​Edmund sentiu uma pontada de admiração involuntária pela coragem dela, mas seu rosto permanecia uma máscara de mármore. Ele se levantou, e o silêncio se tornou absoluto.

​— O povo pede sangue — começou Edmund, sua voz ecoando com uma autoridade que ele mesmo desconhecia possuir. — Meus conselheiros pedem que eu faça de você um exemplo de medo. Mas o medo não enche barrigas, e a morte não silencia a verdade.

​Maria franziu a testa, confusa. Edmund desceu os degraus do trono e parou a poucos centímetros dela. O cheiro de sândalo do rei se misturou ao cheiro de poeira e suor da plebeia.

​— Você diz que eu não conheço a realidade do povo? Que sou um pássaro em uma gaiola de ouro? — Edmund inclinou-se para perto do ouvido dela, baixando o tom. — Pois bem. Eu não vou te dar a glória do martírio. Você não será uma heroína morta.

​Ele se virou para o conselho.

— Maria Benevides não será executada. Em vez disso, ela é condenada à servidão perpétua. Ela será minha criada particular. Comerá o que eu comer, andará por onde eu andar e verá, com os próprios olhos, cada decisão que um Rei precisa tomar.

​O salão explodiu em protestos. Archibald empalideceu.

— Majestade! Isso é loucura! Ela tentou matá-lo!

​— Ela será revistada todas as manhãs. Dormirá acorrentada ao pé da minha cama se for preciso — Edmund retrucou, voltando-se para Maria com um brilho cruel nos olhos. — E para garantir que sua "língua afiada" não se transforme em outra lâmina... saiba que seu pai, Jorge, e sua mãe, Elena, estão sob custódia da guarda real no vilarejo.

​Maria avançou contra ele, mas as correntes a seguraram. Seu rosto se transformou em uma máscara de puro ódio.

— Você não se atreveria...

​— Se você fugir, eles morrem. Se você me atacar, eles morrem. Se você cometer qualquer erro, Maria, eles pagarão o preço. — Edmund sustentou o olhar dela, sentindo um peso amargo no coração por usar tal tática, mas era a única forma de mantê-la viva. — De hoje em diante, sua vida pertence à coroa. Comece limpando a lama das minhas botas.

​Maria tremía de raiva, as lágrimas de frustração lutando para sair, mas ela as engoliu. Ela olhou para o Rei, percebendo que o "menino" tinha acabado de aprender a jogar o jogo mais sujo de todos.

​— Eu vou servir você, "Majestade" — ela cuspiu a palavra como se fosse veneno. — Mas tome cuidado. Eu estarei nas sombras, vendo cada fraqueza sua. E quando você menos esperar, será você quem estará implorando por misericórdia.

​Edmund não respondeu. Apenas sinalizou para os guardas soltarem as correntes dos pés dela. O destino da Escócia agora estava trancado dentro dos aposentos reais, entre um rei que precisava aprender a governar e uma serva que desejava vê-lo cair, mas que, pela primeira vez, teria que ajudá-lo a ficar de pé.