O Presente

1 Capítulo único


Finalmente Julie havia conseguido vender sua casa. Ela brincava dizendo que a casa era tão velha quanto ela, o que não era exagero visto que cresceu sua vida inteira no mesmo lugar. Era um lugar tão especial que era triste pensar que agora iria simplesmente acabar. Julie sabia o quanto era necessário essa mudança e havia se esforçado muito para vender a casa, mas agora que a venda havia se concretizado, uma forte insegurança a abateu.

“Eu estou velha.” Pensou Julie, enquanto terminava de colocar o restante de algumas peças de cozinha em uma caixa de papelão. “Será que eu não deveria simplesmente sossegar aqui?” Pensava alto, enquanto olhava ao redor.

A tinta que descascava das paredes que ela mesma havia pintado há tanto tempo. As marcas dos sapatos das crianças nos rodapés, que insistiam em fazer suas brincadeiras dentro de casa. Eram tantas memórias que Julie sentiu que deveria desempacotar suas coisas e cancelar imediatamente essa negociação. Não estava pronta para deixar tudo isso ir embora. Havia percebido isso neste instante e com um ato súbito de coragem pegou o telefone para ligar para a imobiliária. Seus idosos dedos tremiam enquanto tentava digitar o número no telefone. Por algum motivo seu coração conflituoso não a estava deixando. Havia algo dentro de Julie que a puxava de um lado para outro e isso a estava destruindo. Da mesma forma ligeira que pegou o telefone, o guardou de volta. Suspirou fundo, fazendo seu coração voltar devagar aos batimentos normais. Caminhou para o quintal, abrindo a velha porta de madeira, e o vento da manhã a alcançou. Sua vizinhança havia mudado tanto em tão pouco tempo que ela mal a reconhecia. Não parecia nem um pouco com o lugar que crescera, mas de alguma forma ainda estava conectada com ele. A decisão de deixar esse lugar para trás veio em seu coração há muito tempo, mas Julie havia arrogantemente decidido ignorar isso. Afinal, quem gosta de deixar para trás algo tão precioso? Essa casa fazia parte dela. Como ela poderia simplesmente abandoná-la? Tal raciocínio a havia impedido de seguir o que seu coração dizia e quando se deu por conta estava solitária. Muitas pessoas passaram, mas muitas já haviam ido embora. Quantas a haviam chamado, convidando-a para ir para outro lugar apenas para Julie as rejeitar de prontidão? Às vezes pensava que estava sendo escrava de si mesma, esperando que um sinal perfeito dos céus dissesse o que fazer. Mas esse sinal nunca veio, então Julie simplesmente esperou. E esperou. E esperou mais um pouco. Já possuía uma avançada idade e uma boa experiência, então sabia que tinha sido mesmo uma tola. Com um leve balançar de sua cabeça entrou novamente na casa que tanto amava.

Após tomar um leve café, decidiu ir ao sótão. Havia adiado tanto a limpeza de lá que agora lamentava tamanha preguiça. Sabia que não haviam muitas coisas, mas ainda assim imaginava que gastaria o dia inteiro na atividade. Julie puxou a escada do teto e subiu vagarosamente até o sótão. Não se lembrava qual foi a última vez que havia entrado ali, mas sabia que faziam bons anos. Apertou o interruptor e após uma leve vacilada, a luz se acendeu, revelando muito pó e bagunça.

“Meu Deus!” Pensou ela, espantada.


Tinha muito mais coisa que havia imaginado. Não conseguiria limpar isso em somente um dia. Ela já estava quase desistindo e descendo a escada de volta quando seu coração a apertou novamente. Ele estava querendo dizer algo e Julie sabia que se ignorasse isso, iria ficar doente. Com muita relutância, começou a limpeza tão adiada. Começou empilhando algumas caixas, que apesar de extremamente empoeiradas, estavam novíssimas. Não pareciam ter qualquer tipo de desgaste. Tal fato fez Julie se intrigar e resolveu abrir uma caixa para ver o que tinha dentro. Para sua surpresa, nada havia. Era uma caixa completamente vazia.

“Porque eu guardei uma caixa vazia?” Pensou ela, enquanto a colocava de lado.

Intrigada, pegou mais uma, tão empoeirada e de aparência nova quanto a outra. E também vazia. Seu coração apertou novamente e um frio percorreu sua espinha.

“Porque essas caixas estão todas vazias?” Pensava ela. “Porque eu as guardei aqui se elas não tinham nada dentro?”

Em uma controlada fúria, começou a abrir caixa por caixa e na pressa até danificou algumas. Mas ela não encontrou nada. Estavam realmente todas vazias. Julie sentou-se no chão empoeirado. Estava ofegante e o pó que circulava no ar a fez tossir e ter uma leve falta de ar. Ela quis chorar, mas seu coração ainda não havia terminado. Mais uma pontada de dor fez Julie olhar para um dos cantos mais escuros do sótão. Sua visão embaçada conseguiu identificar um objeto colorido, mas ela não conseguia distinguir o que era. Da forma mais rápida que suas pernas conseguiam, ela se ergueu novamente e caminhou até o objeto. Quando chegou bem perto, viu que se tratava de uma caixinha de presente. Estava graciosamente embrulhada e nem mesmo o pó de tantos anos havia ofuscado sua beleza.

“Eu... Eu me lembro disso.” Disse ela, conforme manipulava a caixinha em suas mãos.

Julie fechou os olhos e seu coração a levou a um lugar no tempo muito distante, mas também extremamente próximo.

“Aqui, joga pra mim!” “Deixa que eu pego!”. Julie se assustou com a quantidade de crianças correndo em sua volta.

Ela estava no quintal de sua casa e haviam balões e brinquedos por toda parte. Olhou em volta e sua vizinhança estava igualzinha suas fotografias de décadas atrás. Olhou para baixo e viu que estava com um vestido rosa claro. Colocou as mãos nas rendinhas, tentando entender o que estava acontecendo. Virou suas mãos em frente seu rosto. Não haviam mais rugas e manchas de sol em sua pele. Estava lisa e jovem. Passou a mão em seu cabelo. Estava volumoso e com grandes cachos, além de uma grande fita que enfeitava o penteado.

“Julie!” Ela virou-se à procura da pessoa que gritara seu nome.

Seus olhos quase saltaram para fora quando viu que se tratava de sua mãe. Estava tão bonita. Tão jovem.

“É hora de cantar parabéns, vem!” Sua mãe se aproximou a pegando pela mão.

Julie quis chorar, mas não estava conseguindo. Algo bloqueava suas emoções e não estava conseguindo agir conforme queria. Tinha tantas coisas para dizer a sua mãe, mas não parecia ser possível. Quando se deu por conta, estava diante do seu bolo de aniversário e dezenas de pessoas cantavam parabéns, batendo palmas. Ela estava tão em choque que os eventos seguintes pareceram decolar diante dela, e quando percebeu já era tarde da noite e estava sozinha com ele. Foi engraçado ver mais uma vez Ron com aquela carinha de criança. Eles estavam no lugar preferido dos dois, nos banquinhos do parque do outro quarteirão. Iam muitas vezes lá bater papo e Julie adorava a companhia dele. Sorriu quando viu o rostinho tímido dele ao entregar a caixinha de presente.

“Só abra quando chegar em casa, tudo bem?” Disse ele, sorrindo com as bochechas vermelhas.

Julie mexeu os lábios para dizer algo, mas não teve tempo. Estava de volta ao sótão e Ron não estava lá. Havia somente o pó e estava sozinha olhando para a parede. O presente estava em suas mãos, intacto. Seu coração não precisou dizer mais nada, pois Julie já havia entendido. Suas lágrimas escorreram por seu rosto e caíram em cima do presente de Ron. Ela começou a passar os dedos no presente, como se o estivesse acariciando. O lacre da fita que envolvia o presente estava exatamente igual ao dia que ela o recebera.

“Me desculpa, Ron.” Disse ela, baixinho. “Eu nunca abri o seu presente. Tive medo.”

Conforme falava, Julie chorava cada vez mais. Seu coração já havia feito o seu papel e estava em paz, mas ainda era muito difícil.

Depois de se recompor, Julie amontoou todas as caixas vazias em uma só e as pôs de lado no sótão. Não iria perder mais tempo com elas. Elas poderiam ter significado algo antes, mas agora não passavam de caixas vazias. Não passavam de coisas que já não eram. Do sótão, desceu somente com seu presente, ainda fechado. Ainda no andar de cima, ouviu o barulho da caminhonete estacionando. Julie desceu até a garagem para recebê-lo. Quando chegou, o viu descer do veículo com seu sorriso característico.

“Oi, querida.” Disse Ron. “A imobiliária te ligou? Eles disseram que viriam hoje.”

Julie não disse nada, apenas ficou parada com o presente em mãos. Ron demorou a notar, mas quando percebeu se aproximou.

“O que é isso?” Ron abraçou Julie e colocou a mão no presente, tentando reconhece-lo.

“Você me deu isso, se lembra? No meu aniversário de dezesseis anos.” Julie tentou permanecer calma, mas seus olhos já estavam marejando.

Ron pareceu se lembrar, pois seu semblante ficou sério de repente.

“E eu nunca abri.” Disse ela, sorrindo enquanto chorava. “Nunca tive coragem. Não sabia o que eu poderia encontrar. Não sabia o que era certo. E depois você foi embora e demoramos tanto tempo para nos ver novamente.” Julie soluçava enquanto tentava encontrar força para terminar as frases. “Eu te atrasei tanto, meu amor... Te atrasei tanto!”

Julie sentiu o abraço de Ron a envolver. Neste instante ela chorou tudo o que precisava chorar. Todo o tempo perdido. Toda frase de amor não dita. Toda noite que passou sem sua companhia. Toda memória não vivida. Todo beijo não dado e todo abraço desperdiçado. Quando se acalmou, Ron a olhou nos olhos e disse:

“Abra.”

Julie hesitou por alguns segundos, mas logo começou a desenrolar a fita do presente. Quando abriu, viu uma pequena caixinha de joia. A pegou e embaixo dela havia uma cartinha. A abriu e leu em voz alta.

“No fim do dia é sempre o seu rosto que eu vejo. Não importa quanto tempo passe, estaremos juntos. Com amor, Ron.” Ele sorriu ao ouvir algo que havia escrito há tanto tempo.

Julie então abriu a caixinha de joia, revelando um colar com um pequeno pingente de coração. Ela sorriu, balançando a cabeça conforme envolvia o pingente em suas mãos.

“Você sempre soube, não é?” Disse Julie, encabulada.

“No fim do dia a gente escolhe ficar com quem a gente quer ficar.” Disse Ron, calmo como sempre. “E seu rosto foi tudo o que eu sempre vi.” Julie sorriu conforme mais uma lágrima escorria pelo seu rosto.

Ron a ajudou a colocar o colar em seu pescoço e logo após entrou em casa, deixando Julie sozinha na garagem. Ela mais uma vez pegou o pingente pendurado em seu pescoço e o acariciou. Ela demorou a entender, mas agora tudo estava tão claro como água. Ela só conseguia agradecer a segunda chance que tinha recebido. A partir de hoje não iria guardar nada. Não iria acumular caixas vazias e muito menos presentes fechados. Não ficaria presa refém de sua própria insegurança. Havia escolhido o que fazer e hoje seria o último dia que iria viver nesta casa. Era chegada a hora de fazer um novo lar, e nesta jornada ela não iria sozinha.

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