O Prelúdio.
2 Capítulo 2 - O retorno.
Notas iniciais
Capítulo II – O retorno.
Ruse – Bulgária. Um ambiente que parecia tão inóspito para Kalina quanto seu próprio coração. Ruas estreitas, cercadas de neve. Casas velhas de épocas remotas e famílias que se conheciam e viviam bem falando mal da vida dos outros. Um povoado dentro de Ruse com aproximadamente 500 habitantes. Todos se conheciam. O que era um tédio para Kalina.
Ainda era pior, visto que sua avó era uma das mais antigas moradoras do vilarejo. Havia mais uma mansão próxima a casa, mas a avó ganhava destaque por ter dado seu sobrenome como o nome da cidade. Kalina não gostava de ser alvo de atenções, ainda mais naquele momento que não se sentia a vontade para falar com ninguém. Não queria conversar com ninguém. Queria apenas esquecer do incidente que sofrera.
O trem alcançou sua parada final. Dali, Kalina buscou um ônibus que a deixou de frente para o vilarejo. Era perto. Tudo ali era perto. Pior, tudo ali era tão antigo e imutável. Era como se não tivesse feito nem dias que ela tinha saído da terra antiga.
Pior, depois que Kalina tinha conhecido a Linda Europa, descoberto o que era cinema, o que era internet de verdade e o que era uma festa real, tudo ali parecia tão parado quanto sua avó. Isso atormentava um pouco a menina, visto que a mentalidade das pessoas dali parecia seguir para o mesmo caminho.
Respirou. O cheiro de orvalho reinava naquela hora da manhã. Estava nublado e tudo parecia estar parado. Até mesmo morto. Inclusive o Parque Lipnik que fazia fronteira com o terreno da sua avó parecia esquecido visto de baixo. As árvores quase todas sem folhas, sacolejavam de acordo com o vento cortante que percorria o vilarejo. A única coisa que Kalina realmente sentia falta era daquele frio.
Usava botas para conseguir andar já no começo de neve que se fazia na região. Seu sobretudo preto combinava perfeitamente com as botas e com as luvas da mesma cor. Além disso, usava um cachecol vinho que parecia realçar ainda mais seus olhos azuis-escuros e seus cabelos loiros quase brancos. Estava já ficando levemente corada nas bochechas e a boina conseguia impedir suas orelhas de congelar. Fora isso, tudo estava nas mais perfeitas ordens.
É claro que, isso não constava para sua mudança interna e física. Não sabia ainda como aquela população, ainda tão fixada na tradição reagiria ao seu novo corte de cabelo. Os anteriores cachos ondulados até a cintura, agora ondulavam até o pescoço, dando lhe um ar mais sério, mas condizente com seus vinte e quatro anos.
Além disso, quando se saia daquele vilarejo, percebia-se como o mundo era longe de ser parecido com o que aquele povo achava. Não havia só pessoas ruins, nem havia problemas em sair depois das dez da noite. As pessoas não seriam mortas por isso.
Mortas. De novo Kalina fora pega em cheio por aquela sensação de enjoo. Todas as vezes que lembrava da tentativa de assassinato suas mãos formigavam, um enjoo lhe acometia e a dor parecia lhe rasgar por dentro. Sentiu-se olhada, conforme o vento percorria suas roupas e, com medo, virou-se para trás, procurando ver alguém. Não havia ninguém ali. Tudo estava perfeitamente bem.
– Oi. – Ouviu e deu um leve grito, voltando a respirar. Havia um pequeno garoto a sua frente. Ele usava protetores de orelhas azuis e um casaco de lona azul e branco, bem como luvas. Era fofo com aquelas botas pequenas e o cabelo castanho e liso. Ela sorriu.
– Olá. Quem é? – Havia muito tempo que não usava sua língua natal para se comunicar com os outros. Sentia medo de estar com sotaque.
–Amil. – Respondeu o garotinho e logo completou – E você? – A jovem sorriu passando a mão pelos cabelos do menino que se afastou.
– Kalina. – O garoto sorriu e estendeu a mão cumprimentando a menina.
– Prazer senhorita. – Antes que pudesse completar, ouviu sua mãe gritando de algum cômodo de uma casa amarela mais a frente e correu em direção à casa.
Kalina suspirou. Sozinha em todo o seu caminho até a casa.
Atravessou a cidade que parecia uma meia elipse. As ruas vazias pareciam esconder um segredo sombrio. Havia morros pequenos em toda a cidade. No alto vivia a alta burguesia, em baixo os mais proletários. No entanto, a parte debaixo da cidade escondia um encanto belíssimo, com suas cores alegres e vibrantes, contrastantes com os morros onde as casas de pedra cinza, marrom e cores neutras ocupavam o espaço.
Subindo por sob a Rua Principal, ela se deparou com uma bifurcação. Ao lado direito encontrava-se mais a frente a Mansão dos Fjordans e a igreja ortodoxa, antes da Mansão, na qual todo o vilarejo se prostrava. Era um lindo casebre branco, com uma torre pequena e um sino minúsculo, mas onde a maioria do povoado tinha se casado. As paredes brancas caíam aos pedaços, com cores sujas e rabiscos dos mais novos, mas dentro, ela parecia segura. Tinha o chão forrado de carpete bege e os bancos de madeira feitos pelos próprios moradores seguiam em direção ao altar simples, porém rico de detalhes e santos. No canto direito havia o confessionário, antigo, guardado das épocas remotas, onde o padre se enfurnava com o cidadão numa capelania aprisionada. Ainda assim, era um espaço aconchegante.
Kalina preferiu não parar. Virou na bifurcação esquerda, a qual dava espaço para a Mansão de sua avó e, mais ao leste, para o Parque Lipnik. A mala já pesava em sua mão, mas ela sabia que não tinha muito o que andar. Preocupou -se em achar rapidamente a mansão, atentando aos detalhes da rua em outro momento. O frio parecia penetrar sua pele e seus lábios já mostravam indícios de rachar quando ela encontrou a fachada da Mansão e respirou. Enfim, em casa. Finalmente, em Cherven.
Havia um outro morro que ela era obrigada a subir para chegar ao castelo que parecia ficar numa fortaleza, longe dos perigos. A lateral da casa dava direto a um desfiladeiro, no qual o Rio Danúbio parecia correr livremente. A grama estava escorregadia e ela se perguntava como sua família conseguia subir aquilo em período de neve. Suas botas escorregavam ante a força que ela sucumbia para subir.
Abriu o portão de madeira que não dava segurança alguma para mansão, mas que custava a sua avó em deixá-la lá. Um portão feito de madeira, no entanto, com uma madeira muito desgastada que rangia quando aberta, principalmente quando tocava o muro de meio metro também feito com pedras cinzas.
Mais a frente, subindo ainda mais, Kalina pode ver a entrada da Mansão. Era feita com pedras que outrora foram brancas, mas que agora, sujas, ocupavam uma cor acinzentada. A porta de madeira de jacarandá ocupava quase três metros de altura, possuindo uma fechadura intrínseca. Havia um brilho cinza muito bem ilustrado servindo como olhos para o dragão que estava de boca aberta, onde, enfim, a fechadura encontrava-se. Além disso, um grande ferrolho e uma bola maior prateada pareciam brilhar como campainha medieval. Kalina não queria fazer barulho, mas era a única forma de mostrar que chegou.
Olhou para o alto. Havia tantas janelas naquele local. Sombrias, pareciam evitar olhá-la. Ela sentiu um arrepio muito grande e olhou para a outra lateral do castelo, longe do Rio Danúbio, onde encontrou mais ao longe o começo extensivo do Parque vazio com folhas deitadas por todo o chão. Recolheu a cabeça olhando para cima de novo. O telhado azulado era pontudo e muitas partes do castelo estavam em ruínas. Kalina conhecia a história daquele castelo. Talvez sua avó, já velha, viesse a contá-la mais uma vez como tudo aconteceu ali.
– Voltei. – Murmurou para si mesma enquanto criava coragem para tocar o ferrolho. Não se sentia segura ali. Não quando sua família era só de mulheres. Seu primo também estava estudando em algum lugar pela Alemanha. Revirou os olhos. Seu assassino não a seguiria até lá, não?
– Você está ficando louca Kali. Nada vai acontecê-la. – Disse, mas seu corpo não pareceu acreditar muito naquilo. Finalmente, abandonando os pensamentos tempestuosos, ela conseguiu bater o ferrolho sob a porta, encontrando forças para encarar tudo aquilo novamente.
Sua mãe sorriu a abraçando. Ela não estava esperando uma reação dessas. Não de sua mãe. A última vez que mandara uma carta para casa, sua avó mencionara o estado de insanidade que sua mãe estava. Todos os dias o doutor Viktor surgia com os remédios de Yelena. Ela não estava com a melhor das doenças e isso trazia problemas para uma possível recuperação.
– Minha Barbie voltou. Oh! Venha querida! Você quer um chá? Te preparei um chá!
– A mulher usava uma camisola branca de manga cumprida e os cabelos loiros estavam presos num coque. Se seus amigos estivessem vivos achariam que ela era a encarnação da Bloody Mary. Vivos. A dor parecia atacar o coração de Kalina novamente.
– Por favor, mãe. – Disse para Yelena que saiu saltitando para o andar de cima, o que parecia errado, já que a cozinha ficava no mesmo andar que a sala.
Kalina tinha esquecido como aquela casa era gigantesca. Havia espaço para uma festa ali, se houvesse necessidade. Tapetes persas enfeitavam o chão da casa, bem como alguns cantos das paredes da mesma. Dividiam espaço com os quadros da família que Kalina estava cansada de ver. Um deles era sua tataravó, outro sua bisavó. Mais a frente tinha seu avô. Todos eles rechonchudos e de cabelos platinados, tão brancos quanto os dela. Usavam roupas majestosas e olhavam para o longe, como se tivesse algo de importante na lateral da imagem.
Havia alguns candelabros ao redor da sala, bem como sofás modestos em frente a uma adorável lareira. O cômodo parecia tão grande para a pouca quantidade de coisas que havia ali na sala. Kalina achou estranho, já que em sua mente ela jurava que ali perto havia uma sala de leitura. Parecia que boa parte dos móveis da sala tinham sido vendidos. Estranho parecia que estivesse tão gelado quanto do lado de fora aquela casa.
– O bom filho, a casa torna. – Disse sua tia descendo as escadas. Ela sorriu. Darinka usava uma linda blusa vermelha de frio e um cachecol da mesma cor. Estava tão encapuzada quanto a menina, embora os lábios estivessem levemente arroxeados e os cabelos loiros maiores e soltos até a altura da cintura. Parecia uma mulher de pouco mais de trinta e cinco anos, quando já estava chegando aos cinquenta.
– É... – Kalina não queria falar. Não conseguia se decidir o que dizer para a tia, optou por concordar. A mulher deu uma leve risada e abraçou a menina que estava desajeitada com tanta amorosidade.
– Você cortou o cabelo. É a nova moda na Europa? – Kalina não respondeu. Percebeu sua avó descendo as escadas com passos lentos, porém precisos. Sua mãe vinha logo atrás equilibrando uma bandeja com três xícaras que pareciam da época que Kalina brincava de boneca. Ela estranhou. Sua avó estava usando roupas de lã verde e os óculos lhe caíam bem para a idade, bem como os cabelos brancos curtos. Ela sorriu ao ver a neta e terminou de descer as escadas.
–Como vai minha neta? – Kalina a abraçou. Ainda tinha cheiro de framboesa. Sentia tanta falta de sua avó, de seus pensamentos sábios, de nunca fazer perguntas desnecessárias quando achava que eram precisas.
– Porque esse frio todo vó? Não tens medo de pegar um resfriado? – A avó riu. Todos na família pareciam estranhos, justo quando a menina surgia estranha depois dos acontecimentos sofridos.
– Estamos passando por alguns problemas financeiros. Peço desculpas pelo frio. Vai melhorar, minha neta. Agora que você chegou, tudo vai melhorar. Como você vai depois do incidente? – A Avó sentou-se no sofá com toda a leveza que possuía e Kalina fez o mesmo, sentando do outro lado. Não queria falar daquele dia. Não queria lembrar da experiência tenebrosa que tinha tido.
– Eu prefiro não falar sobre aquele dia vó, se você entende. – A mulher concordou. Sua mãe surgiu sob o ambiente, os olhos atentos e grandes, enquanto colocava a bandeja na mesa. Pegou o chá na mão e deu na mão da filha, pegando outro e dando na mão de sua mãe. O terceiro, ela pegou para si própria. Deu uma leve risada enquanto tomava o seu e depois olhou as duas mulheres.
– Vocês não vão tomar o de vocês? Querem biscoitos?
– Não, querida, obrigada. – Respondeu sua mãe e Darinka revirou os olhos.
– Ande irmã, venha me ajudar a pegar algumas roupas para você. Está esfriando. – Como se fosse uma criança, Yelena seguiu a irmã, subindo para o outro andar. Elizabeta suspirou. Não queria falar da mãe da jovem, mas era necessário.
– Todos estão se esforçando para cuidar de Yelena. Está sendo doloroso Kalina. Ela vem piorando cada vez mais. Doutor Viktor tem tentando nos conseguir alguns remédios, mas outros são muito difíceis. Estamos tendo alguns problemas com o preço deles. Por isso a casa está um pouco vazia. Não se preocupe. Grigor se forma daqui há alguns dias e nos prometeu ajuda. – Kalina apertou um lábio no outro. Ainda faltava um ano para ela se formar. Vendo que seu primo ia ajudar num problema que era dela, ou seja, sua mãe, apertava o seu coração. Meneou a cabeça.
– Nenhuma melhora?
– Bom, agora ela não está mais nos atacando. Ela agora nos obedece. – Kalina concordou. Elizabeta sorriu enquanto se levantava um pouco, pegando as mãos da neta que rapidamente a olhou.
– Não se preocupe querida. Somos uma família. Você saberá indenizar seu primo por isso. Não há porque se martirizar. Estamos nos ajudando. Isso que importa.
– Porque? – Kalina queria chorar, mas não encontrou forças. Abraçou sua avó que passou a mão sobre o seu cabelo agora curto, fazendo um leve carinho.
– Porque a vida nos põe no limite e sempre será assim Kalina. É uma forma de nos treinar. Por sinal, seu cabelo está lindo. – Kalina concordou. Não queria falar sobre o cabelo. Sua avó pareceu entender isso rapidamente.
– Por que você não descansa? Terá bastante tempo de férias para falarmos sobre sua mãe, sobre você. Seu primo deve chegar em uma semana. Terás alguém da sua idade para conversar. Agora, quero que descanse. Chamo-a para o almoço. Tudo bem? – Kalina concordou. Sua avó tocou — lhe o ombro e sorriu afavelmente.
A neta subiu. Encontrou uma escada rangendo a cada passo. Aquela mansão estava cheia de pó. Sua família precisava de uma casa menor. Ela não sabia como as mulheres conseguiam cuidar de todo aquele ambiente sem enlouquecer.
Encontrou o seu antigo quarto. No entanto, percebeu que sua mãe tinha se apoderado do espaço ocupando o ambiente com um monte de brinquedos. Abriu a primeira porta vazia que viu e encontrou um quarto vazio e intocável.
Havia uma cama de casal com dossel lilás. As paredes eram extremamente brancas e a janela dava direto para o Parque. Ela percebeu que havia um pequeno armário em um canto e um banheiro reformado do outro. O chão de madeira polida parecia contrastar com os armários brancos ao redor do quarto. Pôs a mala em cima da cama, desfazendo-a rapidamente. O sono parecia acompanhá-la.
Teve medo de dormir. Fazia menos de uma semana do que tinha passado e há uma semana não conseguia dormir bem. Sonhava com seu assassino todos os dias, como se ele estivesse a observando em todos os momentos.
Você está ficando louca Kali. Não há ninguém nesse quarto além de você.
Gritou assim que a porta bateu. Num ato de adrenalina abriu a porta correndo, percebendo que não havia ninguém ali. O corredor estava vazio. Olhou ao seu redor. Tudo estava em perfeito estado. Menos seu coração que batia descompassadamente.
A janela estava aberta, o que ela tratou rapidamente de fechar. Aproveitou e fechou a cortina também. Não queria olhar a janela e ver alguma coisa suspeita ou achar que tinha algo suspeito por ali. Respirou fundo.
Era só a porta Kali. Só a porta. Você está segura agora.
Ainda assim, era o que ela menos acreditava.
Tratou de pôr um pijama de frio e entrou debaixo dos cobertores quentes que caíam sob a cama. Estava arrepiada, todavia, sabia que era de frio. Ocupou a mente com alguma coisa do seu curso superior, mas sua cabeça estava vazia. O medo ainda ocupava espaço em sua mente.
Fora tão real. Não estava preparada para pegar no sono. Nem percebera que estava dormindo quando começou a sonhar. A janela tinha sido aberta. As cortinas tinham sido puxadas e seu assassino vinha ao seu encontro. Ela se encolheu sob a cama, apertando os dedos sobre os cobertores. Chorava de fininho. Ele estava ali para matá-la novamente? Ela não sabia.
Ele se aproximou sorrateiramente de forma esquiva, como se fosse um felino, e subiu na cama engatinhando sob ela, como se estivesse intimidando sua presa. A jovem sentiu ainda mais frio. Era como se de repente a atmosfera tivesse ficado repentinamente mais gelada. Ela passou a tremer e se arrepiou quando o lábio do assassino se aproximou de sua orelha. Ele murmurou:
– Está com medo Kalina? – A respiração da garota parou por alguns segundos e ela fechou os olhos para não ver que estava sendo atacada. – Você tem que ter mesmo. – Uma risada ecoou por todo o quarto e a cabeça de Kalina passou a rodopiar tal como se estivesse num furacão. Rapidamente ela abriu os olhos transtornada.
A janela estava fechada, como ela tinha deixado, mas seu coração ainda batia descompassadamente. Ela respirou fundo. Queria ir embora o quão mais rápido ela pudesse. Não sabia que horas eram. Tocou os pés que estavam com meias no chão e se aproximou da janela. Percebeu que o sol estava se pondo do outro lado do parque. As coníferas pareciam ganhar uma cor verde mais escura, como se estivessem ficando negras, tal como seu caule já quase todo desfolhado. Parecia uma floresta negra. A jovem percebeu que tinha dormido muito e que sua avó não tinha a acordado.
Já devia ser a hora da janta naquele momento.
Está com medo Kalina?
Sim, ela estava. Não sabia como retirar aquela marca do seu coração, nem tampouco da sua pele lapidada pela faca. Tocou no lado direito do seu ombro, sentindo aquele local latejar, conforme mais próximo da ferida ela se aproximava.
Chegou a tocar no ponto central da ferida. Uma dor aguda a atingia em cheio. Fechou os olhos, lembrando do incidente. Porque ela tinha que ter sobrevivido? Porque ela sofria com a memória dos amigos sangrando, dos gritos e da tortura exagerada? Porque ela tinha ficado muda? Porque não tinha reagido como os outros?
Está com medo Kalina?
– Eu sou a que mais sucumbe diante dessas memórias, meu Deus. – Balançou a cabeça enquanto ocupava os pés com pantufas saindo do quarto. Tinha que ficar longe dos pensamentos, do contrário sucumbiria diante das memórias.
Alcançou a cozinha no momento que Darinka cozinhava. O cheiro de pernil parecia ocupar toda a casa. Sua mãe estava num canto da cozinha, desenhando com um monte de lápis de cores. Estava agora bem mais agasalhada. Usava uma blusa de frio branca e um casaco de lã verde-água. Os cabelos estavam penteados para trás e presos num rabo de cavalo, com presilhas por todo o cabelo. Parecia que a menina tinha realmente virado uma criança. Kalina suspirou.
– Precisa de alguma ajuda Darinka? – Sua tia sorriu enquanto limpava as mãos no prato. Retirou o pernil do forno e o pôs na pia, enquanto murmurava:
– Apenas que chame Beta, por favor. – Kalina concordou. – Ela está na biblioteca.
Adentrou o recinto sagrado de sua avó. Quando pequena, a senhora costumava ler livros para ela naquele espaço encantado. Kalina se sentava com Grig e ambos pareciam viajar para outra dimensão enquanto as histórias eram contadas. Eram momentos felizes.
– Vó? – Perguntou batendo na porta, logo em seguida a abrindo. Ao redor de dois sofás lilás, uma cadeira e uma mesinha de centro mogno encontrava-se uma vasta biblioteca com adoráveis prateleiras de mogno recobertas de livros até o topo. Sua avó sorriu ao ver a sua neta e já foi pedindo:
– Entre Kalina, sente um pouco.
– Darinka pediu para que você descesse para jantar. – A mulher riu.
– Darinka sabe que sempre me atraso. Sente um pouco. Inspire o cheiro desse mundo mágico da leitura.
Kalina sentou-se. Sentia-se dentro de outro universo. Inspirando, parecia que finalmente o seu coração se acalmava, como se ali fosse um lugar protetor, no qual Kalina pudesse descansar quando cansada. Sentia-se bem.
– Belíssimo lugar construído por meu ex marido. – A menina concordou. Beta olhou a janela que dava de frente com o desfiladeiro para o Rio Danúbio e sorriu.
– Como se sente aqui Kali?
– Como se estivesse revivendo minha infância novamente. – Beta riu.
– Bons tempos aquele! Sentes falta quando eu lia para você e seu primo? – Kalina sorriu, um sorriso ingênuo lembrando daquela época sagrada.
– Naquela época tudo parecia tão mais simples do que a vida real. – Beta concordou com a cabeça, logo murmurando:
– Pois ora, faz tanto tempo que não leio para ninguém. Você me dá a honra de ler um livro para você? Sinto-me tão solitária nessa casa grande. – O olhar de piedade da velha pareceu aquecer o coração de Kali que concordou com o proposto. Não sabia se conseguiria se concentrar na leitura como fazia quando criança, mas não queria desapontar a avó. A verdade é que ela também estava sozinha e, se não desse esse direito para sua avó, como sua mãe, ela sucumbiria sob a lembrança daquelas memórias. Assim, ao menos, ela conseguia esquecer um pouco de seus problemas.
– Ótimo querida! Estarei aqui te esperando então. Que alegria! – Kalina concordou. Não ia ficar como sua mãe, não era mesmo?
Desceu as escadas da casa o que, com grande entusiasmo encontrou Viktor, que parecia efetuar exames de sangue em sua mãe, que chorava. Viktor deu um pirulito para sua mãe, que pareceu sorridente. Ele balançou um pouco os potes com sangue recolhidos de Yelena e suspirou, guardando-os dentro do casaco. Viu Kalina e se assustou com a presença dela.
– Você aqui? Não acredito. – Nem mesmo ela acreditava. Abraçou o médico, amigo da família que se sentou no sofá, retirando da maleta os remédios que tinha conseguido para a mãe da jovem.
– Como ela está? – Perguntou ao médico que acabou apertando um lábio sob o outro. Não era o melhor dos casos. Isso ele poderia dizer com todas as certezas.
Kalina analisou as feições do jovem doutor. Os cabelos eram castanhos e os olhos marrons eram escondidos por grandes óculos redondos. Magro, o homem parecia imperativo, como se corresse para vários lugares ao mesmo tempo.
– A doença não tem tratamento Kalina. É inevitável que sua mãe vá morrer. Já tentei conseguir um transplante de medula para sua mãe, mas todos temos medo de que ela saia de casa e ataque as pessoas. Mesmo com os movimentos um pouco afetados, ela está tomando remédio para Transtorno Obsessivo, que a acomete, depois do desenvolvimento de Leucodistrofia, responsável pelo retorno da sua mãe para o Estado Infanto Juvenil. – Kalina abriu os olhos, com aquela bomba que recebia. Viktor parecia sério enquanto terminava de colocar os remédios em cima da mesa.
–Mo -Morrer? – Viktor meneou a cabeça com um sim, o que assustou Kalina. Ela não estava esperando aquelas palavras fortes. Tinha perdido os amigos. Agora perderia a mãe? Isso não podia acontecer.
–Infelizmente, não tem cura. O que pode ajudar, é que não sabemos quanto tempo ela viverá. Talvez um mês, talvez dez anos. Tudo depende da velocidade com que a bainha de Mielina é desfeita. É uma doença rara e recessiva Kalina. Aconselho que você possa se diagnosticar para impedir que ela comece antes que você possa tratar.
– Você está dizendo que posso estar assim também? – Viu Yelena retornando com duas bonecas na mão. Uma das pernas dela parecia estar levemente parada, o que a fazia andar como se fosse coxa. Ela voltou a olhar para o médico.
– Estou apenas alertando Kalina. Quero o seu bem. Não esqueça isso. Tenho que voltar. Volto na semana que vem Beta. – Beta concordou com a cabeça e ele terminou, dizendo: – Trago seus exames semana que vem também, Beta.
Darinka, que retornava da cozinha, acompanhou o médico até a porta. A jovem olhou sua mãe que parecia dizer algo como “Boneca Idiota” batendo uma na outra. Beta se levantou do sofá e chamou Kalina para comer.
Parecia que um pesadelo estava acompanhando o outro. Kalina não sabia como suceder diante de tantas emoções e novidades ruins. Queria que o dia acabasse. Tudo parecia o fim. Ela queria que tudo fosse um sonho, ainda que soubesse que, mesmo que se beliscasse, não ia acordar do pesadelo.
– Vamos Kalina. Queria começar a contar — lhe a história ainda hoje.
– Já vou. – Disse a sua avó e fechou os olhos por alguns segundos, sonhando fugir daquele pesadelo. Ia conseguir, não?
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