O Preceder Da Alvorada
2 Capítulo 2 - A Calmaria
Notas iniciais
Capítulo 2 – A calmaria
Aquela noite estava estranhamente quieta. Mas essa estranheza não vinha de alguma anomalia no vento ou no canto dos pássaros, nem mesmo por estarem passando numa rua afastada do centro da cidade. E sim porque Natalie não havia dito uma palavra desde que começaram a andar.
Isso não incomodou muito Leonardo de início, ele até se sentiu aliviado por não ter que se esquivar dos questionamentos constrangedores de Natalie, mas depois de 20 minutos de silêncio ele começava a se sentir desconfortável imaginando as perversidades que passavam pela cabeça dela.
Afinal, a calmaria precede a tempestade e se ela havia ficado quieta por aquela eternidade, algo muito ruim estava para vir. Olhou-a mais uma vez, esperando por algum sinal de que estava pra falar algo, mas continuava pensativa, guiando-o habilmente pelas ruas estreitas de Sehiá.
Quando o silêncio chegou ao recorde de meia hora, Leonardo desistiu de torturar-se imaginando o que se passava pela mente distorcida de Natalie “É isso que ela quer que eu pense” convenceu-se angustiado e tentou se concentrar em alguma outra coisa.
Apenas quando deixou as suposições um pouco de lado que começou a reparar o que havia ao seu redor e as antigas preocupações deram espaço a novas. Ele não reconhecia o local em que estava, sabia apenas que estavam se aproximado perigosamente da muralha interna e nunca tinha ouvido falar de nada bom vindo de lá.
Repassou em sua mente, tudo que poderia vir a ser interessante naqueles cantos da cidade: Prédios abandonados? Não, tudo que existia de valor lá já fora recolhido. Talvez então, coisas sem valor? Não, nada que não pudesse ser carregado no bolso. Árvores? Fachadas? Pedras nas ruas? Talvez lhe estivesse faltando criatividade, mas não visualizava nada dentro da periferia que pudesse ser interessante “A não ser que... Não! Impossível. Ela não está planejando...!” e teve seus pensamentos cortados pela primeira fala da noite.
– Não consigo imaginar o que se passa pela sua cabeça, eu já tentei. Então peço que me diga. – E apenas quando ouviu o riso melódico de Natalie que percebeu que a voz que ecoara era sua.
– Estava só imaginando... Porque isso é tão vazio? Quero dizer... Alguns prédios me parecem habitáveis, então por que...? – Começou e silenciou-se sem saber se expressar.
Ele ficou quieto novamente, não era a resposta que queria, mas haviam começado um diálogo e isso já era um passo. Frisando que ele ainda não gostava de conversar com Natalie, não é como se a habilidade dela de ficar com a boca fechada por alguns minutos pudesse mudar a sua opinião!
– Esse lugar trás más memórias a algumas pessoas. – respondeu-a. Já havia parado pra pensar nisso, e essa lhe parecia a melhor resposta.
– Você é uma dessas pessoas? – E com essa pergunta invasiva inicial Leonardo se lembrou do porquê de ter se sentido aliviado com os minutos de silêncio.
– Isso é uma pergunta muito pessoal. – disse ríspido.
– Eu não pedi que me contasse sua história de vida, só quero um sim ou não. – rebateu Natalie com toda a sua educação.
Ele massageou a têmpora e tentou suprimir sua irritação e manter a postura – Não acredito que você me permitiria uma resposta tão curta como sim ou não.
E ela riu novamente. – É. Provavelmente não.
Andaram mais alguns metros em silencio. A lua estava cheia e maior que o de costume, isso era bom, pois era a única coisa que iluminava aquelas ruas sombrias. O chão de paralelepípedos tinha seus contornos pintados de verde pelo mato que crescia entre as pedras e os prédios abandonados, uma cor indefinida graças aos anos de chuva e sol. Era um cenário sombrio, não era admirável que os mais velhos não gostassem de lembrar-se dali.
Leonardo não era uma daquelas pessoas, apesar de não faltar-lhe motivos. Não se sentia mal naquela parte da cidade, nem melancólico, mas também não se sentia eufórico. Era simplesmente apático; impassível demais para a idade.
– É por aqui – disse Natalie ao ver que ele continuava em linha reta. Ela estava parada em frente a um prédio quase inteiro, com boa parte das janelas quebradas e com manchas escuras vindo do topo em direção ao chão e apenas alguns azulejos que restavam da fachada.
Ele ajustou o seu caminho hesitante, imaginando o que ela queria com tudo aquilo. Se fosse confundi-lo já havia alcançado o seu objetivo.
– Não se preocupe – disse ela puxando a manga de seu casaco porta adentro – você vai gostar.
– Tenho fortes indícios do contrário – comentou alto o suficiente para que Natalie ouvisse e esta deu uma risada divertida. E apesar de não gostar de surpresas, deixou-se ser puxado por ela através da escuridão.
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