O Preço do Pecado

14 Reflexos na Água



​A semana passou arrastada na mansão Laurentis. A rotina de Natasha resumia-se a passar os dias trancada em sua nova oficina, afogando-se no trabalho de restauração, enquanto Heitor passava as noites dividindo a mesma cama com ela em um misto de silêncio gélido e transas urgentes, brutas e sem uma única palavra de afeto. Eles eram dois estranhos que se consumiam no escuro.

​Na noite de quinta-feira, Heitor entrou no quarto enquanto Natasha lia um livro na cama. Ele jogou as chaves do carro na cômoda e a encarou com sua habitual crueza.

​— Arrume uma mala pequena para o fim de semana — ele ordenou, a voz ríspida. — O Romeu e a Vanessa nos convidaram para ir à casa de praia deles. Vamos amanhã cedo.

​Natasha fechou o livro com força, medindo-o com o olhar. — E se eu não quiser ir? Não estou com humor para fingir que somos um casal feliz diante da sua família.

​Heitor soltou uma risada anasalada, tirando o relógio do pulso. — Eu não perguntei se você quer, Natasha. O Romeu insistiu e eu não vou dar espaço para fofocas entre os meus homens. Arrume a porra da mala. Nós saímos às seis.

​Sabendo que discutir com a ignorância dele era perda de tempo, ela engoliu o sapo e fez o que ele mandou.

​A Viagem Tensa

​O dia seguinte amanheceu com uma névoa espessa. A viagem de três horas até o litoral de Chicago foi um verdadeiro teste de paciência. Dentro da Land Rover preta, o silêncio era quebrado apenas pelo ronco do motor potente e pelos deboches que trocavam a cada quilômetro.

​— Você podia pelo menos disfarçar essa cara de enterro, boneca — Heitor comentou, com os olhos fixos na rodovia, segurando o volante com uma das mãos tatuadas. — Parece que está indo para o próprio fuzilamento.

​— E não estou? — Natasha rebateu, olhando fixamente pela janela, o tom carregado de sarcasmo. — Passar três dias trancada em uma casa com o chefe da máfia e sua família não é exatamente o meu conceito de férias no paraíso, Laurentis.

​Heitor deu um sorriso cínico, apertando o volante. — Engraçado... na minha cama você não parece reclamar tanto do "chefe da máfia". Você grita bem alto para um monstro sem alma.

​O rosto de Natasha queimou de raiva. Ela virou-se para ele, os olhos faiscando. — Aquilo é apenas física, Heitor. O meu corpo pode reagir aos seus estímulos de animal, mas a minha mente continua tendo o mais profundo desprezo por você. Não confunda tesão com qualquer outra coisa.

​A mandíbula de Heitor travou, os músculos do pescoço tensos. Ele soltou uma lufada de ar pelo nariz, a ignorância voltando com força. — Então guarde o seu despreço para quando estivermos sozinhos. Na frente do meu irmão, você vai agir como a minha esposa. Ou eu juro que te tranco naquele quarto de praia e te uso até você esquecer como se fala.

​— Cafajeste — ela sibilou, voltando a olhar para a estrada, encerrando a conversa enquanto o clima dentro do carro despencava para abaixo de zero.

​Quando finalmente estacionaram diante da imensa propriedade de veraneio — uma mansão moderna de vidro e madeira debruçada sobre um píer particular —, a tensão evaporou sob os sorrisos acolhedores de Romeu e Vanessa, que os receberam na entrada com abraços e duas taças de espumante.

​Segredos no Píer

​No final da tarde, o céu ganhou tons de violeta e laranja. Romeu e Heitor precisaram pegar o carro e ir até a cidadezinha vizinha buscar alguns frutos do mar frescos e ingredientes especiais que Vanessa havia pedido para a cozinha.

​Ficando a sós, Vanessa e Natasha caminharam até a ponta do píer de madeira. O som das ondas quebrando mansa nas pilastras criava uma atmosfera relaxante. Vanessa trazia uma garrafa de uísque e dois copos de cristal com gelo. Ela serviu uma dose generosa para ambas e sentou-se na borda, balançando os pés descalços sobre a água.

​Natasha deu um gole no uísque, sentindo o peito relaxar um pouco após a viagem sufocante. Ela olhou para a cunhada, que parecia exalar uma paz genuína ao lado de Romeu.

​— Vanessa... posso te fazer uma pergunta? — Natasha começou, a voz mansa pelo efeito do álcool.

​— Claro, Natasha. O que foi? — Vanessa sorriu, acolhedora.

​— Como começou a sua história com o Romeu? Vocês parecem... tão sintonizados. É difícil imaginar que ele também faz parte desse mundo de sangue e armas.

​Vanessa soltou uma risada nostálgica, olhando para o horizonte dourado. — Ah, minha querida... nem sempre foi assim. No começo, eu odiava o Romeu com todas as minhas forças. Eu era apenas uma estudante no final do colegial, uma menina inocente, e o Romeu... bem, ele ficou completamente obcecado por mim. Ele me cercava, me perseguia com aquele jeito possessivo dos Laurentis. Nós vivemos numa guerra de gato e rato durante três anos inteiros. Eu achava que ele ia destruir a minha vida.

​— E o que mudou? — Natasha perguntou, inclinando-se para a frente, sentindo uma identificação imediata.

​— O tempo. E a persistência dele — Vanessa olhou para Natasha com os olhos calorosos. — O Romeu me provou, através de cicatrizes e proteção, que a obsessão dele na verdade era o jeito dele de amar. Ele me protegeu quando o mundo dele tentou me machucar. No fim, o amor venceu o ódio.

​Natasha suspirou, abaixando o olhar para o próprio copo. — Eu não acho que o Heitor seja capaz disso. Comigo foi diferente... Ele me usou como moeda de troca para pagar uma dívida do meu pai. Ele me humilhou, me forçou a esse casamento. Não há amor ali, Vanessa. Só uma disputa de poder doentia e um sexo selvagem que me faz odiar a mim mesma no dia seguinte.

​Vanessa sorriu de lado, tocando suavemente o ombro de Natasha. — Natasha, escuta o que eu vou te dizer. Eu conheço o Heitor há mais de dez anos. Ele nunca, em toda a sua vida, pegou mulher nenhuma dessa forma. Ele nunca trouxe ninguém para dentro da mansão depois da Sofia, e ele nunca faria o escândalo que fez na boate por capricho. Se você está aqui hoje, se ele te deu o sobrenome dele e montou aquela oficina para você... é porque ele sente algo de verdade aqui dentro — ela apontou para o peito. — O Heitor é rústico, ignorante e não sabe como expressar o que sente sem ser bruto. Mas você o desarmou. Você só precisa parar de lutar tanto contra o que o seu próprio coração já sabe.

​Natasha ficou em silêncio, as palavras da cunhada ecoando na sua mente como um turbilhão enquanto ela observava o reflexo da lua começar a surgir na água do mar.

​No Carro: O Lobo Domado

​Enquanto isso, na picape de Romeu, os dois irmãos faziam o caminho de volta da cidade, com as caixas de lagosta no banco de trás. Romeu dirigia com tranquilidade, enquanto Heitor mantinha o braço apoiado na janela, observando a noite cair.

​— E então, irmão? — Romeu quebrou o silêncio, com um sorriso de canto. — Como está sendo a vida de casado? A Natasha parece manter você bem ocupado.

​Heitor bufou, soltando uma lufada de ar irritada. — Aquela garota é uma dor de cabeça, Romeu. Ela tem a língua mais afiada de Chicago. Reclama de tudo, me enfrenta na mesa, me xinga de monstro a cada cinco minutos. Dá uma raiva do caralho o jeito que ela me olha, como se eu fosse um pedaço de lixo. Eu tenho que usar de toda a minha autoridade para fazer ela calar a boca.

​Romeu começou a rir alto, uma gargalhada genuína que ecoou pela cabine do carro.

​— Do que você está rindo, porra? — Heitor resmungou, a mandíbula travada, lançando um olhar feio para o irmão mais novo.

​— Estou rindo de você, Heitor Laurentis — Romeu balançou a cabeça, parando em um sinal vermelho e olhando fixamente para o irmão. — Olha para você... Você passou os últimos cinco minutos falando dela com os olhos brilhando de fúria, mas está aqui, trouxe ela para a minha casa, colocou uma aliança no dedo dela e está protegendo a vida do pai dela que não vale um centavo. Finalmente o grande lobo de Chicago foi domado.

​— Domado o caralho! — Heitor esbravejou, a ignorância mafiosa subindo o tom de voz. — Eu não sou domado por mulher nenhuma! Ela está comigo porque eu mandei, porque ela é minha propriedade e eu faço o que eu quiser com ela. Eu só estou garantindo que os rivais não usem ela contra os nossos negócios. É estratégia, porra.

​Romeu voltou a acelerar o carro, o sorriso dele tornando-se mais suave e compreensivo. Ele deu um tapinha no ombro de Heitor.

​— Nega o quanto quiser, irmão. Mas eu conheço bem esse sentimento. Eu já estive exatamente onde você está agora. Eu tinha raiva da Vanessa, raiva de como ela me rejeitava e de como ela me fazia perder o controle. Eu dizia para mim mesmo que era apenas posse. Mas no fim, aquela raiva era o amor tentando quebrar a minha casca de Laurentis. E olha para mim agora... acabei casado com a mulher da minha vida.

​Heitor não respondeu. Ele voltou a olhar para a janela, cruzando os braços musculosos sobre o peito. As palavras do irmão mais novo bateram pesado na sua mente, misturando-se com a imagem de Natasha vestindo aquela camisola de seda na penumbra do quarto. Ele não queria admitir, nem para si mesmo, mas o lobo estava encurralado, e a armadilha tinha os olhos verdes de Natasha.