O Preço da Volta
5 Capítulo 5 - "Nós vamos voltar..."
Notas iniciais
Quinn sentiu seu corpo entrar em estado de torpor, enquanto observava o homem de meia idade à sua frente.
Rachel alternava o olhar entre a namorada e as amigas, que observavam Quinn com atenção.
— Amor...— Tocou o braço da loira gentilmente.
— Como...— Despertava do transe gradativamente. — Como disse? — Indagou atordoada.
— Vamos sentar. — Brittany manifestou-se, colocando duas cadeiras ao lado do sofá e puxando a namorada para sentar-se nelas.
A morena retirou o grosso casaco rapidamente e Quinn ainda com os pensamentos confusos, repetiu o gesto.
Ambas acomodaram-se no pequeno sofá e encararam o homem que sentou-se em outra cadeira de frente para as quatro garotas.
— Bom... — William começou. — Seu pai faleceu no começo dessa semana e quando abrimos seu testamento, ficamos surpresos com o que ele deixou registrado.
— E o que havia nesse testamento? — Quinn apertava a mão de Rachel sentindo a segurança da namorada.
— O senhor Fabray deixou para a senhorita cinquenta por cento de todos os seus bens. O que incluí sua rede de joalherias, as mansões assim como as de veraneio e os veículos. — Explicava tudo calmamente.
— E os outros cinquenta por cento? — A latina questionou, recebendo uma cotovelada de Brittany.
— Ficaram para Francine Fabray, a filha mais velha.
— Minha irmã...— Quinn falou lentamente, vendo o homem assentir. — Quantos anos ela tem?
— Vinte e cinco anos. — Sorriu. — É advogada e diretora de uma das joalherias em Ohio, e uma mulher muito amorosa. Está louca para ver você.
— Mas e a minha...
— Mãe? — O homem completou, vendo a jovem manear a cabeça. — Judy Fabray cometeu uma série de coisas desagradáveis com seu pai e o senhor Fabray tirou-a do testamento.
— Que coisas foram essas? — Quinn indagou.
— Ele explica tudo aqui...— Abriu a maleta, retirando um laptop da mesma, colocando-o sobre a mesinha de centro. — Há um arquivo de vídeo que o senhor Fabray pediu-me para providenciar quando descobriu que estava morrendo. — Falou.
— Do que ele morreu? — Rachel perguntou afagando a mão da namorada.
— Câncer no fígado, efeito das bebidas. — Suspirou. — Era um homem gentil e humilde.
— Se fosse tais coisas, não teria me abandonado. — A loira falou com amargura.
— Ele errou, mas veja o vídeo de seu pai e quando estiver pronta, me ligue. — Retirou um cartão do blazer. — Não demore. Temos que voltar logo.
— Voltar? — Quinn arqueou as sobrancelhas.
— Ohio. — O homem esclareceu. — É lá onde todos estão.
— Não irei para lá. — A loira levantou-se.
— Não se preocupe. Vamos entrar em contato para dar uma resposta. — Rachel falou gentil, pegando o cartão estendido.
— Eu estou movendo céus e terras para colocar sua irmã como tutora de seus bens, mas preciso da senhorita em Ohio para me ajudar. Não deixe sua mãe ficar como a responsável dessa fortuna. — Aconselhou sério.
— O que diabos ela fez, afinal? — Quinn franziu o cenho.
— Veja o vídeo de seu pai e entenderá, após isso ligue-me para discutirmos mais alguns detalhes.
— Certo. — Quinn sentou-se resignada. — Era só isso?
— Na verdade não. — Virou-se para Rachel, retirando outra fotografia da maleta. — A senhorita possuí uma foto idêntica a essa?
Rachel segurou a foto entre as mãos e ficou surpresa ao ver a foto que foi deixada consigo na porta do orfanato. O casal de homens sorridentes e bem vestidos, segurando a bebê de poucos fios castanhos.
— Eu...sim... — Levantou-se depressa e correu até o quarto, segurando a foto menor e mais desgastada e voltando até a sala, entregando para o advogado, que sorriu como se houvesse descoberto um prêmio nobel.
— Os seus pais ficarão loucos quando souberem que eu a encontrei. — Retirou mais uma fotografia de sua maleta e entregou para a morena.
Eram os mesmos homens, todavia mais velhos. O modelo do óculos do maior havia mudado e os cabelos agora possuíam fios brancos, mas eram os mesmos sorrisos.
— Eles...O senhor os conhece? — Indagou agora atordoada, sentando ao lado de Quinn e segurando em sua mão firmemente.
— O de óculos chama-se Hiram e o mais baixo Leroy. — Explicou. — São os Berry, muito amigos da família Fabray. São donos de uma grife bastante famosa pelo mundo.
— Por que eles me deixaram? — A morena fitou o homem. — E eles moram em Ohio também?
— Sim, eles moram. — Sorriu educado. — Eles não abandonaram-na, mas o motivo de seu desaparecimento caberá para eles explicarem, e não eu, senhorita.
— Mas como o senhor descobriu que Quinnie morava aqui juntamente comigo? — Indagou ao homem.
— O senhor Fabray disse-me em que orfanato deixou a senhorita Quinn e os Berry quando souberam que eu viria para Londres, pediram-me para averiguar nesse mesmo lugar se constava uma garotinha de nome Rachel e levei comigo essa foto para reconhecimento... — Fitava a morena. — Eles haviam desistido de procurá-la depois de rondarem quase toda a América, mas tentaram uma última vez quando soube de minha partida para cá. Quando cheguei ao Strawberry Field, perguntei sobre as senhoritas e como uma luz, vocês ficaram no mesmo orfanato, todavia uma das freiras falou-me que ambas fugiram aos quinze anos juntamente com Santana Lopez e Brittany Pierce. — Olhou para a latina e sua namorada. — Eu fiquei surpreso e não sabia como achá-las, mas um garoto chamado Artie Abrams ouviu a conversa e me informou o número de telefone da senhorita Pierce.
— Você deu seu número pra ele? — A latina perguntou incrédula, olhando para a namorada.
— Ele era meu amigo e não queria perder contato comigo. — Respondeu dando de ombros.
— Britt! — Ralhou. — Ele vivia flertando com você.
— Santana, nós eramos amigos. — Explicou novamente. — E se ele não soubesse meu número, o senhor Schuester jamais encontraria a Q e a Rach. — Revirou os olhos azuis.
— Um amigo que toda semana entregava uma rosa para a amiga. — Debochou cruzando os braços.
— Pare com isso! — Ralhou impaciente.
— Eu não quero falar com você. — Levantou e arrastou a cadeira para longe da namorada, que abriu a boca em descrença.
— Não acredito que vai ficar assim. — Declarou incrédula, recebendo silêncio da latina, que mantinha os braços cruzados.
Apesar da situação, Quinn e Rachel seguravam o riso observando as expressões das amigas.
— Continue, Senhor Schuester. — Quinn manifestou-se após fitar o homem.
— Bom... — Retomou. — Liguei para a senhorita Pierce hoje pela manhã explicando em parte a situação e ela informou-me o endereço. — Concluiu.
— Eu realmente não sei o que dizer. — Suspirou. — Até hoje pela manhã estávamos felizes por conseguir um bom dinheiro e um emprego e agora descubro que herdei cinquenta por cento de bens do meu falecido pai e que os pais de Rach são amigos da minha família. — A loira afundou as mãos na cabeça.
— Eu entendo que é muito para processar. — Falou compreensível. — Assista ao vídeo e tente entender os motivos. Não deixe que a senhora Judy coloque as mãos nessa fortuna. — Aconselhou novamente, levantando-se e sendo seguido até a porta pelas garotas. — Foi um prazer conhecê-las. — Estendeu a mão outra vez.
— O prazer foi nosso. — Quinn apertou, seguida das garotas.
— E uma última coisa. — Retirou mais uma fotografia, entregando para a loira. — Achei que gostaria de ver. — Sorriu e saiu pela porta, que foi fechada por Rachel.
Quinn caminhou de volta até o sofá e sentou-se, analisando o casal de quase cinquenta anos impecavelmente vestidos.
A mulher usava um corte recatado nos cabelos loiros com fios brancos, um colar de pérolas enfeitava o pescoço magro e trajava um vestido branco sem mangas no corpo esbelto.
O homem sentado ao seu lado trajava um terno preto alinhado ao corpo e a gravata vermelha combinava com o lenço no bolso do blazer. O cabelo era baixo e bem cortado, com alguns fios brancos em meio aos loiros.
A jovem que encontrava-se atrás do casal, repousando cada mão no ombro dos pais, estava deslumbrante no terno feminino cor chumbo com os cabelos soltos, dourados e ondulados.
Os sorrisos eram calculados e brancos. Pareciam atores de algum comercial de família feliz.
— Eles parecem com você. — Rachel beijou a bochecha da namorada demoradamente, enquanto afagava suas costas com amor.
— Eu não faço parte dessa família. — Sussurrou fechando os olhos.
— Eu também não faço parte da família Berry, mas são nossos parentes. — Deitou a cabeça no ombro da loira.
— Eu não quero voltar, Rach. — Passou o braço envolta dos ombros da namorada e a apertou contra si.
— Veja o vídeo que seu pai deixou e pense, Quinnie. — Virou o rosto da loira para encarar-lhe e beijou os lábios finos com amor. — Eu vou para qualquer lugar com você, meu amor. Se sua decisão for ficar aqui, nós ficaremos. Você é mais importante do que eles e sempre será. — Concluiu doce.
A loira sentia o coração bombear freneticamente, como sempre acontecia. Sorriu amorosa e beijou os lábios fartos demoradamente.
— Eu te amo tanto. E não sei o que seria de mim sem você. Eu não existiria sem você. — Beijou-lhe novamente com amor.
— Eu também amo você. — Rachel afagou o rosto alvo e beijou-lhe a ponta do nariz. — Vamos ver esse vídeo e tomar uma decisão.
Quinn assentiu suspirando e curvou-se, vendo o desktop com um arquivo de vídeo renomeado com o nome do patriarca.
— Querem privacidade? — Brittany indagou.
— Não. — Quinn respondeu rápido. — Vocês são minha família e quero que vejam também.
As amigas sorriram e aproximaram-se. Brittany sentou no chão no meio das pernas de Rachel, e Santana a muito custo, acomodou-se entre as pernas de Quinn, reclamando por estar perto da namorada, ainda chateada, o que fez Brittany revirar os olhos novamente.
Quinn respirou fundo e clicou no ícone do vídeo, que abriu-se em tela cheia e mostrou Russel Fabray em um escritório, acomodado em uma confortável poltrona de couro preta.
O terno era da mesma cor e a gravata era de um cinza claro, combinado com o típico lenço no bolso do blazer.
O homem pigarreou algumas vezes antes de começar:
— Me chamo Russel Fabray. — A voz era grossa e imponente. — Conheci Judy Fabray em um jantar de família. Seus pais eram amigos próximos dos meus e logo fizeram de tudo para um casamento por dinheiro e status. — O homem esfregou as mãos uma na outra. — Judy era uma mulher fria, ambiciosa e maldosa. E ela ainda é. — Sorriu amargo. — No mesmo ano de nosso casamento, nasceu nossa primogênita, Francine Fabray. — Sorriu doce ao pronunciar o nome da filha. — Uma garota doce, gentil, muito diferente de Judy. Já estávamos contentes com uma herdeira, mas meu pai insistiu para que tentássemos um herdeiro homem, algo que achei desnecessário...Mas então tentamos e depois de falhas tentativas e alguns tratamentos, Judy enfim engravidou novamente depois de nove anos quando havíamos perdido as esperanças. — Suspirou com as lembranças em sua cabeça. — Recebemos a notícia por meio da ultrassonografia de que era um menino e todos comemoraram, mas no dia do parto, após Judy dar à luz, descobrimos que nosso menino era uma menina, e que era intersexual. — Passou as mãos pelos cabelos. — Judy nem quis segurá-la e depois de muito insistir, amamentou-a forçadamente. Eu não me importei. Eu só queria minha filha. Independente de como ela fosse, mas todos aqui de Lima começaram a comentar, a notícia espalhou-se para todo o estado, e apesar de estarmos nesse século, todos são ultrapassados e ignorantes. Eu ignorei todas as fofocas e registrei você como Lucy Quinn, o nome da minha falecida avó. Certo dia... — Respirou fundo algumas vezes. — Certo dia cheguei cedo do trabalho e quando fui ver você, presenciei a cena mais horrível da minha vida. — Os olhos verdes do homem encheram-se de lágrimas enquanto proferia as palavras. — Judy estava gritando e falando que você deveria morrer de fome, enquanto segurava a mamadeira e despejava o leite no chão, e você...Você chorava desesperada como o bebê que era... apenas um bebê indefeso e inocente. Seu rosto completamente vermelho devido ao choro e quase sem ar... — O homem deixou as lágrimas caírem e Quinn soltou as dela.
Rachel abraçou a namorada enquanto ela mesma possuía lágrimas rolando pela face. Santana olhou para Brittany que chorava e puxou-a para os seus braços, abraçando a loirinha.
— Corri e peguei você. Te alimentei e fui falar com meus pais, alegando o que houve. Eles disseram que Judy não era louca, e sim uma mulher amargurada por ter uma filha anormal. Eu não sabia com quem deixar você. Eu fui fraco...Fui fraco quando tive que viajar para Londres em uma reunião e levei você comigo. Fui fraco quando a deixei naquele orfanato indefesa à mercê do mundo cruel. Deixei apenas a prova de que você era uma Fabray. O colar envolto do seu pescoço, e em um papel apenas seu nome do meio para que não fosse reconhecida. Fui fraco porque eu poderia ter feito algo por você e não fiz por ser um homem estúpido e sem digno de qualquer tipo de pena.. — Russel chorava copiosamente e falava com a voz quebrada. — Descobri há pouco mais de um mês que estou morrendo de câncer e os tratamentos de nada valem mais. Deixo aqui em vídeo e no testamento que já fiz, os cinquenta por cento dos meus bens para minha filha caçula. Lucy Quinn Fabray. — O homem respirou fundo o máximo que conseguiu. — Lucy. Eu amo você. Onde quer que esteja. Me perdoe por ter sido fraco. Perdoe-me, Lucy. Eu te amo. — Sorriu com amor e a câmera desligou-se.
As garotas choravam e Quinn sentiu mais braços além dos de Rachel a envolverem.
As quatro permaneceram naquele abraço por uma eternidade enquanto consolavam Quinn que estava destruída por pensamentos e chorava como uma criança.
De repente a voz de William Schuester ecoou em sua cabeça:
''Não deixe que a senhora Judy coloque as mãos nessa fortuna.''
Judy Fabray...Um ódio cresceu no peito de Quinn.
Sua mãe.
A pessoa que deu-lhe a vida e que quase deixou-a morrer de fome e chorando.
Quinn não deixaria que Judy colocasse as mãos no que era dela.
Quinn voltaria. Voltaria pela injustiça, pelo abandono que sofreu.
Afastou-se das garotas e olhou nos olhos da sua amada.
— Ligue para William Schuester. — Declarou firme. — Nós vamos voltar. — Segurou na mão de Rachel, que apertou a mão alva com amor e assentiu, beijando a testa da namorada.
Ohio veria Lucy Quinn Fabray novamente.
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