O Preço da Volta
29 Capítulo 29 - Flashback: Minha garota...
Notas iniciais
Os passos ecoavam pelo corredor vazio.
As três crianças corriam como se suas vidas dependessem disso. Era possível ouvir o sino tocando e o barulho de coro dentro da enorme capela do orfanato.
A porta ainda estava aberta e os três pararam bruscamente antes de benzerem-se ao adentrar o local repleto de outras crianças e pré-adolescentes.
A mulher de sorriso gentil balançou a cabeça em negação, parando à frente dos jovens.
— Isso são horas de chegar? Quase não entram a tempo. — Cruzou os braços.
— Desculpe, Madre Aurora. — Quinn manifestou-se.
— É domingo e não temos que fazer lições. — Santana completou.
— Perdemos a hora. — Puck finalizou.
Os três faziam suas melhores expressões arrependidas, e a mulher beirando os cinquenta anos suavizou a expressão, sorrindo e abaixando-se.
— Tomem cuidado da próxima vez. Madre Abbigail poderia estar aqui no meu lugar e então seria pior. — Beijou o topo da cabeça dos mais novos, que assentiram sorrindo. — Vão para os seus lugares.
A freira mal terminou de falar e os três partiram na direção das duas garotinhas que estavam sentadas em um dos bancos mais à frente.
— Vocês são malucos. — Rachel ralhou. — Se Madre Abbigail presenciasse isso, iria castigar vocês.
— Nós queríamos muito ler aquele novo livro que chegou nas doações, e nossa única chance era entrar na sala privada e pegá-lo antes que fosse dado para outra criança daqui. — Santana justificou.
— Não deveriam se arriscar tanto assim. Ele poderia até ser dado para vocês. — Brittany revirou os olhos.
— E se não fosse? — Puck retrucou. — Não iríamos arriscar perdê-lo. É o segundo livro da trilogia do Senhor dos Anéis.
— E agora ele está bem guardado sob nossos cuidados. — Quinn sorriu orgulhosa.
A baixinha apenas bufou enquanto negava com a cabeça. Suas mãos foram de encontro aos cabelos revoltos de Quinn, tentando a todo custo arrumá-los.
— Rach... — Quinn reclamou tentando tirar as mãos da morena de suas madeixas, todavia era impossível. — Pare com isso. Eu gosto do meu cabelo assim.
— Mas eu não. — Revirou os olhos. — Você precisa penteá-lo. Parece um leão desse jeito.
— A Q é o seu leão, Hobbit. — Santana murmurou sorrindo marota, fazendo Quinn corar consideravelmente e Rachel apenas sorriu, beijando a bochecha da loira.
O burburinho de conversas fora interrompido quando o padre adentrou a capela, iniciando a missa de domingo.
...
— Ei, Rach! — Uma voz ecoou atrás da morena enquanto todos caminhavam para o jardim do orfanato.
A baixinha virou-se apenas para dar de cara com o garoto dois anos mais velho que adentrou o Strawberry Fields no começo daquele mês. Os olhos azuis e cabelos levemente ondulados combinavam com o sorriso largo que era direcionado para a morena.
— Oi, Jesse. — Rachel sorriu educada.
— Eu...bom...quero te dar isso. — Estendeu uma rosa para a menor, que hesitou alguns segundos antes de pegá-la da mão do garoto.
Os amigos viam tudo atrás de Rachel, e Quinn não pôde evitar sentir uma sensação ruim no peito observando o sorriso da morena para Jesse.
— Você vai deixar ele fazer isso? — A latina sussurrou para apenas Quinn ouvir. — Ele está dando em cima da sua garota.
— Ela não é minha garota. — Quinn retrucou raivosa, porém mantendo o tom baixo. — Somos apenas amigas e ela não sabe que sou anormal.
— Você não é anormal e sorte sua que ela ainda não viu sua gaveta de cuecas. Deveria contar logo pra ela. — A latina finalizou sussurrando.
Quinn não retorquiu. Apenas manteve-se quieta com seus próprios pensamentos. Já fazia um ano que Rachel havia entrado no orfanato e ainda não contara à ela sobre sua diferença.
A verdade é que a loira tinha medo. Medo não. Talvez algo beirado à pânico. Rachel havia tornando-se alguém essencial na sua vida e pensar em perdê-la ou vê-la chamando-a de anormal como Madre Abbigail já a chamou, iria destruí-la. Não poderia ficar sem o sorriso de Rachel, os abraços de Rachel.
Seus pensamentos foram interrompidos quando a voz do garoto à sua frente fora direcionada para si.
— Então? Querem jogar futebol? — Jesse indagou sorrindo presunçoso.
— Eu topo! Vocês vêm? — O garoto de moicano direcionou o olhar para as garotas.
— Eu não vou. — Brittany respondeu rapidamente.
— Nem eu. — Rachel maneou a cabeça em negação.
— Vocês podem ficar no banco e nos ver jogando. Vou fazer um gol pra você, Rach. — Jesse sorriu para a morena.
Quinn sentiu novamente o incômodo no peito e passou as mãos pelo rosto tentando afastar a sensação ruim.
— Eu vou. Santana também. — Sorriu para a amiga, piscando o olho.
A latina entendeu o sorriso e retribuiu no mesmo segundo.
— É isso aí. Vamos chutar algumas bundas. — Passou por Jesse, trombando seu ombro no do maior.
— Eu seguro pra você. — A baixinha prontificou-se ao observar Quinn retirando a jaqueta jeans.
— Obrigada. — Entregou a peça de roupa para Rachel, sorrindo docemente e sendo retribuída pela morena, que beijou-lhe a bochecha demoradamente, fazendo o sorriso de Jesse desmanchar-se.
— Vamos jogar. — O garoto de cabelos ondulados saiu em disparada.
...
Jesse corria determinado com a bola entre os seus pés. O garoto observou Quinn, Santana e Puck virem na sua direção e apenas chutou o objeto redondo, vendo-o passar pelo goleiro e adentrar por entre o gol improvisado onde era apenas marcado por duas pedras grandes.
O garoto sorriu orgulhoso e logo fora abraçado pelos seus colegas de time, direcionando o olhar para Rachel que assistia tudo ao lado de Brittany no banco de madeira desgastado.
— Rach, eu não mereço um abraço? — Indagou ao aproximar-se da morena.
A baixinha apenas sorriu sem graça e levantou-se, abraçando o garoto rapidamente, fazendo logo menção de separar-se, todavia Jesse apertou-a contra si, enquanto sorria na direção de Quinn.
A loira mantinha a respiração ofegante e a sensação ruim voltou imensuravelmente maior, fazendo-a sentir o estômago embrulhar ao ver os braços do garoto em torno da cintura da morena.
— Não se preocupe. Nós vamos ganhar esse jogo e esse mané não vai mais abraçar a sua garota. — A latina bateu em seu ombro.
— Ela não é minha garota. — Retrucou raivosa.
— Então por que está com ciúmes? — Arqueou as sobrancelhas, afastando-se e deixando a loira perdida em pensamentos.
Estaria com ciúmes de Rachel? Impossível! Eram apenas amigas. Além do mais a morena não sabia da sua condição e Quinn temia que a mesma a rejeitasse quando soubesse.
Sua batalha interna fora interrompida quando Jesse voltou ao campo improvisado e o jogo voltou a ser inciado.
...
O par de tênis estava sujo de terra e parte da calça também. Alguns fios de cabelo estavam grudados em sua testa por conta do suor que pingava de sua face e o corpo pedia água, todavia Quinn não parava de correr com a bola passando entre seus pés.
Santana corria ao seu lado direito e Puck logo à esquerda, enquanto Jesse vinha correndo na direção oposta, tentando tirar a bola de si, mas Quinn apenas driblou o garoto e chutou em direção ao gol, fazendo a bola passar entre as grandes pedras e a latina gritar em comemoração.
Puck sorriu animado e correu na direção da loira, erguendo-a em seus braços e girando-a efusivamente.
Quinn gargalhou enquanto era girada pelo amigo e logo fora posta no chão, batendo um high five com a latina.
— GANHAMOS! — Santana gritou para o time oposto. — TOMEM ESSA, SEUS MANÉS! — Levantou os braços em comemoração.
Rachel sorriu e bateu palminhas do seu lugar e logo correu na direção de Quinn, não dando tempo da loira discernir nada e praticamente pulou sobre o corpo maior.
Os braços pálidos enlaçaram a cintura de Rachel enquanto a baixinha abraçava o pescoço alvo coberto pelo suor.
— Eu estou suada, Rach. — Avisou, todavia não soltou a morena de seus braços.
— Eu não me importo. Você ganhou o jogo e merece um abraço grandioso. — Respondeu contra o ombro de Quinn.
Jesse apenas observava de longe aquela interação, sentindo a raiva transbordar em seu peito. Ele deveria ter recebido aquele abraço e não a loira. Ele desejava ser o melhor amigo de Rachel, mas Quinn sempre estava grudada na baixinha, não dando espaço para nenhuma aproximação.
Após Quinn separar-se de Rachel, ambas fizeram menção de sair do jardim, mas o chamado de Jesse fizeram-nas virar em sua direção.
— Ei, Quinn! Segura essa! — O garoto de olhos azuis chutou a bola com força na direção da loira, com a intenção de atingir-lhe a barriga ou os seios, todavia o impacto fora mais pra baixo e Quinn caiu no chão sentindo a dor torturante entre as pernas.
As mãos pálidas mantinham-se presas na frente da calça, enquanto as lágrimas desciam pelo rosto pálido. Quinn balbuciava palavras incoerentes enquanto sentia seu pênis doer profundamente.
— VOY A MATARTE! — A voz da latina ecoou pelo local e em seguida o barulho de um corpo caindo foi ouvido.
— Quinn? Oh, meu Deus, Quinn. — Rachel abaixou-se ao lado da loira. — Fale comigo, por favor. — Pediu desesperada.
A loira não proferiu nada. A dor era intensa e Quinn apenas desejava fazer pará-la. De repente sentiu seu corpo sendo tirado do chão.
Os olhos verdes chorosos encararam a Madre Aurora, que estava com o semblante preocupado e logo Quinn os fechou novamente, mantendo as pernas juntas em uma tentativa de fazer a dor dissipar-se.
— Santana, Jesse e Noah! Venham comigo. — Quinn ouviu a voz rude que dava-lhe arrepios da Madre Abbigail e agarrou-se ao corpo da mulher que carregava-lhe.
...
Quinn ainda sentia as bochechas coradas ao lembrar-se da enfermeira do orfanato passando-lhe a pomada nas partes baixas. Seu membro apenas latejava. A sensação de alívio ao sentir a dor esvaindo-se era indescritível.
Seu corpo fora depositado sobre o colchão e a loira encarou a expressão suave da freira de meia idade.
— Obrigada, Madre Aurora. — Sorriu docemente.
— Descanse e passe a pomada, Quinn. — Beijou-lhe a testa com carinho, depositando a embalagem do medicamento sobre a mesinha e sorrindo, saindo do quarto em seguida.
Quinn fechou os olhos enquanto sentia o corpo cansado e logo adormeceu.
...
Acordou pouco tempo depois sentindo uma mão em sua bochecha e logo abriu os olhos, deparando-se com o rosto de Rachel contorcido em preocupação e os olhos marejados.
Quinn sobressaltou-se e sentou-se na cama, encarando a baixinha em pânico sem conseguir falar nada.
— Você está bem? — Rachel indagou nervosa, aproximando-se da loira. — Eu achei que havia acontecido algo de muito grave com você, Quinnie.
— Eu...eu estou bem, Rach. — Assentiu freneticamente.
— Por que está com essa cara? — Arqueou as sobrancelhas. — Está com medo?
— Não estou com medo de nada. Por que eu teria medo? — Questionou abrindo um sorriso amarelo. — O que houve com Santana e Puck? — Perguntou nervosamente.
— Santana acertou em cheio o rosto de Jesse e Puck também entrou na briga. Os três rolaram na grama, Madre Abbigail chegou e levou eles para a sala dela. — Explicou.
— O que ela fez com eles? — Arregalou os olhos.
— Deu apenas uma advertência verbal por ser a primeira vez e por pedido da Madre Aurora. Eles estão almoçando e eu trouxe comida pra você. — Apontou para a cama ao lado onde continua uma bandeja com os alimentos.
— Obrigada. — Sorriu sincera.
— Quinnie... — Começou hesitante. — Por que você sentiu tanta dor quando a bola atingiu aquele lugar? Eu já fui atingida enquanto jogava com as meninas e não dói tanto assim.
A loira sentiu a garganta secar e comprimiu os lábios. De repente seus olhos marejaram e ela encarava qualquer lugar menos a baixinha à sua frente.
— Eu sou... — Começou tremendo levemente.
Rachel observava as reações da loira e segurou-lhe ambas as mãos, apertando entre as suas.
— Me diga. Eu estou aqui com você, Quinnie. — Pediu docemente.
A loira encheu os pulmões de ar e encarou a morena com os olhos cheios de lágrimas.
— Eu sou intersexual. — Contou de uma vez. — Tenho um...um pênis. — Pronunciou lentamente a última palavra.
Quinn esperou. Esperou a raiva. Esperou a expressão de nojo. Esperou o afastamento e esperou xingamentos, mas o que ela menos esperou, ela recebeu.
Rachel a abraçou como se a loira fosse a coisa mais preciosa do mundo. E ela de fato era. Quinn afundou o rosto no pescoço da morena enquanto enlaçava os braços ao redor da sua cintura e sentia o perfume dos cabelos de Rachel.
O abraço durou minutos e quando separaram-se, a morena olhou fundo nos olhos verdes brilhantes.
— Eu não me importo. — Deu de ombros enquanto sorria. — Isso só faz você ser especial e eu amo coisas especiais. Eu amo você, Quinnie. Você é minha melhor amiga e minha família. — Sorriu genuinamente.
Quinn perdeu os sentidos enquanto observava o sorriso da morena e foi impossível não retribuí-lo. A loira abraçou-a novamente, e Rachel deixou-se aconchegar e desfrutar do afeto enquanto sorria. Era de fato o melhor abraço do mundo. Rachel poderia passar toda a sua vida agarrada em Quinn como um filhote. Nada mais importaria. Apenas a sensação de segurança e de aconchego que sentia enquanto abraçava a melhor amiga.
Enquanto ambas compartilhavam do afeto, Jesse observava tudo pela fresta da porta entreaberta, e fechou as mãos em punhos. A inveja o consumia por dentro.
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