O grito invadia os ouvidos e fazia com que até a alma paralisar de medo. Há muito já estavam cansados e sabiam que o tempo que tinham estava se esgotando. A criatura que agora tinha completa consciência da intenção deles, parecia também desejar matá-los e por mais que o trio dedicasse todos os esforços para conseguir o que tinham ido buscar nada parecia funcionar.

—Que merda! Sobrevivemos até agora para morrer por isso?! — Sérgio gritava, olhando assustado para os outros dois ao seu lado, à medida que caminhavam de costas até estarem encurralados pela criatura. Um novo grito estrondou por todos os cantos, fazendo-os se encolherem e esperarem pelo novo ataque. Mais uma vez, Josi sentia que chegava a hora do fim.

♦ 4 horas Antes ♦

Josi sentia como se o seu corpo flutuasse. Era uma sensação parecida quando se deixa o corpo boiar na água, onde os movimentos são regidos apenas pelo embalo da correnteza e todo o som externo parece estar abafado. A respiração estava calma e compassada, tão diferente do que fora momentos antes! Mas essas lembranças pareceram para a garota, embora somente por alguns minutos, apenas um pesadelo que havia ficado para trás. Agora ela sentia-se segura, sem dor, aquecida e seu corpo instintivamente sabia que ela só permaneceria assim se continuasse dormindo. Mas a sua mente sempre lógica e o hábito de estar alerta a todo o momento a arrancaram de súbito daquele estado tão acolhedor!

Enquanto levantava de um salto, as memórias dos ataques voltaram a preencher a sua mente, quase a fazendo explodir pela quantidade de informações. Sobretudo ela recordava-se do uivo de Marcos, que agora era um lobisomem.

Sua cabeça virava de um lado para o outro, os olhos procurando os elementos necessários que lhe mostrasse onde estava. Sentiu que conhecia aquele lugar e os batimentos aumentaram o ritmo logo que sentiu uma mão tocar-lhe o ombro! Reagiu afastando o corpo, virando na direção do toque, erguendo os punhos à frente do corpo, defendendo-se mesmo que não soubesse lutar. Encarou o rapaz à sua frente, que com as mãos espalmadas à frente do corpo mostravam rendição.

—Calma, eu não vou machucá-la. — a voz dele soava como a de um adolescente que acabara de entrar na puberdade, variando entre o tom fino de uma criança e grossa de um homem adulto. -Eu só quero ajudar. — reforçou, olhando-a fixo nos olhos.

—Onde estão meus amigos? — ela quis saber, pois naquele momento era a única coisa que importava mais do que as boas ou más intenções do rapaz a sua frente. -O que você fez com eles?

—Estão logo ali na frente, eu posso… — antes que ele pudesse continuar a responder, a garota passou a toda velocidade por ele, empurrando-o para o lado contra a parede e seguindo na direção ao qual havia sido apontada. Correu o mais rápido que o seu corpo permitia, chegando em menos de um minuto em uma sala circular que reconheceu de imediato.

Embora as correntes e o caldeirão não estivessem mais ali, ela reconheceu a caverna da Cuca. A estante que anteriormente escondia a saída tinha os livros novamente em seus devidos lugares, mas estava afastada permitindo que a luz externa penetrasse no local através do corredor que levava à sala de estar da velha casa. Também diferente da última vez em que ela estivera ali, um número maior de tochas havia sido acesa, iluminando melhor o lugar, permitindo que ela observasse detalhes que não havia visto antes como os símbolos grafados nas paredes rochosas, e as outras portas do local que ficavam escondidas pela escuridão. Seu ótimo senso de direção à fez reconhecer o local que levava as celas onde fora presa e correu naquela direção.

O corredor era largo o suficiente para que duas pessoas caminhassem lado a lado sem qualquer dificuldade. Possuía um total de sete celas de diferentes tamanhos, com uma boa distância de uma para a outra. Encontrou primeiro George e Sérgio, ambos deitados na mesma cela, a quinta pela qual a garota passava e aparentemente a maior de todas. Os garotos haviam sido deitados em uma espécie de cama improvisada com folhas e galhos de bambu cortados e tinham cobertores de pele cobrindo-lhe o corpo. Pareciam dormir um sono tranquilo, o que ela sabia seria impossível se eles soubessem onde estavam. Josi forçou a grade da cela esperando encontrá-la trancada e se surpreendeu quando a mesma abriu sem qualquer resistência.

Entrou no local, sem perder tempo, chamando pelos amigos que logo acordaram sobressaltados, assim como ela minutos antes. -Onde estamos? O que aconteceu? Onde está a Joyce? — foram algumas perguntas que os dois fizeram logo que o mente voltou a trabalhar.

—Estão de volta à caverna da Cuca. — a resposta veio da porta da cela, onde os três viram o Saci parado, encarando-os enquanto tirava o gorro vermelho da cabeça e jogava na direção do trio. -Uma prova de que não vou fazer qualquer mal a vocês. — o rapaz negro declarou, fitando-os com serenidade, vendo que nenhum deles segurou a peça de pano, deixando-a cair no chão, o que para ele foi uma grande falta de respeito. -Sério? — sua voz demonstrava agora todo o seu desapontamento. -Entendo que vocês estão assustados ainda, afinal qualquer um estaria depois de tudo que vocês passaram, mas deixar o meu gorro ficar no chão já é demais. Parece até que vocês não sabem… — o entendimento ocorreu ao rapaz antes mesmo que ele continuasse sua declaração. -Vocês não sabem o que isso significa! — a afirmação o fez respirar fundo e deixar os ombros caírem. -O gorro de um Saci é a fonte…

—De sua força! — George completou, lembrando-se de algo que ele sequer tinha consciência de saber.

—Isso mesmo. Sem ele eu sou apenas um garoto de uma perna só. — o Saci declarou, em um tom debochado, rindo da própria posição. -A amiga de vocês está na última cela. Fiz tudo o que pude para ajudar, mas diferente de vocês os ferimentos dela são bem mais graves e pelo que vi, há algo mais acontecendo com o corpo da pobre garota.

Somente naquele momento em que o Saci falou sobre os ferimentos, o trio percebeu que a maior parte dos machucados que sofreram haviam desaparecido. Onde antes havia cortes, agora viam apenas manchas amarronzadas. Percebendo a dúvida no rosto deles, o rapaz voltou a falar. -Eu usei uns unguentos para curar vocês. Não sou o melhor curandeiro da floresta, mas aprendi algumas coisas! É só pegar um pouco de gordura de cassaco, casca de acaicá, folha de pequi e… — notou que os três à frente dele não pareciam entender o que ele estava falando. — Enfim, o importante é que deu certo.

—Por que você nos trouxe novamente para essa caverna? — Josi perguntou, tomando coragem para pegar o gorro do Saci que estava próximo aos seus pés. Antes de ver a amiga, precisava de algumas respostas para saber se poderia ou não confiar naquela criatura que até então só existia nas histórias folclóricas que escutou nos primeiros anos de escola.

—Ora, onde mais eu conseguiria encontrar os ingredientes necessários para curar vocês? A Cuca pode não ser uma criatura boa, mas é excelente bruxa. Aliás, vocês sabem a sorte que tiveram de escapar vivos dela? Nunca, em toda essa minha vida de Saci, eu jamais vi alguém sobreviver à cara de crocodilo.

—Por que você está nos ajudando? — embora a garota e os outros dois se sentissem um pouco mais aliviados em saber que não eram novamente prisioneiros, ainda mantinham-se alerta e desconfiados. -Por que está nos prendendo aqui?

—Primeiro, não estou prendendo vocês. Estão livres para irem assim que desejarem. — a resposta pareceu sincera. -Segundo, ajudei vocês porque vocês mataram a Cuca. Podem não saber o que fizeram, mas libertaram todas as criaturas naturais e sobrenaturais dessa região. Bem, ao menos as boas criaturas que viviam sob a tirania daquela bruxa velha. Era o mínimo que eu poderia fazer.

Josi olhou o rapaz por algum tempo, tentando ver qualquer sinal que indicasse que ele estava mentindo. Em seguida, olhou para os outros dois, procurando neles um apoio para sua opinião. Dos dois, Sérgio era quem parecia mais irredutível a acreditar no Saci.

—Queremos a nossa amiga. — George falou, dando mais um passo a frente, ficando bem ao lado de Josi. -Vamos pegá-la, você vai nos dizer como chegar à cidade e então devolvemos o seu gorro. — Não era uma negociação, era um decreto.

—Como quiserem. Só devo alertar que o estado da sua amiga é grave, nada do que eu usei nela teve grande resultado. Eu a coloquei afastada de vocês por medo de serem contaminados. Inclusive, a única que eu tinha certeza de que não estava infectada com o sangue de bruxa era você moça. — ele apontou para Josi. -Não sei quanto tempo mais a menina vai aguentar.

—Como assim infectados por sangue de bruxa? — ao mesmo tempo em que perguntavam, imagens surgiam na mente de George. Ele se lembrou de que nos momentos em que lutaram com a Cuca, todos tiveram contato com o líquido negro que corria nas veias da bruxa.

—Olha, o corpo de vocês estava coberto de líquido negro e viscoso e não tenho dúvida que aquilo era sangue de bruxa. A coisa é tão pegajosa que nem com água sai fácil da pele. É preciso usar sangue de soldadinho-do-araripe, o que é bem difícil já que eles estão em extinção. Somente depois disso é que usa água com babosa! — logo após essa explicação, Josi reconheceu o cheiro que estava sentindo desde que havia acordado. -Mas só limpei onde eu podia! — o Saci se justificou, alarmado. — Se quiserem tomar um banho antes de partir, ainda tenho a essência preparada. Enfim, voltando ao sangue de bruxa… Melhor eu mostrar para vocês! — sem esperar pelos três, o rapaz saiu pulando em direção ao final do corredor.

—Podemos confiar nele? — George perguntou, olhando para Josi e Sérgio.

—Eu não confio. Por mim a gente dava o fora daqui o mais rápido possível. -Sérgio foi o primeiro a responder, não fazendo questão de falar baixo como os outros dois.

—Vamos buscar a Joyce! — Josi seguiu na frente, sendo acompanhada pelos dois. Não demoraram a estar de frente à cela onde Joyce estava deitada sobre o mesmo tipo de cama improvisada em que eles estiveram. Contudo, ao contrário deles a garota não parecia estar tendo um bom sono. Seu corpo tremia por completo e os membros pareciam sofrer de espasmos aleatórios. Era possível ver, apesar de não estarem muito perto, que o suor abundante da garota se misturava com o líquido viscoso e negro que escapava pelos ferimentos abertos. Ela gemia, emitindo sons característicos de dor!

—Antes de entrarem, quero que tenham consciência de que correm o risco de se infectar. — o Saci olhou para os três e parecia haver uma real preocupação no rosto e na voz do rapaz. -Entendam a amiga de vocês não é mais a mesma!

A frase deixou os três confusos e curiosos sobre o que ele queria dizer. -Fiquem aqui, somente eu vou entrar. — Josi declarou, olhando firme para os outros dois, deixando claro a sua decisão, embora somente George ainda tivesse a intenção de acompanhá-la. Sérgio ao ver o estado decadente em que Joyce estava, muito pior do que estivera na última vez em que estiveram juntos, sentiu-se enjoado no mesmo nível em que ficou assustado. Já havia assistido filmes e documentários em que pessoas estavam em estado terminal ou com alguma doença rara incurável e Joyce, infelizmente, parecia naquele momento com uma dessas pessoas.

Enquanto Josi entrava na cela e verificava o estado da garota, George voltou a fazer as perguntas que desde que havia acordado rondavam a sua cabeça. Ela de todo o grupo era quem mais conseguia digerir todos aqueles elementos sobrenaturais com naturalidade. Ainda assim, sentia-se como em uma história dos livros que costumava ler!

—Então, quer dizer que todas as histórias que escutamos sobre bruxas, lobisomens e Sacis são verdade. Vocês todos existem mesmo?! — por mais que estivesse diante de mais uma criatura sobrenatural, o garoto precisava de uma confirmação para os seus pensamentos e percepções.

—É meu amigo. Existimos sim! Mas, as histórias que vocês conhecem podem não ser exatamente verdadeiras. Somos para vocês e para a maior parte das pessoas, mitos e lendas. E mitos e lendas são contados de geração em geração e por conta disso são vulneráveis a interpretações. A verdade e o que é inventado se misturam no meio desse caminho! — respondeu, adquirindo um olhar pensativo, que fez com que o garoto percebesse que à medida que falava, o Saci perdia-se nas próprias lembranças.

—Você falou que ela não é mais a mesma… — Sérgio apontou na direção em que Joyce estava. — O que ela é agora?

—Agora ela não é exatamente nem uma coisa nem outra. — o Saci parecia tentar encontrar as palavras certas para explicar melhor. -Vejam… — interrompeu-se quando Josi voltou. O semblante da garota demonstrava, mesmo que ela não precisasse falar nada, que a situação da garota era realmente muito ruim.

—Temos que levar ela para algum hospital. Quase não senti os sinais vitais dela, George. — ela parecia segurar o choro. Não chorava na frente de ninguém, exceto do seu melhor amigo que a encarava naquele momento, mas não estava sozinho e ela, como sempre, sentia que tinha que ser forte.

—Sinto muito ter que falar isso, mas a medicina dos homens não vai conseguir salvar a amiga de vocês. — o trio encarou o Saci, diversos sentimentos preenchendo-os. -Como eu dizendo antes, todos vocês foram tocados pelo sobrenatural e isso… Bem, isso muda completamente pessoas normais.

—O que você quer dizer com isso? -Josi temia o que o rapaz iria dizer, todavia, percebeu no olhar de George, que ele parecia saber exatamente o que o Saci estava falando.

—Antes de a Cuca pegar vocês, acredito que nunca tinham visto uma criatura sobrenatural antes. Estou certo? — um simples movimento de cabeça dos três permitiu que ele continuasse. -Isso porque há regras ditas e não ditas entre nós, criaturas sobrenaturais e são elas que nos mantém vivos por tanto tempo. Se os homens normais já caçam e matam os seres da própria espécie, o que dirá se todos soubessem que nós realmente existimos! — os três facilmente conseguiam concordar com o que o rapaz falava.

Estranhamente, o trio sentiu que enquanto o Saci falava a atmosfera ao redor parecia mudar. O ar no local pareceu se tornar mais quente, fazendo a umidade desaparecer, as paredes rochosas antes tingidas de cores opacas pareciam agora emitir uma gama de luzes coloridas. Os próprios corpos pareciam flutuar! Logo, não viam mais o Saci. Diante dos seus olhos, como se tivessem sido mergulhados em uma projeção, viam apenas imagens que logo entenderam ser as próprias lembranças do garoto de uma perna só. A voz narrando à história vinha de dentro de suas cabeças!

—Os seres sobrenaturais vivem nessas terras desde os primórdios e são infinitas as explicações da nossa criação. Por um tempo vivemos bem perto dos seres naturais, que é como chamamos os humanos e os animais diferentes de nossa espécie! — o trio viu diversas cenas, onde os mais variados tipos de criaturas sobrenaturais realizavam atividades com os humanos, desde o plantio à caça.

—Contudo, passamos a ser caçados tão logo esse país foi colonizado, assim como o povo que aqui vivia… O que é diferente sempre é temido. E por mais que fôssemos de diversas formas mais fortes do que os homens, eles venceram pela quantidade. — as cenas mudaram e o que antes era um convívio harmônico, transformou-se em cenas de guerra. Tropas derrubavam árvores, adentrando a mata com armas em punho, caçando sobrenaturais que se escondiam amedrontados. -Fomos obrigados a viver às sombras e deixamos que a nossa existência caísse no esquecimento ou virasse apenas contos para forçar crianças a dormirem ou impedir que aventureiros adentrassem as florestas.

Ainda assim, alguns humanos mantiveram o conhecimento real sobre nós e esses passaram seu conhecimento para os filhos e filhos destes. Chamamos essas pessoas de Intermediários! — pessoas se reuniam em volta de fogueiras, surrando os mitos para ouvintes atentos. -Mas, como tudo nessa vida havia seres sobrenaturais que faziam o bem para o mundo e aqueles que faziam o mal, assim como os Intermediários que queriam o bem da minha espécie e outra parte que queria o nosso fim. Isso criou por séculos uma briga sem fim…

E a guerra nunca trás coisas boas; ela deixa marcas profundas demais. Os seres sobrenaturais passaram a temer os homens tanto quanto eles nos temiam e o medo faz com que as pessoas cometam atos jamais pensados. -bruxas e outros seres que o trio desconhecia agora apareciam matando humanos, viram até mesmo a Cuca fazendo com outras pessoas o mesmo que havia feito com eles. Souberam qual teria sido o destino deles caso não tivessem a vencido. -O sigilo sobre o sobrenatural passou a ser uma prioridade e os Intermediários foram caçados até estarem praticamente extintos. Mas algumas raças sobrenaturais acharam que isso não era o suficiente e passaram a matar qualquer ser natural que tomasse conhecimento sobre nós! — aos poucos o trio foi voltando às paredes rochosas, ao corredor úmido e os gemidos de dor da amiga.

—Tenho uma teoria sobre vocês. — os olhos do Saci agora demonstravam tanta curiosidade sobre o trio, quanto eles demonstravam curiosidade sobre os pensamentos daquela criatura. -A Cuca usaria vocês em um ritual que de tempos em tempos ela precisa realizar para recuperar a juventude e aumentar os poderes. Esse ritual requer sacrifícios humanos, geralmente de crianças! Daí vem à fama da Cuca somente pegar crianças… Um erro de interpretação. Ela prefere crianças porque são seres naturais geralmente puros e isso torna a magia mais poderosa, mas não quer dizer que possa ser realizada com jovens e adultos, por exemplo. Todavia, entre vocês havia uma pessoa pura… — O Saci apontou para Joyce, que por um instante cessou os gemidos como se desejasse escutar o que estavam falando sobre ela. -A virgem fez com que a bruxa se atraísse ainda mais pelo grupo de vocês. Mas, tem outro fator e minha teoria começa aqui… Acredito que alguns de vocês, senão todos, descendem de Intermediários. Eu infelizmente não tenho o dom de saber com precisão isso, mas uma bruxa teria como saber e isso poderia justificar o interesse que ela teve em vocês.

—Então é por isso que conseguimos matá-la? — a dúvida veio de Josi.

—Talvez. É quase impossível um ser natural matar um sobrenatural, mas isso é possível. Contudo, lembram-se das regras que eu falei? Alguns sobrenaturais possuem uma forma certa de serem mortos e isso é um segredo tão grande que às vezes nem mesmo o próprio ser conhece essa forma.

—Por isso não conseguimos matar ela quando cortamos a garganta e a jogamos no fogo. — George falou, exteriorizando o pensamento.

—O que sei com certeza é que é mais fácil um sobrenatural matar outro, do que um natural matar uma criatura mágica.

Essa informação pareceu acender uma luz de entendimento na cabeça de Josi e com isso outros pensamentos lhe ocorreram. -Por isso Marcos conseguiu matar a Cuca!

—Isso, mesmo. O lobisomem! Aprendam uma coisa, nós criaturas sobrenaturais nos chamamos pelo nome da espécie por um motivo muito bom, nomes têm poder. — explicou.

—Pensei que somente podia se transformar em lobisomem se fosse mordido ou se nascesse depois de uma sequência de irmãs… — Sérgio deixou a sua dúvida escapar dessa vez.

—Outro erro de interpretação. Lobisomens, assim como várias outras criaturas sobrenaturais, podem sim ser uma condição de nascença, mas podem ser transformadas. Enquanto ao amigo de vocês, há vários fatores que podem tê-lo transformado! Se eu estou certo, ele foi infectado com sangue de bruxa, que em seres naturais age como um veneno, mas se ele for um descendente de Intermediário, pode ter certa resistência à substância. Além disso, ele foi mordido por um lobo-guará que estava sobre efeito de magia. A saliva do lobo, junto ao sangue da bruxa, pode ter ocasionado à transformação.

—Nós também tivemos contato com a poção que estava sendo preparada. -George lembrou.

—Isso explica muita coisa também. Inclusive o fato de vocês ainda estarem vivos depois da infecção com o sangue. Mas estou um pouco mais tentado a acreditar que o amigo de vocês se transformou quando matou o lobisomem que atacou vocês. Há uma lenda que diz que um lobisomem pode ser liberto se sua maldição quando for morto por outra pessoa na lua cheia, mas se essa pessoa se sujar com o sangue do lobisomem, então esta assumirá o lugar dele! Em outras palavras, o seu amigo estava fadado a se transformar de uma forma ou de outra.

—E a Joyce? -Josi já tinha uma ideia do que a amiga estava se transformando, mas precisava de uma confirmação.

—Bem, diferente de um lobisomem, somente um tipo de natural pode se transformar em uma bruxa.

—Virgens! — George respondeu, tendo a confirmação imediata do Saci.

—A garota mais do que qualquer um de vocês deve ter se exposto ao sangue da bruxa. Ingerido, talvez?!

—Ela mordeu a Cuca. — Sérgio lembrou.

—Contudo, o corpo dela está lutando contra a transformação. Algumas pessoas simplesmente não foram feitas para isso… E pelo tempo que estão aqui, talvez não haja mais salvação para ela.

—Quanto tempo faz? — pela primeira vez Josi preocupou-se com o tempo em que estavam ali.

—Desde que encontrei vocês na floresta? Umas dezessete horas talvez! — a informação pegou os três de surpresa. Não imaginavam que estavam há tanto tempo ali. Pensamentos surgiram, desviando a atenção do trio. Será que já estavam procurando por eles? Onde Marcos deveria estar? E Letícia, teria sobrevivido como eles ao ataque da Cuca? O que diriam aos pais? Como explicariam a perda de duas ou três pessoas?

—Talvez… — George repetiu, olhando para os amigos e em seguida para o Saci. -Você disse, talvez não haja mais salvação! Quer dizer que há alguma chance? Algo que possa ser feito? -O Saci pareceu se arrepender de ter dito aquilo, inseguro de responder. -Se houver nos diga! — a voz do garoto soava agora mais forte e mais autoritária. Josi, como que para reforçar a ordem, apertou o gorro nas mãos.

—E-eu já disse. Não sou um curandeiro, nem um bruxo… — ele olhava receoso para o trio. -Talvez e só talvez haja uma chance, mas é perigoso demais. — o rapaz negro notou que os três não se dariam por satisfeitos com aquela resposta. -Eu posso tentar fazer uma poção que estabilize a reação no corpo da garota. O resultado vai depender mais do corpo dela do que do líquido em si.

—Faça. — George continuava firme. Sabia que o risco era grande, mas aquela era a única solução que tinham.

—Há um problema. — o Saci pareceu ter medo da reação dos três. -Eu preciso do fio de cabelo de Bradador. Posso conseguir os outros ingredientes aqui na caverna ou na floresta, mas esse…

—O que é um Bradador? Onde conseguimos esse… cabelo? -Josi tentava digerir as informações e algo dentro dela lhe dizia que não gostaria nada da resposta para aquelas perguntas.

—O Bradador é uma criatura sobrenatural. Os naturais o conhecem como um espectro que solta uivos tenebrosos ao redor das casas ou nos caminhos por onde passa. Geralmente assume a forma de uma mulher, uma múmia ou mesmo um duende. O que o diferencia dos demais fantasmas são os seus gritos! Acredita-se que o Bradador é uma alma que cometeu pecados em demasia e não encontra o descanso divino! Mas a verdade é que o Bradador é a alma de um ser natural que não conseguiu em vida transformar-se por completo em um sobrenatural… — os olhos do Saci pousaram sobre o corpo da garota atrás do trio.

—Ela vai se transformar nisso se não a salvarmos! — Sérgio reconheceu o que o Saci queria dizer.

—Onde encontramos? — George refez a pergunta de Josi que ainda não havia sido respondida.

—Um Bradador aparece em locais onde seres sobrenaturais são mortos. Por sorte, vocês mataram dois, aqui próximo! Talvez encontrem um nesses locais. Mas precisam saber que o Bradador não costuma ser uma criatura agressiva, até que mexam com ele. E conseguir um fio de cabelo é complicado, já que a criatura varia de uma forma corpórea para uma espectral a todo instante.

—Temos que tentar! — Josi declarou, olhando para os amigos. Sabia que se algum deles não quisesse correr mais esse risco ela entenderia, mas sentiria muito confiança se os tivesse ao seu lado.

—Nós vamos! — os dois meninos responderam juntos.

—Então, acho melhor vocês irem imediatamente. Se eu estiver certo, ela só vai aguentar mais algumas horas!