O Preço da Verdade
5 Capítulo 05
♦ 01 Hora Antes ♦
Sérgio foi o primeiro a chegar ao outro lado da margem do açude, exausto e trêmulo por causa do frio daquela noite. Enquanto nadava até ali conseguiu ouvir ainda os gritos dos amigos, embora não tivesse entendido realmente o que estava acontecendo. Os olhos agora atentos procuravam na água iluminada pela grande lua cheia os companheiros.
A primeira pessoa que viu foi Marcos, já bem próximo da margem, sendo seguido de perto por Joyce. Ajudou-os a saírem e no exato momento em que puseram novamente os pés em terra firme, o vento aumentou consideravelmente, arrepiando-os. Quase um minuto depois George e Josi se juntaram a eles.
—Cadê a Letícia? — embora já estivesse nítido o que havia acontecido, Sérgio recusava-se a acreditar. No fundo, depois de tudo que eles já haviam passado até ali, o rapaz ainda possuía um resquício de esperança de que no fim todos conseguiriam escapar.
—E-ela não conseguiu pular. Nós tentamos… — Josi tentou responder, mas o nó que formara-se em sua garganta a impediu de continuar. Os braços fortes de Marcos envolveram a garota e como se o ato tivesse dado permissão para que os sentimentos de todos aflorassem, lágrimas surgiram por todos os lados, juntando-se a água que ainda escorria pelos corpos dos sobreviventes.
Mais uma vez, as sensações e sentimentos deles estavam compartilhadas. Não precisaram falar o quanto sentiam por aquela perda. De diversas formas Letícia era importante para cada um deles e naquele momento todos sentiam como se uma parte deles, uma muito importante, tivesse sido deixada para trás. Mas não tiveram tempo suficiente para vivenciar o luto!
O vento que assolava seus corpos cessou da mesma forma que havia surgido e fora Joyce quem percebeu essa mudança na atmosfera. Além disso, seu corpo inconscientemente reagiu ao que estava por vir, antes que os seus sentidos ou mente pudesse processar. Ela sabia que estavam mais uma vez em perigo!
—Temos que sair daqui. Agora! — a urgência na sua voz foi logo compreendida pelos demais. Seguindo a garota, todos puseram-se a correr na direção oposta ao açude, que rapidamente ficou para trás.
Correram por cinco minutos até que conseguiram avistar uma pequena casa. Essa diferente da casa da Cuca não apresentava os elementos convidativos e sob a luz daquela lua, que logo notaram ser a maior lua que já haviam visto até aquele dia, parecia fantasmagórica. Ainda assim, era o único ponto de normalidade que encontravam em meio ao cenário sobrenatural que caminharam durante todo aquele dia.
—Talvez possamos encontrar alguém ai. Alguém que possa nos emprestar um celular ou nos dizer que direção seguir para voltar à trilha. — A sugestão veio de Marcos, que apesar de ter o mesmo receio que os outros de estar indo direto para uma armadilha, sabia que talvez aquela fosse à única chance de conseguirem outros meios de findar aquele pesadelo.
—Dessa vez temos que ir preparados. — Sérgio novamente muniu-se do pedaço de vidro que carregava desde a saída da caverna da Cuca. Os outros procuraram algo que servisse como auxílio à proteção, mas nada encontraram. Tudo ao redor era somente um vasto campo de terra e grandes pedras.
Atentos a tudo ao redor caminharam até a porta da casa que pelo tamanho visto de fora não deveria ter mais do que dois cômodos. Esperaram alguns segundos parados à frente do casebre, tentando ouvir algum som vindo de dentro e chegaram por um momento a achar que o lugar pudesse estar vazio.
Josi tomou a iniciativa de bater na porta, que logo sentiu ser de uma madeira bem resistente, contudo, o que realmente chamou a atenção foi a grande cruz presa no centro da porta! -Tem alguém aí? — a indagação foi acompanhada de mais duas batidas fortes na porta e segundos depois puderam escutar o som de passos dentro do local.
Por instinto os cinco deram alguns passos para trás, aguardando. Escutaram o som de ferro rangendo contra a madeira e quando a mesma foi aberta levemente viram que o som havia sido produzido de várias fechaduras sendo destrancadas. Pela frecha, identificaram o rosto pálido de um homem.
—O que querem? — a voz do desconhecido era rouca e arrastada. Os olhos grandes vagavam por cada um, parecendo tão assustado quanto eles estavam.
—Nós estamos… Perdidos. — Josi tomou a frente do grupo, escolhendo com cuidado as palavras que usaria. Sua mente lógica já havia sido vencida por tudo que viu e sentiu e não duvidava mais de que tudo aquilo era real. Contudo, agora que estava diante de alguém fora daquele grupo, entendia que não poderia dizer que eles foram atacados por uma bruxa sem que parecesse uma completa maluca. -Precisamos de um celular para ligar para a polícia ou para nossos pais.
—Não tem nenhum telefone aqui. Desculpa. — o homem falou rápido, já fechando a porta.
—Espera. — A mão da garota segurou a porta, impedindo-a de fechar. -O senhor poderia ao menos nos dizer como podemos chegar à cidade? — a voz era quase suplicante. Poderia pedir que aquele desconhecido os abrigasse pelo resto da noite. Sabia que assim como ela os amigos também deveriam estar mortos de fome e de sede, mas o medo de que algo pior os acontecesse fez com que ela decidisse por aquela opção. Se ao menos eles conseguissem chegar ao carro…
—Olha senhora, já está tarde. A trilha essa hora é escura e perigosa…
—Por favor, senhor! — ela insistiu e viu que o homem pareceu fraquejar. -Estamos desesperados.
O homem fechou a porta por completo o que fez o grupo sentir-se ainda mais perdido por alguns segundos, até ouvirem mais uma vez o som de uma fechadura sendo destrancada e em seguida a porta se aberta por completa.
—Levarei vocês somente até o começo da trilha. — o homem falou rápido, saindo da casa, logo fechando a porta sem permitir que o grupo visse qualquer parte do interior, passando por eles e caminhando sem esperar que eles o seguissem.
O grupo, em especial Sérgio e Joyce, ficou impressionado com o quanto o homem era magro e curvado. As orelhas eram tão grandes quanto o nariz e ele tinha um jeito desengonçado de andar, como se não tivesse sido feito para aquele corpo.
Um a um eles passaram a acompanhar o homem, sendo Joyce a última a seguir. Algo na casa havia chamado a sua atenção. Apesar de o desconhecido ter fechado a porta com muita agilidade, algo havia escapado! Joyce sentiu um odor que fez suas narinas arderem, infelizmente, ela não conseguiu identificar. Por alguns segundos a menina ficou encarando a porta, distraída, até ouvir o chamado dos amigos.
Estavam a quase cinco minutos caminhando e apesar dos esforços de Josi, o homem pouco falava com eles, sempre procurando caminhar alguns passos de distância do grupo. Foi Sérgio quem notou que alguma coisa estava errada!
Ele, juntamente de George, já havia feito àquela trilha que realmente findava no açude que eles tinham atravessado a pouco e se sua memória não estivesse lhe traindo, ele não se recordava de a trilha ficar tão distante assim. Poderia confirmar com George, já que geralmente era ele quem ligava para os detalhes, mas viu que a perda da irmã afetou muito o garoto que tinha o olhar distante, como se sequer estivesse realmente ali.
Eles haviam chegado a uma parte semelhante a uma clareira quando o homem parou de súbito. Ali, a luz da lua iluminava bastante o terreno e pela primeira vez em algumas horas o grupo conseguiu ver com nitidez o estado que eles estavam. Todos estavam muito machucados, sujos e com partes da roupa rasgadas. Joyce era quem estava ainda pior. Do braço que fora mordido ainda escorria o líquido que se não fosse pela coloração negra poderiam dizer que era sangue.
Os cinco vendo que o homem não deu mais nenhum passo resolveu parar também, sem chegar muito perto. Tudo o que já haviam passado os forçava a estarem alerta. -Algum problema, senhor? — Josi elevou a voz, procurando chamar a atenção daquele desconhecido. Não recebeu resposta!
—E-eu… — a voz dele parecia ainda mais rouca que antes. -S-sinto… — o corpo magro parecia estar sendo acometido por vários calafrios. O homem curvou-se ainda mais do que antes sobre o próprio corpo e com espanto o grupo viu os dedos das mãos dele se alongarem ainda mais, assim como as orelhas. -Muito! — a última palavra daquele pedido de desculpa foi dita com um grito de dor, que logo transformou-se em um rugido.
—Mas que merda! — Sérgio gritou, segurando a mão de George, puxando-o na direção contrária ao homem que jogou-se ao chão. Os outros seguiram de perto, ouvindo os gritos do homem cada vez mais alto às suas costas! Eles sentiam como se tivessem em um círculo vicioso, onde toda vez que sentiam que estavam perto de chegar ao fim, de ficar seguros, outra ameaça surgia para persegui-los.
Uma sombra negra passou entre eles, derrubando Josi e Joyce, o que forçou os outros a parar. -O que foi isso? — Sérgio, com os olhos arregalados, tentava encontrar a criatura que os ultrapassou. Girou sem sair do lugar, sentindo os batimentos aumentaram cada vez mais, até ver uma criatura animalesca vir na direção onde estavam.
Seu primeiro instinto foi voltar a correr, mas não tinha dado mais do que alguns passos, quando foi derrubado pela criatura. Caiu, rolando pela grama alta, esperando pela dor que sentiria ao ser atacado. Mas nada aconteceu! Viu a criatura se afastar e correr novamente na direção do grupo, saltando dessa vez sobre George que estava bem ao lado de Josi.
Quando a garota viu a criatura, imaginou quantos demônios poderiam existir ali. Logo que o lobisomem saltou sobre o amigo, Josi tentou agarrar a criatura para impedi-la, mas recebeu uma braçada que a jogou metros de distância. O golpe a atingiu com tanta força que perdeu todo o ar dos seus pulmões e sentiu o gosto de ferro na boca!
George encarou a criatura com medo, mas sem reagir. Sentia o bafo quente do lobisomem e não conseguia deixar de encarar os olhos ferozes! A criatura apesar de mostrar todos os dentes e emitir um rosnado ameaçador, apenas cheirava o rosto do garoto, como se o farejasse, deixando-o segundos depois, correndo na direção de outro membro do grupo. O garoto logo ficou de pé e observou quem seria a próxima vítima e quando viu que o licantropo corria na direção de Joyce, entendeu o que estava acontecendo. -É Joyce! Ele quer a Joyce. — o grito ecoou pela clareira e deixou todos os outros ainda mais assustados.
Joyce que ouviu claramente a sua condenação, tentou correr mais rápido, mas nunca conseguiria ser mais rápida do que um lobisomem. Sentiu quando as garras do monstro penetraram suas costas, fazendo-a gritar! O peso do corpo da criatura sobrenatural a fez ir de encontro ao chão, convencida de que chegara o seu fim. Nunca havia imaginado a forma como morreria, mas se o tivesse feito, jamais pensaria que seria daquele jeito, estripada por um lobisomem.
Marcos era quem estava mais próximo da garota e por conta disso foi quem mais viu o massacre começar a acontecer. Ele assim como os outros correu na direção da garota, buscando ajudá-la. Encontrou uma pedra no meio do caminho que com toda certeza seria pesada demais para os outros, mas para ele que estava com a adrenalina correndo solta em suas veias, não pareceu pesar metade do que realmente era.
Sua aproximação do lobisomem não foi nada sutil, mas ainda assim a criatura pareceu não perceber. Marcos e nenhum dos outros do grupo souberam, mas o lobisomem havia recebido uma missão e uma vez focado nela, sua mente bestial não conseguia focar-se em nada mais do que isso, o que o tornou vulnerável ao que aconteceu em seguida.
Sem muito pensar, agindo somente pelo instinto de proteger a amiga, Marcos ergueu a pedra o mais alto que conseguiu a desceu com toda a sua força, acertando a cabeça do metamorfo, que guinchou ao ser atingido. Antes que a criatura pudesse recuar ou atacar, Marcos realizou mais dois golpes no crânio, cada vez mais banhando-se do sangue do ser mitológico que em esguichos atingiam diferentes partes do corpo do rapaz e de Joyce que estava logo abaixo da criatura, vendo tudo de perto.
Quando os outros do grupo chegaram até onde eles estavam, Marcos já ajudava Joyce a ficar de pé, apoiando-a. O lobisomem, que fora jogado de lado, já parecia novamente o desconhecido de minutos atrás. Não havia qualquer sinal de vida nele! -Josi, segura a Joyce aqui. — Marcos pediu, pegando mais uma vez a pedra, jogando-a sobre o crânio do homem, transformando a parte do corpo em apenas um amontoado de sangue prateado, massa cefálica e ossos esmagados. -Só para garantir. Não vou mais arriscar…
Josi apenas escutou a fala do namorado. Antes que a cena pudesse acontecer, previu o que o outro faria e focou-se somente na amiga, procurando ver a intensidade dos ferimentos. A visão não foi melhor do que a do crânio esmagado e ela não conseguia entender como a amiga ainda podia estar viva. Não houve tempo para entender. Logo o vento voltou a soprar forte e frio e com ele o grupo voltou a ouvir a risada e os uivos. A Cuca estava de volta, eles tinham que correr.
♦♦♦
As respirações ainda estavam ofegantes, os corações acelerados, o corpo coberto de suor, terra e sangue. Não sabiam o quanto haviam corrido, onde estavam e muito menos como conseguiriam sair dali. Era difícil para a maioria sequer entender como tudo aquilo tinha acontecido em tão pouco tempo e mais do que isso, como aquilo era possível.
−Ela está aqui. Ela nos achou! – a declaração foi espontânea e revelou o que se passava na cabeça de todos os outros. Naquele momento eles souberam que não importava o quanto fugissem, para onde corressem ou quantos deles ficassem para trás, no fim, todos eles teriam o mesmo destino.
—Eu disse a vocês, minhas pequenas crianças… Não há como fugir de mim. Até o nascer do sol, cada um de vocês morrerá. — o riso macabro ecoou, quase estourando os tímpanos dos até então sobreviventes, causando-lhes dor e aflição.
Gritos e risadas ecoaram de todas as direções. Enquanto lutavam por suas vidas mais uma vez em menos de 12 horas, um dos membros do grupo pensou no começo daquele dia em que tudo deveria ser somente uma caminhada com os amigos, fazendo trilha em meio a serra.
♦ Agora ♦
Apesar de enfim ter sido liberta das mãos mágicas que a prendiam, ao custo do seu cabelo cortado, Joyce não conseguiu ajudar Sérgio e George a libertarem Josi, que cada vez mais era envolta de garras, tendo o corpo puxado de encontro às pedras. Joyce até tentou, mas os machucados que sofreu ao ser atacada pelo lobisomem apesar de não tê-la matado de imediato, parecia tirar sua vida aos poucos. Sabia, no entanto, que tinha que fazer algo.
A garota cambaleou até perto de onde Marcos estava. Via que os lobos que restavam atacavam-no de todas as formas e cada vez mais o rapaz tinha dificuldade de se proteger ou contra-atacar. Assim como Joyce, ele já havia chegado ao seu limite! -Aqui! — tentou gritar, a voz saiu baixa e falhada. -Aqui, seus lobos malditos! — tentou outra vez, conseguindo dessa vez chamar a atenção dos animais, à medida que se aproximava.
Ela sabia que o que estava fazendo a mataria, mas nem por um momento pensou em desistir. Se o seu sacrifício salvasse os seus amigos ou lhes desse pelo menos um pouco mais de chance, ela ficaria feliz. Esperou que o milagre que havia acontecido algumas horas antes se repetisse e quando os lobos largaram o corpo de Marcos e correram em sua direção, Joyce apenas fechou os olhos e esperou pela dor, que chegou mais rápido do que ela esperava.
As presas dos predadores cravaram-se em sua carne, ferindo-a na perna direita e no braço esquerdo, quase no mesmo ponto em que já havia sido mordida. Tentou, por orgulho, segurar o grito, mas a dor foi maior do que o seu corpo já tão machucado poderia suportar! O grito atraiu a atenção de todos que por alguns segundos observaram, como se a cena acontecesse em câmera lenta, o corpo da menina indo de encontro ao chão e os lobos afastando-se rapidamente.
Os animais não chegaram a ir muito longe e logo estavam emitindo sons que pareciam choro, que deixou claro que estavam sentindo dor. George sentiu a dor deles através daqueles grunhidos e mesmo que os animais quase o tivessem matado no primeiro ataque, ele sentiu pena e compaixão. Ele entendia que os lobos eram apenas ferramentas nas mãos da Cuca. Assim como o corpo, a mente do garoto estava devastada e quando ele viu os dois lobos caírem sem vida, lágrimas voltaram a encher-lhe os olhos.
Marcos viu que de alguma forma Joyce havia conseguido neutralizar aquela ameaça, mas a predadora maior ainda continuava de pé. Com os olhos exibindo a fúria que ele sentia, Marcos encontrou no ódio e na sede de sangue a força necessária para se levantar e atacar a bruxa que parecia atordoada com a morte dos seus animais.
Enquanto corria na direção da Cuca, Marcos sequer percebeu que os seus ferimentos iam se fechando em uma velocidade sobrenatural. Também quase não percebeu que suas unhas cresceram até tornarem-se garras afiadas e foi somente quando ele saltou sobre o corpo da mulher crocodilo que ele notou que todo o seu corpo estava passando por uma transmutação! Todavia, por mais que isso fosse assustador e sobrenatural, ele estava focado em apenas uma única coisa, matar a bruxa.
Com a fúria que somente um lobisomem possui, Marcos usou suas garras para ferir o corpo da bruxa, penetrando cada vez mais fundo a carne de sua presa, espalhando para todos os lados aquele líquido negro que corria nas veias da mulher. Mas logo veio a retaliação! Recuperada da surpresa inicial de ver que agora o rapaz era também uma criatura sobrenatural e forçada a reagir por causa da dor, a bruxa usou seu poder mágico para lançar o lobisomem longe.
Logo que se pôs de pé, a bruxa lançou sobre si um feitiço para curar seus ferimentos, mas notou que sua magia estava mais fraca. Sabia que apesar de ser uma das criaturas mágicas mais poderosas, já havia usado muito do seu poder desde que encontrara aquele grupo e quase ter sido morta há poucas horas havia esgotando-a mais rápido.
Sérgio e George, depois de recuperarem-se do choque de ver Marcos transformar-se em um lobisomem, conseguiram livrar Josi das mãos mágicas que a prendiam. No momento em que a Cuca foi atacada, sua magia perdeu potência, o que ajudou os garotos. Uma vez que Josi se viu livre, correu em direção ao corpo de Joyce, temendo encontrar a garota sem vida! Já havia perdido uma amiga naquele dia, não aguentaria perder outra!
Marcos, agora um ser sobrenatural motivado apenas pelo instinto, ergueu-se tão logo seu corpo atingiu o chão e voltou a correr em direção à bruxa, passando como um vulto pelos amigos, ignorando-os por completo. Talvez se não tivesse um objetivo em mente os quatro tivessem tornado-se seus novos alvos! Contudo, o cheiro da bruxa que agora exalava o odor característico do medo guiava o lobisomem.
A Cuca viu que o seu algoz novamente corria em sua direção. Usou sua magia para lançar bolas de fogo que incendiaram o pelo da criatura, mas que não impediram que ele continuasse a avançar em sua direção mesmo em chamas. A visão do lobisomem tornou-se ainda mais pavorosa e grotesca. Inutilmente a bruxa usou seu controle sobre a natureza ao redor para fazer com que garras brotassem da terra, junto com galhos e plantas que se envolveram no corpo de Marcos, mas que foram arrebentados com sua força inumana.
—Não pode ser… — ela chegou a gritar desesperada. A bruxa sabia que um lobisomem recém-transformado tinha uma força e agilidade maior do que um licantropo experiente, mas aquela demonstração à sua frente excedia qualquer parâmetro. Aquele lobisomem era diferente de qualquer outro que ela já havia visto em toda a sua longa vida! Embora não admitisse ela sentia que todos naquele grupo eram completamente diferentes e por isso ela havia insistido tanto em tê-los.
Antes que pudesse fugir, viu-se presa novamente nas garras e presas do lobisomem, que entre rugidos pareceu dizer algo repetidas vezes. -Não… — ela sentiu o braço direito ser arrancado com um único puxão. -Adianta… — as garras do lobisomem abriram a barriga da bruxa e as presas arrancaram de dentro tudo o que podia. -Tentar… — a bruxa já não lutava mais, já não tinha mais forças, sua consciência sumindo assim como sua existência. Sua última visão, antes de sua cabeça ser completamente arrancada, fora dos olhos brilhantes do lobisomem, repletos de prazer. -Criança… — a última palavra, seguida de um uivo de vitória do predador que abatera sua presa, foi ouvida somente por Josi, George e Sérgio que em completo torpor assistiam o brutal ataque.
Sem olhar para os amigos, o Lobisomem agarrou a cabeça da bruxa e correu mata adentro, deixando o resto do corpo mutilado, os amigos e sua humanidade para trás.
Foi preciso alguns minutos para que um deles voltasse a conseguir se mexer. George levou a mão até o pescoço da prima, procurando sentir sua pulsação, acreditando por um momento que era sua intensa vontade de concluir que ainda havia vida naquele corpo que o fizera sentir um movimento naquela artéria. Contudo, apesar de muito fraco, ainda havia pulso! Contrariando qualquer lógica Joyce ainda estava viva, mas por pouco tempo.
Os três trocaram olhares que conversaram entre si e se ajudando ergueram o corpo da garota. O pesadelo, apesar de não parecer ter chegado ao fim, parecia ter dado mais uma trégua para eles. Queriam acreditar que a Cuca estava morta, mas já haviam visto-a sobreviver a uma fogueira e um pescoço cortado, não permitiam-se mais ter grandes esperanças.
Não deram mais do que dois passos quando sentiram um vento forte os atingir novamente. A ventania dessa vez trouxe consigo folhas secas, poeira e um cheiro que não reconheceram, mas que lhes queimou as vias aéreas. Diante de seus olhos um pequeno tornado revelou um jovem negro e esguio a medida que se desfazia. Ele os fitava com olhos curiosos enquanto se apoiava sobre uma única perna. Apesar de nunca tê-lo visto antes, não daquela forma, os três souberam quem era aquele! Tirando o cachimbo da boca o rapaz aproximou-se do grupo dando ágeis pulos sobre o único membro, chegando até os outros em segundos. Sem dizer qualquer palavra, soprou sobre eles uma fumaça que os fez perder a consciência mais uma vez. Josi, enquanto ainda cambaleava, viu o jovem de gorro vermelho dar um largo sorriso travesso.
Fale com o autor