Notas iniciais
Naquele momento lutar era tudo que me restava e eu iria fazer com maestria

O dia amanheceu ensolarado e muito quente. Depois daquela história, Aristeu acomodou-se e adormeceu sem dizer mais nada.

Arrumamos as malas e provisões e partimos novamente. Falamos pouco e somente o necessário, e só paramos pouco depois do meio dia. Descansamos por quase uma hora e depois meu treinamento recomeçou. Me sai pouco melhor que os outros dias. Acertei poucas vezes Aristeu e Filipe, mas foram golpes certeiros e me renderam uma cara feia de Filipe e um pouco de sangue de seu ferimento, o que já me deixou mais confiante, e até feliz por tirar aquele sorriso orgulhoso de seu rosto. Já Aristeu, não tomou forma nenhuma, mas mesmo lutando como antes, senti-o distante e pensativo, falando apenas o necessário e me ensinando cada passo que eu deveria dar. Ao final, senti que havia evoluído alguma coisa.

— Andando não chegaremos nunca. — Aristeu bufou.

Filipe preparou a comida e esperamos até anoitecer, pois foi decidido que viajaríamos voando, ao anoitecer. Dormimos até ao cair da noite e nos preparamos para partir.

— Acorde Caio, temos que ir. — Filipe me sacudia.

Após um café reforçado e mais carne, verificamos o lugar e alçamos vôo. Eles foram primeiro, dei um impulso com os joelhos flexionados e senti minhas asas se esticarem em todo o seu comprimento, as encolhi e subi em espirais até alcançá-los. Estava escuro, mas logo os meus olhos se acostumaram a penumbra. As correntes de ar a nossa frente eram delineadas em ambos os lados como faixas em uma rodovia qualquer. Olhei para baixo e mesmo estando a pés de distância do chão, eu era capaz de ver perfeitamente as pessoas lá embaixo.

— Isso é incrível não é? — Filipe se aproximou de mim. — Eu amo voar, é a nossa essência! — Levava um sorriso imenso nos lábios, e cada bater de asas parecia normal e leve para ele.

Apenas assenti com a cabeça, pois assim como quando começamos a dirigir um carro, eu precisa pensar em cada passo antes de fazê-lo, então voltei a me concentrar no passo a passo de voar e em não sair da corrente de ar. Pássaros das mais diversas espécies voavam para todos os lado, com formações curiosas.

O sol nascia no horizonte. O céu foi pintado de laranja, vermelho e tons de amarelo. Aristeu mergulhou em direção ao solo como uma flecha. Encolheu as asas até se colarem ao corpo e nós o seguimos. Pousamos em mata fechada e ele nos guiou por entre a mata.

Andamos o dia todo, paramos para comer e tivemos pouco descanso, treinamos mais um pouco e continuamos andando. No anoitecer, alçamos vôo. Foi assim por aproximadamente mais dois dias.

Chegamos a casa de Devdas ao amanhecer, o sol ainda não surgia, mas já clareava o céu a pouco, estrelado. Devdas saiu assim que nos ouviu pousar.

— Entrem e vamos comer. — Devdas cumprimentou Aristeu e se apresentou.

Eu e Filipe corremos, disputando a cotovelas quem chegava antes.

— Sinto cheiro de carne de lobo. — Filipe lambia os lábios.

— E da sopa de Devdas. Não tem igual.

Passei uma rasteira em Filipe a centímetros da porta, o que o fez tropeçar e cair. Entrei e já apanhei talheres e um prato e me servi. Filipe entrou um pouco depois e me deu um tapa na nuca.

— Golpe baixo, garoto. — Seu rosto do lado direito estava sujo de barro, e tive que conter o riso.

— Até que enfim voltaram, já estava se tornando difícil ser babá. — Tarcísio bufou ao se jogar na pequena cadeira ao meu lado.

— Duvido que tenha sido tão ruim assim. — Bati nele com o cotovelo, e ri zombando dele. Tarcísio havia morado tanto tempo sozinho que já não sabia como lidar com outras pessoas.

— Ah não. — Ele me encarou. — Eles são rápidos demais pra dois velhos, viviam se escondendo de mim na floresta. — Não se aguentou e caiu na risada, junto com todos os outros.

A noite se estendeu com uma conversa leve e alegre envolta da fogueira nos arredores da casa de Devdas. Comi pensativo, mesmo tentando, não conseguia conter os pensamentos que insistiam em vagar para Thamy. Definitivamente aquela mulher era meu céu e meu inferno. Me dera as melhores lembranças, para me matar aos poucos com cada sentido que a trazia de volta aos meus pensamentos.

— Sem fome? — Filipe se sentou ao meu lado, me olhou como se soubesse exatamente o que se passava em minha cabeça.

— Digamos que sim. — Disse sem tirar os olhos do prato pousado em meu colo.

— Caio, se me permite um conselho, esqueça eles só por agora. Você precisa de toda concentração no seu treinamento e no que ocorre aqui e agora, vai ter muito tempo para pensar neles. — Bateu nas minhas costas e se direcionou para o interior da casa.

Todos se foram e só restou eu e as brasas da fogueira. Colocando as mãos atrás da cabeça me deitei sobre a grama molhada do sereno e fitei o céu forrado de estrelas. Fechei os olhos e pude ouvir o riso doce de Mōkṣa.

“ — Mãe, como será que o papai está agora? — Seu rosto se entristeceu de repente e acariciou minha bochecha com mãos trêmulas.

— Com certeza bem meu filho. — Me aconchegou ao seu colo, naquela cama pequena e olhou o teto mofado. — Deve estar deitado em algum lugar olhando o céu, como ele costumava fazer e, se me permite pressupor, ele deve estar pensando em nós. — Uma lágrima escorreu por seu rosto.

— Estou com saudade do papai. — Encostei o rosto em seu peito.

— Não ouse sentir saudade dele. — Seus olhos, antes tristes, agora eram frios e raivosos. — Nosso lugar é aqui agora. Por favor, meu amor, durma. — Sua voz falhava e ela me apertou forte contra seu peito. — Seja forte minha criança.

Passos pesados se aproximavam e mamãe me obrigou a fechar os olhos e me apertou mais, sussurrando para que eu ficasse quieto.

— Ah irmãzinha, eu estou tão próximo de acha-lo! — Pude ouvir sua respiração profunda cheia de êxtase. — Então, me dê a chave, o que acha?

Ele se aproximou mais, ao ponto de sentir sua respiração em minha nuca.

— Eu vou consegui-la de qualquer jeito mesmo, com ou sem sua ajuda! — Sua voz era pura ira e sarcasmo.

— Eu já disse que não está comigo. — Mamãe rebateu com o mesmo tom.

— Pelo bem do seu querido filho, é bom você estar falando a verdade. Irmãzinha. — Suas mãos acariciaram meus cabelos, criando um espaço entre nós, mas eu sabia que aquilo significava uma ameaça.

— Tenho as mesmas ambições que você Kael, então não fale como se eu não fosse ajudar caso necessário. — Delicadamente ela tirou a mão de Kael de mim e me envolveu em um abraço protetor.

— Reconheço suas boas ações maninha, ainda mais para reconquistar minha confiança. — Aproximou o rosto dela e deferiu cada palavra como uma ameaça. — Mas você me conhece, eu não confio em ninguém. — Disse cada palavra pausadamente, enquanto um de seus dedos ossudos de mais, percorreram a lateral de seu rosto, e ele se aproximava para lhe sussurrar ao ouvido. — Então, não ouse brincar comigo.”

A realidade puxou-me de volta, me tirando daquele pequeno momento de ecstasy. Fechei os olhos com força para tentar adormecer mas a ira de ver Kael intimidando meu filho me consumia. Não aguentava mais não poder fazer nada por eles.

Levantei-me e soquei a árvore mais próxima até sentir a pele dos nós dos dedos se romperem. Despenquei sentado no chão, as lágrimas embaçavam meus olhos. Fleches dos poucos momentos juntos de Mōkṣa invadiam minha mente, aumentando ainda mais a saudade que me apertava o peito.

Quando todos acordaram já fazia horas que eu estava treinando meus golpes com todas as armas disponíveis. Não dormirá nada, pois todas as vezes que fechava os olhos, via Thamy e Moska, em uma confusão de lembranças e imagens reais a partir dos olhos dele. Aquilo estava me deixando louco.

— Cansado de apanhar? — Filipe apareceu primeiro, como sempre, fazendo piadas sobre mim.

— Digamos que sim. — Deixei-me entrar na brincadeira.

— Vamos lá, vou pegar leve com você. — Ele sorriu tranquilo e eu soube que dessa vez ele estava falando sério.

Cada um dos meus treinadores, resolveram que eu já tinha aprendido bem sobre a derrota e como lidar com ela sem que ela o destrua, agora eu estava tendo lições reais de como me defender.

Um mês se passou e todos os dias que se seguiram foram assim. Acordar cedo, tomar um café reforçado, e treinar. Primeiro iniciava com Filipe e suas espadas, logo depois era a vez de Tarcísio, com a luta corporal e para finalizar, Aristeu e a dominação dos dons dos anjos — Foi assim que decidimos chamar. No dia que eles decidiram que eu estava pronto, fizeram o dia da minha formatura, algo que me descreveram antecipadamente diferente do que realmente aconteceu.

Chegando no descampado próximo a casa de Devdas, eu estava sozinho. Experimentei chamá-los, mas ninguém respondeu. Experimentei aguçar meus sentidos como Devdas havia me ensinado, e senti a presença de um deles. Ajeitei os pés no solo, pois sabia que ele iria me atacar. Presenti que vinha do topo das árvores, centímetros antes de me acertar, eu esquivei para o lado direito e Filipe caiu com asas abertas ao meu lado. Eu sorri e antes que pudesse fazer algo, ele havia batido as asas e com o vento produzido por elas me jogou do outro lado da floresta. Bati de costas em um tronco de árvore e antes de cair no chão, vi pelo canto dos olhos que ele já estava se aproximando. Abri as asas e me precipitei em ficar de pé, fiz o mesmo movimento de asas que Filipe, mas já corri para esperá-lo antes que ele caísse, interceptei-o a centímetros da árvore que ele iria colidir. Acertei um soco em seu estômago que o fez curvar sobre o próprio corpo. Me distrai com minha aparente vitória e nem percebi quando Filipe se recuperou e me acertou um chute no peito que me tirou o ar. Lembrei que Devdas havia me alertado a nunca cantar vitória antes do tempo e sempre tentar pensar em um contra-ataque o mais rápido possível, e foi o que eu fiz. Alcei voo e tentei recuperar a visão que pelo golpe estava completamente turva.

La em baixo, Filipe acenava para mim descer e enfrentá-lo em solo. Só podia estar duvidando do meu domínio sobre minhas asas. Desci com asas coladas ao corpo e em círculos. Mudei várias vezes de direção na breve descida para que ele não fosse capaz de me prever, e deu certo, acertei-o em cheio. Um soco no rosto, seguido de imobilizá-lo contra o solo. Minhas pernas prenderam seus braços e com meus punhos livres o soquei no rosto. Mas essa posição favorável para mim não durou muito tempo, ele logo ficou de pé, e com punhos a sua frente me chamou para uma briga corpo a corpo. Guardei as asas e fui em sua direção. Golpe a golpe parecíamos que dançávamos passos certeiros, mas acertávamos poucos golpes um no outro. Já estava cansado, mas percebi uma brecha em sua proteção e não me demorei em aproveitá-la, usei apenas uma perna de apoio e rodando acertei um chute em seu queixo o que o fez cair inconsciente no chão. Antes que eu pudesse ver como ele estava, senti outro alguém se aproximando. Uma espada voou em minha direção e caiu a centímetros do meu pé direito. Apanhei-a a tempo de bloquear um golpe de Tarcísio, que deferiu uma sequência quase impossível de defender, consegui prever e defender quase todos, ainda bem que os mais fatais.

Nos afastamos um pouco e Tarcísio girava a sua imensa espada sobre a palma da mão e sorria ameaçador. Corri em sua direção com a espada apontada para o chão, desviei do seu golpe abaixando o corpo, e rodando sobre os joelhos, acertei sua panturrilha, o que o fez urrar de dor e cair sobre os joelhos. Sua espada voltou a passar perto de meu pescoço e a minha acertou seu braço. Voltou a ficar de pé e cambaleando deferiu golpes altos, alguns me acertaram de leve, chutei sua perna machucada e com o pé em seu peito, apontei minha arma em seu pescoço, ele sorriu cansado e soltou a espada, estiquei a mão para ajudá-lo e antes que ele pudesse alcançá-la, eu já não estava na clareira, mas sim ao pé da montanha que treinamos na viagem até a casa de Devidas. Thamy estava de pé, na ponta do precipício. Usava uma roupa sexy de couro, como uma guerreira antiga. Olhou para mim por sobre o ombro direito e sorriu, ameaçadora. Desfilou sedutora em minha direção. Por instinto elevei a espada que ainda estava em minha mão.

— Que grosseiro! Não nos vemos a um bom tempo e é assim que me recebe. — Ela sibilou, mantendo olhos fixos em mim.

— Por estar com essa roupa, não deve ter vindo apenas para conversar. — Algo em mim queria acreditar que era mesmo Thamy, mas eu havia aprendido que nem tudo era o que aparenta ser. Ela analisou a roupa e voltou a me fitar.

— Achei que iria gostar desse tipo de roupa! — Algo em seu olhar mudou. E eu tive certeza que era Aristeu a me testar.

Ergui a espada em sua direção e sorri. Ela fez um biquinho.

— Não esperava menos de você querido. — Correu a passos largos enquanto desembainhava sua espada.

Desviei de um golpe alto e acertei-a na coxa, provocando um corte fundo, e algo dentro de mim doeu. Recuei uns três passos e respeitei fundo. Não demorou para ela se recuperar e voltar a me atacar. Acertou meu peito o que me fez urrar de dor. Consegui defender alguns golpes e acertar poucos. Até que ambos perdemos as espadas.

Ela tropeçou em uma pedra e caiu de costas. Sem me demorar pulei sobre ela e imobilizei, meu coração saltava do peito enquanto eu fitava aqueles lindos olhos verdes. Ela acertou um soco em meu queixo e eu cambaleei para o lado. Seu corpo começou a mudar e tomar a forma de um troglodita de quase três metros, puro músculos.

— Nunca perca o tempo de acertar um bom golpe, nunca. — A voz ecoou como sopro do vento.

Seu punho que era quase do tamanho de meu crânio, veio como que em câmera lenta em minha direção, me abaixei e acertei vários golpes em seu abdômen. Havia aprendido que adversários grandes, era muito lerdos, mas resistentes.

Em um piscar de olhos, eu já me encontrava em um lugar que nunca havia visto na vida. Parecia-se muito com a descrição de Aristeu do inferno que ele conheceu sua amada. Rochas negras como se estivessem queimando a eras, se espalhavam por toda a extensão, daquilo que ousei chamar de caverna. Labaredas de fogo lambiam corpos, no que se assemelhava a buracos cavados no chão. Pequenos seres, de pele avermelhada e com chifres pontudos, espetavam aqueles que tentavam escalar os buracos para fugir das labaredas. O cheiro de pele queimada e enxofre eram insuportáveis.

Uma movimentação no canto mais afastado da caverna me chamou a atenção, e meus sentidos se aguçaram em prever qualquer ataque. Pelo conta dos olhos vi algo negro como a noite, deslizar pela parede ao meu lado e na mesma hora algo dentro de mim gritou que se tratava de Aristeu em sua forma de Dragão.

— Você realmente melhorou muito garoto. — A voz grave e animalesca de Aristeu ecoou em meu cérebro, assim como as lembranças de Mōkṣa e os poderes de Ghuida. Aquilo fez meu corpo estremecer.

Estava cansado e aquele lugar estava me deixando com calor e sem forças. Vasculhei a caverna, montando um mapa em minha cabeça, com cada lugar que eu podia pisar e me esconder, pois contra ele eu precisava de muitos planos. Brandi a minha espada, e o sorriso do dragão lhe rasgou a face, parecia satisfeito com minha audácia. Seu corpo serpenteou próximo ao teto enquanto eu usava todas as minhas forças para correr e poder avaliar todo o seu corpo em busca de uma falha.

Ele riu alto fazendo as paredes da caverna chacoalhar e todos os gritos e risadas cessaram. Nesse momento, vi uma chama vermelha bem no meio de seu peito, e dei graças pelo filme de dragões serem tão fieis. Minhas pernas falharam eu rolei caverna a dentro, bati meu joelho com tudo numa pedra e urrei de dor, ele aproveitou esse momento e desceu ao meu encontro. Vi sua bocarra abrir e vir com toda velocidade para cima de mim. Tatei o chão a procura de algo, só encontrei pedras. Apanhei uma grande suficiente e com o pouco tempo que tive para mirar, lhe acertei a fronte, o que o fez perder os sentidos e cair pouco antes de chegar a mim. Coloquei a espada na bainha e escalei a parede mais próxima, conseguindo saltar em suas costas segundos antes dele retomar a consciência, segurei em sua pele grossa e ele alçou voou, sacudindo violentamente seu corpo, para me fazer cair. Meus dedos não aguentaram segurar e eu escorreguei, deslizei por sua pata dianteira e senti suas garras se fecharem ao meu redor. Não sei dizer como, mas consegui apanhar minha espada e a coloquei em uma pequena fresta em seu peito que dava acesso direto ao seu coração, do tamanho da ponta da minha espada, e seu corpo ficou imóvel.

Senti grama em meu rosto e me dei conta de que estava de volta a clareira, tentei me mexer, mas já não havia forças em meu corpo. A luz da lua iluminava diversos pares de pés familiares a minha volta e suspirando aliviado, me entreguei ao cansaço e adormeci.

Notas finais
Meu corpo todo estava dolorido, Mas a alegria de ter conseguido vencer aquele desafio, alegrava minha alma Pelo menos uma vez na vida eu me sentia preparado para fazer uma grande coisa e lutar pelo que era meu e para proteger os meus. Por isso deixei o cansaço tomar conta de meu corpo e me permiti descansar um pouco
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.