Notas iniciais
E lá estava eu de novo, Arriscando minha própria vida para salvar outra. E tudo por que? porque é você que me pediu!

Acordei assustado depois de um pesadelo com as visões de Moska. Percebi que havia escurecido, então coçando os olhos saí da barraca. Filipe estava sentado à frente da fogueira recém reacendida.

— Bom dia Bela adormecida. — Disse bem humorado como sempre.

— Já pode criar outro apelido para mim, não é. — Percebi ao sentar à sua frente que mesmo com sua aparente felicidade, ele ainda estava triste por se recordar do que havia me contado. Então decidi não tocar no assunto. — O que temos para comer? — Perguntei passando a mão pela barriga. — Estou faminto.

— Peixe e mais peixe. — Disse contendo o riso, pois sabia que eu odiava peixe.

— Acho que vou procurar algumas frutas, ou coco. — Fingi que iria me levantar. — Nos filmes eles sempre sobrevivem com água de coco. — Ambos rimos.

Comi o peixe tentando não fazer cara feia, e me apressei em ajudar Filipe a arrumar as coisas.

— Primeiramente vamos fazer um teste de quanto suas asas são fortes. — Ele lançou as malas próximo aos nossos pés e se colocou ao meu lado. — Abra as asas! — Disse em tom de comando.

— Não consigo. — Estava totalmente perplexo, porque por mais que tentasse, elas se recusavam a obedecer meus comando.

— Ah claro. — Ele disse como se fosse óbvio. — Você precisa senti-las. — Ele colocou a mão direita sobre as minhas costas, onde deveria ser a base das asas. — Agora se concentre em minha mão e tente sentir abaixo delas. Procure suas asas até achá-las.

Fiz o que ele pediu. Fechei os olhos e me concentrei. Primeiramente, na sua mão e aos poucos fui tomando profundidade mentalmente. De repente tomei consciência delas. Aos poucos, senti elas se esticarem dentro de mim, como se estivessem se espreguiçando preguiçosamente.

— Muito bom. — Filipe se direcionou a minha frente. — Agora as faça bater. Ainda com os olhos fechados me concentrei em bate-las. Senti a leve brisa que elas lançavam sobre meu corpo enquanto se moviam levemente. Me assustei ao abrir os olhos de súbito e ver que meus pés haviam perdido o contato com o solo . Cai com um baque surdo no gramado.

— Esta indo bem. De novo e não se assuste, elas fazem o que você ordena. Tentei mais algumas vezes e não obtive sucesso.

— Olhe pra mim. — Filipe me olhou nos olhos. Claramente sentiu meu desânimo. — Nunca é fácil mesmo, tente falar em voz alta.

— Batam. — Disse sem confiança.

— Eu não ouvi. — Ele gritou.

— Batam! — Disse com autoridade e fui içado do chão por elas.

— Muito bom, agora pense no que elas precisam fazer.

“Virar a direita” pensei e elas me obedeceram de prontidão. Brinquei mais um pouco virando de um lado para outro entre as correntes de ar. Até achar que estava bom e comecei a abusar. Até que não vi uma árvore e atordoado não consegui pensar com clareza. Mas mesmo assim, inclinei lateralmente e passei a centímetros da árvore. Expirei aliviado.

— Eis outra coisa incrível sobre elas. — Ele passou as mãos por suas penas completamente orgulhoso. — Elas tem algo que podemos chamar de reflexos.

Pousei ao lado de Filipe e as recolhi.

— Definitivamente você está pronto para seu primeiro voo de verdade. — Filipe parecia animado.

Sorri contente. Colocamos as mochilas nas costas e alçamos voo. Diferente do que pensei, eu era capaz de enxergar naquela penumbra, deveria ser mais um complemento de possuir asas. Sentia o vento percorrer cada pena e era uma sensação, inexplicável. Logo a claridade começou a tomar seu lugar. Um arco-iris tomou o horizonte, se espalhando pelo céu. O transformando em uma aquarela perfeita. O sol veio em seguida e as cores deram lugar a um dourado. As nuvens baixaram, nos encobrindo. Passei as mãos sobre as nuvens e elas se desfaziam como fumaça ao meu toque. Me sentia completamente feliz. Aquela visão era capaz de animar até a mais triste alma.

— Hora de descer. — Filipe inclinou de lado e foi perdendo altitude enquanto fechou um pouco as asas e fazia movimentos circulares, como se contornasse um tornado.

Eu o obedeci copiando tudo que ele fazia. Percorremos o restante do caminho a pé. Descansamos umas três vezes durante as 10 horas que caminhamos. As exatas 3 horas da tarde avistamos do meio das árvores, a casa de Aristeu. Filipe me bloqueou com o braço direito quando tentei sair da mata, e fez sinal para que eu ficasse quieto e me concentrasse.

— Sinta o cheiro. — Filipe sussurrou.

Inspirei fundo e senti minhas narinas queimando. Os anjos de Kael cheiravam a enxofre.

— Eles estão aqui. — Constatei, perplexo.

— Vamos esperar anoitecer e ai entramos. — Filipe disse e eu apenas assenti.

Ficamos sentados em silêncio até o cair da noite. Quando decidimos atacar, um dos anjos saiu. Era um homem de estatura média, cabelos loiros. Seus braços eram tatuados com uma espécie de tribal e suas órbitas eram totalmente negras.

Filipe emitiu um som, parecido com um cervo e atraiu a atenção do sujeito que, apanhou um pedaço de madeira do chão e caminhou em direção a mata. Nos escondemos e o atacamos de surpresa. Eu bati com uma madeira, na cabeça e Filipe com apenas um movimento rápido, arrancou seu coração do peito.

Com um aceno de cabeça decidimos entrar. Ele me lançou uma pistola Smith & Wesson 500 Magnum, e eu a apanhei sem jeito.

— Não sei usar isso. — Sussurrei desesperado.

— Ótima hora para sua primeira aula prática. — Filipe ironizou, claramente se divertindo com meu desespero e falta de jeito.

Corremos com os joelhos baixos e um pouco arcados, para não servos percebidos. Filipe se encostou na parede abaixo da janela e, eu me encostei ao seu lado, sentindo meu coração pular no peito. Ele tentou espiar pela janela, mas apenas observou as sombras projetadas na cortina, que lhe serviram para ter noção de quantos eram e, como estavam dispostos la dentro.

— Aristeu está sentado na cadeira ao meio deles. Ha quatro capangas de Kael a sua volta, imagino que devem ter mais uns dois ou três espalhados pela casa. — Ele sussurrou.

Me peguei imaginando por que teriam tantos homens para mobilizar um velho. Mas ai lembrei de Thamy me dizendo que ele era mais do que meus olhos poderiam ver.

Filipe se levantou e caminhando de frente para a janela, se afastou da casa. Tomou dois revolvers ignite ops 357 nas mãos e mirou a janela. Enquanto me instruiu com um aceno de cabeça a invadir pela porta. Corri ainda meio agachado até a porta e ouvi diversos disparos vindos atrás de mim. Chutei a porta e senti sua resistência a meu pé antes de ceder. Aristeu estava de cabeça baixa e os quatro homens de Kael jaziam no chão, ensanguentados.

Inspirados nos jogos de guerra que eu haviam perdido várias horas, levantei a arma a minha frente e vasculhei a casa. Tudo estava incrivelmente escuro, concentrei-me em sentir se haveria alguém por perto, mas antes que pudesse detectar, algo se moveu próximo a porta da cozinha. Senti um material maciço atingiu minhas costa e cai de face no chão. O ser grudou em minhas costas e tentou me sufocar. Virei de frente para ele sem esforços. Seus dedos se ajustaram mais ao meu pescoço, impedindo-me de respirar. Senti o metal frio em minha mão e em um movimento rápido e irracional. Posicionei o cano da pistola em sua fronte e disparei. Um pouco de sangue espirrou em meu rosto e seu corpo despencou sobre o meu, o que me fez sufocar, não sei se pelo fato de eu ter matado alguém, ou pelo peso do corpo, talvez, fosse os dois. Estava empurrando-o para o lado quando alguém se aproximou.

— Caio! — Filipe sussurrou temeroso e pude respirar com mais tranquilidade.

— Estou bem. Já não posso dizer o mesmo desse grandão aqui. — Ri sarcástico enquanto me sentava e batia no ombro do anjo morto ao meu lado.

— Bom garoto. — Ele desdenhou me dando as costas. — Matou um, enquanto eu matei seis. — Bufou. — Vai ter que se esforçar mais, pirralho!

— Me dê um desconto, nunca lutei e muito menos matei alguém antes! — Filipe me ajudou a me colocar de pé.

Pelo canto do olho, vi uma sombra encostada na parede se movendo em direção a porta. Filipe saltou em sua direção, mas a sombra foi mais rápida. Correu porta a fora e já tomava uma direção suficiente larga entre ele. Abri as asas e me lancei ao encontro dele, pousei com os dois pés no peito dele. Era um dos capangas de Kael, porém parecia jovem demais, com os cabelos negros, escorridos, cobrindo-lhe um lado da face. Ele arfava e seus olhos eram de puro medo.

— O que quer com o velho? — Filipe me empurrou de lado e pegou o jovem pelo pescoço apenas com uma mão e, o levantando no ar.

O jovem atônito, nem se moveu. Filipe estreitou os dedos em volta de seu pescoço.

— Kael… — Ele disse entre as pequenas inspiradas que conseguiu fazer. — Nos… Mandou. — Filipe afrouxou os dedos, e o jovem tomou um longo fôlego. — Ele não me disse porque havia nos mandado aqui, apenas Karin, nosso chefe, sabia do que se tratava.

— Está mentindo. — Ele esbravejou, e o jovem começou a tremer.

— É a verdade, eu juro.

— Filipe, acho que ele está falando a verdade. — Toquei levemente seu braço, fazendo-o olhar para mim. — Deixe-o ir.

— Você não sabe de nada, Caio. — Seus olhos se incendiaram de fúria. — Quer que eu o solte, eu o soltarei. Mas amanhã mesmo todos os lacaios de Kael estarão no nosso encalço. — Ele mirou o jovem. — Você é apenas mais um deles, e mesmo parecendo que não sabe de muita coisa, ainda é um deles. — Ele estalou a língua no céu da boca. — Então só uma coisa que posso fazer com você. — Seus lábios se contraíram maliciosamente, em um sorriso de lado. — Consegue me entender garoto?

— Por favor, não me mate. — O jovem implorou. — Eu não contarei nada a Kael, juro! — Seu tom de voz foi aumentou com o desespero de ver que, a mão que Filipe que segurava a arma, estava se movendo em sua direção.

— Não acredito em você. — E ele disparou. — Lançou o jovem morto com um tiro na testa, na floresta e, andou em direção a casa, despreocupado.

Permaneci imóvel, revendo aquela imagem do cano da pistola encostado a testa do jovem, enquanto ele suava frio e tremia de medo.

— Vai ficar ai parado? — Filipe parou no meio do caminho e se direcionou para mim. — É melhor se acostumar com essas coisas, pois a tendência, de agora em diante, é só piorar.

Apenas assenti com a cabeça, me sentia tonto, e minhas pernas estavam bambas. Voltamos para dentro da casa, encontramos Aristeu arrumando os móveis da sala e empilhando os corpos próximo a porta.

— Como o senhor está? — Perguntei assim que passei pela porta.

— Estou bem meu filho, vocês chegaram bem na hora. — Ele tentou sorrir.

— O que queriam com o senhor? — Filipe apanhou um corpo em cada braço e questionou Aristeu.

— Meu jovem. — Ele sentou-se com dificuldade do sofá. — Kael sabe que eu tenho conhecimento de muitas coisas, provavelmente queria saber até onde eu sabia sobre você, a chave e o baú. — Sorte a minha que ainda sou muito resist... — Uma tosse rouca e seca o interrompeu. — resistente. — Ele terminou, contendo a expressão preocupada que lhe tomava o rosto.

— Acho melhor você ir descansar. — O tomei pelo braço e o levei até o andar de cima. — Eu e Filipe limpamos la em baixo.

— Obrigado. — Seus olhos estavam murchos e sua expressão de cansaço se intensificaram. — Caio, Não deve ficar perturbado com o que houve aqui antes. — Ele respirava com dificuldade então tivemos que dar uma parada antes de chegar. — Filipe tinha razão sobre o jovem, ele não tem escolha, iria contar. Você tem que ser forte.

— Vou ser. Agora descanse. — O coloquei em sua cama e o cobri.

Depois de ajudar Filipe a deixar a casa o mais organizada possível, também fomos nos deitar. Encostei a cabeça no travesseiro e a minha consciência pesou. Tentei fechar os olhos e adormecer, mas a cena do homem morto aos meus pés se repetia como um vídeo em reprise. Seus dedos gélidos grudaram em meu pescoço, seus lábios arroxeados e sem vida, se contorceram em palavras mal ditas. Seus olhos totalmente negros, fitavam os meus, fazendo-me mergulhar em sua escuridão. Pareciam sugar minha vida, me sentia sufocando. O frio parecia tocar até meus ossos, o mundo havia deixado de existir. De repente, um pequeno raio de luz surgiu no horizonte e vinha em minha direção. Pisquei várias vezes e assim que meus olhos se acostumaram a claridade, me vi ajoelhado na cozinha da casa de Aristeu, com uma pistola apontada para minha cabeça. Senti o metal frio de encontro a minha testa ao mesmo tempo que a bala queimava ao atravessar-me.

Acordei assustado, arfando e suando. Levantei-me e fui até a cozinha, enchi um grande copo de água e antes de terminá-lo, ouvi passos descendo as escadas. Por impulso peguei uma pequena faca de serra que estava sobre a pia, para se caso precisasse me defender. Vi a silhueta de alguém adentrar a cozinha e parar pouco além da porta. Sentia todo o meu corpo tremer e ajustei mais a mão no cabo da faca.

— Caio, se acalme. Sou eu. — A voz tranquilizadora de Aristeu me acalmou.

— Você me assustou. — Disse respirando profundamente e colocando o copo e a faca sobre a pia.

— Percebi que não dormiu bem. — Aristeu se aproximou, encheu um copo e se colocou ao meu lado.

— Não consegui. — Assumi, baixando os olhos. — Tive alguns pesadelos.

— Tenha calma. — Tocou levemente meu ombro direito. — matar não é mesmo algo fácil, mas terá que se acostumar. — Aristeu tomou seu último gole e prosseguiu. — Pesadelos são algo comum para nós, mesmo que não queiramos. Não temos escolha, ou é um deles ou um de nós.

Nos acomodamos no sofá, pois nenhum dos dois queria voltar a dormir.

— Meu jovem. — Aristeu começou. — Como você já sabe, Kael está planejando uma guerra e não demorará nada para que ele comece. Suspeito que ele já tem o paradeiro do baú, só lhe falta a segunda coisa. Sua chave.

— Isso ele nunca terá. — Cuspi as palavras com desprezo.

— Caio. — Ele inspirou profundamente. — Você não imagina do que ele é capaz. — Baixou os olhos para os pés. — Nada o impedirá, e você ainda não está forte o bastante. — Ele fixou os olhos nos meus, e senti o peso de suas palavras. — Culpa, medo, pena; são coisas que você não pode sentir. Terá que ser como uma rocha, ou ele irá usar suas fraquezas, as pessoas que ama, contra você, para fragiliza-lo e conseguir o que quer.

No mesmo instante, Thamy e Moska vieram a minha mente, e me dei conta que sim, eu faria qualquer coisa por eles.

— Exatamente, ele usará eles contra você. — Aristeu sussurrou como se pudesse ler minha mente.

Notas finais
Ao matar aquele cara, senti que algo morreu dentro de mim, Aristeu tinha razão, eu teria que ser mais forte se quisesse lutar contra Kael. Mas eu iria conseguir, nem que para isso eu tenha que matar até meus próprios sentimentos.