Notas iniciais
Existe uma hora para tudo, A hora para ficar e lutar, e a hora de fugir e se preparar. Mas essa fuga seria provisória, eu fujo agora para derrotar meus inimigos em breve.

Dois meses se passaram e o inverno castigava-nos. Ainda estávamos na casa de Saruman, mas era chegada a hora de partir. Depois da última visão de Mōkṣa, meus treinos se intensificaram nas semanas que se seguiram e decidimos logo nosso itinerário.

— Sabem que podem ficar o tempo que precisarem. — Saruman disse quase como um sussurro. Mesmo que tentasse esconder, ele estava muito triste com nossa partida.

— Obrigado, Saruman. — Agradeci a ele, tocando seu ombro direito. — Já fez muito por mim e para me proteger, não posso te colocar em risco novamente, por isso, vamos levá-lo a um lugar seguro.

Filipe se aproximou de mim e segurando meu braço, nos distanciamos de Saruman e Tarcísio.

— Não temos um lugar seguro nem para nós, imagina para Saruman. — Ele sussurrou de costas para Saruman.

— Temos sim! Devdas! — Disse, sentindo uma certa saudade daquele lugar e do próprio Devdas. — Kael não nos achará lá.

Filipe se calou e fitando o chão parecia pensar na possibilidade. Após alguns minutos, seu rosto se iluminou e ele sorriu.

— Você tem razão, é uma ótima ideia. — Ele parou e pareceu que algo lhe ocorreu. — E como vamos até lá? Qualquer meio por terra será lento e perigoso demais.

— Você está pensando em voar? — Olhei-o assustado, pois mesmo que fosse uma boa ideia, nós não aguentaríamos levar Saruman e Tarcisio, apenas com a força de nossas asas, na verdade eu nem sabia como utilizar as minhas. — Filipe, eu nem sei como voar!

— Ah. — Ele pareceu decepcionado. — É verdade.

Decidimos então, em conversa com todos, que iríamos de avião. Alugaríamos um carro no aeroporto local e nos dirigiríamos até lá.

O dia se arrastou e todos nos dedicamos a pegar nossos pertences e arrumar as malas. Saruman demorou mais e ao dar seis horas da noite, horário que deveríamos sair, ele carregava um total de três malas de tamanho grande. Tarcísio que apenas carregava uma mochila nas costas, apanhou a mala mais pesada das mãos de Saruman e se dirigiu a porta que dava acesso a rua; Filipe fez o mesmo, pegando uma que era um pouco mais leve e nós o seguimos para fora.

Saruman foi o último a sair, trancou a porta da frente e depositando a mala no chão; tirou um vidrinho do bolso do imenso casaco que vestia e, dizendo coisas que eu não era capaz de entender, lançou sobre a frente da casa uma espécie de pó cinza. A construção se sacudiu e rangeu, encolheu alguns metros até ser tão estreita como a porta que acabávamos de sair. Os tremores pararam e a terra a frente da casa se moveu. Ramos de trepadeira sarmentosa emergiram do solo e se projetaram pela casa, cobrindo-a por inteiro, fazendo-a parecer apenas uma parede com folhas e flores, tornando-se irreconhecível.

— Pronto, podemos ir agora. — Ele passou uma mão na outra para tirar o restante do pó e sorriu como quem conclui um belo trabalho.



Ao chegar ao aeroporto, me surgiu uma pergunta: como passaríamos com as espadas pelos detectores de metal?

— E as espadas? — Levei Filipe para um lugar longe dos guardas e questionei-o ao pé do ouvido.

— Não se preocupe. — Filipe me direcionou uma piscadela e andou despreocupado.

Apanhou a maleta com as espadas da mão de Tarcísio se direcionou ao guarda que estava mais próximo do detector de metais. Fitou-o por alguns breves segundos e de longe, vimos o guarda sorrir para Filipe e lhe dar passagem.

Filipe nos olhou por sobre os ombros e fez um movimento de cabeça para o seguirmos. Passamos pelos guardas sem maiores intercorrências e pegamos nosso voo.

— Como fez isso? — Questionei Filipe assim que guardei minha bagagem de mão e me sentei ao seu lado.

— Isso é um dom. — Filipe pigarreou ao se gabar. — Vou ensina-lo sobre isso mais tarde. — Deu-me as costas, virando para a janela e fechou os olhos.

— Sem essa. — Me alterei e puxei-o pelo ombro, obrigando-o a voltar sua atenção para mim. — Vai me contar agora.

— Estou cansado, Caio. — Filipe me direcionou um olhar ameaçador. — Vai tirar um cochilo também.

— Não até me explicar essa história. — Cruzei os braços sobre o peito, para deixar bem claro que minha decisão não mudaria.

— Ah, ta bom. — Cedeu carrancudo. — Nós anjos, temos o poder de criar ilusões, muitas por tempo limitado, mas os mais velhos e experientes podem manter uma ilusão por anos. — Vendo o imenso ponto de interrogação que pairava por minha face, ele colocou-se a explicar melhor. — Quer dizer, que eu posso fazer você ver o que eu quero que veja, por exemplo:

Tudo começou a se dissolver ao meu lado, como quando algo é colocado em ácido. Vi-me então ainda sentado em minha poltrona, mas boiava em um imenso mar azul, completamente sozinho. Entrei em desespero e a mão de Filipe calando meus lábios se solidificou a minha frente.

— Nossa. — Foi a única coisa que consegui dizer, entre minhas arfadas, ao ver que tudo estava como antes. Ainda estávamos no avião, e alguns passageiros nos olhavam preocupados e desconfiados.

— Gostou? — Filipe sorria, entusiasmado — Vou te ensinar esse truque também, ele não é muito útil em guerra, mas ajuda muito no dia a dia.

— E temos mais super poderes? — Fitei minhas mãos, imaginando se eu poderia insendia-las, como o tocha humana. Ou ainda, ter visão de raio-laser… ou…

— Não viaja. — Filipe não conseguia conter o riso. — Isso é coisa de quadrinhos, não do mundo real. — Ele deu um tapa leve em minha nuca. — Acorda, Caio.

— Ah, pensei que poderia haver mais coisas. — Resmunguei claramente desapontado.

— E tem. — Filipe sussurrou, como se contasse um segredo. — Tem classes de anjos especiais que possuem outros dons. — Filipe disse enfatizando a última palavra, banhando-a com um tom de mistério.

— E o que é? — Questionei-o, interessado.

— Além das classes comuns como os Querubins, Serafins e outros. Temos a classe dos hendlers, que são os manipuladores. Aqueles capazes de até possuir seu corpo e manipulá-lo como bem queiram. — Lançou-me um olhar zombeteiro, e levantou a sobrancelha esquerda. — Você já conheceu um desses, não é mesmo?

“Senhores passageiros, aqui é o comandante Henne, responsável por esse voo. Daqui a poucos minutos iremos decolar”

A voz grave do comandante do voo interrompeu nossa conversa, mas não meus pensamentos ao recordarem de Guidha e o dia ao qual ela usou seus poderes em mim.

— Guidha. — Arregalei os olhos, agora aquilo fazia sentido.

— Exato, ela é um exemplo clássico de uso desse dom. — Filipe riu, zombando de mim. — Bom, outra classe é Jhemoth; os que manipulam emoções. São tão poderosos que podem iniciar uma guerra ou pacífica-la em minutos. Graças ao bom Deus, eles são raros e; todos do bem. E a última das mais importantes, entre os vários pequenos dons que temos, é os Mudryns, os anjos mais sábios já criados. Possuem tamanha saberia que ninguém é capaz de questioná-los, encontrar um desse para debater, é um milagre imenso. — Filipe suspirou sonhador. — Esses são os dons principais, agora me deixe dormir.

Filipe se aconchegou no banco e adormeceu. Estivera tão envolvido com suas palavras que nem percebi quando decolamos, só vi pela pequena janela, que já ultrapassávamos o nível das nuvens. O sol incidia sua luz dourada sobre as nuvens e a asa do avião. Ele estava tão forte que não consegui olha-lo por muito tempo, sem meus olhos doerem. Também me aconcheguei na poltrona e fechei os olhos, iria tentar dormir se um bombardeio de pensamentos não tivessem invadido minha mente. Empurrando todos eles para um canto escuro de minha mente, me concentrei em minha respiração e, não demorei a adormecer.

Acordei com a voz grave do comandante Henne nos avisando que havíamos chegado ao aeroporto. Alugamos um carro e guiados por Filipe, chegamos a casa de Devdas. O velho já nos esperava na porta, com um sorriso largo no rosto.

— É bom vê-los. — Se acomodem por favor!

Entramos logo após dele e nos sentamos em seu velho sofá. Tudo na sua casa continuava igual. Sua mesa de centro com alguns vasos e potes dispersos por ela. Seu velho armário encostado sobre a parede da cozinha, o sofá e o local que eu chamava de cama e, costumava dormir. Além, daquele cheiro familiar de ervas moídas que impregnavam a casa, e me dava uma sensação de “lar doce lar”.

Saruman e Devdas, se retiraram para a floresta para conversarem, o que julguei ser assunto particular. Eu, Filipe e Tarcísio continuávamos sentados no sofá, em silêncio. Uma brisa leve soprou meu rosto e num impulso olhei pela janela acima de nossas cabeças. Nuvens de chuva se formavam no céu a pouco, azul. Desviei os olhos da janela e ao voltar a olhar em frente, a casa se Devdas tinha dado espaço a uma floresta densa e escurecida, onde apenas alguns pequenos raios de sol infiltravam pelas folhas. Aquele conhecido arrepio correu por meu corpo. Thamy teria me levado aquele lugar, seu cheiro doce invadiu minhas narinas e meu corpo se irrigeceu em resposta.

— Caio me escute. — Sua voz doce soou como se todas as árvores da floresta ecoassem com seu timbre. — Aristeu corre perigo, proteja-o por mim.

Demorei a absorver e entender o que ela queria dizer. Como sabia o que acontecia a Aristeu, se estava em companhia de Kael? Ou havia sido o próprio a ameaçar Aristeu?

— Protege-lo de que? — Consegui dizer, entre algumas pausas.

Suas mãos fantasmagóricas tocaram meu rosto, enquanto seu corpo tomava forma. Seus lábios avermelhados se aproximaram dos meus e sussurraram.

— Vá agora e proteja meu Aristeu. — Vendo minha relutância, seus olhos encheram-se de lágrimas e ela mordeu o lábio inferior. — Por favor, ele é a única família que tenho.

— Eu irei. — Acariciei com os dedos seu rosto ainda mais pálido do que de costume. — Mas então prometa que vai proteger meu Mōkṣa.

— Eu irei. — Thamy sorriu, beijou delicadamente meus lábios. — Ele sente saudades suas. — Uma lágrima correu por seu rosto, e sua presença desapareceu.

— Caio. — Parecia a voz de Filipe. — Está dormindo de olhos abertos? — Os dois riram.

— Precisamos partir, Aristeu corre perigo. — Disse seriamente.

— Partir? Para onde? — Tarcísio questionou-me. — Acabamos de chegar.

— Ir ver Aristeu.

— Mōkṣa te mostrou algo? — Filipe suspeitou.

— Sim. — Menti, sem rodeios.

— Então, vamos. Filipe se prostrou de pé a minha frente.

Tarcísio também se aprontou para partir, mas Filipe o interrompeu.

— Tarcísio preciso que fique aqui. — Filipe suspirou. — Não sabemos até onde Kael sabe de nosso paradeiro, e Devdas e Saruman podem precisar de você.

— Você está certo. — Tarcísio desabou no pequeno sofá. — Ficarei aqui sendo babá, e perdendo toda a diversão. — Revirou os olhos em desdem enquanto bufava, descontente.

Eu e Filipe rimos com seu sarcasmo e tratamos de preparar as providências. Assim que caiu a noite, estávamos prontos. Devdas e Saruman entraram pela pequena porta e sem dizer nada, eu percebi que eles já sabiam de nossa partida.

— Se cuidem garotos. — Devdas tocou de leve nossos ombros. — Será uma viagem árdua.

Com as malas nas costas, eu e Filipe percorríamos o caminho que ele dizia chegar a casa de Aristeu. Nos embrenhamos na mata. Assim que o sol do segundo dia começava a se por, fizemos uma pequena pausa próximos a uma caverna.

— Que tal fazermos o resto da viajem, voando. — Disse ao secar o suor da fronte. — Já não estou acostumado a andar tanto.

— É… — Não sabia o que dizer, afinal nunca havia usado minhas asas.

— Não haverá hora melhor para aprender! — Disse como se ouvisse meus pensamentos. — Vamos apenas esperar anoitecer.

Montamos acampamento em uma clareira. Coletamos gravetos e fizemos uma pequena fogueira ao centro. Nos sentamos ao seu redor para nos aquecer, enquanto Filipe se precipitou em colocar sobre o fogo, um pequeno esquilo que havíamos apanhado a pouco.

— Você tem medo? — Filipe quebrou o silêncio que havia pairado sobre nós. — Pois eu tenho! — Fitava as chamas e por seus olhos vi um misto de raiva e medo.

— Tenho sim e, muito. — Respondi em um sussurro.

— Eu já vi o que a família de Kael é capaz de fazer, e eles não tem piedade. — Sua expressão se entristeceu, como se estivesse revivendo aqueles fatos. — Eu estava lá Caio, quando Enzo veio atormentar essas redondezas. — Ele me olhou nos olhos, e chamas próprias ardiam neles. — Um de seus homens, com asas negras como a noite, rosto e pele deformadas e escurecidas, vieram em minha direção. Era minha primeira guerra e eu não sabia o que fazer, então travei. Suas pernas fortes corriam em uma velocidade sobre-humana, degolando, esfaqueando tudo que se colocava em seu caminho, mas seus olhos vermelhos estavam fixos nos meus. — Seus dedos agarram com força seus joelhos, que estavam colocados ao seu peito, e Filipe parecia tremer. — No instante que sua espada iria atingir meu pescoço, Miguel me salvou. — Aquilo havia sido tão impactante sobre ele, que sua voz parecia embargada.

— Mas isso é normal, todos devem travar em sua primeira luta. — Tentei ajuda-lo, mesmo sem ideia do que deveria falar ou fazer.

— Mas eu fui treinado para isso, era meu dever proteger os humanos. — Inspirou fundo antes de prosseguir. — Miguel foi compreensivo e me ajudou a criar forças para lutar, mas eu era muito jovem, e estava em choque, então me escondi em uma pequena caverna e esperei tudo terminar. Novamente foi Miguel que me encontrou, me acalmou e me levou novamente para o céu. Ainda sinto vergonha de mim por isso, fui tão covarde. — Fitou os pés. — Melhor irmos descansar um pouco, logo anoitecerá.

Filipe se retirou para sua barraca e depois de alguns minutos paralisado, fitando a fogueira, caminhei inerte em pensamentos até minha barraca e assim que deitei, já peguei no sono.

Notas finais
Seu rosto voltou a atormentar meus pensamentos, Por mais insano que fosse seus pedidos eu não era capaz de responder não. Iria salvar o velho, com o gosto doce de seus lábios nos meus, e a promessa de proteção ao nosso bebê.