O Preço da Liberdade

14 ​O Quarto do Caos


O palácio estava mergulhado no silêncio da madrugada, mas o jardim ainda guardava segredos. Mellyssa, incapaz de dormir com o peso da consciência, observava da varanda de seus aposentos quando avistou dois vultos sob o arco das glicínias.

​Era Adrian. Ele estava encostado em uma estátua, e uma jovem serva ria, entregue ao seu toque. Mas não havia doçura. A luz da lua revelava um Adrian de olhos gélidos, movendo-se com um automatismo cruel. Ele não a olhava nos olhos; ele apenas usava o corpo da garota como um objeto para silenciar seus próprios demônios. Mellyssa sentiu um aperto lancinante no peito. Ela o havia quebrado. O príncipe que começava a florescer em responsabilidade fora sufocado pela sua rejeição pragmática, dando lugar a uma criatura sombria e cínica.

​Dominada por uma mistura de culpa, desejo e desespero, ela esperou que ele subisse.


​Adrian entrou no quarto, jogando a túnica no chão, quando percebeu a silhueta de Mellyssa perto da janela. Ele parou, exalando um cheiro de vinho e de outros perfumes que não eram o dela.

​— Veio conferir se eu ainda sou capaz de sustentar o meu título de devasso, Baronesa? — ele perguntou, a voz carregada de um escárnio cortante. — Ou veio me cobrar os impostos sobre o uso do meu próprio quarto?

​— Adrian... — Mellyssa deu um passo à frente, a voz falhando. — Eu vi você no jardim. O que você está fazendo com você mesmo?

​— Estou vivendo a liberdade que você tanto preza — ele riu, caminhando até ela com passos predatórios. — Eu aprendi rápido. Nada de sentimentos, nada de futuro. Apenas o agora. Não era isso que você queria?

​Antes que ela pudesse responder, Mellyssa o agarrou pela camisa, puxando-o para um beijo desesperado. Era um pedido de desculpas e uma súplica. Adrian hesitou por um segundo, o coração batendo furioso contra o dela, mas a raiva venceu. Ele a jogou contra a porta fechada, prendendo-a com seu peso.

​O que se seguiu foi uma entrega violenta e sem ternura. Não houve carícias ou palavras de amor. Adrian a possuía com uma fúria punitiva, como se quisesse marcar na pele dela a dor que ela causara em seu orgulho. Suas mãos eram firmes demais, seus beijos eram quase mordidas. Mellyssa aceitava tudo, seus gemidos eram uma mistura de dor e prazer proibido, cravando as unhas nas costas dele enquanto se perdiam naquele embate carnal onde ninguém saía vitorioso.

​A cama rangeu sob a força da possessão de Adrian, que a tratava com o mesmo desdém com que tratara a serva no jardim, mas com uma intensidade mil vezes maior por saber que era ela. Ele queria que ela soubesse que, no final, eles eram apenas corpos, e que o "nós" que ele um dia sonhou estava morto.

​Quando o fim chegou, brusco e ofegante, Adrian se afastou dela imediatamente. Ele se levantou, vestindo apenas a calça de linho, sem dar a mão para que ela se levantasse.

​— Terminou? — ele perguntou, dando as costas a ela e servindo-se de um copo d'água, a voz seca e desprovida de qualquer emoção.

​Mellyssa estava na cama, os cabelos em desalinho, tentando recuperar o fôlego e a dignidade. — Adrian...

​— Saia — ele a cortou, sem sequer olhar para trás.

​— O quê? — ela sussurrou, chocada com a frieza.

​— Você ouviu bem. Pegue suas roupas e saia do meu quarto — ele se virou, e o olhar dele era de puro desprezo. — Você teve o que veio buscar, não teve? Agora volte para seus cofres e seus livros de contabilidade. Eu tenho mais o que fazer e não quero sua presença aqui quando o sol nascer. Você não passa de um custo que eu não quero mais pagar, Mellyssa.

​— Como você pode ser tão mal? — as lágrimas finalmente surgiram nos olhos dela.

​— Eu aprendi com a melhor — ele retrucou com um sorriso cruel. — Agora fora. Antes que eu chame os guardas para retirarem uma intrusa dos meus aposentos.

​Mellyssa vestiu-se às pressas, o coração sangrando. Ao sair pela porta, ela ainda ouviu o som do cristal quebrando contra a parede. Adrian estava sozinho, cercado pelo luxo e pelo vazio, agindo como o monstro que ela mesma ajudara a criar.