O Preço da Liberdade

25 O Aroma da Herança


Alguns meses haviam se passado desde o casamento que parou Aethelgard. A rotina no palácio era de uma harmonia inédita; Adrian revelara-se um governante dedicado e um marido ainda mais fervoroso, enquanto Mellyssa geria as finanças do reino com a mesma precisão com que cuidava de suas antigas terras.

​No entanto, naquela manhã, o clima de paz foi interrompido por um detalhe sutil.


​Adrian entrou nos aposentos reais exalando energia. Ele acabara de fazer a barba e se preparar para uma reunião com o conselho. Ao ver Mellyssa sentada à mesa de café, ele sorriu e inclinou-se para depositar um beijo apaixonado em seu pescoço.

​— Bom dia, minha Rainha — ele sussurrou, aproximando o rosto do dela.

​Mas, assim que o aroma cítrico e amadeirado da loção de barba de Adrian atingiu o olfato de Mellyssa, o mundo pareceu girar. Ela empurrou o peito dele bruscamente, cobrindo a boca com a mão, o rosto perdendo a cor instantaneamente.

​— Por favor, Adrian... afaste-se — ela pediu, a voz abafada.

​Adrian estacou, confuso e levemente ferido. — O que foi? Eu fiz algo errado? O cheiro... é a loção nova que você mesma me deu de presente.

​— Eu sei, mas... hoje ela parece... insuportável — Mellyssa levantou-se apressada, caminhando até a janela para respirar o ar fresco do jardim. — É forte demais, sinto como se estivesse me sufocando.

​A Rainha Carolina, que acabara de entrar para entregar alguns tecidos de tapeçaria, observou a cena com um brilho astuto nos olhos. Ela conhecia aquele mal-estar súbito, aquela sensibilidade a cheiros que antes eram amados. Ela caminhou calmamente até Mellyssa e colocou a mão em seu ombro.

​— Mellyssa, querida — começou Carolina, com um sorriso de canto que fez Adrian franzir a testa. — Quando foi a última vez que suas regras vieram?

​Mellyssa parou, processando a pergunta. Ela começou a contar mentalmente, os olhos se arregalando à medida que percebia o tempo decorrido entre os banquetes e as reuniões de conselho.

​— Faz tempo... — ela sussurrou, a voz trêmula. — Muito tempo. Eu achei que era o estresse das novas funções, ou a mudança de estação...

​O Choque do Herdeiro

​Adrian, que observava o diálogo em silêncio, sentiu o coração falhar uma batida. Ele olhou da mãe para a esposa, a compreensão começando a clarear em sua mente.

​— O quê? — ele perguntou, a voz quase sumindo. — Vocês estão dizendo que...

​— Estou dizendo, meu filho, que talvez a loção de barba não seja o problema, mas sim o fato de que há um novo herdeiro decidindo o que a mãe deve ou não cheirar — Carolina riu, abraçando a nora.

​Adrian caminhou até Mellyssa, mas desta vez manteve uma distância respeitosa, os olhos fixos na barriga dela, que ainda não mostrava sinais, mas que agora parecia o centro do universo.

​— Um filho? — Adrian perguntou, a voz embargada. — Mellyssa, você está... nós vamos...?

​Mellyssa sorriu entre as lágrimas que começavam a descer, a ficha finalmente caindo. — Sim, Adrian. Parece que sim.

​Adrian soltou um grito de alegria que ecoou pelos corredores, esquecendo completamente o conselho ou o protocolo. Ele a pegou nos braços, girando-a com cuidado, antes de parar e beijar sua testa com uma adoração quase religiosa.

​— Eu vou ser pai — ele murmurou contra o cabelo dela. — Ouro, terras, coroas... nada disso importa. Nós criamos vida, Mellyssa.

​— Só, por favor... — ela riu, empurrando-o de leve novamente. — Troque de loção. Pelo menos pelos próximos meses, prefiro que você cheire apenas a Adrian.

​— Eu cheirarei a cavalo, a suor ou a sabão de lavanderia se você pedir! — ele exclamou, fazendo a Rainha Carolina gargalhar.

​Naquela manhã, o café esfriou na mesa, mas o calor no coração de Aethelgard nunca foi tão intenso. O destino do reino estava selado não apenas por um contrato de casamento, mas pela promessa de um futuro que já crescia, silencioso e amado, no ventre da mulher que um dia temera perder tudo e agora descobria que estava prestes a ganhar o mundo inteiro.