O Preço da Liberdade

3 Encontro no silêncio da noite


O silêncio do palácio às três da manhã era absoluto, quebrado apenas pelo estalo ocasional da madeira nas lareiras que se transformavam em brasas. Adrian entrou pela porta lateral da ala oeste, movendo-se com a agilidade de um gato, as botas nas mãos para não despertar os guardas ou, pior, seu pai. Ele cheirava a perfume barato, uísque e à fumaça das velas das mesas de jogo.

​Ele estava atravessando o corredor sombrio em direção aos seus aposentos quando uma luz suave surgiu na curva do corredor. Adrian parou bruscamente, encostando-se nas sombras, pronto para inventar uma desculpa qualquer para um guarda curioso.

​Mas não era um guarda.

​Mellyssa Solomon vinha em sua direção. Ela não usava as camadas de veludo e os espartilhos rígidos do jantar. Vestia apenas um hobby de seda cor de pérola que delineava sua silhueta de forma perigosamente suave, com os cabelos castanhos soltos caindo em ondas pesadas pelas costas. Ela carregava uma pequena travessa de prata com uvas, fatias de queijo e uma maçã vermelha.

​Ela parou no meio do caminho, os olhos encontrando os dele na penumbra. Não houve susto, nem arquejo. Apenas um olhar de profunda reprovação.

​— O herdeiro do trono, rastejando pelos corredores como um ladrão de galinhas — a voz dela era um sussurro cortante, carregado de tédio. — O cheiro de álcool chega aqui antes de você, Alteza.

​Adrian abandonou a postura furtiva, largou as botas no chão com um baque surdo e endireitou as costas, abrindo um sorriso preguiçoso enquanto se aproximava dela.

​— E a Baronesa, agindo como uma camponesa faminta no meio da noite? — Ele parou a poucos centímetros dela, invadindo seu espaço pessoal. O perfume dela — lavanda e algo cítrico — cortou a névoa de bebida em sua mente. — Pensei que o banquete real tivesse sido suficiente para o seu paladar refinado.

​— Insônia é o preço de uma mente que realmente trabalha, Príncipe. Você não entenderia — ela respondeu, sem recuar um milímetro. — Agora, se me der licença, meu caminho está bloqueado por um vulto embriagado.

​Adrian esticou o braço, apoiando a mão na parede ao lado da cabeça dela, prendendo-a entre seu corpo e a pedra fria. Ele se inclinou, o rosto descendo até o nível do dela.

​— Você me trata como se eu fosse um inseto, Mellyssa. Mas eu vi como você me olhou no banquete. Você não sente desprezo. Você sente... curiosidade.

​Mellyssa soltou uma risada curta, seca, e seus olhos brilharam como adagas sob a luz da vela que ela segurava.

​— Curiosidade? Sim, a mesma que sinto ao observar uma ruína antiga — ela retrucou, aproximando o rosto do dele até que seus lábios estivessem a milímetros de distância, mas sem um pingo de luxúria. — Eu me pergunto como algo que deveria ser grandioso conseguiu se tornar tão patético.

​Adrian sentiu o sangue subir. Ninguém falava assim com ele. Nunca. A mão dele desceu da parede e, por um impulso, ele pegou uma das uvas da travessa que ela segurava, levando-a aos lábios dela.

​— Cuidado, Baronesa. Palavras ácidas podem amargar o fruto.

​Mellyssa, em um movimento rápido e calculado, inclinou a travessa para o lado, fazendo Adrian perder o equilíbrio por um segundo. Ela se esquivou por baixo do braço dele com uma elegância irritante.

​— O único fruto amargo aqui é o tempo que estou perdendo com você — ela disse, de costas para ele, começando a caminhar. — Limpe o rosto, Príncipe. Tem uma mancha de batom barato na sua gola. É vulgar, até mesmo para os seus padrões.

​Ela desapareceu na escuridão do corredor, deixando apenas o rastro do seu perfume e o som do seu hobby roçando no chão.

​Adrian ficou ali, sozinho no corredor escuro, com o coração batendo mais rápido do que qualquer jogo de cartas jamais causou. Ele passou a mão no pescoço, limpando a mancha mencionada, e soltou um riso baixo e perigoso.

​— Você não faz ideia do problema em que se meteu, Mellyssa Solomon.

​O príncipe, que nunca se apaixonava, acabara de encontrar o único jogo que ele não sabia como vencer.