O Preço da Flor de Ferro

15 O Sangue no Sobrenome


O silêncio do castelo parecia gritar enquanto Jasmine atravessava o corredor em direção ao escritório. A ausência de Heitor, que partira para a cidade com um semblante sombrio, era a oportunidade que ela precisava. Suas mãos tremiam, mas a determinação da "flor de ferro" falava mais alto que o medo.


​Jasmine revirou cada centímetro da mesa de carvalho. Quando estava prestes a desistir, sentiu um desnível na última gaveta. Com a ponta de um abridor de cartas, forçou o fundo falso. Ali, solitária e gélida, estava a chave de ferro.

​Ao abrir a porta proibida, o cheiro de mofo e lavanda seca a atingiu. O quarto de Katherine estava intacto, como se o tempo tivesse sido assassinado ali também. Jasmine ignorou as joias e os vestidos de seda; seus olhos focaram em uma pequena arca de madeira. Dentro, recortes de jornais amarelados de dez anos atrás.

​As manchetes eram brutais:

"Tragédia no Ducado: Katherine Martinez e Marcus Martinez encontrados mortos."

​Jasmine sentiu o mundo girar. Marcus Martinez? O nome do meio... o irmão que Heitor nunca mencionou. Mas foi a última linha da notícia, escrita em letras miúdas sobre o inquérito arquivado, que a fez perder o fôlego: "...embora o Duque Heitor Martinez tenha sido o único presente na cena, a falta de testemunhas..."

​— Ele não apenas estava presente, Jasmine. Ele foi o autor do espetáculo.

​Jasmine deu um salto, deixando os jornais caírem. Maurício estava encostado no batente da porta, observando-a com uma melancolia que ela nunca vira nele.

​— Maurício... o que significa isso? — ela perguntou, a voz falhando. — Quem era Marcus?

​Maurício entrou no quarto, passando a mão por uma das penteadeiras de Katherine.

— Marcus era o nosso irmão do meio. O sensível, o artista... o preferido de Katherine. Heitor achava que o casamento dele era um pacto de honra, mas Katherine e Marcus tinham um pacto de sangue e desejo.

​Ele respirou fundo, fechando os olhos como se revivesse a cena.

— Naquela noite, os gritos não foram de socorro, mas de prazer... até que a porta foi arrombada. Heitor não gritou. Ele não chorou. Ele apenas desembainhou a espada com a frieza de quem corta lenha. Ele os pegou no ato, Jasmine. Marcus tentou explicar, tentou proteger Katherine, mas Heitor... ele os matou ali mesmo, na cama onde ele deveria dormir com ela.

​Jasmine sentiu um nó na garganta, as lágrimas de pânico começando a descer.

— Ele... ele matou o próprio irmão?

​— Sangue Martinez é quente, mas o de Heitor é feito de gelo e posse — Maurício sussurrou, aproximando-se dela. — Ele limpou a cena, usou a influência do título para calar os juízes e trancou este quarto. Ele não guarda memórias por amor, Jasmine. Ele as guarda como troféus do seu domínio.

​Um som de galopes ecoou do lado de fora, vindo do pátio principal. Heitor havia voltado mais cedo.

​— Ele está aqui — disse Maurício, a urgência substituindo o desânimo. — E se ele te encontrar neste quarto, com essa chave e esses jornais... você não será mais a noiva dele, Jasmine. Você será apenas a próxima notícia que ninguém terá coragem de publicar.

​Jasmine olhou para a chave em sua mão. O homem que a beijava com ternura era um fratricida. O homem que reconstruiu sua fazenda era o mesmo que destruíra sua própria família com lâmina e ódio. O pânico a dominou por completo: ela estava presa em um ninho de víboras, e o rei delas acabara de chegar em casa.