O ambiente no quarto principal estava pesado, carregado com o cheiro de madeira queimada da lareira e uma tensão que parecia eletrificar o ar. Heitor estava de costas para a porta, retirando as abotoaduras de prata com movimentos bruscos, quase violentos.

​Quando Jasmine entrou, sem bater, ele sequer se virou. O silêncio durou apenas o tempo de ela fechar a porta com um baque seco.


​— O que Maurício queria com você no jardim? — a voz de Heitor saiu rouca, desprovida de qualquer traço da doçura que ele demonstrara semanas atrás.

​Jasmine ignorou a pergunta dele, mantendo o queixo erguido apesar da dor latejante em sua nuca.

— Ele me falou sobre os gritos, Heitor. Sobre a noite em que Katherine se foi. Ele disse que o seu amor é sufocante... e eu começo a acreditar que ele tem razão.

​Heitor virou-se lentamente. Seus olhos, que antes brilhavam com admiração por Jasmine, agora eram duas fendas de gelo. Ele não parecia o homem que a carregou no colo; parecia um estranho feito de pedra e rancor.

​— Você continua ouvindo as mentiras de um bêbado e as sombras de um passado que não lhe diz respeito — ele deu um passo à frente, e Jasmine notou que ele não pretendia pedir desculpas pelo "acidente" da noite anterior. — Você é persistente, Jasmine. Mas a persistência, em uma mulher na sua posição, rapidamente se torna insolência.

​— Insolência? — Jasmine soltou uma risada amarga. — É insolência querer saber se meu marido é um assassino? É insolência temer pela minha vida toda vez que você perde o controle?

​— CALE-SE! — Heitor rosnou, aproximando-se tanto que ela podia sentir o calor da fúria dele. Ele não a tocou, mas sua presença era como uma muralha desabando sobre ela. — Eu a tirei da lama, dei dignidade à sua família e o que recebo em troca? Suspeitas e conspirações com o meu irmão.

​— Você não me deu dignidade, Heitor. Você me deu ouro para mascarar o fato de que este castelo é um necrotério! — ela rebateu, embora suas mãos tremessem. — Se Katherine era tão perfeita, por que os gritos? O que aconteceu naquela porta trancada?

​Heitor inclinou o rosto, a voz agora um sussurro cruel que a arrepiou mais do que qualquer grito.

— Você quer tanto saber sobre Katherine? Katherine era insaciável, Jasmine. Ela não suportava o peso deste título e procurava consolo onde não deveria. Os gritos que Maurício mencionou... eram gritos de uma mulher que descobriu que não se pode brincar com a honra de um Martinez e sair impune.

​Jasmine sentiu o sangue fugir do rosto.

— O que você quer dizer com isso? Você a...

​— Eu quero dizer que você deve ser muito cuidadosa com os seus próximos passos — ele a interrompeu, a frieza em sua voz cortante como uma navalha. — Eu fui paciente com sua origem plebeia e com seu jeito indomável. Mas minha paciência tem um fim. Vá para a cama, Jasmine. E reze para que amanhã você acorde com mais juízo e menos perguntas. Caso contrário, descobrirá que a mesma mão que reconstrói uma fazenda pode muito bem derrubar tudo o que você preza.

​Heitor apagou a vela mais próxima com um sopro violento, deixando o quarto mergulhado em uma penumbra sinistra. Jasmine ficou parada no escuro, ouvindo o som da respiração pesada dele.

​Ele não era mais o seu salvador. O homem à sua frente era um abismo, e ela estava prestes a cair nele. Pela primeira vez, Jasmine não sentiu apenas raiva; ela sentiu um medo real e paralisante. Ela não estava apenas casada com um homem cheio de segredos; ela estava casada com um homem que acabara de lhe fazer uma ameaça de morte velada.