O Preço da Coroa
16 O Veredito de Roma
O destino parece ter erguido um muro de pedra intransponível entre o desejo e o dever. O que deveria ser a chave para a liberdade tornou-se o motivo de uma prisão ainda mais apertada sob o olhar vigilante do Vaticano.
A sala de audiências estava mergulhada em uma penumbra solene. O médico da corte, um homem idoso de mãos trêmulas mas olhar preciso, retirou-se após prestar seu depoimento sob juramento sagrado. Isabella estava sentada em uma poltrona de veludo, pálida, mas com uma dignidade inabalável.
— Confirmado, Majestade — sussurrou Lorde Archibald para Edmund. — A Rainha Isabella permanece intacta. Tecnicamente, o casamento nunca foi consumado. Isso é base jurídica suficiente para uma anulação por ratum sed non consummatum.
Edmund sentiu uma onda de alívio. Ele olhou para Isabella, que assentiu levemente. Eles tinham um pacto. Eles seriam livres.
O Arcebispo de Edimburgo partiu imediatamente para Roma, levando os documentos selados e o testemunho médico. Durante semanas, o palácio viveu em um suspenso de esperança. Edmund e Maria evitavam se tocar em público, mas seus olhares cruzados nos corredores queimavam com a promessa de um futuro.
O Golpe do Papa
A resposta chegou em uma tarde de tempestade. O Arcebispo retornou, mas seu rosto não trazia a luz da vitória. Ele entrou no gabinete onde Edmund, Isabella e Henrique o aguardavam.
— O Santo Padre... — o Arcebispo hesitou, abrindo o pergaminho com o selo papal de chumbo. — Ele negou a anulação.
Edmund levantou-se de um salto. — Como?! A prova médica é incontestável! O casamento não existe perante Deus se não houve união de carne!
— O Papa entende a lei, Majestade — disse o Arcebispo com a voz baixa. — Mas ele entende mais de política. Ele diz que a união entre a Escócia e Castela é o pilar que mantém o norte da Europa protegido. Ele não vai permitir que um "detalhe técnico" desfaça uma aliança tão vital para a Igreja.
O clérigo pigarreou, lendo as palavras finais do decreto:
"Ordenamos que o Rei Edmund e a Rainha Isabella cumpram seus deveres sagrados. O Vaticano espera, dentro de um ano, o anúncio de um herdeiro que una as sangues de Blake e Castela. Qualquer tentativa de separação será vista como heresia e desobediência direta à Santa Sé."
O silêncio que se seguiu foi devastador. Isabella cobriu o rosto com as mãos. Edmund sentiu o mundo desmoronar. O Papa não queria apenas que eles ficassem casados; ele estava ordenando que Edmund abandonasse seu amor por Maria e gerasse um filho com uma mulher que ele respeitava, mas não amava.
O Peso da Sentença
Maria, que aguardava do lado de fora da porta, ouviu cada palavra. Ela encostou a cabeça na parede de pedra fria, sentindo o peso da Baronia de Valfenda tornar-se inútil. De que adiantava ser nobre se o próprio representante de Deus na Terra a proibia de ser feliz?
Edmund saiu do gabinete pouco depois. Seus olhos encontraram os de Maria. Não havia palavras. A ordem de Roma era clara: ele precisava dar um herdeiro à rainha. Se ele se recusasse, a Escócia poderia sofrer um interdito — uma punição onde nenhuma missa, batismo ou casamento seria realizado no país, levando o povo ao desespero religioso.
— Ele quer um herdeiro, Maria — Edmund sussurrou, a voz carregada de nojo e dor. — Ele quer que eu traia tudo o que sinto por você para satisfazer um mapa político.
Maria olhou para ele, as lágrimas escorrendo livremente agora.
— E se você não o fizer, Edmund... o povo que nós salvamos pagará o preço. Roma vai esmagar a Escócia por causa de nós dois.
Isabella saiu logo atrás, parando diante dos dois. Ela olhou para Maria com uma tristeza profunda.
— Eu não quero este herdeiro tanto quanto ele não quer, Baronesa. Mas o Papa nos transformou em prisioneiros de um berço.
Fale com o autor