O Preço da Coroa

12 Acordos e brechas


O clima no castelo de Edimburgo tornou-se gélido, apesar das lareiras sempre acesas. Maria havia partido para o vilarejo, deixando um vazio que nem mesmo o ouro das novas alianças conseguia preencher.

​O Acordo de Gelo

​A Princesa Isabella de Castela chegou com uma comitiva de cem cavaleiros e o cheiro de incenso e poeira espanhola. Ela era impecável, educada e movia-se pelo salão como se tivesse sido esculpida em mármore.

​Edmund a recebeu no Grande Salão. Eles caminharam pelos jardins, sob o olhar atento dos poucos nobres que restaram.

​— Sei que seus olhos buscam outra pessoa nos cantos deste castelo, Majestade — disse Isabella, sua voz sendo um sussurro pragmático. — Eu também deixei um amor para trás em Madrid. Mas somos peças de um tabuleiro. Meu pai precisa da frota escocesa, e você precisa do ouro espanhol para reconstruir suas vilas.

​Edmund parou, olhando para as montanhas ao longe.

— Você aceitaria um casamento de conveniência? Sem paixão, apenas dever?

​— Aceito o que for necessário para a paz — ela respondeu com um aceno solene. — Casemos-nos no próximo solstício. Pela coroa.

​Edmund suspirou, sentindo como se estivesse assinando sua própria sentença de morte emocional.

— Que assim seja, Princesa.

​A Conspiração do Sangue

​Enquanto o anúncio do noivado era preparado, uma reunião secreta acontecia na antiga biblioteca do castelo. O Rei Henrique, com os olhos cansados mas astutos, debruçava-se sobre tomos de leis ancestrais junto com a Rainha Anastácia e o fiel Lorde Archibald.

​— Não posso deixar meu filho viver a mesma mentira que quase me destruiu — Henrique disse, batendo com a mão na mesa. — Ele ama aquela moça, a Benevides. Ela tem o coração da Escócia nas mãos.

​— Mas a Igreja exige linhagem, Henrique — ponderou Anastácia, preocupada. — Uma plebeia no trono causaria um cisma com Roma.

​Lorde Archibald, que passara noites sem dormir revirando pergaminhos que datavam da fundação do reino, levantou um dedo trêmulo.

— Esperem... Existe uma lei esquecida, escrita no século IX, durante as invasões pictas.

​Henrique e Anastácia se aproximaram.

​— Aqui — continuou Archibald, apontando para uma caligrafia em latim arcaico. — "Lex Cordis et Terrae". Ela diz que, se uma mulher salvar a vida do monarca em solo sagrado ou diante do povo, e se essa mulher provar ter 'sangue da terra' através de uma linhagem de protetores... ela pode ser adotada por um clã nobre extinto e ser elevada ao status de Dama da Nação.

​— Sangue da terra... — Henrique sussurrou. — Maria salvou Edmund. Ela o protegeu da própria ignorância dele. E a família dela, os Benevides, vivem nesta terra há doze gerações.

​— Se conseguirmos provar que os ancestrais dela foram guardiões da fronteira no passado — disse Anastácia com um sorriso crescendo no rosto — podemos dar a ela um título de Duquesa por mérito de guerra e proteção real.

​— Roma não poderia contestar um título de nobreza concedido por ato de bravura histórica — concluiu Archibald. — Mas precisamos de provas. Precisamos encontrar os registros dos Benevides nas igrejas das Terras Altas.

​Henrique levantou-se, recuperando a energia de seus tempos de guerreiro.

— Então vamos caçar. Enquanto Edmund prepara um casamento de fachada com a Espanha, nós vamos dar a ele a única Rainha que ele realmente deseja. Mas silêncio absoluto... se o Parlamento ou os espiões de Castela souberem, Maria correrá perigo de morte antes mesmo de ser coroada.