O Preço De Uma Mentira
27 Capítulo 27
Notas iniciais
http://letras.mus.br/the-script/if-you-can-see-me-now/#radio
https://www.youtube.com/watch?v=SGlkwKA-t_4#t=63

Casaram-se na cidade de São Francisco três semanas depois, em uma bela igreja situada entre dois enormes arranha-céus de vidro e cimento. Houve muito poucos presentes a breve e singela cerimônia.
Nevava quando saíram da igreja, ligeiramente separados um do outro, como se não se conhecessem, e os brancos flocos fizeram às vezes de confete.
O jipe de Jake, com a bagagem no porta-malas, estava lá fora; iam voltar para The Little Nell, e desfrutar de uma breve lua de mel. Gina não o tinha ficado sabendo até a noite anterior.
— Pensei que depois da cerimônia podíamos ir passar uns dias no centro termal — anunciou Jake, saindo de seu escritório.
— Quer que eu faça a bagagem? — ofereceu ela.
— Está ansiosa por cumprir com seus deveres conjugais? — indagou, quase com desdém.
— Absolutamente — ruborizou-se. — Se prefere fazê-lo você, eu prepararei minhas coisas e as de Suzannah.
— Suzannah não vai.
— Oh, mas...
— Não é normal levar os filhos a lua de mel — disse ele. — E gostaria de desfrutar de minha esposa durante uns dias, antes que nos tornemos em uma família. Suzannah estará perfeitamente bem com a senhora Morgan.
— Mas poderá a senhora Morgan...?
— É de plena confiança, e adora cuidar da menina. Além disso Suzannah gosta de ficar com ela.
Com flocos de neve sobre seu cabelo, Jake abriu a porta do carro e esperou educadamente que sua esposa se sentasse. Assim que ela fechou o cinto de segurança, se sentou ao volante e começaram sua silenciosa viagem.
Ninguém poderia adivinhar, por seu aspecto e sua forma de atuar, que eram recém-casados, pensou Gina com tristeza. Jake nem sequer a tinha beijado ao finalizar a cerimônia. Se, como parecia, arrependia-se de sua precipitada proposta matrimonial, por que tinha seguido adiante com o casamento? Provavelmente as razões que lhe tinha dado seguiam de pé, mas, até na noite anterior, tinha começado a duvidar inclusive de que a desejasse.
Aquela última noite que passaram no centro termal, depois de cair adormecida entre seus braços, despertou sozinha na cama. Foi buscá-lo e o encontrou na cozinha, preparando o café da manhã para Suzannah e Cocó.
— Bom dia — saudou-a direto, deixando claro que tinha trocado de humor e que a gentileza da noite anterior havia se convertido em brusca eficácia.
Mesmo assim, quando voltaram para São Francisco nessa tarde, ela supôs que, depois de havê-la obrigado a compartilhar sua cama, levaria as malas de ambos a seu dormitório. Mas ele, sem dizer uma palavra, levou a dela à suíte que ficava junto ao quarto de Suzannah. Em The Little Nell, além de assegurar-se de que usava seu anel, não se tinha preocupado muito pela ética da situação, mas agora que estava em casa parecia disposto a observar todas as convenções.
A primeira noite que passou sozinha em seu quarto, consolou-se com esse pensamento. Mas os dias passaram e ele se concentrou totalmente em seu trabalho, quase não o via; era óbvio que a estava evitando e se sentiu ferida e confusa.
Os dias eram felizes e passavam rapidamente, porque tinha Suzannah, mas as noites, insones e solitárias, faziam-se eternas, e logo seus belos olhos estiveram rodeados de escuras e profundas olheiras. Embora ele insistisse em que usasse o anel e informou pessoalmente à senhora Morgan sobre seu compromisso, para todos os efeitos Gina voltava a ser a babá, enquanto que ele, frio e reservado, construía uma muralha de gelo a seu redor.
Se não fosse pelo anel, e porque quando falava com Suzannah se referia a ela como «mamãe», Gina teria chegado a pensar que a proposta de casamento era coisa de sua imaginação.
Mas por fim, na noite anterior, ela tinha levantado os olhos e o tinha surpreendido observando-a, tinha visto a chama ardente de desejo de seus olhos antes de que ele se desse a volta e partisse.
Recordando as solitárias noites, que passavam separados, perguntou-se se estaria tentando demonstrar algo. Ou possivelmente só queria castigá-la e castigar-se? A ela porque recordava a Gina; a ele mesmo porque odiava essa obsessão da qual não podia livrar-se. Gina sentiu pena por ele, pois compreendia que sua irritação era comparável a que ela tinha sentido pela gargantilha, até que ele concordou a tirá-la.
Mas quando essa obsessão se curasse, o que ocorreria? Que outra coisa havia entre eles? Possivelmente amabilidade e um certo grau de carinho... Se era sua esposa, e a mãe de seus filhos, por força teria que chegar a sentir algo por ela.
Tentou agarrar-se a essa ideia enquanto viajavam, mas, no fundo de seu coração, sabia que o passado pendurava sobre eles como uma espada de dois gumes, e que não era provável que voltassem a serem felizes juntos. Finalmente, embalada pelo movimento do carro e pelo som do limpador de para-brisas, adormeceu.
Despertou sobressaltada quando chegaram ao centro termal. Olhou de esguelha e viu que Jake a observava com uma estranha e sombria expressão no rosto. Ele saltou do carro e foi abrir-lhe a porta, ainda sonolenta, tropeçou ao descer, e lhe rodeou a cintura com o braço. Era a primeira vez que a tocava em semanas, além de lhe pôr a aliança no dedo.
O céu se limpou e fazia uma noite preciosa, a lua, quase cheia, brilhava por cima dos pinheiros e a neve, ainda recente, rangia sob seus pés.
— Boa noite, senhor Arkeman... senhora Arkeman. Parabéns! — saudou cortês a senhorita Deering, que estava no balcão da recepção.
Assim sabiam sobre o casamento, pensou Gina assombrada, enquanto um mensageiro ia recolher sua bagagem.
— Se tiver um minuto, senhor Arkeman — disse a senhorita Deering, — o diretor gostaria de falar com você. Está em seu escritório.
Jake assentiu. Sem soltar Gina, foi para sua suíte e abriu a porta. Um momento depois, um mensageiro levou a bagagem e partiu apressado.
— Sugiro que vá diretamente para à cama — disse Jake, a ponto de sair da suíte.
— Mas vai voltar? — perguntou ela com ansiedade, pois notou algo estranho em sua voz.
— É obvio. O que pensaria o pessoal se te deixasse sozinha em nossa noite de núpcias? — acrescentou com ironia. Um momento depois a porta se fechou atrás dele.
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