O Príncipe dos Sonhos

3 Ter alguns segredos faz bem


Notas iniciais
Boa leitura!

“– Tudo pronto?

– Sim, minha querida, tome cuidado com o caminho. – ela respondeu dando um beijo em sua testa.

– Eu sempre tomo. – e se foi na madrugada escura e sombria.”

Zoey estava com medo das visitantes acordarem. Tinha que confiar em seus passos velozes e discretos, mas a medida de que o tempo passava devagar, maior parecia a distância de seu quarto até os fundos do palácio.

Max a esperava com um sorriso no rosto, como sempre. As marcas escuras logo abaixo dos olhos estavam ali de costume. Por mais que doesse para Zoey deixá-lo com uma aparência cansada, ela sabia que tinha um ótimo motivo para acordarem no meio da madrugada e seguirem pelo mesmo caminho toda noite.

– Senti sua falta – disse ele, já abraçando Zoey e acariciando seus cabelos castanhos de um jeito carinhoso e especial, que só ele sabia – espero que a Seleção não impeça o que nós devemos fazer. – ele a beijou, de forma suave, apenas tocando os lábios. Ás vezes queria que congelasse no tempo, para que ela nunca mais ficasse longe de seus braços protetores – Qual é a refeição de hoje?

– Rosa fez ensopado de frango com molho de maracujá. Tem o suficiente para amanhã. – Zoey respondeu, uma mão segurando a comida e a outra mexendo nos cabelos meio castanhos meio louros de Max – Vamos?

– Ele estará mais próximo hoje; contei a ele sobre a Seleção e o fato de ter mais 15 meninas fofoqueiras hospedadas na sua casa. — ele disse ainda num momento de completa ternura e carinho com sua amada.

– Como... você sabe... que são fofoqueiras... se nem as conhece? — ela perguntou em meio de beijos – Quer saber? Prefiro não arriscar, vamos logo. – ela se convenceu.

Era um longo caminho dos fundos do palácio até a saída do bosque. Max não tirou as mãos da cintura de Zoey o percurso todo e ela não fez nada como sempre; amava sentir que o amor de sua a vida estava ali, com ela, passando vários segundos a seu lado, protegendo-a. Era um caminho não muito longo, de apenas 40 minutos de distância a pá. Lá encontraram com alguns guardas, amigos de Max, e puderam sair na boa. Chegando mais perto de uma barraca, marrom para disfarçar, eles avistavam uma figura encolhida embaixo da árvore, com uma maçã podre ao seu lado, devorada até a metade.

­– Tommy, nós chegamos – disse Zoey, se encolhendo para perto da figura com roupas em farrapos. Era muito pequena para ser um adulto... era uma criança – espero que goste de frango com molho de maracujá.

O menino levantou a cabeça, o rosto sujo, apenas os olhos verdes sendo visíveis. Estava com uma expressão feliz, como a de uma criança ganhando seu brinquedo favorito no Natal. Ele era absurdamente parecido com Max: tinha o mesmo olhos verdes e cabelos louro-escuro, a pele, escondida sob várias camadas de poeira e lama, era bronzeada como a de Max. A maioria das pessoas diria que são irmãos, e bem, elas acertariam. Max, 22, e Tommy, 10, nasceram da mesma mãe, apenas por pais diferentes. A mãe morreu no parto do menino mais novo e pai obviamente fugiu, deixando um menino de apenas 12 anos com um bebe recém-nascido. Foram adotados por uma mulher de Casta 7 e ela tomou conta dos dois, até abandoná-los quando Max, aos 16, entrou para guarda da família real. Ele passava a madruga inteira com seu irmão, levando comida, dando dinheiro, levando roupas de filhos das criadas. Desde que se apaixonou por Zoey, contou sobre seu segredo e ela prometeu ajudar da melhor forma possível. Todas as madrugas, hoje completando 6 anos que isso começou, Zoey se encontra escondido com Max e ambos vão passar uma parte da madrugada ao lado de Tommy.

– Então, maninho, conte-nos sobre seu dia – perguntou Max, sentando-se ao seu lado. Enquanto Zoey estava do outro, limpando o corpinho do menino com lenços umedecidos.

– Conheci uma menina hoje – disse Tommy, os olhos brilhavam iluminando a noite ao redor – o nome dela é Mariel e ela é linda. Tem a mesma idade que eu!

– É mesmo? Você é bem sortudo hein rapazinho – Zoey disse isso observando discretamente umas marcas roxas sobre o braço do menino – Fale sobre ela.

– Eu estava vagando pelas ruas em busca de crianças para brincar e a vi, com uma bolinha de fiapos na mão, usando roupas parecidas com a minha. Ficamos lá, jogando amarelinha, roubando maçãs, até que um homem dizendo que era pai dela, me pegou e me levou para sua casa. – disse Tommy, de um jeito despojado, como se não tivesse nenhuma importância. Zoey olhou para Max e depois para o bracinho dele, mostrando que era para olhar nos hematomas. Assim que Max viu, uma expressão de dor passou pelos seus olhos deixando-o com uma cara sombria. Zoey apenas ficou olhando para Tommy, com os olhos aos poucos se enchendo de lágrimas.

– Está gostando do franguinho que Rosa fez? Posso pedir para ela fazer com mais frequência – ela acariciou os cabelos de Tommy carinhosamente – Mas então, o que aconteceu na casa de Mariel?

– O pai dela me levou até o porão e lá encontrei com várias crianças! Mas nenhuma delas parecia querer brincar comigo... – seu olhar se tornou frio – e ele queria me dar uma lição. Não entendi direito o porquê, mas ele disse que ia brincar de um jogo chamado “Castigo”. Achei que fosse legal e fiquei ali, até ele começar a me bater com um cinto e às outras crianças também. Quando ele se distraiu com uma delas que estava chorando bastante, Mariel me pegou bem rápido e me levou por uma portinha que não sei muito bem onde ficava. Ela me disse para nunca mais voltar lá, mas estou louco para vê-la novamente. Antes ela tinha falado que ia me ensinar a brincar de Pique-Parede, mas agora eu não tenho tanta certeza assim...

Zoey ficou em choque, não conseguia conter as lágrimas, não conseguia se mover. Max abraçou o menino com todas as forças que conseguia reunir e sussurrou no ouvido do irmão mais novo:

– Me prometa que você vai fugir de homens assim – Max estava com a voz firme, por pouco não iria falhar – ME PROMETA.

– Tudo bem, andarei na parte Norte da cidade. Eu prometo – ele havia acabado de comer, já estava ficando um pouco enjoado com o abraço forte de Max – Ai. Está doendo. Você está ficando muito forte para me abraçar – disse, rindo, enquanto o irmão soltava-o com um sorriso forçado no rosto – eu estou com sono. Posso ir dormir?

Ainda abatida, Zoey fez um sinal com a cabeça que significava “sim”, e Tommy foi se deitar na barraca.

– Não quero pensar mais sobre isso, vamos – Max ajudou Zoey a se levantar e os dois foram percorrendo os 40 minutos em silêncio, ele com a mão em sua cintura e Zoey chorando em seus ombros. A Lua estava linda hoje para quem quisesse ver, mas dessa vez sua beleza não foi admirada.

**

Chris Schreave acordou com um ótimo humor hoje. Levantou-se da cama antes de seu alarme tocar e foi sentar em sua escrivaninha, prestes a preparar uma tabela de suas candidatas, uma por uma, no esforço de se fazer gravar seus nomes. Não se sentiu atraído por nenhuma delas, o que era estranho. Nenhuma delas parecia especial, talvez tivesse essa impressão, pois nunca conversou com nenhuma delas. Bem, hoje ele poderia fazer isso e descobrir o que há de mais interessante com cada uma...

– O café está na mesa – apareceu Rosa no quarto dele, no meio do nada – melhor acelerar, as meninas já estão preparadas.

– Só um minutinho – ele a abraçou – tem como você fazer minhas sobrancelhas hoje? Daqui a pouco vou ter que falar que tenho uma só – ele riu, se afastando para pegar suas roupas oficiais.

– Estou muito ocupada com as meninas aqui, meu amor. Peça para sua mãe.

– ATÉ PARECE que a rainha de Ilhéia faz as sobrancelhas de alguém! – ele exclamou, levantando os braços. Chris nunca vira a mãe segurar uma pinça antes – Acho que vou pedir para Zoey.

– Boa ideia, depois você faz isso. Anda logo senão o café vai esfriar!

Chris terminou suas anotações, vestiu suas roupas e desceu para tomar café. Antes passou no quarto de Zoey, para ver se ela já tinha acordado e pedir para ela fazer suas sobrancelhas. Bateu no quarto algumas vezes e não escutou nada. Na quarta vez, escutou um barulho de choro e entrou correndo no quarto:

– O que houve? – ele perguntou, chegando perto da cama em que sua irmã estava deitada, de pijama, com o cobertor cheio de lágrimas.

– Não aconteceu nada.

– Claro que aconteceu alguma coisa! Você nunca chora! Já derrubei mais lágrimas do que você – ele se sentou, fazendo cafuné – você sabe que pode me contar tudo.

– Chris, eu estou de TPM, não estou afim de ouvir a sua voz nem a de ninguém – a voz de Zoey soava raivosa, e ela fez questão de enfatizar o “ninguém” – vá embora, e diga a quem perguntar que estou passando mal e não vou tomar café. Você me ouviu?

Chris meio espantado mas também não muito surpreso pois já vira a irmã ter esses chiliques antes, fez que sim com a cabeça e saiu do quarto rumo ao café da manhã e pensando numa solução para sua monocelhas.

– Bom dia meninas. Bom dia mãe, Zoey está mal e não quer comer. Bom dia pessoal da cozinha – Chris se se sentou à mesa, olhando para todas as meninas com bastante cuidado.

– Bom dia príncipe Christopher – recebeu um coro de meninas babando por ele, o que era meio estranho.

– Cecilia Pasquali – disse o príncipe e observou que as outras candidatas lharam com raiva para Cecilia.

– Sim? – ela respondeu do jeito mais adorável (e falso, pensou Chris) que ela conseguia.

– Aproveite o café da manhã, depois que acabar já poderá ir embora. Adoramos sua estadia no Palácio Real – ele disse indiferente, enquanto pegava a geleia.

Todos ficaram de olhos arregalados para ele. Inclusive os criados, segurando os componentes da mesa. A Rainha, surpreendentemente, não ficou furiosa; apenas espantada. Cecilia não se conteve e levantou, chorando e aos berros, para ajoelhar ao lado do príncipe e implorar para ficar mais um pouco, que ela não tinha feito nada para ele, que não havia motivos para ele tirá-la da casa antes do Jornal Oficial... chegou até a ameaçá-lo, dizendo que falaria mal dele para todos da província dela.

– Entenda, não vou passar a vida inteira com uma dama que não me serve. Por favor, essa Seleção deve ser rápida e você entrou aqui já sabendo que poderia ser eliminada a qualquer segundo. Não finja surpresa; seu comportamento em menos de 24 horas que resultou nisso – Chris falou baixinho, olhando sem muita arrogância, o que era contraditório ao que acabou de dizer.

Todas ficaram em silêncio, inclusive Cecilia (que voltou ao seu lugar), falando por murmúrios uma para as outras, cochichando e olhando para o príncipe ao mesmo tempo. Todas faziam isso menos Jennifer e Hayley. A primeira apenas comia em silêncio, olhando ao redor; a segunda estava encarando Chris, com os pensamentos a mil. Até que se pronunciou:

– Admiro sua sinceridade, príncipe. – disse Hayley Moon.

– O que? – perguntou Christopher, engasgando levemente com o suco.

– Duvido que essas pessoas tenham a coragem de fazer o que você fez – todos agora olhavam para ela – e quanto a você, Pasquali, teve um comportamento extremante repugnante. Não é estranho ver uma 2 sem dignidade alguma.

Primeiro dia e já tem barraco, pensou. Cecilia agora já estava de pé, olhando para o prato que tinha arremessado em Hayley. Para sua sorte, ninguém se machucou; Hayley era rápida. Mas isso já foi o suficiente para que os guardas entrassem e a levassem a força. O soldado Lewis estava lá, e vasculhou a sala em busca de Zoey e não a achou. Ficou preocupado, mas não demonstrou. Nisso tudo, uma menina de cabelos castanhos e lábios sexy, usava óculos e tinha outra candidata igualzinha sentada ao lado (Clones? Gêmeas?, Max se perguntou) sorriu para ele. Adivinha? Ele não sorriu de volta.

Notas finais
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