O Príncipe Purplet e a Plebeia de Iogree
1 Capítulo 1
Notas iniciais
-Noel já é um rapaz, quase um homem feito. Eu sei que ás vezes ele parece infantil, mas ele deve estar abalado com a situação. Você acha que é fácil pra nós te ver deitado numa cama todos esses dias?
-Não exagere, Graeta. Eu só estou cansado e, olha só, aonde está Noel agora?
-Bem aqui, pai. — Noel entrara, depois de passar lentamente pelo corredor e ouvir de longe, seu nome.
-Ah, meu filho... Estávamos falando de você, em como você cresceu. — Suspirou Graeta, quase num lamento.
-Noel, precisamos conversar.
-Pai, eu sei o quão importante é o ato de assumir o trono e todo o reino, mas você está se precipitando.
-Precipitando? Olha pra mim, sou um velho marechal de guerras, de cara marcada e morte próxima. Estou cansado e você, mais velho.
-Tudo bem, mas eu não entendo o que é que você tanto teme quando o assunto envolve o meu nome e o trono. Eu já conheço a história, seu suor e sua luta para tomar o que era seu por direito e toda justiça que você fez... Alguma hora eu vou assumir, e eu... o farei.
-Vê, Graeta? É essa constante insegurança em sua voz que me apavora. O que é que você está fazendo além de passar os dias estudando e farreando disfarçado no coreto? Você acha que eu não sei? Já experimentou saber o que falam de você por aí?!
-Eu sinceramente não me importo. Se quero um instrumento, arranjo o melhor luthier. Se quero uma bebida, tenho da melhor adega, o mesmo para o alimento do melhor fornecedor. Se quero me informar, tenho capangas, amigos e fontes genuínas. Até mesmo uma princesa, consigo. Consigo tudo o que quero, pai, por que não conseguiria governar Iogree?
-INSOLENTE! Não percebe o quão fútil você é? Eu conquistei esse lugar com banhos infinitos de sangue e não com taças de vinho! Estuda dia e noite mas se esquece que a virilidade de um homem está para além do seu pensar. Onde está sua força?! Me diga, imbecil, se consegue desarmar um exército com a sua viola ou vai usar a vara do violino?!
-Chama-se "arco". — Noel olhara seu pai com certo desdém, chateado por ouvir tais palavras que também desdenhara seu conhecimento.
-Graeta! Tire esse bobo da corte daqui, agora! — E o rei Isaac tossia, mais vezes.
-Vá para o seu quarto, me espera lá, filho. — Acalentava em voz, seu menino enquanto apaziguava a doença do marido.
Noel saiu com a mesma expressão com que entrou. Geralmente não a mudava e, já pensando nas coisas que falavam dele, era conhecido como um rapaz egocêntrico e mesquinho: algo que lhe escapava de seu entendimento.
Respirou fundo e começou a caminhar de um lado para o outro no mesmo corredor, não muito longe do quarto de seus pais. Começou a pensar nas batalhas travadas por seu pai, segundo as histórias que ouvia de terceiros, e se imaginou glorioso, imponente como seu pai, bradando uma espada de prata — Até ser interrompido por Graeta.
-Noel, meu amor, como é que você fala assim com seu pai?
-Mas mamãe, você viu como ele não dá o menor valor aos meus estudos? Sou um virtuoso em tantas coisas e ele nunca reconhece, absolutamente nada!
-Calma, meu filho... Seu pai está doente, vai ficar rabugento até se curar. É só preocupação dele, nós sabemos que você será um ótimo rei.
-Eu tenho tudo do que preciso para governar Iogree tão bem e, até melhor do que meu pai. Temos negócios, plantações, investimentos e eu tenho noção dessa administração. O que mais que ele quer, mamãe?
-Bem, um guerreiro você não vai ser, aliás, é o primeiro até agora que nunca lutou desde sexta geração dos Purplet.
-Não sei do que é que meu pai me cobra... Nem mesmo o Purplet lhe pertence. — Bufou Noel, de punhos cerrados.
-Não fale assim, não seja esse rude que ele aponta. Seu pai foi bravo em defender Iogree como marechal e se casou comigo... É claro que ele é um Purplet, não se sangue mas no papel. E você também, meu amor.
Graeta se aproximou do filho e tocou seus punhos, desarmando-os.
-Você será um ótimo rei. Lembre-se que eu estarei aqui para lhe ajudar.
-E a senhora, a mais bela imperatriz de Iogree, Maneva, Lieet, Almatar e de todo o mundo! — Disse-lhe Noel, tomando as mãos maternas e revenciando-as. — Eu volto depois, não me demoro, mamãe.
-Aonde você vai? Não há nenhum lugar boêmio aberto, está cedo. — Disse ela com certo ar jocoso.
-Não... Irei caminhar. Preciso me distrair um pouco, cansei de estudar por hoje.
-Vista o casaco com a touca!
-Tudo bem mamãe, eu já sei... — Disse mais alto, rindo e cortando o silêncio dos corredores do castelo.
***
Como um infiltrado, mais propriamente inspirado na seita dos assassinos, Noel passeava entre as estreitas ruas das feiras, já em seu término. Acompanhava o desenrolar de tendas e armações de madeira caindo, os moleques que corriam, magros, com frutos furtados e os feirantes berrando. Belas moças, maioria camponesas de beleza desconhecida, que trocavam saudações secretas com o verde dos olhos de Noel, curiosos, debaixo do capuz. Depois de comprar uma maçã graúda em uma das bancas, deu também graúdo, o troco, que fizera a alegria da velha vendedora. Saiu pelas vielas próximas ao coreto e foi atraído pelo som que há muito tempo não ouvia.
O piano da praça estava sendo tocado, não pelas crianças arteiras que batiam teclas aleatórias ou pelos ignorantes que arriscavam notas sem melodia. Havia harmonia ali, havia uma ótima combinação, um ótima escolha clássica. Havia uma garota de cabelo desgrenhado, tom castanho e tom menor.
O príncipe se aproximou como um gato e ficou a observar a menina mais de perto. Ela, com sua informalidade ao se remexer sem parar no banco enquanto tocava, batendo o pé direito no ritmo, fazia seu vestido creme se movimentar engraçado no vento. E dentro da pausa, ouvira uma mordida fresca da maçã e parou.
-Oh. Desculpa... Acho que me empolguei um pouco. — Disse ela, ao que parecia ser um homenzarrão de capuz. — Tira esse treco da cara. Quer tocar um pouco? Eu só estava estudando.
-E o que é que você estuda?
-Oras, música. — A menina respondera como quem não queria alguém curioso por perto. O problema é que Noel era a personificação da curiosidade. — Bem... Acho que já vou indo... Já está tarde.
-Espera, toque mais um pouco. Você toca muito bem.
-Poxa, estranho... Obrigada. Mas eu preciso ir... — E antes que ela pudesse recolher a partitura da estante, Noel tirou o capuz e revelou o conjunto de olhos, nariz, boca e barba.
-Encantado, senhorita. — E estendeu a mão, pedindo-lhe a mesma para beijá-la.
-Nossa! Ahn...? Príncipe? — Ela olhara Noel um pouco assustada.
-Acho que sim... Noel, me chame de Noel. — E tomou sua mão, já que não gostava de demoras, ou pior: de esquivas.
-Quem deveria beijar sua mão era eu, não?
-Pare com isso. Mãos de músicos devem ser reverenciadas sempre, eu sei como é.
-O que vossa majes...
-Nem pense nisso! Todos me julgam velho, mas a senhorita me chamando de majestade já é demais.
-Desculpe-me, vossa m... Ah, meu Deus. Desculpe, Noel. O que você sabe sobre os músicos? Por acaso é um deles?
-Por ventura sim. Cordas... Eu amo cordas. Mas me agrada ouvir o piano, quando bem tocado.
-E eu lhe agradei?
-Vamos dizer que falta muito pouco pra você. Pratique, continue praticando em casa.
-Casa? Eu venho aqui, eu estudo música aqui. Uma camponesa que até tem livros bons, mas não um piano.
Noel observava a menina que, apesar da voz aguda, emponderava-se como adulta. Parou o olhar em sua amarra de pilha de livros.
-E o que você lê, senhorita?
-Coisas sobre política, hierarquia, filosofia.
-Não é nova demais pra isso? — Perguntou ele, arqueando uma das sobrancelhas.
-Nunca é cedo ou tarde para começar uma revolução, príncipe. Não me entenda mal, mas a educação política é escassa nas escolas, e eu quero mudar isso.
-Hm... Idealista?
-Pensadora, sonhadora talvez. Sou só uma camponesa que quer aprender e ensinar, aprender e ensinar, num ciclo.
-Você pensa como uma velha. — Caçoou.
-E você tem nome de velho, majestade. — Sorrindo, lhe disse.
E não é que o príncipe achou graça? Riu sutilmente e deixou reluzir o sorriso, enquanto balançava a cabeça, negando. — Noel é um anagrama em homenagem ao meu bisavô, Leon.
-O nome dele é mais bonito que o seu, mas é bonita a intenção de qualquer forma. Mas ainda acho seu nome esquisito.
-Bem, já que soa tão estranho quer dizer que não estou tão ruim assim, não acha?
-Bem mais velho que eu você é, mas é rechonchudo, como eu e algumas pessoas de Iogree. Acho que isso é bom.
Noel franziu a testa para o "rechonchudo".
-Você é sempre... "espontânea" desse jeito?
-Majestade, não é porque você pertence a realeza que eu tenho que segurar minha língua. Não disse nada demais e, você me permitiu um comentário.
-Pois saiba que isso não me atrapalha em nada, viu? Rechonchuda.
E ela gargalhou. O que surpreendeu o príncipe, pela sua reação inesperada e tanto quanto pelo volume de seu riso que mais parecia um relincho.
-Estou começando a duvidar da sua idade, majestade. Mas é tarde, eu realmente preciso ir. Tome cuidado ao andar por aí, cubra-se direitinho. A praça vai encher daqui a pouco e vão notar sua grande presença.
-Quem devia tomar cuidado era você. Com o horário e... Com essa língua.
-Como quiser, majestade. — E ela se levantou com a sua pilha e livros num ombro, e a pasta de partituras debaixo d'outro braço.
-Você não vai me dizer seu nome? — Perguntou, o curioso.
-Você não perguntou, oras... Você vai me achar mais vezes por aqui.
-Diga-me seu nome, senhorita. — Pediu, complacente enquanto vestia o capuz.
-Tarsila. — E após balançar a cabeça, deu as costas e correu para alcançar a charrete do outro lado da calçada.
As luzes dos postes começaram a se acender e a sombra feita pelo capuz ofuscou mais ainda o brilho dos olhos verdes. Noel estava encabulado, pensava "que maluca!", mas queria ouvi-la tocar novamente, queria vê-la novamente. Pensou que talvez tivesse achado alguém para contar sobre seus estudos, suas descobertas e suas ideias. Fez planos corriqueiros mas logo os dispensou. Vai ver que era só mais uma camponesa desbocada, como algumas que conhecera por aí. Mas tão nova, tão cheia de si, ousada por estudar música, afinal, que camponês sabe ler? Ler uma partitura? Tarsila.
E guardou seu nome como quem guarda um bibelô na estante, e voltou para as vielas do coreto.
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