O Príncipe Cinza
20 Splendae
Acordei na manha seguinte sentindo que aquele havia sido o melhor sono que eu tivera em séculos. Considerando que meu treinamento na Academia me dava poucas horas de sono, talvez essa fosse a verdade.
Me aconcheguei no conforto quente e macio ao meu redor. Era definitivamente o lugar mais aconchegante que eu já dormira. Abri os olhos nao registrando nenhuma imagem, mas parei quando vi duas pedras azuis da cor do céu a centímetros de mim.
Tencionei visivelmente no meio das minhas ações.
– Bom dia, Splendae. -sua voz sonolenta soou profundamente sexy ecoando pelo seu peito e reverberando em mim. O cabelo de Zane estava despenteado e a mecha negra teimosa ainda estava sobre seu olho esquerdo, tão incrivelmente maravilhoso.
Espere, o que?!
Pulei em pé, a um metro de distancia do dono da voz. Minhas bochechas esquentaram em um profundo vermelho. E-eu... não poderia ter...aquele porco bastardo! Como eu pudera fazer algo assim? Eu dormira encolhida no seu peito, usando seu braço dobrado como travesseiro, e eu admitira para mim mesma que aquele fora minha melhor noite de sono em meses.
Eu simplesmente nao poderia olhar para mim mesma da mesma maneira. Como eu fora capaz de deixar a guarda tão baixa? De trair a mim mesma?
– Nada melhor que calor humano, hem? -ele disse rindo da minha expressão.
– Vamos caminhando. -resolvi recair no meu lado mandão, deixando ele para trás enquanto procurava Gandara. Aquela traidora, onde ela estivera enquanto eu me encolhia nos braços de você-sabe-quem? Do inimigo? Durante a noite fria no Mar Gelado?
Ela era como um fantasma, ia e vinha do nada.
Suspirei, sabendo que ela eventualmente acharia seu caminho de volta para mim
– Tenho quase certeza que vi um sorriso nos seus lábios enquanto você dormia, Splendae.
– Cale a boca e caminhe. -eu disse carrancuda.
Ele riu.
– Não, agora eu tenho 100% de certeza que vi um sorriso, Laura.
– Se não me acompanhar tenha certeza que não vai ter ninguém pra te impedir de morrer por gangrena numa noite congelada, Zane.
– Uau, me tratando pelo nome? Nada de porco bastardo ou Vossa Alteza?
– Estou tentando adquirir uma atitude madura, você podia começar também, que tal, Sr. Lightcasltle?
Ele gargalhou alto desta vez, mas apressou seu passo para acompanhar o meu.
– Sr. Lightcastle? Tem certeza que isso é uma atitude madura? Você só está evitando dizer meu nome porque tem medo de gostar de mais dele nos seus lábios.
Neguei com a cabeça para mim mesma, recusando a responder com palavras grosseiras. Novo lema: mais polidez dessa viagem para frente.
Depois dela eu podia voltar às atitudes hostis, é claro.
– O que é aquilo? -me aproximei cautelosamente de uma única flor no gelo completamente diferente do que eu já vira em toda minha vida. Era muito distinta mesmo entre os arbustos rasteiros. Ela era solitária. Não era ligada a uma arvore, era independente. Seu caule era branco e parecia congelado, as raízes eram aparentes sob o gelo e pareciam se intrincar sedutoramente. As pétalas eram negras com as pontas brancas, como se o gelo nao tivesse alcançado o resto. Sorri.
Eu quase tinha medo de toca-la e ela me congelar em vingança.
Era de tirar o folego. Magnifica e ostentosa. Perigosa e sedutora.
– É uma Splendae.
Encarei Zane surpresa. Eu nem percebera que o apelido que ele me dera era relacionado a esta especifica flor. É claro que ele de fato dissera que era achada no Mar Gelado e rara, mas eu nao pensara que era tão... única. Delicada e feroz ao mesmo tempo.
– Splendae significa esplêndida na antiga língua.
Meu coração perdeu uma batida por um instante. No momento seguinte começou a bater tão rápido que eu não sabia como ele nao podia ouvir.
Seus olhos nunca estiveram tão azuis, profundos, intensos.
O cheiro de chuva, de terra molhada se alastrou e a eletricidade no ar ficou tão carregada que um arrepio me arrebatou dos meus pés as pontas dos meus cabelos.
Olhei a flor novamente desacreditada. Ela era muito para ser comparada a mim. Splendae era selvagem, única, sedutora, independente... perigosa e delicada ao mesmo tempo.
Esplendida.
Eu nao podia representar isso para uma pessoa que eu acabara de conhecer, certo?
Eu simplesmente nao podia ser tudo isso, eu era... só eu.
E o meu eu nao agradava muitas pessoas, geralmente.
Eu não percebera o quanto Zane e eu estávamos perto até que sua respiração estava lavando a minha, seus olhos presos nos meus. Sua presença estava em todo lugar ao meu redor, sua altura se entendia sobre a minha com naturalidade, simplismente... perfeita onde estava. Seus ombros largos e levemente musculosos me rodeavam, fazendo-me sentir delicada e... certa, como se eu fosse feita pra estar ali. Colada em sua fronte.
Para sempre encarando seus olhos, consumida por sua presença.
– Confie em mim, Laura. Abaixe essas muralhas indestrutíveis ao seu redor para mim. -uma de suas mãos subiu para segurar o lado do meu rosto, seu polegar acariciando minha mandíbula.- Por favor, Splendae. -nunca em toda minha vida alguém me chamara com tanta suavidade doce como naquele exato momento.
Ali rodeada por Zane.
Seus lábios vagaram a centímetros dos meus. Eu ainda estava hesitante apesar de tudo. Joguei tudo pro alto num momento de cinco minutos de coragem. Segurei o tecido de sua camiseta preta e o arrastei a força pelos últimos centímetros entre nós. Colidindo seus lábios nos meus.
Um som sexy saiu de dentro dele e então ambas suas mãos estavam segurando meu pescoço e meu cabelo, me guiando para ele. Meu corpo literalmente derretendo contra o dele, encaixando perfeitamente um no outro. Passei as mãos pelos seus ombros e me ergui para encontrar com ele mais ansiosamente. Algo dentro de mim parecia dizer: finalmente.
Suspirei, eu precisava dele como precisava respirar. Tudo estava muito confuso no meu interior, e eu estava alegremente me deixando afogar nas sensações. O cheiro enlouquecedor de chuva me fez suspirar novamente. Eu nao podia pensar, só sentir. Meu coração pareceu chamar por ele, doer fisicamente por saudade daquilo, mesmo que eu nunca tivesse experimentado-o até então.
Como eu podia sentir aquela dor no meu peito? Era como se eu tivesse encontrado nele uma parte perdida de mim. E todos os sentimentos confusos agora se enraizavam profundamente nessa parte de mim.
Senti Gandara no extremo da minha mente e despertei. Me lembrei o que eu não conseguia lembrar antes: eu não o conhecia, mesmo que parecesse que sim.
Me afastei.
– Laura, o que é isso?.-ele parecia fascinado tocando em meu cabelo. — Está branco, da raiz às pontas. -Eu desistira de entender a vontade própria da entidade que era as minhas mechas. Desde aquela primeira vez lutando com as Sombras eu não havia presenciado o evento outra vez. Pelo jeito elas resolveram mudar naquele momento.
Havia coisas mais importantes no momento.
– O que foi? -ele me perguntou confuso provavelmente percebendo que havia algo mais. Seus olhos clarearam.- Suas armaduras levantaram de novo. Isso quer dizer que fiz um péssimo trabalho então, se conseguiu pensar, Splendae.
Aquilo era justamente o que me assustava, soava como uma promessa. Como se houvesse algo a ser superado. Porem, eu nao podia perder o controle uma outra vez.
Eu queria, simplesmente não podia.
Ele estava furioso. Os olhos de Zane se tornaram cinza escuros ali na minha frente, a cor lavando o azul.
Eu nao estava ficando louca, estava acontecendo assim como quando meu cabelo ficava branco, só que com oscilações de humor.
O que eu sabia dele? Que ele era um príncipe? Que era um traidor? Que ajudara meus pais? Que salvara eu e minha Fin naquele dia horrível?
Ou mesmo que Zane parecera tão... certo ao meu redor quando eu acordara aquela manha?
Quantas facetas mais ele ainda iria mostrar?
O mais importante era não me iludir. Eu não era capaz de consertá-lo. Isso entretanto, não significava que eu parava de pensar sobre o outro lado, maduro, serio, profundo e talvez bom, que Zane as vezes deixava à mostra.
– Parece que sua escolha foi feita então. -ele não me chamou de Splendae. A mensagem era clara.
Dei um passo para trás, respirando fundo e tentando me impedir de pedir desculpas ou mesmo mostrá-lo que não era assim. Que eu queria outra chance.
Por mais estranho que pareça ele pareceu entender. Ele pareceu considerar a ideia de me sacudir para colocar certo senso em mim, mas ao invés simplesmente voltou a caminhar.
Me senti a mulher mais fria do mundo.
E aquilo me trouxe uma aflição horrível, a pior que já senti. Como se eu acabara de perdê-lo sem ao menos tentar. Eu podia sentir pela ampliação do meu sentir que ele estava ferido, apesar da faceta meio assustadora.
Desespero bateu sobre mim, eu não suportava vê-lo caminhando para longe de mim. Para longe da minha... vida.
Meu coração pareceu vazio, ecoando um único nome.
Eu precisava dele.
Pensei sobre a minha vida. Depois de todos os anos de auto preservação que eu manti, quem sentiria minha falta além da minha família no Continente? Quem valeu a pena criar memorias além dos Hunter? Alguém?
Não.
Alem de Serafina, eu nunca criara oportunidades para que alguém mais passasse das minhas impenetráveis defesas. E a que aquilo tudo me levou? Vivi uma vida solitária. Uma vez meu pai me dissera: O medo momentâneo vale mais a pena do que a lembrança continua do medo. É como a lembrança de uma dor forte, as vezes lembramos que era pior do que realmente era e sofremos com o medo da dor, apesar dela não estar mais ali. Ele costumava me contar da vez em que ele foi desafiado a pular de um penhasco no mar. Ele dissera que ficara com tanto medo de pular e se machucar ou mesmo odiar toda a aventura que deixara a oportunidade passar, os meninos que o desafiaram porem, atormentaram ele por cinco anos consecutivos até que finalmente ele se mudou. Quarenta anos depois, já crescido ele ainda se perguntava se teria valido mais a pena ter tido medo por dez minutos ao invés de sofrer por cinco anos com a irritação dos outros garotos.
Ele tinha razão, eu poderia sofrer a minha vida inteira pensando no e se... ou eu poderia tentar e talvez até quebrar meu coração, mas pelo menos não levaria isso por anos a fio comigo.
Até hoje ninguém nunca morreu de coração partido, Laura.
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Zane
Aquilo não deveria ter me atingido, afinal não era nenhuma novidade a reputação horrível que eu nutria. O Príncipe Cinza não tinha escrúpulos, desonrado, uma Sombra.
E entretanto eu nunca sentira tamanha dor. A rejeição da minha família poderia ter parecido o pior tipo de rejeição, mas agora eu experimentava uma pior.
Fora eu quem tinha abaixado as muralhas e me machucado afinal. Laura estava certa em se manter longe de mim. O que eu estava pensando? Como poderíamos ter algo juntos se eu era uma Sombra? Se em alguns meses eu iria conseguir minha própria Fumaça?
Se meu destino era destruição?
Ela merecia algo mais do que eu podia oferecer, uma pessoa sem um passado tão sujo como o meu.
Eu ainda não podia evitar sentir a vontade de convencê-la de todas as maneiras que o lugar dela era comigo. Tive que refrear meus impulsos de voltar e beijá-la até que não pudéssemos pensar. Até que a única coisa que ela pudesse pensar fosse em mim.
Tranquei minha mandíbula segurando a dor e a raiva dentro de mim.
Nem mesmo depois de ser sondado mentalmente por Balcas , ou mesmo depois de passar pelas torturas dentro da Irmandade, eu estivera tão abalado emocionalmente como agora.
O mínimo que eu podia fazer era salvar Serafina e ....depois de completar essa missão eu iria o mais longe que pudesse para longe dela.
Laura Hunter.
Eu sabia que estava arruinado assim que pus meus olhos na janela da casa da família Chevalier e vi uma jovem morena usando botas de combate e uma camiseta gasta devorando um livro de quinhentas paginas. Provavelmente o momento mais especifico fora quando eu invadira seu quarto e cheirara amêndoas e algo mais doce, como creme.
Rangi os dentes refreando o pensamento nostálgico. O brilho de vida que ela tinha era o que realmente me fascinara, aquilo não era algo que se comprava, que forçavam dentro de você. Aquilo era incrível de assistir.
Era absolutamente fascinante.
–---
Laura
Corri alcançando Zane. A adrenalina pura pulsava em minhas veias. Segurei seu pescoço e escalei seu corpo encontrando seu olhar surpreso. Desci seus lábios nos meus novamente, desta vez porem, sem medo. Sem qualquer hesitação.
Quando nossos lábios se separam ele se voltou surpreso para mim.
– O que foi isso? -ele parecia quase com medo de criar esperanças.
– Isso foi meu voto de confiança em você. Foi o que pediu, certo?
– Eu realmente não esperava por isso. -ele sorriu abertamente. Sua expressão ficou sombria de repente. E ele disse hesitante.- Ninguém nunca fez isso por mim.
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